O elogio da cegueira

Francisco Martins Rodrigues

No seu artigo “As relações entre a vanguarda e as massas” (PO nº 109), José Mário Branco lembra-nos que são as massas em movimento o verdadeiro protagonista da história, que é a luta de classes que gera a vanguarda e não o contrário; que as massas só farão aquilo que querem fazer, não o que a vanguarda considera justo; que, para penetrar nas massas, a teoria deve ser traduzida para o nível da prática política: que a revolução proletária só poderá acontecer e sobreviver quando as massas assumirem como seu o projecto de transformação da sociedade…

Porquê estes recados? Porque, em sua opinião, o nosso movimento estaria bloqueado devido à “impaciência” de alguns revolucionários, às “discussões em círculo fechado” a certezas ideológicas” não postas à prova da prática, a tendência para pôr a vanguarda acima das massas, ao valor exagerado atribuído à organização, ao vício “partido-centrista”.

O que no artigo chama a atenção não é a defesa da acti­vidade prática junto das massas mas o facto de esta ser vista como oposta à busca de uma linha geral, à criação de núcleos organizados e à formação de militantes revolucionários. Aparentemente JMB alerta contra a especulação teórica desligada da prática; na realidade, ele está a dizer-nos que a teoria já nos ocupou tempo de mais. Aparentemente, receia a repetição dos vícios controleiristas do passado; na realidade, lança a desconfiança sobre toda a forma de organização. JMB retoma a velha campanha para subalternizar a teoria e a organização, porque estas abafariam a “capaci­dade criadora das massas”. Não me parece uma boa campanha, sobretudo vinda de alguém que se intitula comunista.

Querer saber, em abstracto, o que é prioritário, a vanguarda ou as massas, a teoria ou a prática, não faz sentido. Todo o mundo sabe que só a partir da luta das massas se pode gerar uma vanguarda e só a partir da prática se pode formular uma teoria.

O problema concreto que nos está posto é outro: a nossa prática da luta de classes já elaborou a sua teoria? O movimento de massas de que fazemos parte já gerou a sua vanguarda organizada? Parece não haver dúvida de que não temos nem vanguarda nem teoria, nem organização. Somos indigentes nessa matéria — e isto na situação dramática que se vive em Portugal e no mundo, quando as tarefas da revolução socialista nos aparecem na sua tremenda comple­xidade, longe da ingénua visão simplista que delas tínhamos há meio século.

Claro, JMB também se afirma muito preocupado com a teoria mas pensa que ela sairá da prática das massas, longe das “discussões em círculo fechado”. Esta atitude pode ser muito “popular” mas equivale a negar o lugar próprio da reflexão, do debate, da consciência. Há já demasiados anos que os alertas demagógicos contra o “teoricismo desligado das massas” têm permitido ao praticismo tacanho reinante no nosso movimento bloquear todo o esforço de compre­ensão racional da luta de classes.

Não é por falta de ligação às massas que não consegui­mos erguer as grandes massas em revolta contra o capitalis­mo. É porque ninguém sabe quais os caminhos da revolução na época actual e portanto nos faltam pontos de referência para a acção revolucionária diária. Portanto, o prioritário, nesta situação concreta, é fazer avanços nessa compreensão, E nesse caso, os alertas de JMB são prejudiciais porque, a ser aplicados, conduzir-nos-iam a continuar a andar em cír­culo, às cegas, e a sofrer derrotas sobre derrotas.

O infalível argumento do mal causado pelos grupos dos anos 60-70 e pelo partido que lhes sucedeu é na realidade mais um álibi para a campanha contra a teoria e contra a organização.

Porque é que os grupos M-L e o PC(R) se julgavam donos do marxismo e do movimento de massas? Porque tinham sido formados na mesma escola dos revisionistas, no stalinismo. A “lição” que tiravam das revoluções vito­riosas era que, se aplicassem umas tantas fórmulas, a tomada do poder estaria assegurada e teriam garantido o lugar de futuros governantes após a revolução. E essa tara degenera­tiva do velho movimento comunista, com que os chamados M-L fizeram um corte ruidoso mas superficial, nascia de uma ambição muito pequeno-burguesa de tutelar algum nicho do movimento de massas, para amealhar o seu capital político e usá-lo no mercado da política burguesa.

Evitaremos que isto se repita, não pregando a desconfi­ança na teoria e na organização, mas averiguando que relações sociais permitiram o seu aparecimento, perceber as causas sociais da transformação do país dos sovietes na URSS autocrática e desta na Rússia capitalista, a função social que desempenharam o stalinismo, o maoísmo, o “enverismo”, o “castrismo”, etc.; as causas sociais da social-democratizaçào do PCP, da UDP, etc. Ou seja, não virando costas à teoria nem ensinando modéstia e “humanismo” à “elite dos dirigentes e quadros” (curiosa expressão de JMB), mas, pelo contrário, criando hábitos de debate marxista para tentarmos perceber no que estamos metidos.

A tendência para desprezar a elaboração ideológica e a organização em nome do “respeito pela sabedoria das massas” e do “combate ao sectarismo” é uma nova forma da menoridade ideológica do nosso movimento, que antes se manifestava no papaguear dos manuais de Moscovo ou de Pequim.

Retrata aquele senso comum que já ouvimos centenas de vezes: “As grandes certezas estavam todas erradas. Os pretensos ideólogos comunistas conduziram as massas a derrotas, traíram-nas. A teoria marxista-leninista faliu. Por­tanto, não nos venham com novas certezas. Vamos aprender com as massas, guiar-nos pela sabedoria do povo em movimento”. Por outras palavras: mesmo sem teoria revo­lucionária pode haver movimento revolucionário. Ou ainda, parafraseando um dito célebre: “O movimento é tudo, o elemento consciente não é nada”.

Mas isto é recuar para a idade da pedra e apresentar triunfalmente esse recuo como um atestado de sabedoria. Porque, se em nome do repúdio dos desvios passados, abdi­carmos da elaboração teórica, substituirmos a racionalidade pela espontaneidade e a organização pelo basismo, andare­mos para trás, teremos uma classe a debater-se às cegas, dispersa, entregue à acção instintiva – que bónus para a burguesia!

Hoje, este basismo acena com o argumento infalível dos “crimes do passado” e dos valores do “humanismo”. E receita de sucesso garantido. Mas esse grande amor e respei­to pelos oprimidos, de que JMB faz bandeira, sofre de um senão: não faz a mais pequena ideia do que fazer.

Vem a propósito falar do “milagre” dos movimentos populares de 74-75, que alguns têm como prova irrefutável da capacidade das massas para descobrir instintivamente o caminho da revolução, sem precisar de organização nem de “líderes”. Será que aquelas ocupações de casas, terras e empresas, aquelas assembleias, aquelas palavras de ordem avançadas eclodiram por geração espontânea? Ou não será que a crise do poder burguês revelou tendências que tinham sido acumuladas nas massas, subterraneamente, ao longo de décadas, pelos milhares de militantes e activistas, pela vanguarda?

E agora perguntemos: os militantes e activistas que nesse tempo eram formados nas células do partido comunista, nos grupos, nas prisões, na emigração — que é deles? Onde está hoje esse fermento? Simplesmente não existe. O siste­ma de ideias de que se alimentavam os revolucionários foi varrido pelo desabar da ilusória “fortaleza socialista” e pelo turbilhão do assalto capitalista das últimas décadas e até agora, ainda não foi substituído por outro.

Há por isso algo de muito atrasado na pressa com que alguns companheiros julgam poder suprir a falta de um pla­no estratégico, de um programa, de militantes, voltando-se para a “escola da acção” e para a busca de “tácticas flexíveis” que produzam resultados rápidos.

Obviamente, a “esquerda real” que temos, o PCP e o BE, não precisam de se preocupar com estes problemas. O jogo natural dos conflitos da sociedade produz como cogumelos os toscos conceitos ideológicos de que se alimentam. Com duas lambuzadelas arranjam um programa de “democracia avançada para o século XXI” ou mobilizam “a Esquerda socialista contra as alterações climáticas”. Depois, é só dar essa trampa a comer aos seus activistas, que por sua vez a regurgitam para cima das massas.

Mas nós não podemos fazê-lo. Temos obrigação de saber que um pensamento proletário revolucionário e vanguardas comunistas verdadeiras não saem por geração espontânea do jogo das contradições desta sociedade. Foi com esse equívoco que PCP e BE começaram a sua transfor­mação em partidos burgueses.

Temos que estar nos conflitos políticos, sociais, sindicais, não na ilusão de que nos tragam de bandeja as respostas de que precisamos, mas para nos ajudarem a definir uma linha de acção comunista e criar uma organização. Porque só a partir de um centro aglutinador poderá o movimento propa­gar-se em ondas cada vez mais largas e teremos trabalho de massas a sério, acção revolucionária a sério.

As considerações abstractas de JMB visam a prática da “Política Operária” — sabem-no todos os que acompanharam os debates deste último ano em torno do mal sucedido pro­jecto por nós lançado de uma organização anticapitalista. Os erros que JMB aponta seriam os erros cometidos pela PO.

JMB acusa por meias palavras a actividade da PO de não ter dado frutos visíveis, o que seria a prova do seu erro de base. É uma boa questão. Realmente, porque não desper­tou o trabalho (parcelar, modesto, mas trabalho prático) do punhado de comunistas reunidos em torno da PO outras energias, outros colectivos, outras experiências? Foi a PO que os impediu de se revelarem, de se lançarem na acção?

Por ridícula que seja, é esta a opinião de JMB e dos seus amigos. Sentem que a nossa “mania” de esmiuçar o que é do interesse do proletariado e o que é do interesse da burgue­sia põe entraves à política “flexível e ampla” com que so­nham. Quando nos censuram as “infindáveis análises ideo­lógicas” (oxalá fossem assim tantas!) e nos chamam “gurus”, “puristas”, “teoricistas”, “aspirantes a líderes”, estão a mani­festar o incómodo que lhes causa a nossa exigência de rigor ideológico. Reivindicam plena liberdade criadora em matéria de política. Pois, avancem, que diabo! Não seremos nós a impedir-vos.

Desde há varias décadas, à medida que se acentuou a crise de influência da esquerda, foram cada vez mais os que optaram por desistir de pensar gritando-nos que o que interessa é “ir ao encontro da massa”. Mas, quanto mais se agitam nessa direcção, mais se cava a crise do movimento proletário, e quanto mais se cava a crise mais longe se encon­tram das massas, mais envolvidos nos sonhos reformistas da pequena burguesia.

Afirmo que a crise a que chegámos não se resolve com receitas basistas. Uma prática política baseada só na intuição, na generosidade, no “amor ao povo”, acaba sempre numa forma qualquer de tutela pequeno-burguesa sobre as massas, porque exprime o medo ao marxismo e à presença orga­nizada do proletariado.

Ligarmo-nos ao movimento de massas é o ponto de partida para estarmos vivos – mas é só o ponto de partida. O eixo do nosso trabalho político diário tem que ser a cria­ção de um corpo de militantes revolucionários que “vão às massas” com um plano geral na cabeça: que caminho para o poder, poder de quem, para construir que sociedade, de que forma. E isso exige muito mais do que “amor pelo povo”.               

Política Operária nº 111, Set-Out 2007

 

 

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