Os 70 anos do “Avante”

Francisco Martins Rodrigues

A comunicação social no­ticiou com algum destaque o 70º aniversário da publicação do órgão central do PCP. E sem as habituais picardias e comentários tortuosos, que são norma quando se fala de comunismo e comunistas.Mui­tos militantes terão visto nes­ta atitude um sinal reconfor­tante de respeito pelo jornal que, durante 43 anos na clan­destinidade, foi de facto o úni­co órgão de imprensa efectivo contra a ditadura fascista. A homenagem, porém, deve ser compreendida no contexto da actual luta subterrânea de ten­dências no interior do partido: a palavra de ordem dos socialistas parece ser a de não hostilizar o PCP em bloco para facilitar a aproximação dos “renovadores” ao campo do PS. Razão pela qual Cunhal e os seus fiéis devem sentir algum desconforto perante estas mesuras; para eles seria preferível a habitual campanha de ataques e calúnias, mais propícia a reagrupar as desalentadas hostes.

Pela nossa parte, naturalmente, não temos que apoiar uma ou a outra facção. Do ponto de vista da revolução, da luta anticapitalista, o PCP é de há muito um corpo morto e isso reflecte-se justamente na trajectória do Avante ao longo dos seus 70 anos de publicação. Garante José Casanova em editorial, na edição comemorativa do aniversário, que, “hoje como há 70 anos, o Avante continua a ser o fiel porta-voz dos interesses dos trabalha­dores”. Omite (ou desconhece) contudo uma diferença fundamen­tal. Para o Avante que começou a publicar-se clandestinamente em 1931 os interesses dos trabalhadores eram entendidos como interesses revolucionários, de classe; pretendia-se agrupar os traba­lhadores para “derrubar a burguesia do pedestal que a suporta”, como se lia no editorial do seu primeiro número, em 15 de Feve­reiro desse ano. Defendiam-se os interesses gerais políticos dos trabalhadores, e o derrube da ditadura era concebido como o resultado de uma revolução: “0 PCP, consciente da sua grande responsabilidade ante a próxima revolução, coloca-se desde já na vanguarda do exército proletariano”.

É impossível não ver o abismo que separa o Avante de hoje do desse tempo. Os interesses dos trabalhadores continuam a ser invocados, mas em que termos? Páginas e páginas de um levanta­mento minucioso das “pequenas e grandes lutas do nosso povo”, desde reivindicações operárias (aliás justíssimas) aos engarrafa­mentos de carros na 1C-19 e à derrocada das muralhas do castelo de Santarém. Mas em vão se procura lá um objectivo de mudança de sociedade no interesse da classe proletária. “Hoje os tempos são outros”, argumentam os seguidores do partido, mal sabendo que com esta justificação resumem todo um programa político. Derrubado o fascismo, conquistada a democracia, o PCP instalou- -se nas instituições e, em nome da “acumulação de forças”, transi­tou para a administração do regime burguês; só não vai mais longe na tarefa porque não lho permitem, mas está ansioso por mostrar o que vale como partido de governo, dentro deste sistema.

A linha política que o PCP fixa ao Avante é a de capitalizar em votos todos os descontentamentos possíveis, a fim de ganhar peso eleitoral suficiente para poder convencer o PS a uma partilha de lugares de governo, nem que sejam os mais subalternos. E a discussão infindável entre os renovadoramente ortodoxos e os ortodoxamente renovadores, ultimamente reactivada, gira ape­nas à volta de saber qual a melhor táctica para conseguir final­mente ganhar o direito a ser parceiro do PS no governo.

Por causa desta apagada ca­pitulação o jornal do PCP, por mais que anuncie o seu “rejuve­nescimento”, não consegue es­capar ao tom envelhecido, gas­to, falsamente desenvolto, de­magógico, que marca toda a postura do partido. 0 velho Avante dos anos 30, órgão de combate revolucionário à di­tadura fascista, há muito mor­reu. 0 que hoje sai para a rua com o seu nome é já uma outra coisa – é uma enfadonha folha de suporte a uma corrente deca­dente, incapaz de debater ideias, sem mensagem nem pro­grama a propor ao proleta­riado.

Política Operária nº 79, Mar-Abr 2001

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