Carta a C.

Francisco Martins Rodrigues

Carta a C.

Março [de 1965]

Querida C.:[i]

Com a costumada irregularidade e atraso, venho escrever-te um pouco, porque os meses passam sem eu dar por isso e se não fosse a N.[ii] chamar-me a atenção e repreender-me constantemente, desconfio que o desleixo era ainda mais escandaloso. Eu sei que não é justo mas custa-me escrever e sobretudo estas cartas nossas em que temos de passar por cima de tudo o que é a nossa vida e os nossos problemas diários. Continuar a ler

Cartas na clandestinidade

Cartas na clandestinidade

 

Antes de dar por encerrado este blogue – onde inseri grande parte dos estudos, documentos, artigos assinados por Francisco Martins Rodrigues -, nos próximos dias passarei a reproduzir as suas cartas manuscritas, redigidas em condições de clandestinidade, que estão contidas no espólio posto à minha guarda,

A primeira, sem data, mas possivelmente de Março de 1965, é a única de carácter familiar. Todas as restantes tratam de assuntos de militância política. As primeiras foram escritas enquanto esteve clandestino, em França e em Portugal, quando rompeu com o PCP e iniciou as actividades da FAP-CMLP.

A seguir a estas, incluo uma mensagem clandestina redigida por João Pulido Valente e endereçada ao CMLP, em que se pronuncia sobre a expulsão de FMR em consequência do seu porte sob tortura.

As últimas mensagens foram escritas quando, já preso e cumprindo pena de cadeia, pôde fazer passá-las clandestinamente para o exterior e destinam-se à sua organização. Entre elas está o rascunho que preparou para a sua defesa em tribunal.

Carta a JR – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JR – 1

17/2/1994

Caro Amigo:

Soube pelo OR do teu interesse em fazeres uma assinatura da P.O., pelo que aqui te mando o último número publicado (ele já me deu um cheque por um ano). Gostaria muito de conhecer a tua opinião sobre as posições defendidas na revista, nomeadamente sobre a questão da União Soviética, assunto sobre o qual fiz uma série de artigos de que te mando fotocópia. Talvez numa das tuas vindas a Lisboa se proporcione um encontro, que dizes?

Escrevo-te também para te propor colaboração numa iniciativa que vai explicada na circular junta: a edição de um livro pelo 20° aniversário do 25 de Abril, composto por depoimentos que retratem um pouco esse período para quem não o conheceu ou já o esqueceu. Se estiveres de acordo e entretanto não vieres tão cedo a Lisboa, poderias gravar um depoimento e enviar-me a cassete, ou então escrever um texto, até duas páginas dactilografadas. Fico a aguardar a tua resposta, tão breve como te seja possível.

Tenho grande satisfação em estabelecermos contacto. Aceita um abraço

Cartas a JV – 15

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 15

16/6/1997

Caro Camarada:

Recebi o teu recado para nos encontrarmos mas foi-me completamente impossível. Ainda telefonei para a casa do Bairro Alto (tua prima, julgo) mas ela disse-me que não estavas lá e eu não tenho o outro telefone. Vão por esta via as minhas desculpas. Nos últimos meses os meus problemas familiares têm tomado um tal volume, aceleração e imprevisto que com frequência me obrigam a cancelar compromissos. Uma família onde só há terceira idade e não se procedeu em devido tempo à renovação dos quadros pode ver-se em grandes apertos, sou eu que te digo.

Fiz uma pequena recensão (também muito à pressa) do teu livro, que li em diagonal e me pareceu bastante interessante. Sai na próxima PO. que receberás na semana que vem. Tens editor em vista cá no burgo?

E a tua estadia, que tal? Fizemos a nossa passeata e lanche do 1º de Maio, correu bem, na medida do possível. No próximo ano, espero que nos encontremos no nosso café, para nos embebedarmos e conspirarmos em conjunto, como bons extremistas que somos. Perguntas se Lisboa ainda existirá para o ano? Decerto existe mas talvez já esteja promovida a capital de província. Os castelhanos estão a tomar posse de tudo. Falta-nos cá o Nuno Alvares Pereira, esse é que lhes fazia ver. Enfim, haja confiança na revolução mundial. De mais a mais agora, que o semicamarada Jospin chegou ao poder e meteu 4 camaradas em ministros, vai ser imparável. Um abraço.

Cartas a JV – 14

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 14

14/2/1997

Caro Amigo:

Os teus materiais cá chegaram em boa ordem. No nº 57 metemos um extracto das “Chinoiseries”, dum tal Charles Reeve, conheces? Elucidativo. Sobre a greve dos condutores de camiões, tivemos um artigo programado para o nº 58 (está a sair), demos os teus e outros elementos ao MC (suponho que conheces), mas ele envolveu-se de tal forma num comentário a um recente livro do Dr. Álvaro Cunhal que acabou por nos deixar descalços quanto aos camionistas. Cunhal é fundamental, claro, mas não sei se foi boa a troca. Eu não li o livro do homem, mas a televisão tem-lhe dado algum reclame e ouvi que vai sair uma grande entrevista com ele no Jornal de Letras. O homem quer acabar a carreira como literato, pulir a imagem para a posteridade. E ele e o Soares, a tomarem as últimas disposições para garantir que o funeral será muito concorrido. Aprenderam com o Mitterrand.

Voltando aos camionistas. Agora são os espanhóis que estão a bloquear as estradas. Âs novas realidades proporcionam possibilidades inesperadas de paralisar e economia dum país. E se uma (futura) Federação dos Camionistas Europeus resolvesse bloquear as estradas do continente? O que a televisão dá da greve em Espanha são os protestos dos nossos compatriotas camionistas, ansiosos por trabalhar e indignados com os grevistas que lhes partem vidros, furam pneus, etc. Ontem, dia 13, estimulados pelo ambiente, alguns dos nossos camionistas tentaram bloquear a estrada à entrada de Vilar Formoso mas a GNR atirou-lhes com os cães para cima e a tentativa fracassou, pelo menos para já. Dizia um deles no telejornal: “Não está certo; em França e em Espanha bloqueia-se as estradas e a polícia não intervém; aqui atiram-nos logo com os cães”. É que ele não sabe que à Europa só vamos buscar o que é bom, não os hábitos relaxados. Polícia aqui não brinca. Apareceu mais um rapaz morto, depois de ter sido levado para a esquadra, em Vila Franca. Parece que estava bêbado num bar e molhou um guarda com cerveja. O que é que ele queria? De resto, os polícias juram que não lhe fizeram mal nenhum. Aguarda-se o resultado da autópsia.

Quanto ao material sobre a Guiné-Bissau, lamentavelmente não temos para lá contactos, não lhe pudemos dar destino. As nossas edições é que estão a coxear dos dois pés. O distribuidor impõe-nos condições cada vez mais duras, quer asfixiar-nos, e nós não vemos possibilidade de lançar nada novo pelos tempos mais próximos. O livro do Che “Viagem pela América” vendeu razoavelmente, mas já o último, “Os meus anos com o Che”, da ex-mulher, está a sair pouco. Cada livro é um agravamento dos prejuízos, nada a fazer. Precisávamos de uma rede alternativa de distribuição, apontada para o público que ainda consome coisas destas. A revista é que não pode falhar; por acaso, este número vai sair com duas semanas de atraso, porque os meus problemas familiares têm-me bloqueado.

Se calhar queres que te fale da actualidade nacional, mas não estou em condições. Entre enredos da bola, enredos internos dos partidos, enredos da droga, os telejomais são desmobilizadores. PS e PSD ultimam o acordo para a revisão da Constituição; reina um saudável consenso democrático, pelo menos… Podes pelo menos dormir descansado: quando vieres a férias encontras tudo na mesma. E quando vens? Dá notícias. Abraços nossos para ti e cumprimentos para a S.

Cartas a JV – 13

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 13

14/7/1996

Caro Amigo:

Lamentavelmente, a tua estadia em Portugal quase se sobrepôs com uma saída minha para o Norte, a gozar umas curtas férias. Ainda telefonei no sábado e domingo (dias 6 e 7) para os teus números de Lisboa e do Algarve mas ninguém atendeu; devias estar na praia a aproveitar o famoso sol português. Ficaremos assim a aguardar que se complete mais um ano para nova tentativa…

Recebi e agradeço os materiais que ofereceste. A entrevista do Paul Mattik Jr., digo-te já, é forte de mais para a minha estrutura ideológica. Vou voltar a lê-la e gostaria de te pôr por escrito algumas das objecções que me levanta. Embora conhecendo muito mal o conselhismo, duvido de que os pontos de vista dele correspondam aos dos “fundadores”. Mas esta é questão para uma mesa redonda, quando calhar. Por aqui, a revolução continua… na ordem e na paz dos espíritos, como recomendava o Botas. Os telejornais abrem e fecham com as últimas da bola, no meio da ansiedade das famílias. Pelo meio, para cortar a publicidade, lá metem umas breves imagens de operários postos na rua ou de guerra no fim do mundo.

Como está a S.? A Ana e a Beatriz mandam cumprimentos. A Beatriz trabalha agora no novo jornal . Qualquer dia, temos toda a comunicação social sob controlo e então…

Um abraço.

Cartas a JV – 12

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 12

31/1/1996

Caro Amigo:

De facto, a tua assinatura caducou mas não cortámos o envio. Mandamos sempre mais alguns números com a proposta de renovação. Se não recebeste, a culpa deve ter sido dos teus amigos grevistas dos correios aí de França, são uns malandros que não querem trabalhar, só querem privilégios à nossa custa. O Chirac é que os topa. De toda a maneira, os teus 100 francos são bem-vindos, e ficas inscrito por mais um ano.

Se vieres em Abril, vais encontrar Lisboa completamente mudada, respira-se um ar novo desde que o socialismo subiu ao poder. Em todo o lado há plenários, saneamentos de capitalistas, ocupações de casas e fábricas, desfiles populares com bandeiras vermelhas e vivas ao Sampaio… Espero que não acredites.

A P.O. vai para a tipografia, espero que desta vez a recebas e que aprecies. Mando também o número anterior, para não ficares privado da nossa prosa. Abraços para ti para a S.