Cartas a HN – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 1

19/3/1995

Caro Amigo:

A sua carta foi uma agradável surpresa. Não é todos os dias que nos chegam saudações tão amigas e calorosas como a sua. O nosso pequeno núcleo editor da P.O. conta com apoios e colaborações preciosas mas infelizmente escassas e, ao longo destes dez anos que já levamos de caminho, cada vez mais escassas. Vivem-se tempos em que o comunismo não está na moda e as pessoas arredam-se de nós, umas por preconceito, outras intimidadas com a campanha da comunicação social, todas achando-nos mais ou menos excêntricos ou antiquados, por teimarmos em dizer coisas óbvias. Mais saborosa por isso a sua carta, que espero não seja a última.

Pelo que me relata fico com uma ideia dos baldões que deve ter sofrido, aliás como quase todos os aderentes dos grupos ML. Foi uma corrente de ideias que não vingou, embora tenha dito muita coisa acertada e desempenhado um certo papel durante a agitação de 74/75; tendo sido um dos seus iniciadores no nosso país, custa- me reconhecê-lo mas não posso deixar de o fazer.

O mal de partida (em que tenho a minha pesada parte de responsabilidade) foi pensar-se que a crítica à degeneração evidente da URSS devia traduzir-se pelo apoio incondicional ao período anterior (Staline) e aos que mantinham essa bandeira: a China, primeiro, a Albânia, depois. Ora, isso continha um compromisso no qual se deixou ir por água abaixo a capacidade de crítica marxista radical com que tínhamos partido e nos fomos cegando aos poucos, até que a corrente ML se desagregou no meio duma confusão tremenda, que não teria sido inevitável, mesmo que houvesse um recuo temporário.

Houve, é claro, os estragos causados pelos oportunistas. Houve quem fizesse muita trampolinice com o marxismo-leninismo enquanto se julgou que era produto com saída assegurada no mercado, que permitia agrupar umas tantas pessoas, fazer uns comícios e ganhar o apoio de algum país “socialista”. Isto aplica-se a quase todos os grupos, uns em maior, outros em menor grau. Quando veio a derrota do movimento e a desilusão, os que mais se tinham destacado em declarações inflamadas contra a burguesia e o imperialismo sentiram-se obrigados a renegar bem alto, para terem direito a sentar-se à mesa…

Mas misérias destas são inevitáveis em período de agitação, todo o processo revolucionário tem os seus parasitas. Pior foi a falta de lucidez marxista dos sinceros marxistas (e aqui contra mim falo). Tardámos muitíssimo em compreender as chamadas sociedades socialistas, em saber combinar a defesa intransigente das revoluções que lhes deram origem (russa, mas também chinesa, cubana, etc.) com uma crítica igualmente intransigente aos regimes que delas resultaram. Não percebemos que esses regimes eram transitórios, híbridos, e, como tal, iriam desaguar no grande rio do capitalismo. Tardámos em compreender que o fracasso dessas revoluções não foi culpa dos comunistas ou devido a traição deste ou daquele dirigente, mas porque as condições de atraso desses países não lhes permitiam dar o salto que os explorados e os comunistas desejavam. Marx já tinha dito que não se podia esperar a transformação comunista antes de se passar pela explosão produtiva que o capitalismo traz e o próprio Lenine fartou-se de fazer avisos sobre as limitações da revolução bolchevique, que foram depois considerados pessimistas.

Como não chegámos a uma visão de conjunto, coerente, do que eram essas sociedades, oscilámos entre posições igualmente erradas – uns desculpando tudo o que vinha da “pátria do socialismo”, outros considerando-a como “o inimigo principal dos povos”, outros ainda convencendo-se de que a China “boa” jamais seguiria as pisadas da URSS, etc. Foi preciso a derrocada do “campo socialista” para olharmos todo o processo com maior distanciamento e frieza. Agora que se fechou o parêntese, verifica-se que era Marx que tinha razão e que os marxistas não lhe deram ouvidos. Escrevo um pouco sobre tudo isto num artigo que Fiz para a próxima P.O. e que espero que leia. Temos muito orgulho na nossa P.O., em que andamos a batalhar desde 1984, mas não temos ilusões de que o nosso trabalho nestes dez anos no campo do marxismo-leninismo tenha sido alguma coisa do outro mundo. Temos progredido muito mais devagar do que seria necessário. E nestes períodos de refluxo da revolução que se pode aproveitar melhor o tempo para fazer balanços e traçar ideias gerais úteis num próximo ascenso, mas os nossos balanços e programas estão muito inacabados. Se daqui amanhã rebentasse uma nova grande comoção proletária e popular neste país (do que estamos bem livres pelos anos mais chegados…), os comunistas iam ver-se outra vez em palpos de aranha: como assegurar no partido comunista uma boa combinação de centralismo com democracia? como fugir à inevitável tendência de apodrecimento do movimento sindical? como explorar em nosso proveito a farsa das eleições burguesas? como evitar a hegemonia pequeno- burguesa sobre as massas proletárias? como conduzir o movimento revolucionário a fazer frente à repressão burguesa e a encaminhar-se para a conquista revolucionária do poder? como fazer vingar uma autêntica democracia proletária que não se deixe cair sob a pata da burocracia?

Já se sabe que estes problemas são para resolver na luta, não em gabinete, mas é preciso que os erros do passado estejam devidamente apontados e “catalogados”, para evitar que o movimento os repita por falta de conhecimentos. Uma das manifestações mais duras que encontrei do atraso do marxismo no nosso país e na nossa extrema-esquerda foi ver a ingenuidade arrogante com que militantes nascidos no calor da luta achavam que o caminho se descobre espontaneamente e olhavam desconfiados para as minhas preocupações “teoricistas” e “livrescas”. Enquanto o nosso movimento operário for dominado por esse culto da ignorância não poderá ir muito longe. Falta-nos ainda muito para chegar a algo que se possa chamar a “fusão do marxismo com o movimento operário”.

É claro que é preciso acompanhar o sentir do movimento, manter laços com ele, aprender com as suas lutas e nesse aspecto o balanço do nosso grupo também é modesto. Como somos um grupo reduzido (mais reduzido agora do que quando começámos), temos dificuldade em estar presentes nas lutas que se travam e em fazer agitação nos meios operários. A esse propósito, não sei se tem alguma disponibilidade para recolher alguma entrevista ou depoimento de trabalhadores emigrados aí na Suíça, seria uma boa ajuda para nós. Temos aí em Genève um camarada que já nos tem obtido algumas colaborações interessantes mas há muito tempo que não dá sinal de vida.

Para além da revista, cuja distribuição é outra luta que enfrentamos a cada número, lançámo-nos no ano passado no campo da edição de livros. Junto um catálogo para lhe dar a conhecer o que já fizemos e o que temos em preparação. Fora disso, há intervenções no plano sindical, na luta contra o racismo (que vai crescendo a olhos vistos), mas tudo em escala muito incipiente.

Agradeço muito a oferta do livro “Fin del capitalismo”, de que nunca tinha ouvido falar; vou lê-lo atentamente e passá-lo aos outros camaradas do comité de redacção para se analisar da vantagem e possibilidade duma edição portuguesa.

Não sei se esta carta, escrita a correr, lhe deixa alguma impressão de pessimismo, mas se for esse o caso, não se preocupe; é jeito meu ver mais os erros do que os acertos. No balanço final, sou firmemente optimista quanto à inevitabilidade de deitarmos para o lixo o capitalismo e passarmos a viver como seres humanos, em comunismo. E esse de facto o único assunto que me interessa, de há uns 50 anos para cá.

Aceite as minhas saudações calorosas.

Cartas a JC – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JC – 3

10/1/1993

Caro Camarada:

Antes de mais, parabéns a ti e à tua companheira pela bebé. Encontrei o teu pai e soube por ele que está tudo bem com vocês. Só está mal não teres telefonado para nos encontrarmos. E a passagem do ano, foi boa? Recebi há dias o nº 19 da «Lutte de Classe» e notei a maior variedade e politização dos artigos, dando a ideia de que os vossos contactos têm progredido. Estou enganado? Se conseguissem imprimir o boletim, isso ajudaria decerto à expansão. Tens recebido a P.O.? Tens tido tempo de dar uma vista pelos nossos artigos? Não temos feito grandes avanços teóricos, mas manter e fundamentar uma plataforma comunista nos tempos que correm já não é mau. Também temos estado a ganhar alguns novos colaboradores, talvez porque, ao fim destes anos, e no vazio a que chegou a esquerda, pessoas que anteriormente nos olhavam com desconfiança agora tomam apreço pela nossa persistência. Também temos alargado a distribuição, em Lisboa e no Porto.

Estou a fazer uma série de artigos sobre os primeiros anos da URSS, passagem do poder de Lenine para Staline, etc., que ainda era um buraco na nossa explicação para a perda da revolução. Continuamos leninistas a cem por cento mas já não acreditamos que se possa dizer que a URSS ia bem até cair nas mãos de Staline. Estava tudo perdido, ainda em vida de Lenine, mas a culpa também não pode ser atribuída a ele. Se a leitura dos artigos te sugerir algum comentário, gostaríamos de o conhecer e de o publicar, se isso te interessasse.

Um pedido: lemos e apreciámos o último livro de Tom Thomas sobre ecologia, que foi editado pelo Albatroz. Fiz um resumo-comentário que sairá na próxima P.O. e gostava de entrar em correspondência com o Thomas. Como julgo que estás em contacto com ele, peço que me mandes a morada, para eu lhe escrever.

Escreve alguma coisa, mesmo que sejam só duas linhas. Abraços.

Carta a MB (1)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MB – 1

16/11/1988

Caro Camarada:

Espero que estejas bem de saúde. Mando-te em carta separada alguns suplementos da PO em inglês. Brevemente enviaremos outros, entre os quais o artigo sobre Staline que te tínhamos pedido que traduzisses, portanto, se já começaste, não vale a pena continuar.

Mas não quer dizer que fiques isento da tarefa. Neste próximo número vai sair um artigo sobre o Trotsky, que espero que traduzas, sem falta,  para inglês. Estamos a fazer um sério esforço para tornar mais conhecidas as nossas posições junto de outros partidos e grupos. Indico também alguns livros que muito te agradecia obtivesses aí. Evidentemente, pagaremos a despesa que for necessária. Temos sobretudo urgência no livro do Tony Cliff. Quando é que cá voltas? Um abraço amigo

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  • Cliff, Tony – State Capitalism in .Russia. London, Pluto, 1974
  • Dobb , Maurice – Soviet Economic Development after 1917. London, 1951
  • Love, Alexander – An Economic History of the USSR. London, Allen & Unwin, 1969
  • Pethybridge, Roger – The Social Prelude to Stalinism. New York, St. Martin’s, 1974
  • Piltzer, Donald – Soviet workers and Stalinist Industrialisation. New York 1966
  • Schwarz, Solomon L. ~ Labour in the Soviet Union.
  • London, Creasefc, 1953
  • Fainsod, Merle and Hough – Smolensk under Soviet rule. Macmillan, 1956

 

 

Cartas a PA – 6

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (6)

14/12/1986

Caro Camarada:

Há muito que não nos escrevemos. Como vais? A nossa revista tem continuado a sair, vai ser posto agora à venda o nº 7. Decidi enviar-te este número, até porque gostaria de conhecer as tuas opiniões acerca de um artigo sobre Staline que publicámos. Esforçámo-nos por fazer uma crítica pela esquerda ao stalinismo, sem concessões à posição habitual de social-democratas, trotskistas, etc. Veremos se o conseguimos.

Não te temos enviado a revista regularmente porque as despesas são muitas e esperávamos que tu fizesses uma assinatura. Infelizmente, aquele amigo de que tinhas falado que estava em Lisboa e tinha umas libras para nós não nos contactou. Não podes enviar-nos a importância de uma assinatura?

 Também gostaríamos de continuar a receber a “New Left Review” que há muito não vemos. E também, se possível, o seguinte que vimos anunciado num jornal inglês:

The revolutionary road to communism in Britain (Manifesto do Revolutionary Communist Group, Larkin Publications – BCM Box 5909, London VCIN 5xx

Eizemos o pedido pelo correio mas até agora não obtivemos resposta.

Enviamos juntamente com a “PO” nº 7 exemplares do jornal “Tribuna Operária”, cuja publicação iniciámos, e do boletim “Denúncia”, de solidariedade com os presos políticos, iniciativa em que colaboramos.

Quando teremos ocasião de nos ver? Pensas vir a Lisboa? Escreve a dar notícias da tua vida e actividades. Com os desejos de um bom Ano Novo, aceita um abraço

Cartas a PA – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (1)

22/11/1984

Amigo A.

Não tenho recebido notícias tuas e não sei se me conseguiste obter alguns dos livros que te tinha pedido, é natural que as tuas ocupações não te deixem tempo para respirar, mas temos que procurar manter contacto.

Tenho uma novidade que não sei como receberás, saí do PC(R) ontem mesmo, outros camaradas, entre eles o ZB e o JME, antigos dirigentes do partido, também saíram ou foram demitidos. Não foi uma decisão leviana, como calculas, mas fomos forçados a ela pela campanha de perseguições a que vínhamos sendo sujeitos desde há ano e meio. O conflito gira à volta de nós exigirmos que se levasse à prática a viragem à esquerda decidida pelo 4º congresso, de Março 83, e o CC estar a encostar-se cada vez mais aos elementos direitistas. Actualmente, todos os elementos “esquerdistas” estavam metidos em células de base, marginalizados e sujeitos a uma série de ataques. Já não nos davam o mínimo espaço para travar uma luta interna, os atropelos ao centralismo democrático por parte do CC eram diários e, em nome do perigo de fraccionismo, impunham-se as proibições mais absurdas à discussão, mesmo só dentro das células.

Lima das coisas que mais contribuiu para a agudização do conflito era um estudo que tenho andado a fazer sobre o 7º congresso da IC, reavaliando o relatório de Dimitrov e a linha de Staline nos anos 30-50 como fontes donde nasceu o revisionismo. Consegui acabá-lo, com grande dificuldade, e ontem mesmo o entreguei ao CC, para ver se é capaz de o criticar com o mínima de seriedade. É absurdo tentar congelar a crítica rnarxista-leninista em nome dos “princípios”, como vem fazendo o CC. Está a conduzir o PC(R) a um definhamento desastroso, no que têm graves responsabilidades, na minha opinião, o PTA e o PC do Brasil.

Gostaria que lesses o meu estudo e me desses uma opinião. Eu e outros camaradas que se afastaram ou foram afastados neste processo estamos dispostos a dar corpo organizada à nossa corrente de ideias. Somos marxistas-leninistas, queremos um partido comunista em Portugal e não nos resignamos à confusão, impotência e esvaziamento de ideias a que se chegou. A acusação de “anarco-trotskismo” que nos é feita não tem pés nem cabeça.

Gostaria de saber o que pensas disto tudo e se estás disposto a continuar a corresponder-te comigo, Isso depende naturalmente da tua atitude face ao PC(R). Poderias dar opinião sobre o meu estudo e outros materiais que temos em preparação, obteres aí livros e jornais, dares-nos contactos para grupas ou organizações estrangeiras, contactares camaradas da emigração, etc. Duma coisa te posso dar a certeza; vamos fazer um trabalho sério para renovar a corrente marxista-leninista, crítico, revolucionário, e virado para os operários avançados. Vamos fazer um trabalho preparatório para reorganizar o partido comunista no nosso país.

Seja o que for que pensares do sucedido, peço que me escrevas a dar a tua opinião. Se tiveres algum dos livros de que te falei, peço que mo envies. Se pensas vir a Portugal proximamente, gostaria de conversar contigo.

Um abraço

Cartas a MV – 19

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (26)

7/10/1990

Caro M:

Tens razão, não é normal eu estar tanto tempo sem te escrever. Como desculpa só posso invocar a minha velhice… Espero que com um argumento destes me desculpes tudo. 0 que acontece nestas situações em que não temos mãos a medir é que periodicamente escolhemos uma frente principal de combate e tudo o resto vai por água abai­xo. É o que tem acontecido. Deixei praticamente de tratar da corres­pondência, não porque isso fosse de todo impossível mas porque me pus a tentar fazer um documento sobre a revolução russa (ainda outro !) e fiquei bloqueado no meio de livros a reler, dúvidas, sentimento de ignorância, escrever e deitar fora… A ideia era de publicar na PO 26 (acaba de sair) uma longa “Resposta aos comunistas americanos” fazendo polémica com a posição do Marxist-Leninist Party com quem es­tamos em contacto e aproveitando para uma perspectiva global sobre o ciclo das revoluções do século XX. Tarefa atrevida e que ameaça dar cabo de mim. Tínhamos previsto uma reunião de debate geral sobre o tema durante as férias de Verão, mas só se discutiu o esboço inicial a que eu consegui chegar e já não pôde ser acabado para este nº da PO. Está agora previsto para o próximo, havendo uma discussão geral prévia em fins de Outubro ou começo de Novembro. Assim que tiver o projecto pronto envio-to. Se tu pudesses cá estar para participar no debate era óptimo. Se não, pelo menos manda críticas por escrito. De maneira geral posso-te dizer que à medida que vou deitando fora as roupagens stalinistas tradicionais vou descobrindo que havia muitos argumentos justos no que diziam os “anarco-comunistas”, embora a sua posição final fosse sempre de cair para o lado da social-democracia. Refiro-me ao poder dos sovietes, relação entre partido e classe, etc. Enfim, tu verás! Se entretanto não te chegar o texto é porque eu fui internado no manicómio…

A PO 26 saiu, não tem nada de muito especial, mas iniciámos uma polémica com uns camaradas brasileiros, que são o resto da extrema esquerda do PRC, mas, para o nosso gosto, pendem muito para o reformismo.

Na crise do Golfo, é claro, estamos isolados e em luta contra todos. A onda de chauvinismo imperialista é espectacular, não me lembro de ver neste desgraçado país do Terceiro Mundo uma unanimidade tão geral quanto àvantagem de “dar uma lição ao Saddam Hussein”. É verdade que nas fábricas encontras operários a simpatizar com o Iraque e até a exaltar o bandido do Saddam como um herói, nas o que sai a público, para a rua, é só prõ-americanismo. A imprensa então ê re­pugnante. 0 PS atacou severamente o governo… acusando-o de falta de clareza no apoio aos EUA! O PC critica suavemente os americanos mas sem fazer ondas. Estamos a servir de porta-aviões aos americanos numa agressão anti-árabe mas toda a gente acha natural. Depois de uma discussão com jornalistas de esquerda que apoiavam o Bush fiquei tão irritado que mandei um artigo para o Diário de Lisboa. Segue fotocópia. Seguem também dois outros artigos que publiquei recentemente. Nós gostaríamos de convocar uma acção qualquer de rua contra o envolvimento de Portugal como criado dos EUA mas fal­tam-nos pernas para isso. Aí em França deve ser pior ainda, calculo. Li um recorte de imprensa daí com uma declaração do Garaudy e Ben Bella que me pareceu correcta. Até o Garaudy já é esquerdista?!

Por que é que tu não nos mandas um comentário para a pró­xima PO sobre a crise do Golfo vista de Paris pelo nosso correspon­dente? Gosto muito de receber os teus jornais e bilhetes mas gosta­va muito mais de receber artigos.

Estive recentemente com o CF e o V que por aqui passaram e se encostam um pouco a nós, já que nas áreas anarquistas está tudo de rastos. O V é um tipo esperto, publi­camos uma carta dele acerca da revolução russa, prometeu emprestar-me alguns livros sobre o assunto.

Como vai o Albatroz? Confirma-se a crise ou conseguem dar a volta? Agora que já tens carta minha, é a tua vez de escreveres a contar coisas daí. Está atento porque brevemente seguirá o meu projecto de artigo para discussão. As opiniões que tiveres tens que transmitir rapidamente visto que a ideia é publicar já na próxima PO.

De contactos internacionais, continuamos na mesma, só com uma baixa dum grupo sueco que começou a estudar e aderiu ao trotskismo e agora resolveu integrar-se num grupo social-democrata. É fatal!         

M, um grande abraço.

Se vieres a Portugal não te esqueças de te encontrar connosco ! Abraços para a R e miúdos

Cartas a MV – 8

 Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (12)

12/12/1986

Caríssimos:

Respondemos à vossa carta de 15 Novembro (…).

A PO nº 7 sai amanhã. Vamos enviar-vos 10 exemplares, conforme combinado. Seguem também os 5 exemplares que faltavam da PO nº 5 e 25 da PO nº 1. O artigo de fundo desta PO é sobre Staline e os processos de Moscovo. Por ter sido acabado à última hora, já não foi possível enviar-vos o projecto para darem opinião. Mas queremos muito que digam o que vos parece. Julgo que, de qualquer maneira, alguma coisa avança quanto à posição ML sobre Staline. Pôs-se aqui a hipótese de se seria possível vocês passarem para francês o arti­go ou extractos, a fim de poder ser distribuído a MLs de diversos países. Tu dirás o que te parece.

Com vistas à PO n° 8 (Janeiro-Fevereiro), pedimos que prepares uma “Carta de Paris” – a crise estudantil e as dificuldades do governo Chirac parecem coisas importantes que mereceriam um bom comentário. Ao teu cuidado. Com fotos boas, se possível. Pedimos também que nos envies logo que possível o artigo teórico que saiu na “Pravda” sobre a actualização do marxismo e o perigo das guer­ras de libertação nacional. Foi aqui referido na imprensa mas muito brevemente. Gostaríamos de ter o texto para comentar e supomos que terá saído aí no “Monde” ou noutros jornais. Nesta PO 8 vamos tra­tar com certo desenvolvimento o 9º congresso do PTA e o 5º congres­so do PC(R), que acaba de ter lugar. Seria um número um pouco cen­trado na crítica à corrente ML. Para o nº 9, estamos a iniciar o estudo colectivo da revolução cultural chinesa. Como sempre, pedimos que colabores com tudo o que queiras e possas, inclusive em polémica com artigos que têm saído.

Contactos europeus – chegaste a encontrar-te com dirigen­tes da OCML-VP em 28 de Novembro? Há alguma reacção à circular em francês que lhes enviaste? E do MM, há alguma resposta? A hipótese de eu ir aí em Janeiro por enquanto é muito hipótese, seria preciso que se confirmasse o projecto dos iranianos sobre o seminá­rio internacional, o que até agora não é o caso porque não soubemos mais nada. Não sabemos se andam nas diligências “diplomáticas” jun­to dos diversos grupos ou se desistem da ideia por agora. Aguardamos notícias.

Encontro sindical – Foi bastante positivo e deu uma po­lémica esclarecedora, como poderás ver por um longo artigo que vem nesta PO 7. A polémica polarizou-se entre nós, à esquerda, e o PSR à direita. Estamos a preparar a Tribuna Operária nº 2, que publicará uma versão final das nossas teses sobre a corrente sindical de es­querda. Está-se a formar em volta da “TO” uma rede de amigos e cor­respondentes espalhada por diversos pontos do país, muitos deles ex-UDPs que andavam à deriva. Só não avançamos mais depressa por escassez de forças mas estamos animados.

Presos – deves ter visto que foi pedida uma pena de 20 anos para o Otelo. Continuamos a participar na comissão de soli­dariedade e em breve enviaremos o boletim “Denúncia” nº 3, para fa­zeres aí a circulação que te for possível. Tem havido mais prisões e as perspectivas das FP-25/ORA parecem sombrias. Embora critique­mos a ideologia da “acção directa” como uma variante “explosiva” do oportunismo (deves ter visto na PO), continuamos a desmascarar a campanha antiterrorista e a solidarizarmo-nos com os presos.

Infraestruturas – continuamos a lutar desesperadamente para pagar as dívidas da máquina e obter o máximo de trabalho para a rentabilizar. Só nos falta pagar uma letra mas temo-nos endivida­do junto de vários amigos porque a carga é pesadíssima. Esperamos lá para Março-Abril estarmos donos definitivos da máquina e com a situação financeira mais desafogada. De toda a maneira, estamos a fazer o que julgávamos impossível: pagar a máquina no prazo de pou­cos meses. O FM veio-nos pedir orçamento para a revis­ta mas quando lho demos desistiu logo, porque julgava que nós fa­zíamos um “preço de amigos” – quase de borla. A expansão da PO não tem progredido e tivemos que adiar o plano que tínhamos de uma cam­panha de publicidade na imprensa por ocasião do 1º aniversário – os preços são exorbitantes. Fizemos cartazes e tarjas de propaganda que temos colado nas paredes. Vimos a tua boa iniciativa do dossier de propaganda.

O resto do trabalho vai andando. Não alargamos mas man­temos. A Tribuna Coumnista não tem saído por absoluta falta de for­ças. Fazias-nos jeito cá. Mais dois pedidos: da colecção de Documen­tação sobre o Leste, um volume sobre a escala salarial na URSS. E a defesa da srª Chiang Ching em tribunal, que. nos seria útil para o artigo sobre a revolução cultural. Vi a revista que mandaste “Archimède et Leonard” mas é complexa demais para o meu entendimento. Também vi a tua poesia vicentina mas está num português di­ficílimo.

Um último pedido: podem enviar-nos alguma contribuição financeira nesta altura de fim de ano, subsídios de Natal, etc.? Precisamos de todo o apoio possível.

Abraços de todos nós