Cartas a JV – 15

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 15

16/6/1997

Caro Camarada:

Recebi o teu recado para nos encontrarmos mas foi-me completamente impossível. Ainda telefonei para a casa do Bairro Alto (tua prima, julgo) mas ela disse-me que não estavas lá e eu não tenho o outro telefone. Vão por esta via as minhas desculpas. Nos últimos meses os meus problemas familiares têm tomado um tal volume, aceleração e imprevisto que com frequência me obrigam a cancelar compromissos. Uma família onde só há terceira idade e não se procedeu em devido tempo à renovação dos quadros pode ver-se em grandes apertos, sou eu que te digo.

Fiz uma pequena recensão (também muito à pressa) do teu livro, que li em diagonal e me pareceu bastante interessante. Sai na próxima PO. que receberás na semana que vem. Tens editor em vista cá no burgo?

E a tua estadia, que tal? Fizemos a nossa passeata e lanche do 1º de Maio, correu bem, na medida do possível. No próximo ano, espero que nos encontremos no nosso café, para nos embebedarmos e conspirarmos em conjunto, como bons extremistas que somos. Perguntas se Lisboa ainda existirá para o ano? Decerto existe mas talvez já esteja promovida a capital de província. Os castelhanos estão a tomar posse de tudo. Falta-nos cá o Nuno Alvares Pereira, esse é que lhes fazia ver. Enfim, haja confiança na revolução mundial. De mais a mais agora, que o semicamarada Jospin chegou ao poder e meteu 4 camaradas em ministros, vai ser imparável. Um abraço.

Cartas a JV – 14

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 14

14/2/1997

Caro Amigo:

Os teus materiais cá chegaram em boa ordem. No nº 57 metemos um extracto das “Chinoiseries”, dum tal Charles Reeve, conheces? Elucidativo. Sobre a greve dos condutores de camiões, tivemos um artigo programado para o nº 58 (está a sair), demos os teus e outros elementos ao MC (suponho que conheces), mas ele envolveu-se de tal forma num comentário a um recente livro do Dr. Álvaro Cunhal que acabou por nos deixar descalços quanto aos camionistas. Cunhal é fundamental, claro, mas não sei se foi boa a troca. Eu não li o livro do homem, mas a televisão tem-lhe dado algum reclame e ouvi que vai sair uma grande entrevista com ele no Jornal de Letras. O homem quer acabar a carreira como literato, pulir a imagem para a posteridade. E ele e o Soares, a tomarem as últimas disposições para garantir que o funeral será muito concorrido. Aprenderam com o Mitterrand.

Voltando aos camionistas. Agora são os espanhóis que estão a bloquear as estradas. Âs novas realidades proporcionam possibilidades inesperadas de paralisar e economia dum país. E se uma (futura) Federação dos Camionistas Europeus resolvesse bloquear as estradas do continente? O que a televisão dá da greve em Espanha são os protestos dos nossos compatriotas camionistas, ansiosos por trabalhar e indignados com os grevistas que lhes partem vidros, furam pneus, etc. Ontem, dia 13, estimulados pelo ambiente, alguns dos nossos camionistas tentaram bloquear a estrada à entrada de Vilar Formoso mas a GNR atirou-lhes com os cães para cima e a tentativa fracassou, pelo menos para já. Dizia um deles no telejornal: “Não está certo; em França e em Espanha bloqueia-se as estradas e a polícia não intervém; aqui atiram-nos logo com os cães”. É que ele não sabe que à Europa só vamos buscar o que é bom, não os hábitos relaxados. Polícia aqui não brinca. Apareceu mais um rapaz morto, depois de ter sido levado para a esquadra, em Vila Franca. Parece que estava bêbado num bar e molhou um guarda com cerveja. O que é que ele queria? De resto, os polícias juram que não lhe fizeram mal nenhum. Aguarda-se o resultado da autópsia.

Quanto ao material sobre a Guiné-Bissau, lamentavelmente não temos para lá contactos, não lhe pudemos dar destino. As nossas edições é que estão a coxear dos dois pés. O distribuidor impõe-nos condições cada vez mais duras, quer asfixiar-nos, e nós não vemos possibilidade de lançar nada novo pelos tempos mais próximos. O livro do Che “Viagem pela América” vendeu razoavelmente, mas já o último, “Os meus anos com o Che”, da ex-mulher, está a sair pouco. Cada livro é um agravamento dos prejuízos, nada a fazer. Precisávamos de uma rede alternativa de distribuição, apontada para o público que ainda consome coisas destas. A revista é que não pode falhar; por acaso, este número vai sair com duas semanas de atraso, porque os meus problemas familiares têm-me bloqueado.

Se calhar queres que te fale da actualidade nacional, mas não estou em condições. Entre enredos da bola, enredos internos dos partidos, enredos da droga, os telejomais são desmobilizadores. PS e PSD ultimam o acordo para a revisão da Constituição; reina um saudável consenso democrático, pelo menos… Podes pelo menos dormir descansado: quando vieres a férias encontras tudo na mesma. E quando vens? Dá notícias. Abraços nossos para ti e cumprimentos para a S.

Cartas a JV – 12

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 12

31/1/1996

Caro Amigo:

De facto, a tua assinatura caducou mas não cortámos o envio. Mandamos sempre mais alguns números com a proposta de renovação. Se não recebeste, a culpa deve ter sido dos teus amigos grevistas dos correios aí de França, são uns malandros que não querem trabalhar, só querem privilégios à nossa custa. O Chirac é que os topa. De toda a maneira, os teus 100 francos são bem-vindos, e ficas inscrito por mais um ano.

Se vieres em Abril, vais encontrar Lisboa completamente mudada, respira-se um ar novo desde que o socialismo subiu ao poder. Em todo o lado há plenários, saneamentos de capitalistas, ocupações de casas e fábricas, desfiles populares com bandeiras vermelhas e vivas ao Sampaio… Espero que não acredites.

A P.O. vai para a tipografia, espero que desta vez a recebas e que aprecies. Mando também o número anterior, para não ficares privado da nossa prosa. Abraços para ti para a S.

Cartas a JV – 11

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 11

9/2/1994

Caro Amigo:

Agradeço os jornais e documentos que tens mandado.. A P.O. deve vir hoje da tipografia e ficamos com um breve período de pausa, para respirar e sobretudo ler material que se vai acumulando. O teu reparo sobre o homossexualismo chegou quando se estava a fechar a redacção e ainda deu para o metermos em carta do leitor. Aguardemos as reacções. Se queres que te diga, nunca nos dedicámos a discutir muito o assunto e creio que existem opiniões diferentes entre nós. Talvez a tua carta nos obrigue a discutir o problema. A posição que saiu no artiguinho que referes não pretendeu obviamente dizer que a homossexualidade seja uma doença, mas apenas apontar o seu florescimento nas prisões como um dos índices da situação degradante em que os presos se encontram, privados duma vida sexual normal. Não concordas?

Por cá, a situação económica agrava-se lentamente, embora não tanto como alguns previam. O desemprego oficial é de 6% mas este número tem pouco a ver com a realidade. Será 8%, 10%? O funcionalismo público vai fazer a segunda greve no espaço de um mês, porque o governo pretende dar-lhe um aumento de 0% a 2%, omitindo a inflação, ou seja, um “aumento” negativo. Dos sectores operários há algumas acções de protesto, mas até agora dispersas. As duas centrais estão a radicalizar a linguagem mas não mais do que isso, é só para absorver o descontentamento. Qualquer delas, mas sobretudo a UGT, estão escandalosamente vendidas às verbas da Comunidade, a pretexto dos cursos de formação profissional, e ficam na dependência do governo para embolsar as massas. De modo que berram muito mas arrastam os pés e procuram dispersar as lutas. É a modernização que chega à ocidental praia lusitana.

Será que nos encontramos na sessão do aniversário da Batalha em 26 deste mês? Eu vou lá. Abraços meus,  da Ana e da Beatriz, para ti e para a S.

Cartas a JV – 10

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 10

8/12/1993

Caro Amigo:

Não sei donde partiu o atraso mas a tua carta datada de 22 Novembro só me foi entregue no Correio em 6 Dezembro. Já temos a P. O. na tipografia e não nos foi possível incluir nada dos elementos que mandaste. Sobre a greve da Air France, felizmente, o MV mandou uns comentários que publicámos com destaque. Aqui também houve “bernarda” com os trabalhadores da TAP, mas o pessoal mostrou muito menos combatividade que o daí. De qualquer modo, o apertar da crise obriga o ambiente social a mudar lentamente. Para já, quem aparece na ribalta são os estudantes, cujas manifestações devem ter obrigado o Cavaco a uma remodelação governamental,, que deu um sinal de fraqueza. O homem até agora fazia gala da sua firmeza de rocha, de modo que esta cedência talvez lhe vá tirar muita da confiança quase supersticiosa que a pequena burguesia tinha nele – a admiração pelo “homem forte”. A oposição está ao ataque, tentando capitalizar tudo o que puder dos resultados das eleições autárquicas – a campanha eleitoral, desta vez, é um carnaval imbecil, com “debates” na televisão com as claques a gritar por um ou por outro dos candidatos e a agitar bandeirinhas, numa algazarra infernal em que se faz tudo menos debater seja o que for. Um espectáculo miserável, que dá bem a medida da democracia a que temos direito.

De qualquer modo, por enquanto é cedo para saber se é irreversível a crise do governo. Só se a situação económica tiver agravamentos dramáticos. Para já, além da TAP, houve alguns protestos operários (que a imprensa, como de costume, “desdramatiza” o mais possível), nomeadamente uma marcha de fome de vidreiros da Marinha Grande para Lisboa e uma greve “selvagem” dos portuários de Setúbal, greve na Lisnave, etc. As centrais não assinaram a concertação social (ou 4% ou nada, disse o governo) e falam em greve geral mas de forma mole e indecisa. Em Espanha já está marcada para Janeiro, mas lá a situação é sempre mais agitada e desperta do que aqui. Aqui, num resumo que pode ser muito subjectivo, eu diria que o governo está mais ameaçado pelos estudantes, médicos, juízes, empresários agrícolas, do que pelos operários e assalariados. E no entanto, a situação destes vai-se tomando dramática. Coisas…

Pela nossa parte, de novo apenas um convite que recebemos, a Ana e eu, para intervirmos numa semana de debates sobre o centenário de Mao, realizada pela Biblioteca-Museu da Resistência, organismo dependente da Câmara de Lisboa. Outros participantes (em dias diferentes!) são o Arnaldo de Matos, Pacheco Pereira e Pedro Baptista (ex-OCMLP). Pelo menos, estão convidados, não sei se vão. Decidimos aceitar, embora o público seja restrito, para valorizar o Mao revolucionário dos primeiros anos e fazer fogo contra a bronca ironia com que os tipos do PS e do PC falam da revolução chinesa, como se fosse uma anedota.

Espero que a Fora do Texto mande o teu livrinho (costumam mandar sempre) e far-lhe-emos referência sem falta. Também espero poder aproveitar a tua sugestão de publicar algum extracto dos teus artigos como carta. Faço votos por que tudo vos corra bem. A P.O. deve estar a sair da tipografia. Abraços para ti e para a S. de todos nós.

Cartas a JV – 4

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 4

7/10/1990

Caro V:

Não se terá esquecido do livro do [Oskar] Anweiler que me tinha prometido? Eu não desisto e estou bastante interessado em ler mais sobre o assunto. Estou a preparar um artigo paro a próxima PO. No nº 26 que acaba de sair publicámos e sua curta sobre a revolução russa.

Mando-lhe junto alguns artigos que publiquei recentemente na imprensa. A crise do Golfo está a pôr-me em brasa, você não faz ideia do alinhamento dócil de toda a gente com os americanos. Ainda se isto fosse um país imperialista, percebia-se, mas nesta piolheira cheia de fome, aprovar a “defesa da ordem internacional” é sintoma de degenerescência mental. Os socialistas querem um envolvimento maior! Só visto!

Fico a aguardar as suas notícias. E o livro!

Um abraço

Cartas a HN – 9

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 9

14/2/1997

Caro Camarada:

Respondo à tua carta de 28 de Janeiro. A PO 58 está na tipografia, desta vez atrasámo-nos mesmo, mas tenho tido complicacões familiares (somos uma casa de velhos doentes —excepto eu, claro, que não sou doente e muito menos velho). Como a equipa já é pequena, isto foi o bastante para termos um atraso duns quinze dias. Mesmo assim, este número tem mais colaboradores do que tem acontecido ultimamente. A vossa proposta do Centro Marxista suscitou uma carta de um colaborador, desfavorável. Não vejo razão para contrapor, como ele faz, o estudo do marxismo para um lado e a intervenção política para outro. Mas é um ponto de vista, aguardemos que mais leitores se sintam motivados para intervir sobre o assunto.

Já comecei a ler o material que me mandaste da revista Dialéctica. O Adam Schaff levanta de facto muitos problemas interessantes mas tem a pecha de conceber sempre o socialismo de forma a não desagradar à burguesia. Já aqui há anos criticámos na P.O. um artigo dele numa revista que por aí apareceu, “O Socialismo do Futuro”, com grande reclame, mas que teve um futuro muito curto. Em todo o caso, é sempre muito instrutivo ler pontos de vista diferentes e, se for capaz, farei uma nota sobre o assunto para a próxima PO. Quanto à sugestão que dás de eu colaborar nessa revista, é que me parece pouco realista:

1º) eu já mal consigo manter a PO/Neograf/Dinossauro a flutuar; tinha que dedicar bastantes horas a preparar esses tais artigos, que teriam que ser diferentes dos da PO; 2º) a Dialéctica parece-me uma revista de gente “séria”, universitária (oportunista), e pontos de vista como os meus são aí considerados “sectários” e impublicáveis. Tenho sido criticado por vários camaradas, já por mais de uma vez, por não fazer mais esforços para fazer publicar artigos meus na grande imprensa, fora do círculo restritíssimo da PO, mas confesso-te que isso hoje me aparece como um desperdício de tempo. Tenho que poupar bem os meus esforços porque as capacidades já não são muitas e não me sinto com pachorra para andar em luta com as redacções para conseguir que me aceitem artigos. A experiência que tive com o Público aqui há meia dúzia de anos e a censura descarada que me fizeram quando foi da guerra do Golfo serviram-me de lição: para ser publicado, eu teria que me autocensurar, evitar certas expressões mais agressivas, dizer certas coisas só por meias palavras… enfim, não dá. Ao menos, na PO, posso fazer fogo à vontade e chamar os bois pelos nomes. Faz bem à saúde.

Bem, caro camarada, por agora é tudo. Agradeço a atenção em me mandares recortes e espero que continues e que arranjes alguma colaboração para a próxima PO: Espero que a tua saúde e da família vá bem. Abraços do pessoal para ti e para o Z.