Cartas a EL – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a EL – 3

9/12/1992

Caro Amigo:

Deve estar a receber por estes dias a P.O. nº 37, onde publicámos a carta que nos enviou. Como bem calcula, não concordo com os seus argumentos, que me parece estarem a ser respondidos nos artigos que venho publicando sobre a revolução russa. A série vai continuar e talvez o conjunto dos artigos lhe permita entender melhor a nossa posição.

Resumidamente: concordo consigo em que o capitalismo de Estado se instalou na Rússia ainda em vida de Lenine e que Lenine estava enganado quando defendia que era uma solução segura para lançar as bases do socialismo. Mas não concordo consigo quando me diz que a revolução russa poderia ter tido êxito sem a acção do Partido Bolchevique; nem acredito que alguma revolução anticapitalista no futuro possa ter êxito sem uma acção centralizadora promovida por um partido revolucionário, o que não significa que se tenha que repetir a experiência negativa da URSS. A revolução russa estava condenada porque o desenvolvimento económico do país era escasso e a maioria camponesa não queria socialismo nenhum, queria era capitalismo. Parece-me grande ingenuidade acreditar-se que num mundo onde o poder burguês é detido por partidos políticos, os trabalhadores possam impor a sua lei sem se apoiarem num partido revolucionário. Mas, enfim, o debate sobre estes temas não tem fim. Só quando novas revoluções vitoriosas mostrarem o caminho para a liquidação da burguesia se resolverão as actuais divergências entre comunistas e libertários.

Esperamos que, apesar de tudo, a nossa revista continue a despertar-lhe interesse e estamos abertos a registar as suas críticas e sugestões. Aceite as nossas saudações.

 

 

Cartas a MB (2)

 Francisco Martins Rodrigues

Carta a MB – 2

9/8/1990

Caro M:

Os livros chegaram em condições e já estão a ser estudados. Um abraço pelo teu cuidado no as sunto. Recebi as tuas duos cartas. Depositámos na conta que indicaste a importância de 9.000$ que corresponde à factura do editor inglês.

Na tua carta fazes muitas interrogações sobre o rumo que vai seguir a política internacional depois da conversão final da Rússia. Ninguém pode prever o que vai suceder nas a tendência geral é decerto aquela que dizes: exacerbação das rivalidades entre os imperialistas, guerras interburguesas, como se está a ver na Golfo Pérsico, regimes fascistas a subir. Esperemos que também aconteçam coisas imprevistas do lado do movimento operário, única força que poderá meter essa canalha em respeito. Há sinais de radicalização no Brasil, Coreia do Sul. Se não for isso, ficamos nas mãos da senhora de Fátima.

Se apanhares jornais ou boletins interessantes daí, manda-mos. Um abraço, até breve

Carta a MB (1)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MB – 1

16/11/1988

Caro Camarada:

Espero que estejas bem de saúde. Mando-te em carta separada alguns suplementos da PO em inglês. Brevemente enviaremos outros, entre os quais o artigo sobre Staline que te tínhamos pedido que traduzisses, portanto, se já começaste, não vale a pena continuar.

Mas não quer dizer que fiques isento da tarefa. Neste próximo número vai sair um artigo sobre o Trotsky, que espero que traduzas, sem falta,  para inglês. Estamos a fazer um sério esforço para tornar mais conhecidas as nossas posições junto de outros partidos e grupos. Indico também alguns livros que muito te agradecia obtivesses aí. Evidentemente, pagaremos a despesa que for necessária. Temos sobretudo urgência no livro do Tony Cliff. Quando é que cá voltas? Um abraço amigo

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  • Cliff, Tony – State Capitalism in .Russia. London, Pluto, 1974
  • Dobb , Maurice – Soviet Economic Development after 1917. London, 1951
  • Love, Alexander – An Economic History of the USSR. London, Allen & Unwin, 1969
  • Pethybridge, Roger – The Social Prelude to Stalinism. New York, St. Martin’s, 1974
  • Piltzer, Donald – Soviet workers and Stalinist Industrialisation. New York 1966
  • Schwarz, Solomon L. ~ Labour in the Soviet Union.
  • London, Creasefc, 1953
  • Fainsod, Merle and Hough – Smolensk under Soviet rule. Macmillan, 1956

 

 

 Cartas a MV – 25

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (29)

24/10/1991

Olá, M, só agora respondo aos teus múltiplos materiais, o último de 16/10 com o livro do Tom Thomas.

A última P.O. pode estar um pouco mais arejada, como dizes, mas isso não corresponde a nenhuma activação especial entre nós. Continuamos muito reduzidos e asfixiados. A última Assembleia não correu mal mas não produziu nenhuma discussão de fundo. O debate concentrou-se demasiado na questão eleitoral, com alguns camaradas (Porto) a insistir para não apelarmos publicamente à abstenção, para não se verem atacados e isolados na sua empresa, como “cúmplices da direita”. Houve algumas vozes (uma aberta e outras implícitas) no sentido da concentração de votos na CDU, “para ajudar a deslocar os militantes que lá estão desorientados”. Contudo, não foi difícil concluir pela abstenção. O pior foi que se gastou demasiado tempo nisto. E também num outro debate significativo (também com o Porto): a reclamação de que deveríamos ser menos ideológicos e mais virados para os problemas económicos da classe, a fim de rompermos o isolamento… Sintomas do grande refluxo, que leva os nossos camaradas e sentirem-se acossados.

O debate sobre a União Soviética, em que participaram alguns amigos da revista (faltaram contudo vários outros que esperávamos aparecessem) não adiantou muito, talvez por má preparação nossa. Na falta duma apresentação audaciosa do tema, prevaleceu a confusão da maioria das pessoas, especulações sobre o que vai acontecer a seguir, etc., e não debates sobre o fundo do fenómeno.

Enfim, como terás notado pela notícia da Assembleia na P.O. 31, esta não adiantou muito à nossa história.

Marroquinos – vamos enviar a revista aos dois presos que nos “recomendas”. Estranhámos as declarações calorosas do Serfaty acerca do PCF. Tens algum contacto com ele? Podes mandar-nos a morada dele em Paris? Seria possível debater com ele para evitar que se encoste demasiado aos revisas?

O Frederico do “Expresso” é mesmo o Fred. Foi ele que me telefonou no outro dia a pedir o depoimento. A princípio não quis atender o telefone mas depois lá me convenci que, como .jornalista, podia falar com ele. Publicou só uma parte do que escrevi mas não me sacaneou.

Albatroz – vi a informação de que tiveste um subsídio para o próximo número. Isso é que é sorte! Tenho ideia de que ficou combinado há já tempo eu enviar-te algum texto mas já estou um pouco confuso. Diz-me que género de literatura queres, tamanho, prazo, tudo, para ver se não dou barraca.

Para a próxima P.O., o que é que nos ofereces? Vou ver se faço já de seguida um artigo muito simples sobre o ano 1917, por causa das aldrabices que agora todos os vigaristas escrevem com o maior à-vontade sobre “o golpe dos bolchevistas” contra a pobre democracia que lá existia na Rússia nessa altura. O emérito Espada escreve sobre a “contra-revolução” de Lenine e toda a gente baixa as orelhas! A isto chegámos! Mas não posso passar o tempo a escrever sobre o passado, tu também me dás o toque na tua carta e é verdade, vou insensivelmente concentrando a minha atenção nos tempos antigos, quando é preciso dizer tanto sobre o que acontece hoje. Estarei com a perspectiva do velho combatente a falar dos seus tempos? Não quero! Enfim, ajuda-nos a fazer uma P.O. mais viva, manda coisas da tua lavra. Por agora é tudo. Até breve, um abraço  

Cartas a MV – 21

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (24)

20/2/1991

Velho M:

Estou aplicadamente a responder e a ausência não é de tantos meses como dizes; a minha última foi em Novembro, nada mau. Tenho recebido um rio de bilhetes, recortes, jornais, até um livro (“Mon ami le roi”). E também as tuas duas colaborações: a última, curta, saiu no PO 28 (por gralha não foi mencionada como “Carta de Paris”); a outra colaboração, com notas e discordâncias sobre a carta aos comunistas americanos já está composta e ere para sair no caderno cor-de-rosa deste nº 28 mas a acumulação de mate­riais sobre o Golfo obrigou a pô-la de parte. Sairá no próximo nº.

Creio que não tens razão nos teus receios a que deitemos demasiadas coisas pela borda fora. Julgo haver na tua visão sobre a URSS ainda uma carga antiga (quanto ao poderio, ao social-imperialismo, etc.) que me parece (que nos parece a nós aqui) desmentida pelos aconte­cimentos recentes. Eu acho a perspectiva que damos hoje nesta PO so­bre a degenerescência e apodrecimento do regime soviético muito mais marxista-leninista do que a que herdámos dos chineses, albaneses, etc. Sem dúvida, o assunto precisa de mais discussão e a tua carta aju­dará a essa reflexão. Esteve cá um dos dirigentes do MU americano e travámos debates, inconclusivos mas amigáveis. Eles prometeram publicar no seu jornal uma resposta à nossa resposta, dentro de alguns meses. Quando a tivermos mandar-te-ei; possivelmente publicaremos.

Golfo: temos estado desesperadamente a tentar agitar as águas pantanosas do consenso pró-americano nesta terra, como verás pela PO 28 e por uma folha da CCIG[i] que aqui te mando junto. Estamos de novo associados com os trotskistas da FER, porque foram os únicos a condenar sem reservas a agressão imperialista americana. Hoje esti­vemos mais uma vez com uma exposição de painéis na Rua augusta e dis­tribuindo comunicados. Suscita uma enorme atenção e discussões por vezes acaloradas, com opiniões fascistóides a vir ao de cima a cada passo. Depois de amanhã vamos fazer nova concentração frente à embai­xada americana, mas não espero mais de duas centenas. Mando-te também fotocópia de alguns artigos que tenho publicado na imprensa, é pos­sível que algum vá repetido; tenho um artigo no “Público” à espera que saia, sobre o “anti-americanismo primário” (a desculpa prefe­rida dos nossos intelectuais vendidos) mas está difícil de sair, desconfio que as minhas hipóteses no “Público” vão acabar.

Recebi o artigo que te mandei “Lisboa a sono solto” tra­duzido em francês, mas não percebi porquê, porque não me voltaste a dizer nada sobre o Albatroz” que iria sair e para o qual te man­dei esta colaboração. São dificuldades financeiras, suponho? Há perspectivas de sair a breve prazo? O V afinal sempre te dá alguma ajuda? Diz-me alguma coisa sobre isto.

Ficámos aqui muito satisfeitos por ter chegado a resposta de Serfaty[ii] e a confirmação de que recebeu a encomenda com a PO. Te­mos estado a enviar-lhe a PO regularmente, espero que a receba. Vou decifrar o texto elaborado pelos presos sobre os recentes acontecimentos em Marrocos, talvez se possa publicar algo no próximo nº. Foi pena não ter chegado quinze dias antes; fiz um pequeno artigo sobre o assunto com base nas notícias dos Jornais, que saiu na PO 28.

Quem apareceu aqui com alguns manifestos mais radicalizados sobre a cruzada do Golfo ainda foram os anarquistas, temos algumas pontas para alguns, procurando vias de colaboração nesta frente. E aí, depois das manifestações que informaste, amainou o ambiente?

Ainda não li a tua intervenção no congresso sindical, che­gou aqui ontem, depois te direi algo.

Quanto ao resto da nossa actividade, segue como normalmen­te, isto é, reduzida a um punhado de “fanáticos” e por isso cheia de deficiências, mas cá vamos. Eu canalizo as minhas fúrias para os jornais; enquanto mas publicarem… Ontem mandei um depoimento para o “Independente” (da direita) sobre o maoísmo.

Um abraço, até breve

 

[i] Comissão Contra a Intervenção no Golfo (CCIG), ver comunicado em https://ephemerajpp.com/2014/12/07/comissao-contra-a-intervencao-no-golfo-ccig/. (Nota de AB)

[ii] Tratava-se do marroquino Abraham Serfaty (1926 -2010), militante e activista político, que foi preso durante o reinado autoritário do rei Hassan II. Esteve quinze meses num cárcere subterrâneo, tendo cumprido dezassete anos de prisão.  Em parte graças a uma campanha internacional a seu favor, foi libertado e viveu oito anos de exílio em França, antes de regressar a Marrocos, onde faleceu. (Nota de AB)