Cartas a FR – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (21)

29/12/1997

Caro Camarada:

Desejo que a “Quadra da Família” tenha sido passada da melhor forma possível. A esta hora já deves ter recebido a P.O. 62 onde incluí o artigo sobre o caso do teu filho. A foto, apesar de copiada do jornal, saiu boa. Mas, é claro, não são artigos da P.O., com uma difusão limitada, que vão fazer mexer os nossos homens. Pode ser que as diligências junto do Tribunal Europeu os façam acordar; se assim for, o mais certo é inventarem uma explicação qualquer para a montanha de contradições e absurdos do processo. Infelizmente, não existe uma corrente de oposição popular que os encoste à parede neste como noutros casos. Como viste, o caso do padre Max acabou sem tocarem nos figurões mandantes do crime. O cónego Melo até ganhou um carro de luxo oferecido pelas beatas para ser compensado pelos “enxovalhos” sofridos!

E como vamos de Associação Ateísta? Diz-me o que houver de novo, poderei publicar sob a forma de carta na próxima P.O., pode ser que alguns leitores se queiram associar. Também tenciono fazer- me sócio quando estiver constituída, para já não tenho disponibilidade para contribuir, por aqui está tudo muito apertado, como decerto calculas.

E que tal de eleições, gostaste do espectáculo? Como circo não há melhor, o pior é que nos sai muito caro.

Aceita um abraço e desejos de boa saúde

Carta a FR (22)

7/5/1998

Caro Camarada:

Tenho deixado passar várias cartas tuas sem resposta, mas sei que com­preendes as minhas dificuldades e não levas a mal, não é por menos interesse. Agora que a P.O. nº 64 está na rua e o 1º de Maio já lá vai, ponho a correspondência em dia. Distribuímos um manifesto no 1Q de Maio, que publicaremos na próxima P.O. e também um outro com uma lista de 100 vítimas da PIDE. Mando junto um exemplar. Fez sensação e era disputado pelas pessoas que assistiam ao destile. Levámos uma faixa dizendo “Já só falta pedir desculpa aos pides pelo 25 de Abril”. Foi bastante aplaudida, as pessoas estão mais motivadas com estes últimos escân­dalos do Rosa Casaco[i] e também do bandido do padre Frederico[ii]. Veremos quando chega o dia de romper a barreira do silêncio em torno da morte do teu filho. Pela minha parte, podes crer que apoio no que puder.

Quanto ao endereço que me pedes do jornalista (…) o seguinte: (…)

É tudo por agora. Dá sempre notícias. Um abraço.

Carta a FR (23)

15/10/1998

Foi bom receber notícias tuas. Aqui em Lisboa está tudo na paz dos mortos desde que fechou a célebre Expo, a coisa mais espantosa que o mundo já tinha visto até aos dias de hoje. Agora, para animar a televisão e os jornais só o último caso de corrupção: como de costume, os favores do Estado aos tubarões são na ordem das centenas de milhares de contos, quando não dos milhões. E a “sociedade aberta” com que os nossos homens sonhavam. O outro caso do dia é a campanha sobre a regionalização, que me cheira a mais um grande negócio. As nossas simpatias vão todas para o “não” mas, para não ficar na companhia do PSD e do PP, decidimos aconselhar a abstenção na P.O. Deves recebê-la dentro de dias e não está atrasada, porque é sempre nesta data que sai depois das férias do Verão em que não se publica.

Por agora é tudo. Vai dando notícias. Um abraço

Carta a FR (24)

5/3/1999

Caro Camarada:

Junto envio um Apelo para as comemorações do 25 de Abril que estamos a organizar, num grupo bastante alargado. Haverá uma sessão pública na tarde de 24 e um “julgamento” da PIDE. O texto destina-se a recolher assinaturas para ser publicado. Se estiveres de acordo em assinar e em recolher algumas assinaturas aí em Aveiro, peço que me devolvas até ao fim de Março.

Em relação a dois pedidos teus anteriores, da revista (…) e do endereço do AM, lamento não te poder mandar nem uma coisa nem a outra, porque não as tenho.

Viste a escandalosa absolvição dos assassinos do padre Max? Não há escrúpulos, a palavra de ordem deles é abafar e limpar os crimes relacionados com o 25 de Novembro. Se houver alguma diligência nova em relação ao teu filho, manda-me informações. Um abraço.

Carta a FR (25)

17/10/2000

Caro Camarada:

Espero que a tua saúde esteja melhor e que a operação à perna tenha corrido bem. Acerca da hipótese de recurso para o Supremo no caso do teu filho, não estou a ver nenhum advogado meu conhecido directo que sirva para conduzir o processo. Ocorre-me o João Nabais, ligado ao Bloco de Esquerda e que com certeza conheces de nome, dizem que é bom. bastante combativo. Estaria ele disposto a tomar o caso? E em que condições financeiras? Não te sei dizer.

Agora sobre a Associação dos Ateus. Não julgues que por eu não dar andamento ao caso é por desinteresse meu, mas tenho feito umas sondagens nos meios onde me mexo e não encontrei até agora gente interessada em meter ombros à tarefa e eu sozinho não posso. Não quero meter um apelo na revista sem ter algum ponto de partida para dar seguimento. Se faço um apelo e cai no vazio isso contribuirá para desacreditar a ideia. Já publiquei em tempos uma carta tua com a proposta e posso publicar novamente, a ver se há reacções. Uma forma de sensibilizar os leitores da revista seria pela publicação de textos de crítica à religião. Tens alguns que me emprestes para ver a possibilidade de publicação?

Os nossos agradecimentos pelos 1.000$ que enviaste, vêm na próxima P.O. na lista de apoios recebidos. Como verás, houve uns tantos amigos que corresponderam, espero que outros se resolvam. A ver se ultrapassamos as dificuldades em que nos debatemos de há um tempo para cá. Acabámos por não publicar o discurso do Louçã, não por termos alguma coisa contra, mas em todos os números fica sempre algum material de fora por falta de espaço.

Como verás na PO, fazemos no próximo dia 4 de Novembro uma sessão em Lisboa, a propósito dos 15 anos de publicação da PO. Convidámos duas pessoas do Brasil e haverá debate. Em princípio de Dezembro faremos outra sessão, para que convidámos o Samir Amin e Tom Thomas. Se possível seguir-se-ão outros debates. Se por acaso estiveres em Lisboa de visita gostaríamos que participasses.

Até breve, caro Camarada, aceita um abraço com desejos de muita saúde e bom andamento para o processo relativo ao teu filho.

Carta a FR (26)

20/6/2001

Estimado Camarada:

Por esta altura deves estar chateado comigo, e com razão, porque há muito não dou resposta aos problemas que me tens posto. Eu tenho a minha desculpa, que foi a tragédia da doença e morte de uma minha irmã, pessoa deficiente de quem eu cuidava e cujo desaparecimento me abalou bastante. Durante estes últimos dois meses, tenho continuado o meu trabalho como habitualmente, na edição da revista e dos livros mas reduzi a correspondência ao mínimo. Por isso as tuas cartas ficaram em arquivo todo este tempo, como as outras. Estou agora a pôr o correio em dia.

Em primeiro lugar, a tua saúde, como vai? Espero que continues rijo.

A razão de não ter falado recentemente no caso do teu filho é a falta de elementos novos. Como sabes, numa revista ou jornal é preciso renovar e refrescar o assunto com factos novos para interessar o leitor. Tenho estado à espera que surgisse mais alguma declaração ou decisão das altas esferas para onde tu tens apelado, para poder voltar a atacar o assunto. Mas não quer dizer que não volte a falar, mesmo que não haja factos novos. Logo que haja oportunidade, recordaremos a morte do teu filho e as circunstâncias em que se deu, exigindo um inquérito. O Brochado Coelho não pode fazer mais nada?

O assunto do ateísmo: a minha ideia é preparar um pequeno livro ou folheto. Por isso te pedi algum material. Estou a tentar recolher várias coisas para dar corpo ao livro, também da parte dos anarquistas, eles dedicam-se bastante à crítica da religião. Até agora os elementos que tenho não são suficientes mas espero que o livro vá avante, porque é daqueles assuntos tabu, ninguém quer falar para não se queimar com a padralhada. Quanto à associação que tu tens proposto: como já te disse, eu não tenho disponibilidade de tempo para me pôr à frente. Darei uma ajuda se um grupo de pessoas quiser pegar no assunto. Tenho falado por aqui e por ali, mas até agora sem êxito. Não estou muito inclinado a pôr um anúncio na P. O. sem ter algum ponto de partida, um núcleo de três ou quatro pessoas que queiram trabalhar mesmo na propaganda. Veremos como a coisa corre. Entretanto, se souberes de mais algum livro ou artigo de interesse, diz-me que eu tentarei arranjá-lo para a publicação que tenho em vista.

Dizes-me numa das tuas cartas que estiveste muito tempo sem receber a revista. Fico admirado porque a expedição nunca falha, temos-te mandado sempre. Só se há aí algum problema com a distribuição, vê lá. Quanto à situação financeira, agradeço o apoio que mandaste e não estou à espera que faças mais sacrifícios. Aqueles que têm posses é que devem ajudar. E foi o caso, nesta dificuldade que atravessámos. Como deves ter lido na P. O., vários amigos ofereceram-nos equipamentos para podermos continuar o trabalho. Agora estamos mais desafogados. A revista vai continuar e as edições de livros também. Estou a preparar um sobre a vida do Marx e outro sobre o sistema prisional nos Estados Unidos, a exploração do trabalho dos presos é um dos maiores negócios do capitalismo americano, já têm dois milhões de presos, e ainda falavam eles do Gulag dos russos.

Quanto a outras actividades é que vejo pouca gente disponível. O Bloco de Esquerda está por aí a mexer, como tens visto, e conseguiram agrupar pessoas que estavam paradas há muito tempo. Mas estão muito voltados para eleições e eu aí, francamente, não vejo interesse na situação actual. Precisávamos de formar grupos e associações em todo o lado, pôr gente a atacar o sistema. Parece-me que vêm aí tempos de crise económica séria, vai haver muita gente que vai despertar. Enfim, fazemos o que está ao nosso alcance, esperemos que os mais novos percebam no que estão metidos e vão à luta.

Velho camarada, muita saúde e aceita um grande abraço

Carta a FR (27)

3/5/2005

Caro Camarada:

Registei a renovação da tua assinatura da revista. Em relação à sugestão que me fazes de uma edição de livro sobre o assassinato do teu filho, lamento ter te dizer que não é viável. É um género de livro que a empresa distribuidora certamente não aceitará e portanto teria que ser vendido de mão a mão, o que dá uma venda muito reduzida e não cobre os custos de tipografia. Qualquer livro que eu faço para a Dinossauro custa, só na tipografia, para cima de 1.500 euros e este dinheiro só se recupera desde que a distribuidora encomende umas centenas de exemplares. Não tenho maneira de chegar às livrarias directamente, eles só aceitam os livros através de uma distribuidora.

A única hipótese num caso como o teu é uma edição de autor mas que, como te disse, fica muito cara. Se quiseres estudar a hipótese de mesmo assim fazeres uma edição tua, poderia encarregar-me por minha conta de todo o trabalho inicial (revisão, paginação, montagem) e pedir um orçamento a uma tipografia para a parte de impressão. Podes prever quantas páginas aproximadamente teria o livro? Meter fotos é que não convém porque encarece bastante o preço.

Isto é tudo o que te posso dizer sobre o assunto e crê que não há falta de boa vontade da minha parte. Compreendo e compartilho a tua indignação pelo silêncio que o poder faz em torno da morte do teu filho. Aceita um abraço fraterno do

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[i] Rosa Casaco foi funcionário da polícia política PIDE/DGS  durante  37 anos, chegando a inspector. Chefiou a brigada que assassinou Humberto Delgado em Badajoz.  Nunca foi julgado por nenhum crime.

[ii] O padre Frederico, brasileiro de 42 anos, foi condenado pelo tribunal de Santa Cruz na Madeira a 13 anos de prisão, pelos crimes de homicídio e abuso de menor. Gozando de cumplicidades, evadiu-se e vive actualmente no Rio de Janeiro.

Cartas a FR – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (13)

5/1/1990

Caríssimo Camarada

Só agora tive ocasião de responder à tua carta de 2 de Novembro. Espero que tenhas tido boas entradas no ano de 1990.

Como certamente sabes, está a decorrer uma greve de fome iniciada pelo Ramos dos Santos e apoiada por outros (cinco até à data. O Ramos completou três anos de prisão preventiva em 30 de Novembro; deveria ter sido libertado, como fizeram com o Otelo e os outros, mas recusam-se a libertá-lo. Já foram metidos dois habeas corpus, até agora sem resposta favorável. Ele está bastante enfraquecido, já perdeu quilos e está sujeito a uma crise cardíaca. Tem sido visitado por todos nós e por diversos médicos e está bastante animado.

Fiz um pedido para sermos recebidos pelo Presidente Bochechas, mas o pulha até agora não deu resposta. Vamos lá no princípio da próxima semana, assim como ao Provedor, Assembleia da República, PS, PCP, etc.

Com tudo isto e com o esforço para manter a saída regular da revista, já calculas que não proposta sobre a posso pensar na tua Associação do Ateísmo. Somos poucos para tantos problemas.

E que me dizes à crise do Leste e do PC? Os falsos comunistas e socialistas estão a abrir falência, o que é bom, mas o pior é vermos os americanos a fortalecerem-se com tudo isto. O caso da invasão do Panamá é impressionante. Quem será a próxima vítima?

Por agora é tudo. Já sei que não deixarás de fazer aí tudo o que estiver ao teu alcance em apoio dos companheiros. O Carlos Antunes está-se a portar muito mal neste caso.

Um grande abraço e desejos de muita saúde

Carta a FR (14)

6/12/1993

Caríssimo Camarada

Gostei muito de ter notícias tuas e de saber que continuas cheio de força. O meu projecto de te visitar tem sido sucessivamente adiado, porque me desloco cada vez menos e até o LGo há muito que não vai ao Norte. Registámos a tua assinatura e publicamos a tua carta. Nada temos a opor às tuas propostas, a não ser a nossa falta de qualificação para promover essa união dos revolucionários e dos ateus que propões. Vamos editando a revista com bastantes dificuldades e na esperança de que gente jovem desperte para as questões da emancipação social e faça aquilo que não somos capazes de fazer. É bem verdade, como escreves, que a burguesia só se derruba com armas na mão e não com palavras. Mas para que surjam pessoas dispostas a pegar em armas, muitas palavras terão ainda que ser impressas. Não nos envergonhamos por este nosso modesto trabalho de propaganda – ele é indispensável. O que é preciso é que as palavras esclareçam e animem vontades revolucionárias em vez de semearem a confusão e o conformismo, como fazem quase todos por aí. Esperamos sinceramente que a revista te agrade e que a leves ao conhecimento de amigos teus.

Aceita um abraço e até um dia.

Carta a FR (15)

28/4/1994

Caro Camarada:

Só agora posso responder às tuas cartas. O trabalho de preparação do livro tem-nos ocupado bastante nas últimas semanas. Já mandei o teu exemplar pelo correio e fico à espera da tua apreciação. Se conseguires angariar aí (…) mais algum comprador, será uma forma de nos ajudares a recuperar a despesa da edição. Temos muito mais vantagem nos exemplares vendidos directamente por nós do que naqueles que entregamos à distribuidora, que abocanha logo 55% do preço de capa. Também, nas livrarias vai vender-se a 2.300$00 + IVA, é a única maneira de recebermos algum.

Ainda bem que te agradam os artigos que tenho feito na P.O., o que é preciso é malhar na burguesia; o bicho tantas há-de levar que algum dia há-de ir abaixo, não te parece? Agora, quanto à campanha que pedes para desenvolvermos, de denúncia do assassinato do teu filho, talvez tu não tenhas uma ideia actual das nossas forças, que são muito limitadas. Dão para irmos editando a revista e nada mais. A pouco e pouco, as pessoas que alinhavam nas posições revolucionárias foram escasseando e agora encontramo-nos reduzidos a um pequeníssimo núcleo. Vamos a ver quantos aparecem depois de amanhã para segurar a nossa faixa na manifestação do 1º de Maio. A faixa diz: “Nós também somos culpados do 25 de Abril”. Que achas? Foi a maneira que encontrámos de protestar contra o descaramento de trazerem um pide à televisão nas vésperas do 25 de Abril e não só: toda a casta de salazaristas são agora ouvidos como grandes autoridades para explicar a queda do regime, falar dos sentimentos democráticos do Marcelo Caetano, atribuir a democracia ao mérito do Spínola, etc. Ninguém diz a verdade simples: o país estava na posse duma associação de bandidos e os pides eram os que faziam o trabalho mais sujo e repugnante ao serviço dos outros.

Em conclusão: para além do que já temos feito várias vezes, ou seja, publicar artigos na P.O. lembrando as circunstâncias suspeitíssimas da morte do teu filho[i], nada mais podemos fazer. Eu sei que é muito pouco porque a circulação da revista é muito reduzida. Mas talvez nem seja isso o mais necessário, porque o caso é já hoje do conhecimento de muita gente, graças aos artigos que tens conseguido fazer sair em grandes órgãos de imprensa. Talvez o mais importante para desbloquear o processo fosse um advogado que tomasse o caso a peito, como fez o Brochado Coelho com o assassinato do padre Max (e mesmo assim sem conseguir resultados até à data). Que pensas disso? Duma coisa podes estar certo: da nossa solidariedade em tudo o que estiver ao nosso alcance.

Aceita as nossas saudações revolucionárias e desejos de boa saúde.

Carta a FR (16)

6/6/1994

Caro Camarada:

Com base nos documentos que mandaste sobre o caso do teu filho, fiz um artigo que sai nesta P.O. (amanhã ou depois estará na rua). Reproduzimos a fotocópia dos despachos contraditórios do Hospital Militar, para não deixar dúvida de que houve grossa tramóia em todo o caso. Espero que os argumentos com que apresento o assunto estejam correctos, tu verás se o assunto foi bem tratado.

Já enviaste essas fotocópias para a grande imprensa? Pode ser que algum jornalista se decida a agarrar novamente no assunto e quebre a barreira do silêncio, agora que estão a vir ao de cima vários casos de ilegalidades. (…)

Aceita um grande abraço meu, com desejos de coragem para continuar a luta.

Carta a FR (17)

16/1/1995

Camarada:

Lamento muito o novo golpe que sofreste e espero que mantenhas ânimo para enfrentar mais esse grande desgosto. Eu, infelizmente, tive que acompanhar nos últimos meses a doença e morte duma irmã minha e sei as marcas que isso nos deixa.

Faço seguir pelo correio o livro que encomendaste. A revista deverá estar pronta na primeira semana de Fevereiro e lá vem o comentário acerca da morte do teu filho. Aceita abraços de todos nós, com desejo de muita saúde e coragem.

Carta a FR (18)

6/10/1995

Caro Camarada:

Desculpa a demora em responder-te, mas aproveitei para tirar umas férias e só agora retomo actividades. Não tenho dúvida em dar-te apoio na questão dos processos que queres consultar mas creio que isso passa em primeiro lugar por uma procuração tua e mesmo assim, sendo como são os gajos que tomam conta da Torre do Tombo, é de duvidar que atendam o pedido. Julgo que tens lido os artigos do Fernando Rosas e de outros professores que protestam porque o facho que lá está em director daquilo arranja sempre pretextos para não permitir a consulta dos documentos. Em todo o caso, se me passares uma procuração, eu vou atacar o animal no seu esconderijo. Nome: Francisco Martins Rodrigues, B.l. 6481598, Arquivo de Lisboa, 7/5/84. Creio que é suficiente.

Espero que a tua saúde vá menos mal. Aceita um abraço do camarada

Carta a FR (19)

19/5/1996

Caro Camarada:

Estou a preparar um artigo para a próxima P.O. com base nos dados que me enviaste sobre a morte do teu filho. Sei que é pouco mas é o que está ao nosso alcance. Tudo mostra que existe de facto uma conspiração em alto nível para bloquear as investigações em tomo do caso – quando estão em jogo os comandos da tropa, os juízes metem o rabo entre as pernas. A impunidade é tão grande que agora até já gajos da GNR chegam ao ponto de matar, decapitar e enterrar um preso (um negro?) para esconder o crime, à moda do Brasil. É o que está hoje a rádio a noticiar. Era motivo mais que suficiente para o ministro se demitir de imediato, mas envolvem tudo em palavreado chocho e lá vai tudo andando como se fosse o incidente mais natural desta vida.

Tens mais que razão quando propões a formação de associações de ex-presos políticos e de ateus. São mais do que necessárias para fazer contracorrente neste clima podre de pretensa normalidade democrática, em que o grande capital manipula as pessoas a seu bel-prazer. O nosso problema, já te tenho dito, é a escassez de pessoas dispostas a empenhar-se. Vamos editando a nossa revista com grandes dificuldades, lançando um ou outro livro de denúncia do capitalismo e esperando por melhores dias, que outros venham ajudar-nos para o nosso lado. Algum dia será.

Sobre a tradução do “Trabalho Assalariado e Capital” de Karl Marx, gostaria que a enviasses quando possível para o nosso apartado. É uma obra fundamental e poderiam proporcionar- se condições para a editarmos num livrinho.

Junto envio um livro de poesia recentemente editado pela Dinossauro[ii], com um grande abraço solidário e desejos de boa saúde

Carta a FR (20)

14/7/1996

Caríssimo:

Só agora respondo à tua carta de 26 de Junho. Desculpa o atraso mas meti umas curtas férias, para relaxar. Recebi o texto mas, por coincidência, encontrei-o, poucos dias depois, na Feira do Livro. Existe numa edição do PC, Editorial Avante, e barata. Concluímos que não teríamos saída para o livro e que seria só despesas. Desistimos, portanto da ideia e só é pena não nos termos informado primeiro, escusavas de ter o trabalho e a despesa de nos mandar o original. Se quiseres que to devolva, diz.

Quanto aos outros projectos, só te posso repetir o que já tenho dito: não temos contacto com gente interessada em criar as associações que propões. O P há muito que o não vejo. Aquilo pelo lado deles também não anda fácil. Por muito que nos custe, será necessário aguardar que surjam melhores condições, uma corrente de interesse que dê força a essa ideia. Não deixaremos de fazer a propaganda possível na P.O.

O que responderam os partidos à tua última carta sobre o teu filho? Nada, natural­mente. Precisavas que a televisão se interessasse, daria outro impacto. Já tentaste escrever ao Carlos Narciso, que faz os “Casos de Polícia” na SIC? Se ele te entrevistasse, a coisa dava barulho e teria que haver alguma resposta do poder.

Dá sempre notícias. Aceita um abraço do camarada

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[i] Júlio Pires Ribeiro, capitão da Força Aérea, que apareceu morto na Base 3 de Tancos depois de cinco dias de prisão por ter ajudado para-quedistas revoltosos. (Nota de AB).

[ii] AAVV, “Notícias da Raiva”. (Nota de AB).