Cartas a JV – 6

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 6

24/10/1991

Caro Amigo:

Depois da pausa das férias, voltamos ao ataque… Espero que já tenha recebido a P. O. 31. As suas cartas aparecem em dois sítios, como viu e embora não tenha saído tudo na íntegra julgo que não retirámos nada importante. Se quiser continuar, nós cá estamos. Que tal lhe pareceu este último nº? É muito difícil a uma pequena equipa como nós somos corresponder à diversidade e complexidade de temas que exigem discussão. Você dirá que a dificuldade vem das nossas prisões ideológicas… Veremos. Li na “Batalha” a sua intervenção sobre as revoltas da juventude. Tema que se está a tornar escaldante à medida que a direita fascista lhe mete a mão, segundo leio nos jornais.

Espero que tenha recebido também um boletim MAR  2, feito por nós em colaboração com outras pessoas, para ver se animamos uma campanha contra os malfadados Descobrimentos e, por tabela, contra o racismo, que aqui começa a dar os seus avisos. Brevemente deveremos pôr na rua um livro negro dos Descobrimentos coligado pela Ana e editado pela Antígona. Abraços para si e para a S.

 

Cartas a LC – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC (2)

7/11/1991

Caro Camarada:

O nosso último encontro em Lisboa não chegou a realizar-se. Ainda telefonei duas vezes pare casa de tua irmã mas tinhas-te ausentado e já não deu. Escrevo para saber se já recebeste aí a revista que te mandei como oferta e o que achaste. Gostaria que fizesses una assinatura, claro, e que me indicasses alguém eventualmente interessado em assinar. Se tiveres materiais ou notas tuas relativas a situação dos imigrantes portugueses aí, ao racismo que por aí está a crescer, etc., seria interessante. No próximo nº vamos publicar uma carta duma rapariga alemã de Hamburgo que conta coisas sobre os skinheads.

Nós cá vamos com dificuldades mas com fôlego para continuar mais uns cinquenta anos, pelo menos. Nem sempre a escumalha há de estar na mó de cima. Um abraço

 

Cartas a MV – 39

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (45)

18/10993

Caríssimo:

Seguiu há dias a P.O. (5 ex ), espero que a recebas em condições e que te agrade. Infelizmente, quando recebi a tua nova versão do Affreixo já a revista estava na tipografia, pelo que não foi possível voltar atrás com os ajeitamentos que eu próprio lhe tinha dado. Espero que não vá muito fora do que tu pretendias.

Recebemos também o teu desenho para a exposição do MAR, que esteve em bom lugar. Foi na Casa da Imprensa, ao Chiado, e durou nove dias, sendo visitada por um certo número de pessoas. Como acção de propaganda anti-racista valeu a pena, mas financeiramente saiu-nos cara porque não apareceram os compradores que esperávamos. Dizem os entendidos que o mercado da arte está parado por causa da crise. Assim ficou o MAR proprietário de uns 50 quadros e desenhos oferecidos por artistas, alguns de renome, e que ainda não sabemos como transformar em patacas. Temos em vista expor alguns num restaurante moçambicano aqui de Lisboa. Pode ser que noutra ocasião se
proporcione uma nova exposição, mas para já não nos metemos noutra: é coisa que dá
muito trabalho e sai cara. Tu deves saber disso, porque tens andado nesses meios.

Metemos o anúncio das edições Albatroz na P.O. 41. Uma dúvida: a distribuição em Portugal ainda é feita pelo (…)? Deve-se indicar isso no anúncio? Tencionamos meter um anúncio à revista Albatroz na próxima P.O., mas só se ela entretanto sair, como é lógico, e se tu nos pagares esse anúncio com um artigo, de tema à tua livre escolha – actualidade francesa ou portuguesa, imigrantes, reflexões
ideológicas…. Que dizes? Convém-nos tê-lo na mão até meados de Novembro.

A nossa opinião quanto à “paz dos bravos” na Palestina (como aqui lhe chamaram, enlevados, os jornalistas tansos e os espertos) coincide com a tua. Nesta época de derrocada geral da luta anti-imperialista, os magnates estimulam as capitulações rodeando-as de uma cor nobre e cobrindo de elogios os dirigentes que se ajoelham. Com o Mandela é o mesmo. Com o Fidel estão a ver se lhe dão a volta e se em vez de o derrubar conseguem pô-lo de gatas. Do ponto de vista da direita é muito mais rentável que os antigos inimigos se virem do avesso e se desacreditem do que serem derrubados pela força e ficarem com imagem de mártires.

Quanto à situação nacional, caminhamos para uma ardorosa batalha entre PS e PSD nas eleições autárquicas, prólogo para as do Parlamento Europeu e para as legislativas. Por enquanto, apesar do ambiente de crise que se acentua, acho que o Cavaco não está seriamente ameaçado, porque ainda ninguém lhe vê alternativa credível. Nas autarquias, claro, vão marcar pontos o PS e a CDU, mas essa é a vocação deles – gerir câmaras e freguesias. Das coisas importantes trata a direita.

Por agora é tudo. Obrigado pela foto da mãe e da filha. Abraços para todos vós

Cartas a MV – 38

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (44)

14/9/1993

Caro M:

Duas respostas:
— Sim, recebi o Affreixo, dei-lhe uns pequenos ajeitamentos, segundo tua
autorização, e já está aprovado para sair no próximo n° da P.O. O Conselho
de Redacção pede mais!

— Mário Brochado Coelho tem escritório na Rua (,,,).

Três perguntas:
— recebeste o pedido dum desenho do ZAV para ser oferecido à exposição
de artes plásticas promovida pelo MAR, Movimento Anti-Racista, e que se
inaugura no próximo dia 23 de Setembro? Se não responderes de imediato
não te podemos incluir no catálogo!

— o «Combate» de Setembro noticia (muito favoravelmente, junto fotocópia)
o último livro das edições Albatroz, Rages Douces de Saldanha da Gama,
mas eu não recebi. Estamos perante um boicote à P.O.?

— a jovem S recebeu o cartão de felicitações por ter nascido? está bem
disposta?

Estamos agarrados à revista, depois dou mais notícias. Um abraço.

Cartas a MV – 35

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (41)

7/6/1993

Caro M:

Recebi há dias uma forte molhada de revistas, catálogos, panfletos da festa da “Lutte
Ouvrière”, etc., que estou a estudar com vagar. Calculo que tenhas recebido as segundas
provas do “Anal/f/abertos” e que esteja tudo a andar por esse lado. E o Albatroz, nunca mais sai? Queria pôr um anúncio na P.O. mas não sei se se pode já indicar a data de saída.

Também soube pelo teu postal que estiveste a fazer umas férias em Creta, como
verdadeiro europeu. E quando vens visitar o Portugalório arruinado? Daqui não há muito para contar, ou sou eu que ando distraído. PSD e PS andam entusiasmados em ataques mútuos, com vista às eleições autárquicas que são em Dezembro, mas tenho a sensação que o pagode está-se marimbando, soa tudo a manipulação. A grande arma do Cavaco é que a massa das pessoas entrou mesmo na lógica de que a política não vale a pena e o que interessa é ganhar mais dinheiro.

Marchámos na manifestação da CGTP no 1º de Maio, bem concorrida mas mais folclórica que militante e encontrámo-nos depois com os amigos num lanche, em simples confraternização. É o que se arranja e viva o velho.

As actividades anti-racistas do MAR é que apresentam melhores perspectivas e atraem alguns jovens. Está em preparação um espectáculo teatral para celebração condigna do Dia da Raça, o 10 de Junho: um leilão de escravos, “colhidos na costa da Berbéria, todos sãos e fermosos”. O infante D. Henrique preside à divisão dos escravos em lotes, montado num cavalo. E para maior picante, a coisa vai-se passar frente à Casa dos Bicos, que é sede da Comissão Nacional dos Descobrimentos. Vamos a ver se não vai tudo corrido à batatatada pela polícia.

A P.O. está pronta para a tipografia; embora um pouco atrasada, vai sair dentro de
uma semana. Decidimos iniciar uma nova série em Outubro, quando entrarmos no 9º ano.
Passamos a formato A4, para poder paginar no computador e aproveitamos para arejar um pouco a maquete. O AB fez um projecto de maquete, de que te mando cópia
junto. Gostaríamos de conhecer as tuas críticas e sugestões. Também seria bom se desses
algumas sugestões para a capa, de que ainda não há nada feito, tipo de letra do título, etc.
Enfim, peço-te que aproveites a ocasião para nos dizer tudo o que te parece mal no modelo
actual e na maquete prevista, para ver se nos modernizamos e europeizamos.

Estava para publicar neste n° 40 o último artigo da série que tenho vindo a fazer sobre
a revolução russa, “Afinal Kautsky tinha razão?” Os livros que me mandaste foram-me muito úteis e gostei de descobrir o tão falado Kautsky não apenas por referências mas nas suas próprias palavras. (Desculpa não ter respondido à tua oferta do livro “Terrorisme et
Communisme” de Trotsky, mas tenho-o cá). É estimulante ver a revolução confrontada por
uma reformista quando é da classe do “renegado Kautsky” — activa as ideias, apresenta as
coisas sob outros ângulos. Acontece que o artigo ainda estava um pouco cru e como já não havia tempo, ficou adiado para Outubro.

Penso até coligir e melhorar os artigos que tenho feito sobre a revolução russa, com vista à publicação em livro (ou livrinho) no Outono. Se isso for avante, mando-te uma cópia lá para Agosto/Setembro, a fim de tu me dares uma opinião. Gostaria de dar por encerradas as minhas reflexões sobre este assunto, até porque já me dá a sensação de estar sempre a mastigar no mesmo. De qualquer modo, chego ao fim com uma perspectiva que me parece mais marxista do que foi a revolução russa, o Lenine, Staline, Trotsky, etc. Tinha uma camada tão espessa de ideias feitas, adquiridas nos bons tempos da propaganda oficial da URSS, que foi preciso remexer nisto tudo para conseguir libertar o pensamento. Espero que isso tenha consequências positivas quanto aos outros assuntos que têm que ser repensados.

Perguntavas numa das tuas últimas cartas se podes reproduzir o artigo do R,
nem se pergunta! Usas os artigos da P.O. como entenderes. Eu colhi dos Anal/f/abertos o
texto sobre o futebol, que sairá na P.O. 40. Espero que não tenha metido água. (…)

E é tudo, por agora. Não vens mostrar Portugal à tua companheira? Espero que a S
desembarque numa boa. Um grande abraço.

Cartas a MV – 32

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (37)

15/9/1992

Caríssimo:

Não recebi resposta às questões que te pus na minha carta de 14 de Julho: colaboração tua para a P.O., renovação da assinatura do Monde Diplomatique, contacto com o Serfaty, notícias sobre o Albatroz. Estou preocupado com a tua falta de notícias mas espero que estejas apenas de férias, numa boa.

Escrevo-te esta para te dizer que renovei aqui a assinatura do Monde Diplomatique; não faças aí uma em duplicado. Estamos a fechar a P.O., se quiseres mandar alguma coisa ainda vem a tempo. Escreve ou tomamos pública a tua irradiação! Além disso, só te escrevo sobre a política cá da terra quando escreveres uma carta em condições.

Um abraço

Carta a MV (38)

9/12/1992

Caro Manuel:

Só agora, depois de enviada para a tipografia a P.O. nº 37, pude meter-me a pôr em dia a vastíssima correspondência que aflui de todos os cantos do mundo… Respondo à tua carta de 28 de Outubro.

A visita do torcionário Hassan II não está marcada, nem oficialmente confirmada. Já foi mais de uma vez anunciada na imprensa, desde Abril ou Maio, mas depois fica tudo em silêncio. Suponho que há dificuldades no estabelecimento da agenda, interesses económicos conflituais (pescas, conservas). Uma coisa parece certa: do lado de cá, o Mário Soares está interessado em promover a visita e tem lançado periodicamente referências simpáticas a Marrocos na imprensa, além de abafar as referências desagradáveis. Uma coisa positiva foi a aparição recente do Abraham Serfaty num programa organizado pela Amnistia Internacional, no novo canal da SIC (Balsemão/«Expresso»), denunciando a situação dos presos marroquinos. De acordo com a tua sugestão, vou escrever ao Serfaty propondo a redacção desse manifesto, para não sermos colhidos de surpresa se a visita for avante dum momento para o outro. Procurei mas não encontrei fotos de visitas dos grandes chefes lusitanos a Marrocos.

A P.O. passou para 32 páginas e está a ampliar a lista de colaboradores regulares, como verás pelo nº 37 que te chegará dentro de dias. Só a «Carta de Paris» não corresponde. Quando te irritas com algum acontecimento e tens um dos teus desabafos, fazes óptimas cartas; o pior é que te irritas poucas vezes… Será desta que vais mandar algo? Ganhámos um novo colaborador, João Paulo Monteiro, do Porto, que parece ter ideias e sabe expô-las. Diz-me o que te parecem os artigos dele.

 A distribuição da revista também deu um «grande salto em frente»: passámos para 120 pontos de venda na região de Lisboa e estamos a alargar também no Porto e a arranjar outras localidades, tudo na base militante. O nosso sonho continua a ser a passagem à publicação mensal, mas só se assegurarmos uma rede maior de colaboradores certos.

Quanto a outras áreas de actividade, continuamos bloqueados. O único campo em que temos feito alguma intervenção tem sido na questão do racismo e colonialismo, através do MAR, Movimento Anti-Racista. Deslocámos uma delegação a Cádiz em Setembro, onde participámos num encontro internacional contra as Comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos; contactos com esquerdas latino-americanas, índios, teologia da libertação, não nos faltam. Continuamos a ir para a rua Augusta fazer agitação anti-racista e anti- descobrimentos. De cada vez, é um êxito quanto à comoção pública que causa, mas, como digo numa crónica que escrevi na última P.O., as reacções de extrema-direita e mesmo abertamente nazis começam a tomar-se descaradas, perante a vacilação e o receio da maioria das pessoas presentes. O ambiente aqui não tem termo de comparação com o do resto da Europa, vai tudo sempre mais devagar, mas, como bons alunos, acabam por lá chegar…

Um teste esclarecedor foram os acontecimentos em Angola, que levantaram na imprensa daqui uma vaga pró-Savimbi que nem queiras saber. Mando-te fotocópia dum artigo que consegui fazer sair no «Público». Agora estou a ver se publicam um outro que para lá enviei, em resposta a um artigo porco do Pacheco Pereira, que me referia entre os rivais infelizes de Cunhal (o velho passou à semi-reforma no congresso do PC que acaba de ter lugar).

Quanto ao terreno propriamente comunista, estamos a bradar no deserto. Espero que não me venham buscar um dia destes para o manicómio. Os nossos contactos internacionais não avançam, recuam. Os norte-americanos andam metidos num debate interno que possivelmente vai dar a divisão em duas ou três partes. Dos iranianos, quase nada sabemos, a não ser que o Mansor Hekmat saiu do partido. E pela tua parte? O último livro do Tom Thomas é interessante, eu tinha preparado um comentário-resumo, mas saltou por falta de espaço, sairá na próxima P.O. Estou a receber o «Monde Diplo».

Pedimos tudo o que vejas por aí de papéis com algum interesse. É tudo, Manel. Abraços de todos nós. Se vieres a Portugal, procura-nos!  

Cartas a MV – 22

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (25)

5/6/1991

Caríssimo:

Os teus materiais têm chegado em ordem. Vi­mos o teu apelo para apoios para a saída do “Al­batroz” e, a título mais simbólico do que outra coisa, dada a nossa escassez de meios, decidimos enviar 5.000$00. Foram num vale postal para essa morada (a Ana juntou mais 1.000$00 pela despesa do livro que lhe mandaste). Ficamos à espera do material. Já chegou aí a PO 29? Enviei para as três moradas.

Estamos a preparar um pequeno manifesto para o 25 Abril / 1º Maio e um encontro do pessoal. Também pensamos fazer uma assembleia em meados de Junho, será possível contar com a tua presença?

Em breve te escrevo com mais vagar. Um abraço

Carta a MV (26)

5/6/1991

M:

Tens razão, estou bravo contigo e vou cortar todas as relações: fizeste-me outra vez a partida de passar por cá e não me passar cartão. Só tens uma desculpa, foi essa das três frentes de combate simultâneas. £ pesado para qualquer um. Da próxima, tens denúncia pública na P.O. como “elemento suspeito anarco-trotskizante”, pelo menos. O “Albatroz” está mais sumarento que os anteriores e mais politizado, pareceu-me. Fiz uma nota à pressa na última P.O. (põe-te alerta, deve estar aí a chegar!), hão conheço nada dos meios da esquerda real aí de Paris, mas parece-me que o “Albatroz” se po­de tornar um ponto de encontro de sensibilidades variadas, convivendo aí em boa paz. Pelo menos não há dúvida de que te tornaste mais atrevido nos teus contactos; agora já preparas uma colaboração do Bettelheim! Oxalá a distribuidora (…) faça alguma coisa pela revista aqui, criar um certo público aqui na parvónia seria um apoio para ter a continuidade assegurada. Nos meios da imigração por­tuguesa aí, calculo que não tenha saída, até pela pouca colaboração sobre temas que lhes digam directamente respeito. A minha colabora­ção, diz-me para quando será precisa; por acaso fiz para a P.O. um comentário justamente sobre o Papa e a religião, mas não impede que escreva outro, num registo um pouco diferente.

Esteve cá o V: interrogámo-lo sobre a saída do “Albatroz” mas ele, sempre sem querer fazer críticas, foi dizendo que tu monopolizas muito a condução das coisas. Deve ter uma parte de razão porque tu mesmo o reconheces na tua carta. A outra parte, que ele não diz, é a falta de genica dele para trabalhos desses. Só mes­mo leninistas-stalinistas-maoístas-enveristas-kimilsunguistas como nós são capazes de fazer revistas subversivas num tempo destes.

A P.O. vai na mesma, apenas um pouco mais aberta também nas colaborações,o que não nos faz mal nenhum. Romper o cerco, é a palavra de ordem do presidente Mao. Ou melhor: combinar a guerra de subterrâneos com umas sortidas fulminantes para desorientar o inimigo! Agora vamos entrar na pausa de férias e eu vou aproveitar para trabalhar dois artigos que tenho andado a adiar por falta de tempo mas que tocam em pontos sensíveis: 1) Será que o descalabro do Leste prova que os anarquistas tinham alguma razão e que o Lenine era um autoritário e o próprio Marx teria aberto a porta ao triunfo dos burocratas? 2) Será que a evolução económico-social contemporânea está a dar o golpe de misericórdia na teoria da hegemonia operária e da dita­dura do proletariado?

Atrevimento não me falta, como vês e o pior é que neste momento não faço ainda bem ideia de como responder a estas ideias. Ando a ler e a meditar, vamos a ver se daqui até Setembro não me embaraço em interrogações. Fora disto, agito-me em remorsos cíclicos por não avançar com o tão falado li­vro sobre o PCP e, como já é costume, todos os anos à entrada do Verão ponho-me a pensar que talvez tivesse tempo para…

De resto, cá vamos. O núcleo da P.O., depois de ter mirrado a olhos vistos, parece ter-se consolidado na sua travessia do deserto. Até quando? Financeiramente, acho que vamos sobrevivendo, com menos angústias do que antes.

Escreveu-nos o Paul, da “Voie Prolétarienne”, dizendo que está traduzir para francês a “Resposta aos comunistas americanos”. Tens contacto com ele? Seria bom fazermos um suplemento com este artigo e tu distribuíres aí pela tua lista de possíveis interessados.

Óptimo pela cassete do filme da Intifada, estamos a pensar numa sessão pública de aniversário lá para fins de Setembro e seria interessante. Piquei chateadíssimo com es­sa de se ter perdido o livro de Las Casas, a etiqueta ia co­lada, o que deve haver é muitos roubos nos correios aí em França. Agora não tenho nenhum outro exemplar para te man­dar mas vou pedir ao editor. Andamos a animar uma comissão contra a histeria nacionalista em torno dos Descobrimentos, contra o “regresso a África” (palavras do presidente Boche­chas) e contra a exploração dos imigrantes africanos e o racismo. Vamos a ver se singra. Depois mando-te os papéis que houver.

Quanto à eleição do Tomé na lista da CDU, em lugar cedido pelo PCP, sem comentários… O Pires deu uma entrevista ao “Expresso” justificando o acordo porque o PCP mudou, embora ainda não saiba que mudou! Autêntico! Eu a pensar que o tipo tinha entrado em depressão e eis que aí apa­rece o velho Pires todo risonho e optimista. Sou mesmo ingénuo!

Esta folha em que escrevo acabou. Não deves dinheiro nenhum à Ana. Um abraço