Carta a JR – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JR – 1

17/2/1994

Caro Amigo:

Soube pelo OR do teu interesse em fazeres uma assinatura da P.O., pelo que aqui te mando o último número publicado (ele já me deu um cheque por um ano). Gostaria muito de conhecer a tua opinião sobre as posições defendidas na revista, nomeadamente sobre a questão da União Soviética, assunto sobre o qual fiz uma série de artigos de que te mando fotocópia. Talvez numa das tuas vindas a Lisboa se proporcione um encontro, que dizes?

Escrevo-te também para te propor colaboração numa iniciativa que vai explicada na circular junta: a edição de um livro pelo 20° aniversário do 25 de Abril, composto por depoimentos que retratem um pouco esse período para quem não o conheceu ou já o esqueceu. Se estiveres de acordo e entretanto não vieres tão cedo a Lisboa, poderias gravar um depoimento e enviar-me a cassete, ou então escrever um texto, até duas páginas dactilografadas. Fico a aguardar a tua resposta, tão breve como te seja possível.

Tenho grande satisfação em estabelecermos contacto. Aceita um abraço

Cartas a JV – 15

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 15

16/6/1997

Caro Camarada:

Recebi o teu recado para nos encontrarmos mas foi-me completamente impossível. Ainda telefonei para a casa do Bairro Alto (tua prima, julgo) mas ela disse-me que não estavas lá e eu não tenho o outro telefone. Vão por esta via as minhas desculpas. Nos últimos meses os meus problemas familiares têm tomado um tal volume, aceleração e imprevisto que com frequência me obrigam a cancelar compromissos. Uma família onde só há terceira idade e não se procedeu em devido tempo à renovação dos quadros pode ver-se em grandes apertos, sou eu que te digo.

Fiz uma pequena recensão (também muito à pressa) do teu livro, que li em diagonal e me pareceu bastante interessante. Sai na próxima PO. que receberás na semana que vem. Tens editor em vista cá no burgo?

E a tua estadia, que tal? Fizemos a nossa passeata e lanche do 1º de Maio, correu bem, na medida do possível. No próximo ano, espero que nos encontremos no nosso café, para nos embebedarmos e conspirarmos em conjunto, como bons extremistas que somos. Perguntas se Lisboa ainda existirá para o ano? Decerto existe mas talvez já esteja promovida a capital de província. Os castelhanos estão a tomar posse de tudo. Falta-nos cá o Nuno Alvares Pereira, esse é que lhes fazia ver. Enfim, haja confiança na revolução mundial. De mais a mais agora, que o semicamarada Jospin chegou ao poder e meteu 4 camaradas em ministros, vai ser imparável. Um abraço.

Cartas a JV – 14

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 14

14/2/1997

Caro Amigo:

Os teus materiais cá chegaram em boa ordem. No nº 57 metemos um extracto das “Chinoiseries”, dum tal Charles Reeve, conheces? Elucidativo. Sobre a greve dos condutores de camiões, tivemos um artigo programado para o nº 58 (está a sair), demos os teus e outros elementos ao MC (suponho que conheces), mas ele envolveu-se de tal forma num comentário a um recente livro do Dr. Álvaro Cunhal que acabou por nos deixar descalços quanto aos camionistas. Cunhal é fundamental, claro, mas não sei se foi boa a troca. Eu não li o livro do homem, mas a televisão tem-lhe dado algum reclame e ouvi que vai sair uma grande entrevista com ele no Jornal de Letras. O homem quer acabar a carreira como literato, pulir a imagem para a posteridade. E ele e o Soares, a tomarem as últimas disposições para garantir que o funeral será muito concorrido. Aprenderam com o Mitterrand.

Voltando aos camionistas. Agora são os espanhóis que estão a bloquear as estradas. Âs novas realidades proporcionam possibilidades inesperadas de paralisar e economia dum país. E se uma (futura) Federação dos Camionistas Europeus resolvesse bloquear as estradas do continente? O que a televisão dá da greve em Espanha são os protestos dos nossos compatriotas camionistas, ansiosos por trabalhar e indignados com os grevistas que lhes partem vidros, furam pneus, etc. Ontem, dia 13, estimulados pelo ambiente, alguns dos nossos camionistas tentaram bloquear a estrada à entrada de Vilar Formoso mas a GNR atirou-lhes com os cães para cima e a tentativa fracassou, pelo menos para já. Dizia um deles no telejornal: “Não está certo; em França e em Espanha bloqueia-se as estradas e a polícia não intervém; aqui atiram-nos logo com os cães”. É que ele não sabe que à Europa só vamos buscar o que é bom, não os hábitos relaxados. Polícia aqui não brinca. Apareceu mais um rapaz morto, depois de ter sido levado para a esquadra, em Vila Franca. Parece que estava bêbado num bar e molhou um guarda com cerveja. O que é que ele queria? De resto, os polícias juram que não lhe fizeram mal nenhum. Aguarda-se o resultado da autópsia.

Quanto ao material sobre a Guiné-Bissau, lamentavelmente não temos para lá contactos, não lhe pudemos dar destino. As nossas edições é que estão a coxear dos dois pés. O distribuidor impõe-nos condições cada vez mais duras, quer asfixiar-nos, e nós não vemos possibilidade de lançar nada novo pelos tempos mais próximos. O livro do Che “Viagem pela América” vendeu razoavelmente, mas já o último, “Os meus anos com o Che”, da ex-mulher, está a sair pouco. Cada livro é um agravamento dos prejuízos, nada a fazer. Precisávamos de uma rede alternativa de distribuição, apontada para o público que ainda consome coisas destas. A revista é que não pode falhar; por acaso, este número vai sair com duas semanas de atraso, porque os meus problemas familiares têm-me bloqueado.

Se calhar queres que te fale da actualidade nacional, mas não estou em condições. Entre enredos da bola, enredos internos dos partidos, enredos da droga, os telejomais são desmobilizadores. PS e PSD ultimam o acordo para a revisão da Constituição; reina um saudável consenso democrático, pelo menos… Podes pelo menos dormir descansado: quando vieres a férias encontras tudo na mesma. E quando vens? Dá notícias. Abraços nossos para ti e cumprimentos para a S.

Cartas a JV – 12

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 12

31/1/1996

Caro Amigo:

De facto, a tua assinatura caducou mas não cortámos o envio. Mandamos sempre mais alguns números com a proposta de renovação. Se não recebeste, a culpa deve ter sido dos teus amigos grevistas dos correios aí de França, são uns malandros que não querem trabalhar, só querem privilégios à nossa custa. O Chirac é que os topa. De toda a maneira, os teus 100 francos são bem-vindos, e ficas inscrito por mais um ano.

Se vieres em Abril, vais encontrar Lisboa completamente mudada, respira-se um ar novo desde que o socialismo subiu ao poder. Em todo o lado há plenários, saneamentos de capitalistas, ocupações de casas e fábricas, desfiles populares com bandeiras vermelhas e vivas ao Sampaio… Espero que não acredites.

A P.O. vai para a tipografia, espero que desta vez a recebas e que aprecies. Mando também o número anterior, para não ficares privado da nossa prosa. Abraços para ti para a S.

Cartas a JV – 11

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 11

9/2/1994

Caro Amigo:

Agradeço os jornais e documentos que tens mandado.. A P.O. deve vir hoje da tipografia e ficamos com um breve período de pausa, para respirar e sobretudo ler material que se vai acumulando. O teu reparo sobre o homossexualismo chegou quando se estava a fechar a redacção e ainda deu para o metermos em carta do leitor. Aguardemos as reacções. Se queres que te diga, nunca nos dedicámos a discutir muito o assunto e creio que existem opiniões diferentes entre nós. Talvez a tua carta nos obrigue a discutir o problema. A posição que saiu no artiguinho que referes não pretendeu obviamente dizer que a homossexualidade seja uma doença, mas apenas apontar o seu florescimento nas prisões como um dos índices da situação degradante em que os presos se encontram, privados duma vida sexual normal. Não concordas?

Por cá, a situação económica agrava-se lentamente, embora não tanto como alguns previam. O desemprego oficial é de 6% mas este número tem pouco a ver com a realidade. Será 8%, 10%? O funcionalismo público vai fazer a segunda greve no espaço de um mês, porque o governo pretende dar-lhe um aumento de 0% a 2%, omitindo a inflação, ou seja, um “aumento” negativo. Dos sectores operários há algumas acções de protesto, mas até agora dispersas. As duas centrais estão a radicalizar a linguagem mas não mais do que isso, é só para absorver o descontentamento. Qualquer delas, mas sobretudo a UGT, estão escandalosamente vendidas às verbas da Comunidade, a pretexto dos cursos de formação profissional, e ficam na dependência do governo para embolsar as massas. De modo que berram muito mas arrastam os pés e procuram dispersar as lutas. É a modernização que chega à ocidental praia lusitana.

Será que nos encontramos na sessão do aniversário da Batalha em 26 deste mês? Eu vou lá. Abraços meus,  da Ana e da Beatriz, para ti e para a S.

Cartas a JV – 10

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 10

8/12/1993

Caro Amigo:

Não sei donde partiu o atraso mas a tua carta datada de 22 Novembro só me foi entregue no Correio em 6 Dezembro. Já temos a P. O. na tipografia e não nos foi possível incluir nada dos elementos que mandaste. Sobre a greve da Air France, felizmente, o MV mandou uns comentários que publicámos com destaque. Aqui também houve “bernarda” com os trabalhadores da TAP, mas o pessoal mostrou muito menos combatividade que o daí. De qualquer modo, o apertar da crise obriga o ambiente social a mudar lentamente. Para já, quem aparece na ribalta são os estudantes, cujas manifestações devem ter obrigado o Cavaco a uma remodelação governamental,, que deu um sinal de fraqueza. O homem até agora fazia gala da sua firmeza de rocha, de modo que esta cedência talvez lhe vá tirar muita da confiança quase supersticiosa que a pequena burguesia tinha nele – a admiração pelo “homem forte”. A oposição está ao ataque, tentando capitalizar tudo o que puder dos resultados das eleições autárquicas – a campanha eleitoral, desta vez, é um carnaval imbecil, com “debates” na televisão com as claques a gritar por um ou por outro dos candidatos e a agitar bandeirinhas, numa algazarra infernal em que se faz tudo menos debater seja o que for. Um espectáculo miserável, que dá bem a medida da democracia a que temos direito.

De qualquer modo, por enquanto é cedo para saber se é irreversível a crise do governo. Só se a situação económica tiver agravamentos dramáticos. Para já, além da TAP, houve alguns protestos operários (que a imprensa, como de costume, “desdramatiza” o mais possível), nomeadamente uma marcha de fome de vidreiros da Marinha Grande para Lisboa e uma greve “selvagem” dos portuários de Setúbal, greve na Lisnave, etc. As centrais não assinaram a concertação social (ou 4% ou nada, disse o governo) e falam em greve geral mas de forma mole e indecisa. Em Espanha já está marcada para Janeiro, mas lá a situação é sempre mais agitada e desperta do que aqui. Aqui, num resumo que pode ser muito subjectivo, eu diria que o governo está mais ameaçado pelos estudantes, médicos, juízes, empresários agrícolas, do que pelos operários e assalariados. E no entanto, a situação destes vai-se tomando dramática. Coisas…

Pela nossa parte, de novo apenas um convite que recebemos, a Ana e eu, para intervirmos numa semana de debates sobre o centenário de Mao, realizada pela Biblioteca-Museu da Resistência, organismo dependente da Câmara de Lisboa. Outros participantes (em dias diferentes!) são o Arnaldo de Matos, Pacheco Pereira e Pedro Baptista (ex-OCMLP). Pelo menos, estão convidados, não sei se vão. Decidimos aceitar, embora o público seja restrito, para valorizar o Mao revolucionário dos primeiros anos e fazer fogo contra a bronca ironia com que os tipos do PS e do PC falam da revolução chinesa, como se fosse uma anedota.

Espero que a Fora do Texto mande o teu livrinho (costumam mandar sempre) e far-lhe-emos referência sem falta. Também espero poder aproveitar a tua sugestão de publicar algum extracto dos teus artigos como carta. Faço votos por que tudo vos corra bem. A P.O. deve estar a sair da tipografia. Abraços para ti e para a S. de todos nós.

Cartas a JV – 9

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 9

23/8/1993

Caro Amigo:

Estou a responder à tua carta passados dois meses, mas como foi o tratamento geral que dei a toda a correspondência, divide-se o atraso entre todos… Só agora, em vésperas de partir para uma semana de férias (director de revista sofre muito!), decidi que não podia adiar mais o correio.

Pois, quanto à tua indisponibilidade para colaborar na P.O., eu tenho que a compreender e respeitar, naturalmente. Não tenho dúvida nenhuma de que estamos em correntes políticas bem diferentes e que os pontos de desacordo são mais que muitos. Mas eu julguei que, no terreno da política diária, podia haver um terreno comum, em que considerássemos mutuamente vantajoso publicar comentários teus sobre a actualidade política francesa ou europeia, por exemplo. Isto tendo em consideração a quase inexistência de publicações contra o sistema, aqui em Portugal, e os aspectos positivos que tu, apesar de tudo vês na P.O. Como tu dizes, pelo menos num aspecto estamos lado a lado: ao avisar as pessoas que isto está a rebolar para o abismo. Já é um bom ponto de acordo.

Quanto à questão da argumentação agressiva e de ataque pessoal a que te referes, não me parece francamente que tenha sido esse o caso. Houve vivacidade na tua crítica e vivacidade na resposta da Ana, mas não mais do que isso. Não vejo que ficasse afectada a possibilidade de diálogo de parte a parte. Mas, tudo bem. Ficamos nós a perder, que gostaríamos de incluir na revista maior cobertura de temas internacionais e maior diversidade de perspectivas nas colaborações. Vamos iniciar em Outubro um novo formato (A4), tomado necessário para nos adaptarmos ao computador. Aproveitamos para arejar a maquete, tomá-la um pouco menos compacta. Quanto aos temas da revolução russa, será o último artigo (espero) da série que tenho vindo a fazer. Há que pensar noutros assuntos. O pior é a falta de tempo para estudar seriamente.

Aceita abraços meus e da Ana, para ti e para a S. Da Beatriz não posso dizer nada porque tem estado a dar aulas fora de Lisboa e há um tempo que não a vejo. Julgo que vai voltar para cá em Outubro.