Carta de João Pulido Valente ao CMLP

João Pulido Valente

Carta ao CMLP

 

3/8/1966

Caros Amigos

Só agora tive oportunidade de contactar com vocês. Há aproximadamente um mês que fui transferido para Caxias. Durante esse tempo inteirei-me do comportamento perante a polícia de todos os camaradas presos, tendo actualmente um conhecimento profundo do comportamento dos camaradas mais responsáveis. Continuar a ler

Carta a C.

Francisco Martins Rodrigues

Carta a C.

Março [de 1965]

Querida C.:[i]

Com a costumada irregularidade e atraso, venho escrever-te um pouco, porque os meses passam sem eu dar por isso e se não fosse a N.[ii] chamar-me a atenção e repreender-me constantemente, desconfio que o desleixo era ainda mais escandaloso. Eu sei que não é justo mas custa-me escrever e sobretudo estas cartas nossas em que temos de passar por cima de tudo o que é a nossa vida e os nossos problemas diários. Continuar a ler

Cartas a JV – 9

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 9

23/8/1993

Caro Amigo:

Estou a responder à tua carta passados dois meses, mas como foi o tratamento geral que dei a toda a correspondência, divide-se o atraso entre todos… Só agora, em vésperas de partir para uma semana de férias (director de revista sofre muito!), decidi que não podia adiar mais o correio.

Pois, quanto à tua indisponibilidade para colaborar na P.O., eu tenho que a compreender e respeitar, naturalmente. Não tenho dúvida nenhuma de que estamos em correntes políticas bem diferentes e que os pontos de desacordo são mais que muitos. Mas eu julguei que, no terreno da política diária, podia haver um terreno comum, em que considerássemos mutuamente vantajoso publicar comentários teus sobre a actualidade política francesa ou europeia, por exemplo. Isto tendo em consideração a quase inexistência de publicações contra o sistema, aqui em Portugal, e os aspectos positivos que tu, apesar de tudo vês na P.O. Como tu dizes, pelo menos num aspecto estamos lado a lado: ao avisar as pessoas que isto está a rebolar para o abismo. Já é um bom ponto de acordo.

Quanto à questão da argumentação agressiva e de ataque pessoal a que te referes, não me parece francamente que tenha sido esse o caso. Houve vivacidade na tua crítica e vivacidade na resposta da Ana, mas não mais do que isso. Não vejo que ficasse afectada a possibilidade de diálogo de parte a parte. Mas, tudo bem. Ficamos nós a perder, que gostaríamos de incluir na revista maior cobertura de temas internacionais e maior diversidade de perspectivas nas colaborações. Vamos iniciar em Outubro um novo formato (A4), tomado necessário para nos adaptarmos ao computador. Aproveitamos para arejar a maquete, tomá-la um pouco menos compacta. Quanto aos temas da revolução russa, será o último artigo (espero) da série que tenho vindo a fazer. Há que pensar noutros assuntos. O pior é a falta de tempo para estudar seriamente.

Aceita abraços meus e da Ana, para ti e para a S. Da Beatriz não posso dizer nada porque tem estado a dar aulas fora de Lisboa e há um tempo que não a vejo. Julgo que vai voltar para cá em Outubro.  

Cartas a JV – 7

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 7

9/12/1992

Caro Amigo:

Registámos a renovação da assinatura e agradecemos também os textos que mandaste junto. Calculo que as minhas reflexões sobre a revolução russa não te convençam nada mas as leituras que vou fazendo mais me confirmam na ideia de que as críticas anarquistas e «comunistas de esquerda» falham ao atribuir ao leninismo os males que resultavam da agonia da própria revolução, agonia inevitável devido aos seus limites económico-sociais. Lenine, sem dúvida, enganava-se quando defendia que aquele regime de capitalismo de Estado sob controlo burocrático ainda era ditadura do proletariado e ainda tinha virtualidades para se reabilitar. Mas não vejo como o reconhecimento desse erro, que aliás retrata o bloqueamento irremediável a que chegara a revolução, nos tenha que levar a pôr em causa as aquisições históricas do leninismo. Quando leio os seus críticos «de esquerda», como Korsch ou Luxemburgo, Ciliga, etc., não posso deixar de sentir um tremendo recuo em relação à clareza de classe atingida pelo leninismo.

Enfim, se tiveres paciência, lerás nas próximas revistas a continuação do meu folhetim. Compreendo que não te sintas motivado para continuar nas colunas da P.O. uma polémica que tende a tomar-se «conversa de surdos». Quando achares que é altura de expores as tuas críticas, estamos abertos a publicá-las. O que não impediria, em minha opinião, uma colaboração tua desde já, em questões de política actual em que estamos largamente de acordo, parece-me. Umas «Cartas da CEE», em que nos desses conta das tuas reflexões sobre o clima político francês, seriam do maior interesse para nós. Se achares que sim e tiveres disponibilidade de tempo para isso, teremos muita satisfação em publicar o que envies. Como verás pelo nº 37, que receberás dentro de dias, temos alguns novos colaboradores e esperamos passar a ter mais alguns. Tentamos manter-nos nas 32 páginas e diversificar a informação e os comentários.

Espero que a vossa vida por aí esteja bem. Abraços para ti e para a S. de todos nós, em especial da Ana e da Beatriz. Meus também, claro.

 

Cartas a HN – 17

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 17

9/2/2002

Velho H

Tenho aqui duas cartas tuas recentes e vou tentar responder às questões que colocas e dar-te algumas notícias.

Teu artigo – Parece-me extenso mas ainda não tive oportunidade de o estudar. Vou ler e dir-te-ei depois o que penso.

Curso de marxismo em Bruxelas – O MV já me falou com interesse desse curso onde esteve há dois anos, julgo. Leio aqui o jornal desse partido, que é de facto radical, dentro da área dos “revisas duros”, muito mais consistente por exemplo do que o Avante do meu amigo Cunhal. De qualquer modo, sendo claramente anti-imperialistas, não temos dúvidas de que são reformistas e que têm uma ideia muito sinistra do que seja o socialismo. Isso basta para sabermos que não são do nosso campo. Terá interesse o curso? Eu, se tivesse disponibilidade, ia assistir, pela curiosidade de ver como expõem as questões centrais do marxismo e até para activar as objecções e críticas do nosso lado. Nesta época de deserto quase total no campo do marxismo, tudo o que proporcione debate e luta de ideias pode ser frutuoso. Era bem bom se tu ou o Manuel, ou os dois, redigirem um comentário sobre o que viram, o que vos pareceu aceitável e o que acham errado, etc. Era uma boa malha para a PO. Agora tu é que verás se compensa a deslocação, a despesa e o tempo gasto.

Voz do Trabalho – São naturais as tuas preocupações com o andamento do projecto. De facto, as coisas têm patinado um bocado, houve uma doença e ausência do M (já voltou), afastamento (temporário?) dos elementos ligados ao Bloco de Esquerda e que se meteram a fundo na campanha eleitoral deles (e agora já estão metidos noutra) e uma certa indefinição sobre o carácter da folha, com discussões sobre se devia ser mais política ou mais dedicada às lutas económicas.

Por tudo isto a correspondência, os envios do jornal, etc., têm andado um bocado ao deus-dará. Saiu em Dezembro o n° 4 (que pelos vistos não recebeste) e está a sair o n° 5. Vou fal ar com eles para transmitir as tuas preocupações e pedir que te enviem exemplares do 4 e do 5.

Af, Leo – Numa reunião de redacção da PO, em Novembro, foram feitas algumas criticas a artigos que eles tinham escrito: o do Leo sobre o 11 de Setembro, e o do Af sobre um subsídio de Natal igual para todos. Os camaradas reagiram mal às críticas e não quiseram alterar os artigos. Depois disso não vieram a mais reuniões. Lamentamos e esperamos que reconsiderem. São poucos os que participam no colectivo e não gostamos de ver camaradas afastarem-se mas não podemos prescindir de discutir abertamente as colaborações de cada um.

 Entrevista Argentina – É pena que não se consiga. Como verás na PO 83, que aí chegará dentro de uma semana, juntámos um comentário vindo do Brasil com um artigo que a Ana fez a partir de textos que nos chegaram pela Internet. O assunto ainda talvez mereça mais análise na próxima PO.

(…)

Leituras – Não conheço nenhum dos dois livros que estás a ler sobre a I Internacional e o movimento operário francês. Também não prevejo tão cedo disponibilidade para me dedicar ao assunto. São tantos os livros, artigos, etc. que vão ficando para trás que às vezes desespero, mas sou obrigado a fazer opções todos os dias entre o que gostaria e o que posso fazer.

PO – Vais recebê-la por estes dias. Tem uma declaração do colectivo sobre as eleições, justificando por que não votamos, a política que vai ser seguida já está feita pelas “instâncias superiores”    e os partidos  são  os comissários políticos ás ordens de Bruxelas. A possibilidade de mudança não está no voto, está na intervenção directa dos trabalhadores, e essa é que tem faltado de há bastantes anos para cá, etc.

Galiza – Nos dias 13-15 Fevereiro reúne-se na Galiza uma Cimeira dos ministros da Justiça e do Interior da UE para tratar da “segurança”. Os camaradas galegos do NÓS Unidade Popular (que vieram ao nosso encontro de Dezembro) organizam uma contracimeira nos mesmos dias, com debates e manifestações. Vão estar presentes 2 ou 3 camaradas nossos para intervir no terceiro dia, sobre questões laborais. Mando-te aqui o último número que recebemos do jornal do partido ML deles, para teres uma ideia. São pelo menos bastante activos.

Por agora é tudo. Um abraço e até breve  

Cartas a HN – 10

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 10

16/6/1997

Caro Camarada:

A P.O. está na tipografia e, como de costume, meto-me a pôr em dia a correspondência, escandalosamente atrasada. Nos últimos meses, para complicar as coisas, os meus problemas familiares (mãe com 91 anos e três irmãos doentes, todos velhos e solteiros) têm-se embrulhado de tal maneira que a minha produção tem sido muito dificultada. Mesmo assim, nesta P.O. enfiei dois artigos grandes, um de história do PC e outro de resposta ao AN, acerca do tema do imperialismo. Acho que ele está influenciado por certa teorias que minimizam o papel do imperialismo, julgam ver o centro da revolução mundial na Europa e encaram com superioridade os países atrasados do “terceiro mundo”. É uma perspectiva perigosa porque abre a porta ao reformismo, como se viu com os velhos Pcs. Enfim, vocês verão o que acham.

Na parte da vossa colaboração, vão ter razões para ficar zangados comigo, pois guardei tão bem os dois textos que enviaste que lhes perdi o esconderijo e não puderam ser incluídos. Só agora, depois da P.O. pronta e quando fiz uma limpeza geral à papelada consegui descobri-los. Irão entrar na próxima P.O., um como carta (resposta a C. Nunes) e o outro como artigo (resposta a Af. Gonçalves). Desculpem o mau jeito mas foi resultado da acumulação de trabalho. Entretanto, podem mandar mais colaboração para o próximo número, que só sai no começo de Outubro (fecho da redacção = 20 de Setembro), visto que fazemos as habituais férias de Verão. Seria conveniente, em minha opinião, que as vossas colaborações localizem melhor o tema central e procurem aprofundar a argumentação em tomo dele, evitando as demasiadas generalizações que alongam o texto tirando força à argumentação. Claro que vocês me deixam sempre à vontade para fazer cortes e adaptações mas eu gostaria de evitá-lo, pode-se deturpar sem querer aquilo que o autor queria transmitir.

O 1º de Maio correu normalmente, entrámos na manifestação da CGTP com a nossa faixa e o nosso manifesto, que despertou interesse. Em seguida fizemos o lanche de confraternização, com 30 pessoas, e que deu para vender livros e recolher alguns fundos. Uma semana depois, fizemos um colóquio no teatro da Comuna (só apareceram 20), que decorreu com interesse, vários participantes pedem continuação. Talvez marquemos outro debate antes de começarem as férias.

A troca de cartas que houve entre a redacção e um grupo de camaradas foi um pouco agreste no tom mas não me parece que tivesse gravidade de maior. O núcleo redactorial não gostou das críticas feitas por alguns camaradas que muito pouco têm colaborado e que apareceram de repente a dizer que “devia ser assim e devia ser assado”. Mas depois de algumas explicações o diferendo aplanou-se e continuamos a trabalhar em conjunto porque os pontos de vista políticos são semelhantes. O lº de Maio foi uma oportunidade para desfazer quaisquer ressentimentos. O MV prometeu fazer o Contraponto nº 3 antes de voltar para Paris (volta para lá definitivamente em Setembro), mas está a andar devagarinho. Não o deixo ir embora sem dar o trabalho como pronto.

O Zé Morais passou por aqui como um foguete, só deu para irmos beber um copo juntos. E que tal de planos de férias? Manda notícias vossas, que nos dão sempre muito prazer. E mais publicações, recortes, etc. Um grande abraço.

 

Cartas a EL – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a EL – 3

9/12/1992

Caro Amigo:

Deve estar a receber por estes dias a P.O. nº 37, onde publicámos a carta que nos enviou. Como bem calcula, não concordo com os seus argumentos, que me parece estarem a ser respondidos nos artigos que venho publicando sobre a revolução russa. A série vai continuar e talvez o conjunto dos artigos lhe permita entender melhor a nossa posição.

Resumidamente: concordo consigo em que o capitalismo de Estado se instalou na Rússia ainda em vida de Lenine e que Lenine estava enganado quando defendia que era uma solução segura para lançar as bases do socialismo. Mas não concordo consigo quando me diz que a revolução russa poderia ter tido êxito sem a acção do Partido Bolchevique; nem acredito que alguma revolução anticapitalista no futuro possa ter êxito sem uma acção centralizadora promovida por um partido revolucionário, o que não significa que se tenha que repetir a experiência negativa da URSS. A revolução russa estava condenada porque o desenvolvimento económico do país era escasso e a maioria camponesa não queria socialismo nenhum, queria era capitalismo. Parece-me grande ingenuidade acreditar-se que num mundo onde o poder burguês é detido por partidos políticos, os trabalhadores possam impor a sua lei sem se apoiarem num partido revolucionário. Mas, enfim, o debate sobre estes temas não tem fim. Só quando novas revoluções vitoriosas mostrarem o caminho para a liquidação da burguesia se resolverão as actuais divergências entre comunistas e libertários.

Esperamos que, apesar de tudo, a nossa revista continue a despertar-lhe interesse e estamos abertos a registar as suas críticas e sugestões. Aceite as nossas saudações.