Cartas a JV – 5

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 5

11/6/1991

Caro Amigo:

Só depois de nos termos separado, e ao reler a sua carta, vi que ficou por reparar uma falta: o livro de Dawn Raby sobre “A Resistência Antifascista em Portugal”, que se perdeu nesses tenebrosos correios franceses. A única solução segura tinha sido entregar-lhe outro exemplar, porque os extravios são frequentes. Há dias o MV queixou-se que, de um outro livro que lhe enviei, só lá chegou… a etiqueta do embrulho! Os envios da P.O. já mais de uma vez se perdem, mas só em França! Vou ver se arranjo um exemplar e mando-lho… rezando à senhora de Fátima, que é boa para estas coisas.

Na P.O. a sair dentro de dias publicamos a primeira parte da sua carta (Golfo), guardando por razões de espaço a segunda parte para o nº seguinte. A. não ser que você entretanto dispare mais umas das suas bombardas que tenham prioridade. Gostámos muito da conversa convosco. Abraços para si e para a S.

 

Cartas a HN – 12

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 12

7/5/1998

Caro Camarada:

Respondo à tua carta de 27 de Abril e, o que é grave, também às de 6 de Fevereiro e 12 de Janeiro, que ficaram por responder. Resultados da sobrecarga de trabalho que tu certamente compreenderás. Agora com a PO nº 64 despachada e o 1º de Maio passado, dedico-me a pôr a correspondência em dia. No 1º de Maio desfilámos (poucos, como sempre) com uma faixa dizendo “Já só falta pedir desculpa aos pides pelo 25 de Abril”. Foi bastante aplaudida porque as pessoas estão motivadas com o escândalo do pide Rosa Casaco, fugido há anos e que veio a Lisboa dar uma entrevista à imprensa, deves ter sabido. Também distribuímos um manifesto intitulado “sinais de perigo” (vem na próxima PO) e um outro sobre “Cem vítimas da PIDE” que fez sucesso Em seguida, fizemos o lanche de confraternização com 40 pessoas e… até para o ano! Vou agora dedicar algum tempo para preparar artigos para a PO, é essa a minha vida. E quanto à preparação de algum material de fundo, com vista a um livro, como tu sugeres, vai ficando eternamente adiado.

Recebi o vale postal de 4.000S00 (além dos 50 francos anteriores). Tenho recebido os diversos materiais que tens mandado, nomeadamente a “Rcvue Internationale” e o livro sobre “La révolution manquée”, de que fiz uma recensão na PO, deves ter visto. A encomenda com os livros que pediste segue dentro de dias, porque o Brecht está atrasado na tipografia. Só segue um exemplar do Thomas porque de momento não dispomos de mais, estão todos distribuídos; fica registado e logo que houver mais mandamos-te, certo? E fico à espera do livro de Lafargue de que falas, será que dava para uma edição em português? A Dinossauro está a postos, embora quase falida…

Espero que a tua actividade associativa te dê boas possibilidades de contactos, pelo que contas parece que sim. Calculo que o meio da emigração seja em geral muito pouco politizado, de resto aqui é o mesmo. Tomei parte recentemente em três debates (dois deles de estudantes) e pude constatar como os defensores das teses reaccionárias se movem à vontade e os defensores de ideias marxistas são incompreendidos ou mal vistos pela assistência. Faz dó ver os jovens, sem audácia nenhuma, a repetir as baboseiras capitalistas que lhes ensinam, como se fossem verdades incontroversas. Mas vai-se à luta e são obrigados a ouvir umas tantas verdades. Será que podemos programar um encontro lá mais para o fim do ano? Bem gostaria mas vejo as tropas muito desmobilizadas. pouco a pouco vão-se todos retirando para a sua vida pessoal.

Bem, mas não quero acabar em tom de lamentação. A disposição de prosseguir é firme cá pelo lado da PO. Estou a preparar um artigo para a próxima, que se chamará possivelmente “Partido: cuidado com os partos prematuros”, que vai ao encontro da vossa ideia do Centro Marxista. Estamos numa fase de germinação e não compensa querer queimar etapas. Temos é que saber cumprir as tarefas próprias desta etapa: jornais, debates, núcleos, etc. Só daí poderá surgir uma corrente de ideias suficientemente forte para dar base ao partido. Esforçamo-nos por que a PO cumpra a sua parte nesse trabalho preparatório, mas são precisas muitas mais iniciativas. Foi essa ideia que procurei transmitir na curta alocução que fiz no lanche do 1º de Maio.

Por agora c tudo. Desejo êxitos no vosso trabalho. Aceitem abraços de todos

 

Cartas a JM – 9

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JM – 9

15/5/1989

Camarada:

No seguimento da nossa conversa telefónica, peço que envies com a máxima urgência tudo o que possas conseguir em vídeo sobre a situação dos emigrantes, pequenas entrevistas, etc., para ver se ainda chega a tempo de incluir no programa que está a ser preparado para o tempo de antena na televisão. O produtor exige tudo com muita antecedência e estamos pobres de material concreto, corre-se o perigo de fazermos uma campanha na TV à base de declarações políticas, o que não prende as pessoas.

Estamos a fazer força contra a propaganda fascista que se está a tornar descarada. Queimámos um boneco na Praça da Figueira contra a visita do fascista espanhol Blas Pinar, deu na TV, rádio e imprensa. E temos marcado um almoço antifascista para dia 28 de Maio, domingo. Discursa o Varela Gomes. Queres vir? Recebeste o material da FER que enviámos há dias? Vai seguir mais. Escreve Um abraço

Cartas a LC (13)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 13

13/12/2001

Caro Amigo:

Demos entrada da tua transferência de 100 marcos. Como estava a caducar a tua assinatura da PO, registei 3.000$ para renovação da assinatura (fica paga até ao n° 87) e os restantes 7.250$ para crédito na tua conta do Clube, como verás pelo extracto que  mando junto. Espero que estejas de acordo. Quanto aos 100 marcos que tinhas enviado no ano passado, foram registados a crédito no Clube Dinossauro, como também verás pelo extracto. Está tudo certo. 

Tenho-te enviado dois exemplares da PO, um da tua assinatura e o outro para  ofereceres a alguém que te pareça que vale a pena. Quanto aos livros novos que vamos editar, diz-me se tos posso enviar quando saírem ou se devo aguardar encomenda tua. Tu dirás. 

Propuseram-me um trabalho para editar que ainda só comecei a ler: uma estudante daqui fez uma série de entrevistas a mulheres chilenas cujos maridos “desapareceram” durante a ditadura fascista. O tema é interessante, vamos ver se tem qualidades para editar.[i] De qualquer modo, talvez te interesse conhecer o original, não? 

Caro Amigo, despeço-me com desejos de um Bom Ano e boas actividades. 


[i] O livro Mulheres de Desaparecidos acabou por ser publicado pela editora Ela por Ela. (Nota de AB)

Cartas a LC – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC (2)

7/11/1991

Caro Camarada:

O nosso último encontro em Lisboa não chegou a realizar-se. Ainda telefonei duas vezes pare casa de tua irmã mas tinhas-te ausentado e já não deu. Escrevo para saber se já recebeste aí a revista que te mandei como oferta e o que achaste. Gostaria que fizesses una assinatura, claro, e que me indicasses alguém eventualmente interessado em assinar. Se tiveres materiais ou notas tuas relativas a situação dos imigrantes portugueses aí, ao racismo que por aí está a crescer, etc., seria interessante. No próximo nº vamos publicar uma carta duma rapariga alemã de Hamburgo que conta coisas sobre os skinheads.

Nós cá vamos com dificuldades mas com fôlego para continuar mais uns cinquenta anos, pelo menos. Nem sempre a escumalha há de estar na mó de cima. Um abraço

 

Cartas a MV – 45

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (50)

8/8/1994

Caríssimo:

Será que o selo [1] não vale mesmo ou és tu que queres ficar com o tesouro só para ti? Eis a dúvida pungente que não me deixa dormir. Mas eu vou aí a Paris tirar a coisa a limpo, podescrer! Quando menos esperares, bato-te à porta. E quando te vir a viver à grande e à francesa, já sei que foi o fruto do meu selo.

Por aqui, tudo calmo. De novo, apenas uma tentativa para formar uma Associação de
Antigos Desertores da Guerra Colonial, de que te mando o texto convocatório, feito pelo Zé Mário Branco. Se tiveres aí possíveis interessados, informa-os. Bem se precisam apoios, porque a iniciativa por enquanto está muito restrita. Poderia ser uma boa plataforma para fazer fogo contra a faxaria que não desperdiça nenhuma ocasião para refazer a história, dizer que “a guerra estava quase ganha”, “os cabo-verdianos não queriam a independência”, o “Conselho da Revolução foi uma cambada de traidores”, etc.

As minhas actividades têm estado reduzidas ao mínimo, infelizmente por causa da doença de uma minha irmã, que acabou por falecer recentemente. Estou a ver se me relanço ao trabalho mas primeiro quero arranjar meia dúzia de dias de férias, que estas últimas semanas têm sido bem pesadas.

Recebeste os 5 volumes do “Futuro”? Penso meter as tuas “bocas” ao Sousa Tavares nas cartas dos leitores do próximo número, mas, à parte disso, não me arranjas uma carta de Paris? Cá fico à espera. Um abraço.

[1]  Segundo MV, em carta de 21/6/94:

Cem vítimas do fascismo

Francisco Martins Rodrigues

Distribuído no 1º de Maio de 1994

O regime de Salazar-Caetano foi ou não fascista? A PIDE foi ou não
uma organização de assassinos? Estas parecem ser as grandes questões
em debate, neste 209 aniversário do 25 de Abril. Para avivar a memória
dos “distraídos”, recordamos os nomes de cem vítimas, extraídos de um
folheto publicado em 1974 pela Associação de Ex-Presos Anti-Fascistas.
Com uma pergunta: os que se sacrificaram pela liberdade merecem
o espectáculo vergonhoso a que se assiste de reabilitação do
fascismo?
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