RELATÓRIO AO CMLP

Francisco Martins Rodrigues

RELATÓRIO AO CMLP[i]

(s. d.)

Como não sei se foram recebidos os dois relatórios anteriores, repito a descrição do meu porte na PIDE, procurando ser o mais completo possível.

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Cartas a MV – 21

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (24)

20/2/1991

Velho M:

Estou aplicadamente a responder e a ausência não é de tantos meses como dizes; a minha última foi em Novembro, nada mau. Tenho recebido um rio de bilhetes, recortes, jornais, até um livro (“Mon ami le roi”). E também as tuas duas colaborações: a última, curta, saiu no PO 28 (por gralha não foi mencionada como “Carta de Paris”); a outra colaboração, com notas e discordâncias sobre a carta aos comunistas americanos já está composta e ere para sair no caderno cor-de-rosa deste nº 28 mas a acumulação de mate­riais sobre o Golfo obrigou a pô-la de parte. Sairá no próximo nº.

Creio que não tens razão nos teus receios a que deitemos demasiadas coisas pela borda fora. Julgo haver na tua visão sobre a URSS ainda uma carga antiga (quanto ao poderio, ao social-imperialismo, etc.) que me parece (que nos parece a nós aqui) desmentida pelos aconte­cimentos recentes. Eu acho a perspectiva que damos hoje nesta PO so­bre a degenerescência e apodrecimento do regime soviético muito mais marxista-leninista do que a que herdámos dos chineses, albaneses, etc. Sem dúvida, o assunto precisa de mais discussão e a tua carta aju­dará a essa reflexão. Esteve cá um dos dirigentes do MU americano e travámos debates, inconclusivos mas amigáveis. Eles prometeram publicar no seu jornal uma resposta à nossa resposta, dentro de alguns meses. Quando a tivermos mandar-te-ei; possivelmente publicaremos.

Golfo: temos estado desesperadamente a tentar agitar as águas pantanosas do consenso pró-americano nesta terra, como verás pela PO 28 e por uma folha da CCIG[i] que aqui te mando junto. Estamos de novo associados com os trotskistas da FER, porque foram os únicos a condenar sem reservas a agressão imperialista americana. Hoje esti­vemos mais uma vez com uma exposição de painéis na Rua augusta e dis­tribuindo comunicados. Suscita uma enorme atenção e discussões por vezes acaloradas, com opiniões fascistóides a vir ao de cima a cada passo. Depois de amanhã vamos fazer nova concentração frente à embai­xada americana, mas não espero mais de duas centenas. Mando-te também fotocópia de alguns artigos que tenho publicado na imprensa, é pos­sível que algum vá repetido; tenho um artigo no “Público” à espera que saia, sobre o “anti-americanismo primário” (a desculpa prefe­rida dos nossos intelectuais vendidos) mas está difícil de sair, desconfio que as minhas hipóteses no “Público” vão acabar.

Recebi o artigo que te mandei “Lisboa a sono solto” tra­duzido em francês, mas não percebi porquê, porque não me voltaste a dizer nada sobre o Albatroz” que iria sair e para o qual te man­dei esta colaboração. São dificuldades financeiras, suponho? Há perspectivas de sair a breve prazo? O V afinal sempre te dá alguma ajuda? Diz-me alguma coisa sobre isto.

Ficámos aqui muito satisfeitos por ter chegado a resposta de Serfaty[ii] e a confirmação de que recebeu a encomenda com a PO. Te­mos estado a enviar-lhe a PO regularmente, espero que a receba. Vou decifrar o texto elaborado pelos presos sobre os recentes acontecimentos em Marrocos, talvez se possa publicar algo no próximo nº. Foi pena não ter chegado quinze dias antes; fiz um pequeno artigo sobre o assunto com base nas notícias dos Jornais, que saiu na PO 28.

Quem apareceu aqui com alguns manifestos mais radicalizados sobre a cruzada do Golfo ainda foram os anarquistas, temos algumas pontas para alguns, procurando vias de colaboração nesta frente. E aí, depois das manifestações que informaste, amainou o ambiente?

Ainda não li a tua intervenção no congresso sindical, che­gou aqui ontem, depois te direi algo.

Quanto ao resto da nossa actividade, segue como normalmen­te, isto é, reduzida a um punhado de “fanáticos” e por isso cheia de deficiências, mas cá vamos. Eu canalizo as minhas fúrias para os jornais; enquanto mas publicarem… Ontem mandei um depoimento para o “Independente” (da direita) sobre o maoísmo.

Um abraço, até breve

 

[i] Comissão Contra a Intervenção no Golfo (CCIG), ver comunicado em https://ephemerajpp.com/2014/12/07/comissao-contra-a-intervencao-no-golfo-ccig/. (Nota de AB)

[ii] Tratava-se do marroquino Abraham Serfaty (1926 -2010), militante e activista político, que foi preso durante o reinado autoritário do rei Hassan II. Esteve quinze meses num cárcere subterrâneo, tendo cumprido dezassete anos de prisão.  Em parte graças a uma campanha internacional a seu favor, foi libertado e viveu oito anos de exílio em França, antes de regressar a Marrocos, onde faleceu. (Nota de AB)

 

Cartas a MV – 8

 Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (12)

12/12/1986

Caríssimos:

Respondemos à vossa carta de 15 Novembro (…).

A PO nº 7 sai amanhã. Vamos enviar-vos 10 exemplares, conforme combinado. Seguem também os 5 exemplares que faltavam da PO nº 5 e 25 da PO nº 1. O artigo de fundo desta PO é sobre Staline e os processos de Moscovo. Por ter sido acabado à última hora, já não foi possível enviar-vos o projecto para darem opinião. Mas queremos muito que digam o que vos parece. Julgo que, de qualquer maneira, alguma coisa avança quanto à posição ML sobre Staline. Pôs-se aqui a hipótese de se seria possível vocês passarem para francês o arti­go ou extractos, a fim de poder ser distribuído a MLs de diversos países. Tu dirás o que te parece.

Com vistas à PO n° 8 (Janeiro-Fevereiro), pedimos que prepares uma “Carta de Paris” – a crise estudantil e as dificuldades do governo Chirac parecem coisas importantes que mereceriam um bom comentário. Ao teu cuidado. Com fotos boas, se possível. Pedimos também que nos envies logo que possível o artigo teórico que saiu na “Pravda” sobre a actualização do marxismo e o perigo das guer­ras de libertação nacional. Foi aqui referido na imprensa mas muito brevemente. Gostaríamos de ter o texto para comentar e supomos que terá saído aí no “Monde” ou noutros jornais. Nesta PO 8 vamos tra­tar com certo desenvolvimento o 9º congresso do PTA e o 5º congres­so do PC(R), que acaba de ter lugar. Seria um número um pouco cen­trado na crítica à corrente ML. Para o nº 9, estamos a iniciar o estudo colectivo da revolução cultural chinesa. Como sempre, pedimos que colabores com tudo o que queiras e possas, inclusive em polémica com artigos que têm saído.

Contactos europeus – chegaste a encontrar-te com dirigen­tes da OCML-VP em 28 de Novembro? Há alguma reacção à circular em francês que lhes enviaste? E do MM, há alguma resposta? A hipótese de eu ir aí em Janeiro por enquanto é muito hipótese, seria preciso que se confirmasse o projecto dos iranianos sobre o seminá­rio internacional, o que até agora não é o caso porque não soubemos mais nada. Não sabemos se andam nas diligências “diplomáticas” jun­to dos diversos grupos ou se desistem da ideia por agora. Aguardamos notícias.

Encontro sindical – Foi bastante positivo e deu uma po­lémica esclarecedora, como poderás ver por um longo artigo que vem nesta PO 7. A polémica polarizou-se entre nós, à esquerda, e o PSR à direita. Estamos a preparar a Tribuna Operária nº 2, que publicará uma versão final das nossas teses sobre a corrente sindical de es­querda. Está-se a formar em volta da “TO” uma rede de amigos e cor­respondentes espalhada por diversos pontos do país, muitos deles ex-UDPs que andavam à deriva. Só não avançamos mais depressa por escassez de forças mas estamos animados.

Presos – deves ter visto que foi pedida uma pena de 20 anos para o Otelo. Continuamos a participar na comissão de soli­dariedade e em breve enviaremos o boletim “Denúncia” nº 3, para fa­zeres aí a circulação que te for possível. Tem havido mais prisões e as perspectivas das FP-25/ORA parecem sombrias. Embora critique­mos a ideologia da “acção directa” como uma variante “explosiva” do oportunismo (deves ter visto na PO), continuamos a desmascarar a campanha antiterrorista e a solidarizarmo-nos com os presos.

Infraestruturas – continuamos a lutar desesperadamente para pagar as dívidas da máquina e obter o máximo de trabalho para a rentabilizar. Só nos falta pagar uma letra mas temo-nos endivida­do junto de vários amigos porque a carga é pesadíssima. Esperamos lá para Março-Abril estarmos donos definitivos da máquina e com a situação financeira mais desafogada. De toda a maneira, estamos a fazer o que julgávamos impossível: pagar a máquina no prazo de pou­cos meses. O FM veio-nos pedir orçamento para a revis­ta mas quando lho demos desistiu logo, porque julgava que nós fa­zíamos um “preço de amigos” – quase de borla. A expansão da PO não tem progredido e tivemos que adiar o plano que tínhamos de uma cam­panha de publicidade na imprensa por ocasião do 1º aniversário – os preços são exorbitantes. Fizemos cartazes e tarjas de propaganda que temos colado nas paredes. Vimos a tua boa iniciativa do dossier de propaganda.

O resto do trabalho vai andando. Não alargamos mas man­temos. A Tribuna Coumnista não tem saído por absoluta falta de for­ças. Fazias-nos jeito cá. Mais dois pedidos: da colecção de Documen­tação sobre o Leste, um volume sobre a escala salarial na URSS. E a defesa da srª Chiang Ching em tribunal, que. nos seria útil para o artigo sobre a revolução cultural. Vi a revista que mandaste “Archimède et Leonard” mas é complexa demais para o meu entendimento. Também vi a tua poesia vicentina mas está num português di­ficílimo.

Um último pedido: podem enviar-nos alguma contribuição financeira nesta altura de fim de ano, subsídios de Natal, etc.? Precisamos de todo o apoio possível.

Abraços de todos nós

Cartas a FR – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (21)

29/12/1997

Caro Camarada:

Desejo que a “Quadra da Família” tenha sido passada da melhor forma possível. A esta hora já deves ter recebido a P.O. 62 onde incluí o artigo sobre o caso do teu filho. A foto, apesar de copiada do jornal, saiu boa. Mas, é claro, não são artigos da P.O., com uma difusão limitada, que vão fazer mexer os nossos homens. Pode ser que as diligências junto do Tribunal Europeu os façam acordar; se assim for, o mais certo é inventarem uma explicação qualquer para a montanha de contradições e absurdos do processo. Infelizmente, não existe uma corrente de oposição popular que os encoste à parede neste como noutros casos. Como viste, o caso do padre Max acabou sem tocarem nos figurões mandantes do crime. O cónego Melo até ganhou um carro de luxo oferecido pelas beatas para ser compensado pelos “enxovalhos” sofridos!

E como vamos de Associação Ateísta? Diz-me o que houver de novo, poderei publicar sob a forma de carta na próxima P.O., pode ser que alguns leitores se queiram associar. Também tenciono fazer- me sócio quando estiver constituída, para já não tenho disponibilidade para contribuir, por aqui está tudo muito apertado, como decerto calculas.

E que tal de eleições, gostaste do espectáculo? Como circo não há melhor, o pior é que nos sai muito caro.

Aceita um abraço e desejos de boa saúde

Carta a FR (22)

7/5/1998

Caro Camarada:

Tenho deixado passar várias cartas tuas sem resposta, mas sei que com­preendes as minhas dificuldades e não levas a mal, não é por menos interesse. Agora que a P.O. nº 64 está na rua e o 1º de Maio já lá vai, ponho a correspondência em dia. Distribuímos um manifesto no 1Q de Maio, que publicaremos na próxima P.O. e também um outro com uma lista de 100 vítimas da PIDE. Mando junto um exemplar. Fez sensação e era disputado pelas pessoas que assistiam ao destile. Levámos uma faixa dizendo “Já só falta pedir desculpa aos pides pelo 25 de Abril”. Foi bastante aplaudida, as pessoas estão mais motivadas com estes últimos escân­dalos do Rosa Casaco[i] e também do bandido do padre Frederico[ii]. Veremos quando chega o dia de romper a barreira do silêncio em torno da morte do teu filho. Pela minha parte, podes crer que apoio no que puder.

Quanto ao endereço que me pedes do jornalista (…) o seguinte: (…)

É tudo por agora. Dá sempre notícias. Um abraço.

Carta a FR (23)

15/10/1998

Foi bom receber notícias tuas. Aqui em Lisboa está tudo na paz dos mortos desde que fechou a célebre Expo, a coisa mais espantosa que o mundo já tinha visto até aos dias de hoje. Agora, para animar a televisão e os jornais só o último caso de corrupção: como de costume, os favores do Estado aos tubarões são na ordem das centenas de milhares de contos, quando não dos milhões. E a “sociedade aberta” com que os nossos homens sonhavam. O outro caso do dia é a campanha sobre a regionalização, que me cheira a mais um grande negócio. As nossas simpatias vão todas para o “não” mas, para não ficar na companhia do PSD e do PP, decidimos aconselhar a abstenção na P.O. Deves recebê-la dentro de dias e não está atrasada, porque é sempre nesta data que sai depois das férias do Verão em que não se publica.

Por agora é tudo. Vai dando notícias. Um abraço

Carta a FR (24)

5/3/1999

Caro Camarada:

Junto envio um Apelo para as comemorações do 25 de Abril que estamos a organizar, num grupo bastante alargado. Haverá uma sessão pública na tarde de 24 e um “julgamento” da PIDE. O texto destina-se a recolher assinaturas para ser publicado. Se estiveres de acordo em assinar e em recolher algumas assinaturas aí em Aveiro, peço que me devolvas até ao fim de Março.

Em relação a dois pedidos teus anteriores, da revista (…) e do endereço do AM, lamento não te poder mandar nem uma coisa nem a outra, porque não as tenho.

Viste a escandalosa absolvição dos assassinos do padre Max? Não há escrúpulos, a palavra de ordem deles é abafar e limpar os crimes relacionados com o 25 de Novembro. Se houver alguma diligência nova em relação ao teu filho, manda-me informações. Um abraço.

Carta a FR (25)

17/10/2000

Caro Camarada:

Espero que a tua saúde esteja melhor e que a operação à perna tenha corrido bem. Acerca da hipótese de recurso para o Supremo no caso do teu filho, não estou a ver nenhum advogado meu conhecido directo que sirva para conduzir o processo. Ocorre-me o João Nabais, ligado ao Bloco de Esquerda e que com certeza conheces de nome, dizem que é bom. bastante combativo. Estaria ele disposto a tomar o caso? E em que condições financeiras? Não te sei dizer.

Agora sobre a Associação dos Ateus. Não julgues que por eu não dar andamento ao caso é por desinteresse meu, mas tenho feito umas sondagens nos meios onde me mexo e não encontrei até agora gente interessada em meter ombros à tarefa e eu sozinho não posso. Não quero meter um apelo na revista sem ter algum ponto de partida para dar seguimento. Se faço um apelo e cai no vazio isso contribuirá para desacreditar a ideia. Já publiquei em tempos uma carta tua com a proposta e posso publicar novamente, a ver se há reacções. Uma forma de sensibilizar os leitores da revista seria pela publicação de textos de crítica à religião. Tens alguns que me emprestes para ver a possibilidade de publicação?

Os nossos agradecimentos pelos 1.000$ que enviaste, vêm na próxima P.O. na lista de apoios recebidos. Como verás, houve uns tantos amigos que corresponderam, espero que outros se resolvam. A ver se ultrapassamos as dificuldades em que nos debatemos de há um tempo para cá. Acabámos por não publicar o discurso do Louçã, não por termos alguma coisa contra, mas em todos os números fica sempre algum material de fora por falta de espaço.

Como verás na PO, fazemos no próximo dia 4 de Novembro uma sessão em Lisboa, a propósito dos 15 anos de publicação da PO. Convidámos duas pessoas do Brasil e haverá debate. Em princípio de Dezembro faremos outra sessão, para que convidámos o Samir Amin e Tom Thomas. Se possível seguir-se-ão outros debates. Se por acaso estiveres em Lisboa de visita gostaríamos que participasses.

Até breve, caro Camarada, aceita um abraço com desejos de muita saúde e bom andamento para o processo relativo ao teu filho.

Carta a FR (26)

20/6/2001

Estimado Camarada:

Por esta altura deves estar chateado comigo, e com razão, porque há muito não dou resposta aos problemas que me tens posto. Eu tenho a minha desculpa, que foi a tragédia da doença e morte de uma minha irmã, pessoa deficiente de quem eu cuidava e cujo desaparecimento me abalou bastante. Durante estes últimos dois meses, tenho continuado o meu trabalho como habitualmente, na edição da revista e dos livros mas reduzi a correspondência ao mínimo. Por isso as tuas cartas ficaram em arquivo todo este tempo, como as outras. Estou agora a pôr o correio em dia.

Em primeiro lugar, a tua saúde, como vai? Espero que continues rijo.

A razão de não ter falado recentemente no caso do teu filho é a falta de elementos novos. Como sabes, numa revista ou jornal é preciso renovar e refrescar o assunto com factos novos para interessar o leitor. Tenho estado à espera que surgisse mais alguma declaração ou decisão das altas esferas para onde tu tens apelado, para poder voltar a atacar o assunto. Mas não quer dizer que não volte a falar, mesmo que não haja factos novos. Logo que haja oportunidade, recordaremos a morte do teu filho e as circunstâncias em que se deu, exigindo um inquérito. O Brochado Coelho não pode fazer mais nada?

O assunto do ateísmo: a minha ideia é preparar um pequeno livro ou folheto. Por isso te pedi algum material. Estou a tentar recolher várias coisas para dar corpo ao livro, também da parte dos anarquistas, eles dedicam-se bastante à crítica da religião. Até agora os elementos que tenho não são suficientes mas espero que o livro vá avante, porque é daqueles assuntos tabu, ninguém quer falar para não se queimar com a padralhada. Quanto à associação que tu tens proposto: como já te disse, eu não tenho disponibilidade de tempo para me pôr à frente. Darei uma ajuda se um grupo de pessoas quiser pegar no assunto. Tenho falado por aqui e por ali, mas até agora sem êxito. Não estou muito inclinado a pôr um anúncio na P. O. sem ter algum ponto de partida, um núcleo de três ou quatro pessoas que queiram trabalhar mesmo na propaganda. Veremos como a coisa corre. Entretanto, se souberes de mais algum livro ou artigo de interesse, diz-me que eu tentarei arranjá-lo para a publicação que tenho em vista.

Dizes-me numa das tuas cartas que estiveste muito tempo sem receber a revista. Fico admirado porque a expedição nunca falha, temos-te mandado sempre. Só se há aí algum problema com a distribuição, vê lá. Quanto à situação financeira, agradeço o apoio que mandaste e não estou à espera que faças mais sacrifícios. Aqueles que têm posses é que devem ajudar. E foi o caso, nesta dificuldade que atravessámos. Como deves ter lido na P. O., vários amigos ofereceram-nos equipamentos para podermos continuar o trabalho. Agora estamos mais desafogados. A revista vai continuar e as edições de livros também. Estou a preparar um sobre a vida do Marx e outro sobre o sistema prisional nos Estados Unidos, a exploração do trabalho dos presos é um dos maiores negócios do capitalismo americano, já têm dois milhões de presos, e ainda falavam eles do Gulag dos russos.

Quanto a outras actividades é que vejo pouca gente disponível. O Bloco de Esquerda está por aí a mexer, como tens visto, e conseguiram agrupar pessoas que estavam paradas há muito tempo. Mas estão muito voltados para eleições e eu aí, francamente, não vejo interesse na situação actual. Precisávamos de formar grupos e associações em todo o lado, pôr gente a atacar o sistema. Parece-me que vêm aí tempos de crise económica séria, vai haver muita gente que vai despertar. Enfim, fazemos o que está ao nosso alcance, esperemos que os mais novos percebam no que estão metidos e vão à luta.

Velho camarada, muita saúde e aceita um grande abraço

Carta a FR (27)

3/5/2005

Caro Camarada:

Registei a renovação da tua assinatura da revista. Em relação à sugestão que me fazes de uma edição de livro sobre o assassinato do teu filho, lamento ter te dizer que não é viável. É um género de livro que a empresa distribuidora certamente não aceitará e portanto teria que ser vendido de mão a mão, o que dá uma venda muito reduzida e não cobre os custos de tipografia. Qualquer livro que eu faço para a Dinossauro custa, só na tipografia, para cima de 1.500 euros e este dinheiro só se recupera desde que a distribuidora encomende umas centenas de exemplares. Não tenho maneira de chegar às livrarias directamente, eles só aceitam os livros através de uma distribuidora.

A única hipótese num caso como o teu é uma edição de autor mas que, como te disse, fica muito cara. Se quiseres estudar a hipótese de mesmo assim fazeres uma edição tua, poderia encarregar-me por minha conta de todo o trabalho inicial (revisão, paginação, montagem) e pedir um orçamento a uma tipografia para a parte de impressão. Podes prever quantas páginas aproximadamente teria o livro? Meter fotos é que não convém porque encarece bastante o preço.

Isto é tudo o que te posso dizer sobre o assunto e crê que não há falta de boa vontade da minha parte. Compreendo e compartilho a tua indignação pelo silêncio que o poder faz em torno da morte do teu filho. Aceita um abraço fraterno do

———————

[i] Rosa Casaco foi funcionário da polícia política PIDE/DGS  durante  37 anos, chegando a inspector. Chefiou a brigada que assassinou Humberto Delgado em Badajoz.  Nunca foi julgado por nenhum crime.

[ii] O padre Frederico, brasileiro de 42 anos, foi condenado pelo tribunal de Santa Cruz na Madeira a 13 anos de prisão, pelos crimes de homicídio e abuso de menor. Gozando de cumplicidades, evadiu-se e vive actualmente no Rio de Janeiro.

Cartas a FR – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (13)

5/1/1990

Caríssimo Camarada

Só agora tive ocasião de responder à tua carta de 2 de Novembro. Espero que tenhas tido boas entradas no ano de 1990.

Como certamente sabes, está a decorrer uma greve de fome iniciada pelo Ramos dos Santos e apoiada por outros (cinco até à data. O Ramos completou três anos de prisão preventiva em 30 de Novembro; deveria ter sido libertado, como fizeram com o Otelo e os outros, mas recusam-se a libertá-lo. Já foram metidos dois habeas corpus, até agora sem resposta favorável. Ele está bastante enfraquecido, já perdeu quilos e está sujeito a uma crise cardíaca. Tem sido visitado por todos nós e por diversos médicos e está bastante animado.

Fiz um pedido para sermos recebidos pelo Presidente Bochechas, mas o pulha até agora não deu resposta. Vamos lá no princípio da próxima semana, assim como ao Provedor, Assembleia da República, PS, PCP, etc.

Com tudo isto e com o esforço para manter a saída regular da revista, já calculas que não proposta sobre a posso pensar na tua Associação do Ateísmo. Somos poucos para tantos problemas.

E que me dizes à crise do Leste e do PC? Os falsos comunistas e socialistas estão a abrir falência, o que é bom, mas o pior é vermos os americanos a fortalecerem-se com tudo isto. O caso da invasão do Panamá é impressionante. Quem será a próxima vítima?

Por agora é tudo. Já sei que não deixarás de fazer aí tudo o que estiver ao teu alcance em apoio dos companheiros. O Carlos Antunes está-se a portar muito mal neste caso.

Um grande abraço e desejos de muita saúde

Carta a FR (14)

6/12/1993

Caríssimo Camarada

Gostei muito de ter notícias tuas e de saber que continuas cheio de força. O meu projecto de te visitar tem sido sucessivamente adiado, porque me desloco cada vez menos e até o LGo há muito que não vai ao Norte. Registámos a tua assinatura e publicamos a tua carta. Nada temos a opor às tuas propostas, a não ser a nossa falta de qualificação para promover essa união dos revolucionários e dos ateus que propões. Vamos editando a revista com bastantes dificuldades e na esperança de que gente jovem desperte para as questões da emancipação social e faça aquilo que não somos capazes de fazer. É bem verdade, como escreves, que a burguesia só se derruba com armas na mão e não com palavras. Mas para que surjam pessoas dispostas a pegar em armas, muitas palavras terão ainda que ser impressas. Não nos envergonhamos por este nosso modesto trabalho de propaganda – ele é indispensável. O que é preciso é que as palavras esclareçam e animem vontades revolucionárias em vez de semearem a confusão e o conformismo, como fazem quase todos por aí. Esperamos sinceramente que a revista te agrade e que a leves ao conhecimento de amigos teus.

Aceita um abraço e até um dia.

Carta a FR (15)

28/4/1994

Caro Camarada:

Só agora posso responder às tuas cartas. O trabalho de preparação do livro tem-nos ocupado bastante nas últimas semanas. Já mandei o teu exemplar pelo correio e fico à espera da tua apreciação. Se conseguires angariar aí (…) mais algum comprador, será uma forma de nos ajudares a recuperar a despesa da edição. Temos muito mais vantagem nos exemplares vendidos directamente por nós do que naqueles que entregamos à distribuidora, que abocanha logo 55% do preço de capa. Também, nas livrarias vai vender-se a 2.300$00 + IVA, é a única maneira de recebermos algum.

Ainda bem que te agradam os artigos que tenho feito na P.O., o que é preciso é malhar na burguesia; o bicho tantas há-de levar que algum dia há-de ir abaixo, não te parece? Agora, quanto à campanha que pedes para desenvolvermos, de denúncia do assassinato do teu filho, talvez tu não tenhas uma ideia actual das nossas forças, que são muito limitadas. Dão para irmos editando a revista e nada mais. A pouco e pouco, as pessoas que alinhavam nas posições revolucionárias foram escasseando e agora encontramo-nos reduzidos a um pequeníssimo núcleo. Vamos a ver quantos aparecem depois de amanhã para segurar a nossa faixa na manifestação do 1º de Maio. A faixa diz: “Nós também somos culpados do 25 de Abril”. Que achas? Foi a maneira que encontrámos de protestar contra o descaramento de trazerem um pide à televisão nas vésperas do 25 de Abril e não só: toda a casta de salazaristas são agora ouvidos como grandes autoridades para explicar a queda do regime, falar dos sentimentos democráticos do Marcelo Caetano, atribuir a democracia ao mérito do Spínola, etc. Ninguém diz a verdade simples: o país estava na posse duma associação de bandidos e os pides eram os que faziam o trabalho mais sujo e repugnante ao serviço dos outros.

Em conclusão: para além do que já temos feito várias vezes, ou seja, publicar artigos na P.O. lembrando as circunstâncias suspeitíssimas da morte do teu filho[i], nada mais podemos fazer. Eu sei que é muito pouco porque a circulação da revista é muito reduzida. Mas talvez nem seja isso o mais necessário, porque o caso é já hoje do conhecimento de muita gente, graças aos artigos que tens conseguido fazer sair em grandes órgãos de imprensa. Talvez o mais importante para desbloquear o processo fosse um advogado que tomasse o caso a peito, como fez o Brochado Coelho com o assassinato do padre Max (e mesmo assim sem conseguir resultados até à data). Que pensas disso? Duma coisa podes estar certo: da nossa solidariedade em tudo o que estiver ao nosso alcance.

Aceita as nossas saudações revolucionárias e desejos de boa saúde.

Carta a FR (16)

6/6/1994

Caro Camarada:

Com base nos documentos que mandaste sobre o caso do teu filho, fiz um artigo que sai nesta P.O. (amanhã ou depois estará na rua). Reproduzimos a fotocópia dos despachos contraditórios do Hospital Militar, para não deixar dúvida de que houve grossa tramóia em todo o caso. Espero que os argumentos com que apresento o assunto estejam correctos, tu verás se o assunto foi bem tratado.

Já enviaste essas fotocópias para a grande imprensa? Pode ser que algum jornalista se decida a agarrar novamente no assunto e quebre a barreira do silêncio, agora que estão a vir ao de cima vários casos de ilegalidades. (…)

Aceita um grande abraço meu, com desejos de coragem para continuar a luta.

Carta a FR (17)

16/1/1995

Camarada:

Lamento muito o novo golpe que sofreste e espero que mantenhas ânimo para enfrentar mais esse grande desgosto. Eu, infelizmente, tive que acompanhar nos últimos meses a doença e morte duma irmã minha e sei as marcas que isso nos deixa.

Faço seguir pelo correio o livro que encomendaste. A revista deverá estar pronta na primeira semana de Fevereiro e lá vem o comentário acerca da morte do teu filho. Aceita abraços de todos nós, com desejo de muita saúde e coragem.

Carta a FR (18)

6/10/1995

Caro Camarada:

Desculpa a demora em responder-te, mas aproveitei para tirar umas férias e só agora retomo actividades. Não tenho dúvida em dar-te apoio na questão dos processos que queres consultar mas creio que isso passa em primeiro lugar por uma procuração tua e mesmo assim, sendo como são os gajos que tomam conta da Torre do Tombo, é de duvidar que atendam o pedido. Julgo que tens lido os artigos do Fernando Rosas e de outros professores que protestam porque o facho que lá está em director daquilo arranja sempre pretextos para não permitir a consulta dos documentos. Em todo o caso, se me passares uma procuração, eu vou atacar o animal no seu esconderijo. Nome: Francisco Martins Rodrigues, B.l. 6481598, Arquivo de Lisboa, 7/5/84. Creio que é suficiente.

Espero que a tua saúde vá menos mal. Aceita um abraço do camarada

Carta a FR (19)

19/5/1996

Caro Camarada:

Estou a preparar um artigo para a próxima P.O. com base nos dados que me enviaste sobre a morte do teu filho. Sei que é pouco mas é o que está ao nosso alcance. Tudo mostra que existe de facto uma conspiração em alto nível para bloquear as investigações em tomo do caso – quando estão em jogo os comandos da tropa, os juízes metem o rabo entre as pernas. A impunidade é tão grande que agora até já gajos da GNR chegam ao ponto de matar, decapitar e enterrar um preso (um negro?) para esconder o crime, à moda do Brasil. É o que está hoje a rádio a noticiar. Era motivo mais que suficiente para o ministro se demitir de imediato, mas envolvem tudo em palavreado chocho e lá vai tudo andando como se fosse o incidente mais natural desta vida.

Tens mais que razão quando propões a formação de associações de ex-presos políticos e de ateus. São mais do que necessárias para fazer contracorrente neste clima podre de pretensa normalidade democrática, em que o grande capital manipula as pessoas a seu bel-prazer. O nosso problema, já te tenho dito, é a escassez de pessoas dispostas a empenhar-se. Vamos editando a nossa revista com grandes dificuldades, lançando um ou outro livro de denúncia do capitalismo e esperando por melhores dias, que outros venham ajudar-nos para o nosso lado. Algum dia será.

Sobre a tradução do “Trabalho Assalariado e Capital” de Karl Marx, gostaria que a enviasses quando possível para o nosso apartado. É uma obra fundamental e poderiam proporcionar- se condições para a editarmos num livrinho.

Junto envio um livro de poesia recentemente editado pela Dinossauro[ii], com um grande abraço solidário e desejos de boa saúde

Carta a FR (20)

14/7/1996

Caríssimo:

Só agora respondo à tua carta de 26 de Junho. Desculpa o atraso mas meti umas curtas férias, para relaxar. Recebi o texto mas, por coincidência, encontrei-o, poucos dias depois, na Feira do Livro. Existe numa edição do PC, Editorial Avante, e barata. Concluímos que não teríamos saída para o livro e que seria só despesas. Desistimos, portanto da ideia e só é pena não nos termos informado primeiro, escusavas de ter o trabalho e a despesa de nos mandar o original. Se quiseres que to devolva, diz.

Quanto aos outros projectos, só te posso repetir o que já tenho dito: não temos contacto com gente interessada em criar as associações que propões. O P há muito que o não vejo. Aquilo pelo lado deles também não anda fácil. Por muito que nos custe, será necessário aguardar que surjam melhores condições, uma corrente de interesse que dê força a essa ideia. Não deixaremos de fazer a propaganda possível na P.O.

O que responderam os partidos à tua última carta sobre o teu filho? Nada, natural­mente. Precisavas que a televisão se interessasse, daria outro impacto. Já tentaste escrever ao Carlos Narciso, que faz os “Casos de Polícia” na SIC? Se ele te entrevistasse, a coisa dava barulho e teria que haver alguma resposta do poder.

Dá sempre notícias. Aceita um abraço do camarada

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[i] Júlio Pires Ribeiro, capitão da Força Aérea, que apareceu morto na Base 3 de Tancos depois de cinco dias de prisão por ter ajudado para-quedistas revoltosos. (Nota de AB).

[ii] AAVV, “Notícias da Raiva”. (Nota de AB).

Cartas a FR – 1

 

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (1)

19/9/1988

Caro Camarada R:

Na ausência momentânea do L, respondo à tua carta de 12/9, para não ficares a aguar­dar resposta.

(…) Quanto às verbas que tens enviado para a Solidariedade, têm sido devidamente registadas. Mas como houve interrupção das reuniões devido às férias, o próximo “Denúncia” só deve sair em Outubro e aí virão as verbas que falta mencio­nar.

Sobre a questão do ateísmo, julgo que há algumas pessoas interessadas (é o nosso caso na P.O.) mas a sobrecarga de trabalhos é já tão grande que não vejo que possamos para já dar ajuda. Seria preciso reunir mais pessoas interessadas, reunir materiais de propaganda, fazer um boletim, etc.

A minha visita ao Otelo está marcada para amanhã. Espero também quo um dia destes, ou eu ou o LGo possamos visitar-te aí (…), para conversarmos sobre os nossos tra­balhos.

Aceita um abraço e desejos de boa saúde

Carta a FR (2)

10/10/1988

Caro Camarada:

Em resposta à tua carta de 22/9, que agradeço: estive com o Otelo[i], gostei de ver que se mantém com o moral elevado, mas receio que ele esteja iludido sobre a boa vontade que julga haver de muitos sectores para resolver o caso das condenações. Ele diz sempre clara­mente que não aceita soluções individuais só para ele, o que é muito justo. Espero voltar a ter ocasião de o visitar brevemente.

Quanto à entrevista que referes no “Expresso”, li-a de facto e, embora não esteja por dentro dos assuntos que há entre os presos, acho que levanta questões sérias que devem ser ponderadas. Como deves calcular, a posição em que se colocam esses dois presos tem afinidades com as opiniões que a OCPO tem defendido na revista. Pessoalmente, acho que houve um erro de início na ideia arreigada de que Se poderia formar uma espécie de frente de pessoas de es­querda, sem definições ideológicas rigorosas. oou adepto da necessidade de constituir um partido comunista (não comodista), que possa ser como uma espécie de coluna vertebral de todo o imenso trabalho que é preciso fazer para uma revolução ter êxito. É natural que esta minha opinião se afaste muito do que tu defendes na actualidade, suponho. Mas isso não impede que troquemos ideias em busca do que a todos nós interessa alcançar. Aguardo com muito interesse a tua opinião sobre a nova série da “Política Operária”, que te será enviada na próxima segunda-feira.

Li a cópia da carta do VG. Como te disse antes, o terreno da propa­ganda ateísta é um dos que, quanto a mim, mais estão a precisar de intervenção organizada.

Sem darmos por isso, estamos já todos cobertos de teias de aranha e os tipos cada vez são mais arrogantes. Espero bem que em breve haja forças disponíveis para darmos una bofetada na cara dessa gente, acabando com o argumento (inventado pelo PCP) de que não se pode falar contra a religião para não ofender os católicos honestos. E eles podem ofender-nos a nós?

Até breve, espero. Um grande abraço

Carta a FR (3)

15/11/1988

Caro Camarada:

Desculpa só hoje responder às tuas cartas de 27/10 e 8/11, mas a preparação da nossa festa ocupou-nos todo o tempo. Felizmente correu tudo bem, foi um êxito, e espero que alargue a difusão da revista.

A “Denúncia”[ii] nº 9 deve ficar hoje aprovada e será rapidamente impressa. Tem demorado por causa das discussões sobre como devemos comentar as iniciativas e declarações recentes sobre o ca­so Otelo, que deves ter lido nos jornais. Está a haver uma manobra para resolver o caso Otelo à parte (declarações de Soares e Eanes, pedido de indulto do PCP). Inclusive vou agora escrever uma carta para o “Jornal” rectificando por terem posto o meu nome entre os apoiantes da “solução política” do caso.

Por tudo isto, não sei se as nossas opiniões sobre o assunto são coincidentes. Estamos a preparar um artigo da redacção criticando o caminho que as coisas levam. Em todo o caso, se quiseres escre­ver uma carta com as tuas opiniões, será certa­mente publicada no próximo número.

Por favor, escreve-me depois a contar o que pensa o Otelo destas jogadas e como vai impedir que sigam por diante. Uma declaração pública dele podia ter um efeito importante.

O Lgo não chegou a ir a Ovar e portanto não fez a entrega que lhe pediste. Es­tamos a pensar, ele ou eu, ir aí de novo em Dezembro. Depois escrevo-te.

Por hoje, é tudo. Até breve, um abraço deste camarada e amigo

Carta a FR (4)

12/12/1998

Caro Camarada:

Respondo mais uma vez a duas cartas tuas juntas, pelo que peço desculpa. A tua sugestão de irmos oS dois visitar o Otelo não me chegou a horas de eu te responder dentro do prazo. Como só vou ao apartado uma vez por semana, não dá para recados urgentes. Além disso, as declarações mais recentes dele (“O Jornal” e “Diário de Lisboa”) vieram ao encontro do que queríamos: ele rejeita mais uma vez claramente a oferta de in­dulto ou amnistia separada. Para já, fica cortada a manobra, mas os gajos decerto vão voltar ã carga.

Quanto às tuas sugestões para acordos com o Sampaio do PS, com gente do PC e formação dum mo­vimento de esquerda, seria preciso primeiro que os grupos de esquerda existentes chegassem a es­se acordo e tivessem objectivos comuns. Não pen­so que a situação seja essa; cada grupo está nu­ma fase de tentar definir-se e juntar forças e não se consegue por agora ir além de pequenas ac­ções em comum, como é o caso da SCR. Por nós, “P.O.”, ainda não nos sentimos capazes de grandes voos. Uma acção que já propusemos e que nos pa­rece possível seria uma candidatura conjunta da extrema-esquerda ao Parlamento Europeu. Aguarda­mos resposta dos outros grupos, que te parece a ideia? Seria possível mobilizar gente para apoiar essa candidatura? O objectivo não seria, claro, eleger nenhum deputado (o que é impossível na situação actual) mas aproveitar para fazer pro­paganda na televisão e na rádio e denunciar os grandes negócios da CEE. Que te parece?

Fui ao almoço da “Versus”, correu bem, e houve quem comentasse a tua ausência, haverá outras ocasiões para nos encontramos e deba­termos ideias. Continuo com o projecto de ir aí, mas tenho sido obrigado a adiar tudo quanto a deslocações porque a artrose está-me a atacar em força desde há mais de um mês.

Por hoje é tudo. Até breve e aceita um grande abraço deste camarada

Carta a FR (5)

21/3/1989

Camarada:

Respondo às tuas cartas de 8 e 16 do cor­rente, desejando-te melhor saúde. O Encontro de activistas teve mais de cem pessoas e correu bastante bem, tendo ficado decidida a constituição e legalização duma Frente da Esquerda Revolucio­nária, para intervir nas eleições do Parlamento europeu. Continuam as conversações com a FUP e o PSR para a eventualidade duma coligação, mas ain­da sem resultado. A UDP não respondeu, Se não houver acordo, iremos sozinhos, que remédio, o que importa é aproveitar para fazer propaganda das ideias revolucionárias. Quanto a candidatos, nada se adiantou por enquanto. Já sondei pessoas pró­ximas do Otelo que me dizem que ele não está in­teressado em ser candidato. Também sei que o PSR o visitou recentemente, talvez para o convidar, mas duvido que ele aceite.

Dei conhecimento aos camaradas da tua car­ta e desejam-te as melhoras e que possamos contar com o teu apoio na campanha que se vai iniciar. Vamos fazer um comício na Voz do Operário na noi­te de 24 de Abril, para apresentação pública da candidatura. Espero que nessa ocasião poderemos ter cá a tua presença. Também evidentemente teremos que estudar as possibilidades duma sessão aí (…), mesmo modesta, que dizes?

(…) Mando junto o texto do Apelo que foi aprovado no encontro. Vamos começar imediatamente a recolher assinaturas de apoio para depois divulgar em anúncios pagos na imprensa. Podemos contar com a tua colaboração? Trata-se de reco­lher nomes de personalidades mas também nomes de toda a gente que esteja de acordo e que se pode mobilizar para colaborar. Vamos também man­dar listas para recolha de fundos. Enfim, o car­ro está em andamento, vamos a ver se acelera.

Espero ver-te brevemente (deste vez é que cumpro) quando for ao Norte. Escrevo depois ou telefono a confirmar. Grande abraço e de­sejos das tuas melhoras.

Carta a FR (6)

1/4/1989

Caro Camarada:

Respondo è tua carta da 23/3, só para te confirmar que precisamos de mais assinaturas de apoio à PER, que poderiam ser trazidas quando viesses ao comício da Voz do Operário, dia 24 de Abril. Seria muito importante trazeres nesse dia uma delegação de (…) e apresentarem uma curta mensagem de apoio à candidatura, que dizes?

Está-se a reunir nomes para a lista de candidatos e desde já preciso que me digas se o teu nome pode ser incluído (nós da PO vamos propô-lo aos outros) e se deveria ser como indepen­dente. Quanto ao Otelo vai amanhã domingo uma pessoa falar com ele.

Peço também que me mandes dizer os nomes que vêm ilegíveis na lista que mandaste, porque pensamos divulgá-los em anúncio a publicar nos jornais. Sobretudo interessa o nome do dirigente do Sindicato dos Cerâmicos. Todos os nomes repre­sentativos que possas obter interessem, como com­preendes. Para já é tudo.

No dia 7 há uma sessão da SCR na Amadora pela Amnistia. Vai sair o “Denúncia”.

 Um abraço

Carta a FR (7)

8/5/1989

Caro Camarada:

Respondo às tuas cartas (em seguimento da nossa conversa telefónica. Recebemos as 4 listas de apoio, seria bom que viessem assim de outras partes. 0 comí­cio da Vos do Operário foi um pouco fraco mas correu bem. Vamos enviar-te materiais da FER para distribuição. Será possível organizar aí uma pequena sessão de esclarecimento? Haverá um almoço de apoio à candidatura em Lisboa a 3 de Julho, gostaríamos de contar com a tua presença e de mais alguém que viesse contigo.

0 comício de encerramento é a 16 Junho na Voz do Operário. O L estará aí contigo brevemente e poderá informar-te melhor sobre o andamento dos trabalhos. Envio-te a última P.O. e a lista dos candidatos.

Sobre o Otelo e companheiros, continua a arrastar-se a solução. Fizemos bas­tante barulho nas manifestações do 25 Abril e 12 de Maio, Vamos continuar a martelar com co­municados à imprensa. Um abraço

Carta a FR (8)

14/5/1989

Camarada:

Espero que estejas bem de saúde e que te­nhas recebido a minha carta de 8 do corrente, as­sim como a encomenda cora os manifestos. Corrigin­do o que te dizia nessa carta: o almoço que esta­va previsto para 3 de Junho foi antecipado para dia 28 de Maio domingo. Pretende-se transformá-lo numa acção de protesto contra a recuperação do bandido Salazar que por aí está a ser feita. Tentaremos obter cobertura na imprensa e rádio e prevê-se uma intervenção do Varela Gomes como re­sistente antifascista de longa data. Isto ainda torna mais importante a tua comparência. Pensas que será possível ultrapassar os teus problemas de deslocação? Diz-me alguma coisa, certo?

Fizemos uma queima dum boneco representan­do o fascista Blas Pinar, na Praça da Figueira, deu na televisão, rádio e alguns jornais, viste?

A tónica do antifascismo tem que ser bem martelada durante a campanha para despertar a juventu­de. Podes ter um papel nisso. Vamos também dar destaque aos dois presos políticos que entram na nossa lista, a HC e o DL.

Um abraço

Carta a FR (9)

14/6/1989

Caro Camarada:

Já terás conhecimento pela imprensa de mais informações sobre a nossa desistência. Receberás dentro de dias a PO 20, que expõe o caso em por­menor. Não foi de ânimo leve que chegámos a esta medida, porque sabíamos o descrédito que estes incidentes trazem à esquerda, mas não vimos outra alternativa em face da deslealdade total dos ra­pazes da LST. Não lançámos s público essa ques­tão para não entrar era “lavagem de roupa suja” mas quando um de nós aí for poderemos conversar. Segue comunicado de imprensa.

Recebi as tuas cartas e o cheque de 1.600$ e espero que este incidente não afecte a nossa colaboração. Hoje penso que foi um erro ter ten­tado esta coligação com gente que vê a política como uma brincadeira. Fica-me de emenda.

Um grande abraço e até breve

Carta a FR (10)

27/6/1989

Caro Camarada:

Respondo à tua carta de 15/6 e aproveito para saber se te faz jeito receberes-me aí no sá­bado dia 9 Julho ou na segunda dia 10, visto que terei que ir ao Norte e cumpria finalmente a pro­messa de te visitar para falarmos um bocado. Agora que já passou a trapalhada das eleições, que me deixou más recordações, poderemos falar de outras. Só é preciso que me digas o dia que te convém (…).

Houve anteontem aqui um jantar dos pre­sos, famílias e amigos com o Otelo. O S es­teve lá. Parece que o tom dos discursos foi um bocado pró-PS (falou o Edmundo Pedro), pelo menos para o meu gosto. Tu que sonhas com uma união da gente das esquerdas talvez te alegres. Mas eu com o PS, nem pintado. E com o PC também não. Enfim, coisas para debatermos.

Um grande abraço

Carta a FR (11)

1/8/1989

Caro Camarada:

Respondo às tuas cartas de 22/6 e 3/7 pe­dindo desculpe pelo atraso que já é habitual mas não é por mal… Espero que a tua saúde esteja boa. Infelizmente ainda não foi desta que te visitei, pois já tinha tudo marcado e à última hora telefonaram-me do Porto a adiar o encontro e ficou tudo suspenso. Quando tiver algo concreto telefo­no-te, mas só depois das férias com certeza.

(…) Quanto às nossas infelizes experiências eleitorais, vejo que consideras ter havido excesso de rigidez ou sectarismo da nossa parte. Não julgo isso mas só de viva voz poderemos trocar ideias sobre o assunto. O caso é que quando se juntam for­ças muito pequenas, a tendência ê para a desconfiança e o conflito. Penso que os da LST/ER foram muito pouco leais em tudo isto. Mas já lá vai. Te­mos que olhar para a frente. Um abraço

Carta a FR (12)

21/10/1989

Caro Camarada:

Só agora respondo à tua carta de 17/8, mas não é por desinteresse. Meteram-se pelo meio as férias e também os muitos trabalhos com a Po­lítica Operária, que não são só literários, mas também técnicos, enfim, tu sabes como é…

Mandei-te um exemplar como oferta e gostava de conhecer a tua opinião sobre o nº 21 da PO, em particular sobre o comunicado quanto à amnistia. Nós não estamos de maneira nenhuma desinteressa- dos do assunto, mas vemos que a opinião que domi­na entre os presos e os ex-presos, Carlos Antunes, etc., é no sentido de não fazer ondas, para não prejudicar uma lei da amnistia que acham que está para breve. Nós temos defendido a necessidade de uma manifestação, mas já nos acusaram de estar a prejudicar os presos e neste momento não vemos condições para agitar o problema como gostaríamos. (…)

Um abraço amigo

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[i] Na altura sob detenção na cadeia de Caxias. (Nota de AB).

[ii] Órgão da SCR (Solidariedade Contra a Repressão). (Nota de AB).