Carta a C.

Francisco Martins Rodrigues

Carta a C.

Março [de 1965]

Querida C.:[i]

Com a costumada irregularidade e atraso, venho escrever-te um pouco, porque os meses passam sem eu dar por isso e se não fosse a N.[ii] chamar-me a atenção e repreender-me constantemente, desconfio que o desleixo era ainda mais escandaloso. Eu sei que não é justo mas custa-me escrever e sobretudo estas cartas nossas em que temos de passar por cima de tudo o que é a nossa vida e os nossos problemas diários. Continuar a ler

Cartas a JV – 8

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 8

7/6/1993

Caro Amigo:

Tive pena de não nos termos encontrado devido à minha dor ciática. Melhorei mas custou; passados uns dias, quando já julgava estar bom, voltaram-me as dores e tive que ficar mais dois dias estendido. Se isto começa a intensifícar-se, estou feito. Lembro-me dos velhos que se viam às portas quando eu era pequeno e que me diziam que estavam “entrevadinhos”. Ainda vens um dia a Lisboa ver o entrevadinho.

Mas por enquanto ainda dou luta. A P.O. já vai para a tipografia. Devido à minha crise reumática, não pude acabar o artigo sobre o Kautsky, terá que ficar para Outubro. Vamos iniciar uma nova série, em formato A4. Quando tiveres oportunidade, poderemos discutir o que pensas da minha proposta de colaboração. Naturalmente, tão cedo não voltas a Portugal?

Quanto ao texto-inquérito do professor J. M. Lages de Famalicão, a Ana diz que já falou com o homem ao telefone mas não consegue nada, ele diz que está tudo entregue no pelouro da Cultura da Câmara Municipal e que só escrevendo para lá. Temos a impressão de que a Câmara tomou posse da exposição, entre grandes elogios, para a abafar, porque o assunto é explosivo.[i]

Por agora é tudo. abraços de todos nós para ti e para a S.

[i] José Manuel Lages foi promotor e director científico do Museu da Guerra Colonial de Vila Nova de Famalicão. Criou a exposição itinerante  “Guerra colonial – uma história por contar”, com base nos conteúdos dos “baús de guerra” dos antigos soldados coloniais. (Nota de AB)

Cartas a HN – 7

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 7

17/7/1996

Caro Camarada:

A entrevista vai sair no próximo número. Arranjei e encurtei, porque a linguagem escrita nunca é igual à falada, e acho que ficou interessante, sobretudo por ser uma experiência de mulher. Se puderes continuar a mandar “retratos da emigração” de vez em quando, serão bem-vindos. O António Castela relatou-nos os contactos convosco e veio contente por ter sido tão bem recebido.

Por aqui, tudo dorme… mas nós esforçamo-nos por não ir na onda. Já estamos a preparar a P.O. para depois de férias. Penso iniciar uma série de artigos sobre episódios da história do PC, tudo depende do tempo disponível. Quanto à Dinossauro temos em perspectiva um livro de ficção sobre a guerra colonial, escrito por um oficial do exército, um texto dum marxista do Senegal sobre a destruição de África pelo imperialismo. O resto é surpresa… O MV está a preparar o Contraponto n° 3, talvez saia lá para Setembro. Ele é forçado a regressar a Paris em fim de Agosto, para não perder o emprego.

Quanto a outro tipo de actividades mais organizativas, não deixamos de sondar as pessoas à nossa volta mas o estado de espírito geral é de esperar para ver… A empresa vai andando e a dívida tem continuado a ser paga, de modo que vemos o nosso futuro económico mais desanuviado. E por aí, como vão os teatros, as vossas actividades? Sempre que apanhes jornais ou revistas de esquerda, em francês (alemão não vale a pena) manda, para nós estarmos informados. Abraço de todos nós.

Cartas a JM – 13

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JM – 13

7/10/1996

Olá, velho Zé, então mudaste-te outra vez? Passas o tempo a ver se nos despistas mas nós encontramos-te sempre! Este ano não vieste de férias à Pátria? Ou vieste e escondeste-te de nós?

 Seguiu há dias para tua casa o Contraponto nº 1 e 2 (5 exemplares de cada) (…). Aqui junto a guia de remessa. Vê se consegues assinantes, que as finanças estão apertadas. Dentro de dias, vai seguir a P.O. Traz a entrevista que o H fez com a Manuela Monteiro. Ficamos à espera de mais colaborações. Ela diz que tem coisas a contar sobre a situação da mulher na Suíça: era capaz de dar um artigo interessante. Falem-lhe.

Escrevo nesta data para o H e mando-lhe 3 exemplares do último livro da Dinossauro, é uma novela sobre a guerra colonial, podes vender por aí que nem pãezinhos aos emigrantes todos, a ver se abrem mais a cabeça.

Saúde e um abraço

Cartas a MV – 48

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (53)

16/1/1995

 Caro M:

Continuo a receber materiais teus a um ritmo estonteante, o que é óptimo. Só me falta uma prosa tua para a próxima P.O., será que ainda desenrascas algo? Fecho impreterível no dia 24 do corrente.

E uma bela notícia, essa de que virás para cá por um ano. Decerto vão-se arranjar tarefas para te ocupar: o nosso glorioso partido é vasto e conduz actividades em muitas frentes, desde a teoria da revolução ao anti-racismo, desde uma empresa de edições a comités regionais em quase todo o território…

Por agora podes parar com o envio de originais para eventual tradução, pois o nosso conselho de leitura (que por sinal é formado pelas mesmas pessoas que compõem o conselho de redacção da P.O., o corpo de funcionários políticos, a equipa técnica, a contabilidade e o serviço de distribuição) já está submergido por materiais a examinar. Temos a sair um livro dum autor brasileiro-moçambicano[1], que é uma recolha de depoimentos sobre a guerra colonial, em cujo lançamento vamos apostar em força. É a guerra vista pelo outro lado, com episódios tenebrosos mais do que suficientes para deixar engasgados os patriotas cá do sítio que já se aventuram a falar outra vez do “espírito universalista dos portugueses”. Do livro do Thomas[2] envio-te 5 exemplares, para as primeiras impressões. Vou mandar também 3 para o autor (foi o que ele pediu). Do livro “Coração Forte”, igualmente cinco exemplares.

Acabo de receber o teu postal alarmado. Não, não estou doente. Estou em pânico, porque tenho falta de material para fechar a P.O. Desencava aí por favor uma prosa urgente e brilhante. Estou a ver se amanho um artigo sobre o “Marx em liberdade vigiada”, a propósito dos rapazes intelectuais que começam a conceder que “o velho até acertou nalgumas coisas”, desde que se dê como assente que a revolução proletária nunca mais! Também quero ver se faço alguma coisa à altura dos últimos movimentos operários, na Marinha Grande e Pejão (mineiros), deves ter lido algo: cargas da polícia, respostas duras dos operários, marchas sobre Lisboa. Parece haver sinais de que algo muda na disposição dos proletas, fartos de fome e pontapés. Veremos se tem sequência.

Escreve. Um abraço

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[1] Licínio de Azevedo, autor de Coração Forte, ed. Dinossauro, 1994. O título da edição original moçambicana é Relatos do povo armado, ed INLD, Maputo, 1976 (N. de AB)

[2] A Ecologia do absurdo, ed. Dinossauro, 1994. (N. de AB)

Cartas a MV – 46

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (51)

11/10/1994

Camarada Dinossauro Excelentíssimo:

Tenho visto pelos teus cartões que continuas a gozar férias a um ritmo apreciável e em sítios maravilhosos. E a revolução, como é? Ficas à espera que a gente faça aqui o trabalho todo? Bem podes ir esperando… Ao ritmo que isto por aqui vai, nem no ano 3000. Tirando a revolução da ponte, de que deves ter ouvido falar, todas as outras frentes de luta não dão luta. Neste momento, espera-se pela resposta das centrais sindicais a um plano de “concertação social” do governo absolutamente cínico e miserável, com aumentos de 2,5% (!!), mas pelas conversas moles que os líderes apresentam na televisão é de prever que não vão fazer nada.

Uma boa notícia, ontem, foi a ocupação das instalações da Rodoviária do Sul pelos operários, que sequestraram os administradores durante algumas horas e acabaram por ser expulsos pela polícia. Se houvesse meia dúzia de acções deste tipo, esta burguesia borrava-se toda. Eles fartam-se de dizer que a retoma dos negócios já começou mas o pagode, na parte que lhe toca, não nota retoma nenhuma.

De política, não falemos. O grande desafio, ao nível do PS é saber se vai optar por um oposicionismo sentimentaloide, como querem os soaristas, ou por uma linguagem tecnocrática, europeísta e abertamente reaccionária, como quer o Guterres, para ganhar as boas graças das grandes companhias. Há entre eles grandes divergências sobre
qual a fórmula que dará mais votos (porque é só de votos que se trata, evidentemente, o programa de governo é o mesmo, para Soares, Guterres ou Cavaco). Divergem também sobre qual a melhor maneira de engolir o PC: a chicote ou com abraços. Se continuarem a lutar nos próximos meses, quem vai ganhar as eleições por maioria absoluta é outra vez o Cavaco, a não ser que as dificuldades económicas empurrem as massas para a esquerda.

Outra grande “batalha em perspectiva é a entrada em cena dos aspirantes à corrida presidencial de 96: Jorge Sampaio, um social-democrata chato e sem imaginação, ou Eanes, o eterno general bronco, que o PSD estaria disposto a patrocinar. Estamos bem entregues.

O teu longo artigo sai nesta P.O. (para a semana) dividido em dois: Panamá e Pasqua, espero que aches bem. Agora há que começar a redigir para o próximo número, tem que cá estar até 15 de Novembro, o mais tardar, se não queres voltar a ser inscrito na lista dos redactores a abater.

Parecem-me até certo ponto justificadas as tuas objecções à associação de desertores (da qual, aliás, não voltei a ouvir falar), mas não me pareceu que a iniciativa estivesse a ser apadrinhada pelo Forum Cívico Europeu. Apenas o Zé Mário aproveitou o empurrão dado por esses tipos para pôr em movimento a ideia da associação, o que, se trouxesse a público o debate sobre a guerra colonial e os crimes, ajudaria a descomprimir a atmosfera. De qualquer modo, o medo é muito e o desinteresse maior, pelo que a ideia não conseguiu grandes ecos até à data.

Estive hoje com um nosso assinante de Paris, JR, ex-cabo da Força Aérea, ex-funcionário do PC, ex-preso político, que vive aí há já uns dez anos. É pessoa interessante; embora ainda preso à formação revisa, tem postura dissidente e simpatias anarco-trotsko-maoístas, não sei se me entendes. Se algum dia lhe quiseres falar ou mandar materiais, a morada é: (…).

Obrigado pelo Althusser, estou a penetrar nos meandros da sua história, mas devagar, para não ter algum acesso de loucura.

E que tal os pecadilhos de juventude do “mon ami Mitterrand”? O Bochechas deve estar embatucado com as proezas do seu amado líder e mentor espiritual. Não tarda, vais vê-lo a desfilar atrás do cortejo fúnebre, comovidíssimo. Aceita um grande abraço, até breve.

 

Cartas a MV – 45

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (50)

8/8/1994

Caríssimo:

Será que o selo [1] não vale mesmo ou és tu que queres ficar com o tesouro só para ti? Eis a dúvida pungente que não me deixa dormir. Mas eu vou aí a Paris tirar a coisa a limpo, podescrer! Quando menos esperares, bato-te à porta. E quando te vir a viver à grande e à francesa, já sei que foi o fruto do meu selo.

Por aqui, tudo calmo. De novo, apenas uma tentativa para formar uma Associação de
Antigos Desertores da Guerra Colonial, de que te mando o texto convocatório, feito pelo Zé Mário Branco. Se tiveres aí possíveis interessados, informa-os. Bem se precisam apoios, porque a iniciativa por enquanto está muito restrita. Poderia ser uma boa plataforma para fazer fogo contra a faxaria que não desperdiça nenhuma ocasião para refazer a história, dizer que “a guerra estava quase ganha”, “os cabo-verdianos não queriam a independência”, o “Conselho da Revolução foi uma cambada de traidores”, etc.

As minhas actividades têm estado reduzidas ao mínimo, infelizmente por causa da doença de uma minha irmã, que acabou por falecer recentemente. Estou a ver se me relanço ao trabalho mas primeiro quero arranjar meia dúzia de dias de férias, que estas últimas semanas têm sido bem pesadas.

Recebeste os 5 volumes do “Futuro”? Penso meter as tuas “bocas” ao Sousa Tavares nas cartas dos leitores do próximo número, mas, à parte disso, não me arranjas uma carta de Paris? Cá fico à espera. Um abraço.

[1]  Segundo MV, em carta de 21/6/94: