Cartas a JV – 14

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 14

14/2/1997

Caro Amigo:

Os teus materiais cá chegaram em boa ordem. No nº 57 metemos um extracto das “Chinoiseries”, dum tal Charles Reeve, conheces? Elucidativo. Sobre a greve dos condutores de camiões, tivemos um artigo programado para o nº 58 (está a sair), demos os teus e outros elementos ao MC (suponho que conheces), mas ele envolveu-se de tal forma num comentário a um recente livro do Dr. Álvaro Cunhal que acabou por nos deixar descalços quanto aos camionistas. Cunhal é fundamental, claro, mas não sei se foi boa a troca. Eu não li o livro do homem, mas a televisão tem-lhe dado algum reclame e ouvi que vai sair uma grande entrevista com ele no Jornal de Letras. O homem quer acabar a carreira como literato, pulir a imagem para a posteridade. E ele e o Soares, a tomarem as últimas disposições para garantir que o funeral será muito concorrido. Aprenderam com o Mitterrand.

Voltando aos camionistas. Agora são os espanhóis que estão a bloquear as estradas. Âs novas realidades proporcionam possibilidades inesperadas de paralisar e economia dum país. E se uma (futura) Federação dos Camionistas Europeus resolvesse bloquear as estradas do continente? O que a televisão dá da greve em Espanha são os protestos dos nossos compatriotas camionistas, ansiosos por trabalhar e indignados com os grevistas que lhes partem vidros, furam pneus, etc. Ontem, dia 13, estimulados pelo ambiente, alguns dos nossos camionistas tentaram bloquear a estrada à entrada de Vilar Formoso mas a GNR atirou-lhes com os cães para cima e a tentativa fracassou, pelo menos para já. Dizia um deles no telejornal: “Não está certo; em França e em Espanha bloqueia-se as estradas e a polícia não intervém; aqui atiram-nos logo com os cães”. É que ele não sabe que à Europa só vamos buscar o que é bom, não os hábitos relaxados. Polícia aqui não brinca. Apareceu mais um rapaz morto, depois de ter sido levado para a esquadra, em Vila Franca. Parece que estava bêbado num bar e molhou um guarda com cerveja. O que é que ele queria? De resto, os polícias juram que não lhe fizeram mal nenhum. Aguarda-se o resultado da autópsia.

Quanto ao material sobre a Guiné-Bissau, lamentavelmente não temos para lá contactos, não lhe pudemos dar destino. As nossas edições é que estão a coxear dos dois pés. O distribuidor impõe-nos condições cada vez mais duras, quer asfixiar-nos, e nós não vemos possibilidade de lançar nada novo pelos tempos mais próximos. O livro do Che “Viagem pela América” vendeu razoavelmente, mas já o último, “Os meus anos com o Che”, da ex-mulher, está a sair pouco. Cada livro é um agravamento dos prejuízos, nada a fazer. Precisávamos de uma rede alternativa de distribuição, apontada para o público que ainda consome coisas destas. A revista é que não pode falhar; por acaso, este número vai sair com duas semanas de atraso, porque os meus problemas familiares têm-me bloqueado.

Se calhar queres que te fale da actualidade nacional, mas não estou em condições. Entre enredos da bola, enredos internos dos partidos, enredos da droga, os telejomais são desmobilizadores. PS e PSD ultimam o acordo para a revisão da Constituição; reina um saudável consenso democrático, pelo menos… Podes pelo menos dormir descansado: quando vieres a férias encontras tudo na mesma. E quando vens? Dá notícias. Abraços nossos para ti e cumprimentos para a S.

Cartas a JV – 11

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 11

9/2/1994

Caro Amigo:

Agradeço os jornais e documentos que tens mandado.. A P.O. deve vir hoje da tipografia e ficamos com um breve período de pausa, para respirar e sobretudo ler material que se vai acumulando. O teu reparo sobre o homossexualismo chegou quando se estava a fechar a redacção e ainda deu para o metermos em carta do leitor. Aguardemos as reacções. Se queres que te diga, nunca nos dedicámos a discutir muito o assunto e creio que existem opiniões diferentes entre nós. Talvez a tua carta nos obrigue a discutir o problema. A posição que saiu no artiguinho que referes não pretendeu obviamente dizer que a homossexualidade seja uma doença, mas apenas apontar o seu florescimento nas prisões como um dos índices da situação degradante em que os presos se encontram, privados duma vida sexual normal. Não concordas?

Por cá, a situação económica agrava-se lentamente, embora não tanto como alguns previam. O desemprego oficial é de 6% mas este número tem pouco a ver com a realidade. Será 8%, 10%? O funcionalismo público vai fazer a segunda greve no espaço de um mês, porque o governo pretende dar-lhe um aumento de 0% a 2%, omitindo a inflação, ou seja, um “aumento” negativo. Dos sectores operários há algumas acções de protesto, mas até agora dispersas. As duas centrais estão a radicalizar a linguagem mas não mais do que isso, é só para absorver o descontentamento. Qualquer delas, mas sobretudo a UGT, estão escandalosamente vendidas às verbas da Comunidade, a pretexto dos cursos de formação profissional, e ficam na dependência do governo para embolsar as massas. De modo que berram muito mas arrastam os pés e procuram dispersar as lutas. É a modernização que chega à ocidental praia lusitana.

Será que nos encontramos na sessão do aniversário da Batalha em 26 deste mês? Eu vou lá. Abraços meus,  da Ana e da Beatriz, para ti e para a S.

Cartas a JV – 10

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 10

8/12/1993

Caro Amigo:

Não sei donde partiu o atraso mas a tua carta datada de 22 Novembro só me foi entregue no Correio em 6 Dezembro. Já temos a P. O. na tipografia e não nos foi possível incluir nada dos elementos que mandaste. Sobre a greve da Air France, felizmente, o MV mandou uns comentários que publicámos com destaque. Aqui também houve “bernarda” com os trabalhadores da TAP, mas o pessoal mostrou muito menos combatividade que o daí. De qualquer modo, o apertar da crise obriga o ambiente social a mudar lentamente. Para já, quem aparece na ribalta são os estudantes, cujas manifestações devem ter obrigado o Cavaco a uma remodelação governamental,, que deu um sinal de fraqueza. O homem até agora fazia gala da sua firmeza de rocha, de modo que esta cedência talvez lhe vá tirar muita da confiança quase supersticiosa que a pequena burguesia tinha nele – a admiração pelo “homem forte”. A oposição está ao ataque, tentando capitalizar tudo o que puder dos resultados das eleições autárquicas – a campanha eleitoral, desta vez, é um carnaval imbecil, com “debates” na televisão com as claques a gritar por um ou por outro dos candidatos e a agitar bandeirinhas, numa algazarra infernal em que se faz tudo menos debater seja o que for. Um espectáculo miserável, que dá bem a medida da democracia a que temos direito.

De qualquer modo, por enquanto é cedo para saber se é irreversível a crise do governo. Só se a situação económica tiver agravamentos dramáticos. Para já, além da TAP, houve alguns protestos operários (que a imprensa, como de costume, “desdramatiza” o mais possível), nomeadamente uma marcha de fome de vidreiros da Marinha Grande para Lisboa e uma greve “selvagem” dos portuários de Setúbal, greve na Lisnave, etc. As centrais não assinaram a concertação social (ou 4% ou nada, disse o governo) e falam em greve geral mas de forma mole e indecisa. Em Espanha já está marcada para Janeiro, mas lá a situação é sempre mais agitada e desperta do que aqui. Aqui, num resumo que pode ser muito subjectivo, eu diria que o governo está mais ameaçado pelos estudantes, médicos, juízes, empresários agrícolas, do que pelos operários e assalariados. E no entanto, a situação destes vai-se tomando dramática. Coisas…

Pela nossa parte, de novo apenas um convite que recebemos, a Ana e eu, para intervirmos numa semana de debates sobre o centenário de Mao, realizada pela Biblioteca-Museu da Resistência, organismo dependente da Câmara de Lisboa. Outros participantes (em dias diferentes!) são o Arnaldo de Matos, Pacheco Pereira e Pedro Baptista (ex-OCMLP). Pelo menos, estão convidados, não sei se vão. Decidimos aceitar, embora o público seja restrito, para valorizar o Mao revolucionário dos primeiros anos e fazer fogo contra a bronca ironia com que os tipos do PS e do PC falam da revolução chinesa, como se fosse uma anedota.

Espero que a Fora do Texto mande o teu livrinho (costumam mandar sempre) e far-lhe-emos referência sem falta. Também espero poder aproveitar a tua sugestão de publicar algum extracto dos teus artigos como carta. Faço votos por que tudo vos corra bem. A P.O. deve estar a sair da tipografia. Abraços para ti e para a S. de todos nós.

Cartas a EL – 4

Francisco Martins Rodrigues

Carta a EL – 4

2/2/1996

Caro Amigo:

Agradecemos os votos para o novo ano, assim como o texto sobre as greves em França, que nos pareceu esclarecedor. Embora não podendo publicá-lo na íntegra, fizemos uma condensação que vem no próximo n° da P.O., a sair dentro de uma semana. Sempre que puder mandar-nos recortes da imprensa ou outros materiais interessantes da esquerda, será uma boa ajuda para a nossa revista. Esperamos que esta continue a agradar-lhe e continuamos abertos às críticas esugestões que a sua leitura lhe suscite.

Com as nossas saudações

 

Cartas a MV – 51

Francisco Martins Rodrigues 

Carta a MV (54)

14/2/1997

Caro M:

Estamos apreensivos pela tua falta de notícias. Temos recebido alguns materiais teus (com destaque para os do negacionismo) mas nada de cartas nem de notícias.

Temos sido abordados por alguns assinantes do “Contraponto” que estranham que não tenha saído mais nenhum número e se sentem defraudados. Tens o nº 3 em preparação? Precisas de algum apoio em traduções, etc.? Diz alguma coisa.Mando junto algumas publicações que te podem interessar e uma carta para ti.

A PO 58 será expedida na próxima semana. Teve algum atraso devido a acumulação de trabalho e também a problemas familiares que me têm ocupado demasiado. De qualquer forma, conseguimos recuperar colaboradores que ultimamente estavam a falhar. Acho que não está mal. Fiz um bocado à pressa, como de costume, um artigo lançando alguma polémica com o Bitot, que, a meu ver, desvaloriza enormemente a questão do imperialismo. Espero que ele reaja bem e que a polémica se desenvolva.

Pelo lado da Dinossauro é que não vamos bem. Depois do enorme esforço que representaram para nós os últimos lançamentos (anunciados na PO 57) fizemos contas com a distribuidora e chegámos à conclusão de que temos que parar, pelo menos por alguns meses. As tiragens são pequenas, a tipografia leva muito dinheiro pela impressão e encadernação e a distribuidora já exige 54/o do preço de capa e alargou o prazo de pagamento de 60 para 90 dias, quando não são 120… Tirando a Viagem pela América de Che Guevara, todos os outros nossos títulos saem mal. Mesmo Os meus anos com o Che, em que púnhamos esperanças de recuperar algum dinheiro, está a vender pouco. Esperemos que com o correr do ano e o aniversário da morte do Che, haja maior interesse.

Tem havido alguma agitação operária, sobretudo no Norte, sobretudo mulheres, por causa dum célebre decreto “socialista” da “semana de 40 horas” que, em concreto, está a levar os patrões a considerarem como paragem do trabalho as pausas que até aqui eram pagas. Mas o panorama geral continua o mesmo. Os camionistas estão a contagiar-se um pouco com a greve que agora passou para Espanha mas uma tentativa de bloquear a estrada, ontem, perto de Vilar Formoso, foi logo reprimida com GNRs e cães. Fora disso, são os desfalques e roubos do costume, a bola e a bola…

Quando pensas vir a Portugal? Manda notícias. Abraços para ti e para a V.

Cartas a MV – 50

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (54)

27/11/1996

Caro M:

Estou a escrever-te com bastante atraso, porque só agora acabámos uma corrida para pôr na rua a P.O. 57 e dois livros da Dinossauro. A PO seguirá dentro de uns dez dias Dos
bvros, mando ja 3 exemplares de cada, para veres se tens compradores. Vai também a P.O. 56 que deve ter-se extraviado ou falhado na nossa expedição, não tenho a certeza. Mando 3 exemplares.

E o Contraponto n° 3, está em marcha? Não sei se precisas de apoio, diz. Mando-te junto um artigo que traduzi da Transituation, “Vectores”, dum tal Miguel Vitaliis. Achei interessante e poderá eventualmente servir para o Contraponto.

O M está interessado em preparar para a próxima P.O. um artigo sobre a greve dos çanúonistas franceses. Por favor, manda o que tiveres, recortes com posições sindicais,
dos partidos, etc.

Seguem junto duas cartas que vieram em teu nome para o Apartado da Dinossauro. Abri uma por inadvertência, desculpa. Também têm chegado endereçadas ao Contraponto algumas revistas francesas como o Courant Alternatif, Partisan, uns materiais dos zapatistas, etc., que não mando porque julgo que podes obter aí sem dificuldade. Veio também um livrinho dum congresso do Partido Marxista-Leninista Alemão, que retive porque julgo que não tem utilidade para o Contraponto e me serviu para um comentário na P.O. Simplesmente miserável. Depois te mando para te instruíres.

Mando aqui junto um cheque e duas notas em moeda estrangeira: 100 francos (para
uma assinatura do Contraponto, toma nota do nome), 20 marcos e 10 coroas holandesas. Não vale a pena eu trocar aqui porque o banco fica com uma data de massa nestas conversões de moeda estrangeira. Podes usar para comprar algum livro que aches interessante enviar-nos.

Diz como correm as coisas e quais os teus planos. Virás a Portugal no fim do ano?
Cumprimentos para a V. A S. está boa? Um abraço

Cartas a MV – 41

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (47)

6/12/1993

Caro M.:

Deves estar a receber muito em breve a P.O. nQ 42, que está na tipografia. Publicámos com destaque as matérias que nos mandaste e esperamos comprometer-te, de modo a continuares. A tua escrita verrinosa faz-nos falta. A carta de Paris é imprescindível. Afinal somos europeus ou não?

O que estava prometido e não veio foi o Albatroz. Problemas com a poluição dos mares? Repetimos o anúncio das últimas publicações Albatroz mas esperamos que até meados de Janeiro haja novidades quanto à revista. Uma coisa que me preocupa é que a colaboração que te mandei já está muito desactualizada. Se vires interesse e ainda for a tempo,
posso fazer outro comentário mais actualizado, mas só se fizer mesmo falta. Diz alguma coisa sobre isto.

O governo está a sofrer um sério desgaste com os efeitos da ressaca económica. O Cavaco perdeu os ares olímpicos e está a dar mostras de nervosismo e insegurança. Ainda agora substituiu quatro ministros e prevê-se uma votação muito baixa nas autarquias, dia 12 deste mês. Afinal o “gigante” PSD aparece com os seus pés de barro. A pequena burguesia, sempre instável, passa da adoração ao retraimento. Os estudantes são como sempre um bom barómetro; em menos de dois anos passaram dum cavaquismo entusiasta para uma aversão ardorosa ao governo, sobretudo depois de terem levado uma carga da polícia nas escadarias da Assembleia.

Na frente do trabalho, também há sintomas, que a comunicação social procura desdramatizar e apagar, mas com algum significado, como a manifestação da TAP no aeroporto, uma greve “selvagem” no porto de Setúbal, uma marcha da fome dos vidreiros da Marinha Grande até Lisboa, uma greve na Lisnave…

Está a passar o centenário do nascimento de Mao e fui convidado, juntamente com a Ana, o Arnaldo Matos (!), Pacheco Pereira (!!) e Pedro Baptista (da ex-OCMLP) para uma semana de colóquios no Museu da Resistência, que é uma coisa dependente da Câmara Municipal de Lisboa e dominada pelos PS. Decidimos aceitar e ir lá largar umas bujardas
em defesa do presidente Mao, embora o público seja bastante restrito. Veremos o que se apura como agitação revolucionária.

Quanto ao “Courrier International”, não me parece que valha a pena renovares assinatura. Eu julgava que tu o obtinhas em qualquer lado de borla. É interessante como informação geral mas para a P.O. pouco adianta e não merece a despesa. O que nos é útil (até pelos desacordos que motiva…) é a revista da “Politis”. Se puderes, continua a enviar, pelo
menos os números dedicados a temas que interessem à nossa área. Outra coisa: podes obter ou sabes onde obter um CD editado há anos e chamado “Obrigado Otelo”?

Abraços para todos.