Cartas a MV – 51

Francisco Martins Rodrigues 

Carta a MV (54)

14/2/1997

Caro M:

Estamos apreensivos pela tua falta de notícias. Temos recebido alguns materiais teus (com destaque para os do negacionismo) mas nada de cartas nem de notícias.

Temos sido abordados por alguns assinantes do “Contraponto” que estranham que não tenha saído mais nenhum número e se sentem defraudados. Tens o nº 3 em preparação? Precisas de algum apoio em traduções, etc.? Diz alguma coisa.Mando junto algumas publicações que te podem interessar e uma carta para ti.

A PO 58 será expedida na próxima semana. Teve algum atraso devido a acumulação de trabalho e também a problemas familiares que me têm ocupado demasiado. De qualquer forma, conseguimos recuperar colaboradores que ultimamente estavam a falhar. Acho que não está mal. Fiz um bocado à pressa, como de costume, um artigo lançando alguma polémica com o Bitot, que, a meu ver, desvaloriza enormemente a questão do imperialismo. Espero que ele reaja bem e que a polémica se desenvolva.

Pelo lado da Dinossauro é que não vamos bem. Depois do enorme esforço que representaram para nós os últimos lançamentos (anunciados na PO 57) fizemos contas com a distribuidora e chegámos à conclusão de que temos que parar, pelo menos por alguns meses. As tiragens são pequenas, a tipografia leva muito dinheiro pela impressão e encadernação e a distribuidora já exige 54/o do preço de capa e alargou o prazo de pagamento de 60 para 90 dias, quando não são 120… Tirando a Viagem pela América de Che Guevara, todos os outros nossos títulos saem mal. Mesmo Os meus anos com o Che, em que púnhamos esperanças de recuperar algum dinheiro, está a vender pouco. Esperemos que com o correr do ano e o aniversário da morte do Che, haja maior interesse.

Tem havido alguma agitação operária, sobretudo no Norte, sobretudo mulheres, por causa dum célebre decreto “socialista” da “semana de 40 horas” que, em concreto, está a levar os patrões a considerarem como paragem do trabalho as pausas que até aqui eram pagas. Mas o panorama geral continua o mesmo. Os camionistas estão a contagiar-se um pouco com a greve que agora passou para Espanha mas uma tentativa de bloquear a estrada, ontem, perto de Vilar Formoso, foi logo reprimida com GNRs e cães. Fora disso, são os desfalques e roubos do costume, a bola e a bola…

Quando pensas vir a Portugal? Manda notícias. Abraços para ti e para a V.

Cartas a MV – 48

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (53)

16/1/1995

 Caro M:

Continuo a receber materiais teus a um ritmo estonteante, o que é óptimo. Só me falta uma prosa tua para a próxima P.O., será que ainda desenrascas algo? Fecho impreterível no dia 24 do corrente.

E uma bela notícia, essa de que virás para cá por um ano. Decerto vão-se arranjar tarefas para te ocupar: o nosso glorioso partido é vasto e conduz actividades em muitas frentes, desde a teoria da revolução ao anti-racismo, desde uma empresa de edições a comités regionais em quase todo o território…

Por agora podes parar com o envio de originais para eventual tradução, pois o nosso conselho de leitura (que por sinal é formado pelas mesmas pessoas que compõem o conselho de redacção da P.O., o corpo de funcionários políticos, a equipa técnica, a contabilidade e o serviço de distribuição) já está submergido por materiais a examinar. Temos a sair um livro dum autor brasileiro-moçambicano[1], que é uma recolha de depoimentos sobre a guerra colonial, em cujo lançamento vamos apostar em força. É a guerra vista pelo outro lado, com episódios tenebrosos mais do que suficientes para deixar engasgados os patriotas cá do sítio que já se aventuram a falar outra vez do “espírito universalista dos portugueses”. Do livro do Thomas[2] envio-te 5 exemplares, para as primeiras impressões. Vou mandar também 3 para o autor (foi o que ele pediu). Do livro “Coração Forte”, igualmente cinco exemplares.

Acabo de receber o teu postal alarmado. Não, não estou doente. Estou em pânico, porque tenho falta de material para fechar a P.O. Desencava aí por favor uma prosa urgente e brilhante. Estou a ver se amanho um artigo sobre o “Marx em liberdade vigiada”, a propósito dos rapazes intelectuais que começam a conceder que “o velho até acertou nalgumas coisas”, desde que se dê como assente que a revolução proletária nunca mais! Também quero ver se faço alguma coisa à altura dos últimos movimentos operários, na Marinha Grande e Pejão (mineiros), deves ter lido algo: cargas da polícia, respostas duras dos operários, marchas sobre Lisboa. Parece haver sinais de que algo muda na disposição dos proletas, fartos de fome e pontapés. Veremos se tem sequência.

Escreve. Um abraço

——————-

[1] Licínio de Azevedo, autor de Coração Forte, ed. Dinossauro, 1994. O título da edição original moçambicana é Relatos do povo armado, ed INLD, Maputo, 1976 (N. de AB)

[2] A Ecologia do absurdo, ed. Dinossauro, 1994. (N. de AB)

Cartas a MV – 45

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (50)

8/8/1994

Caríssimo:

Será que o selo [1] não vale mesmo ou és tu que queres ficar com o tesouro só para ti? Eis a dúvida pungente que não me deixa dormir. Mas eu vou aí a Paris tirar a coisa a limpo, podescrer! Quando menos esperares, bato-te à porta. E quando te vir a viver à grande e à francesa, já sei que foi o fruto do meu selo.

Por aqui, tudo calmo. De novo, apenas uma tentativa para formar uma Associação de
Antigos Desertores da Guerra Colonial, de que te mando o texto convocatório, feito pelo Zé Mário Branco. Se tiveres aí possíveis interessados, informa-os. Bem se precisam apoios, porque a iniciativa por enquanto está muito restrita. Poderia ser uma boa plataforma para fazer fogo contra a faxaria que não desperdiça nenhuma ocasião para refazer a história, dizer que “a guerra estava quase ganha”, “os cabo-verdianos não queriam a independência”, o “Conselho da Revolução foi uma cambada de traidores”, etc.

As minhas actividades têm estado reduzidas ao mínimo, infelizmente por causa da doença de uma minha irmã, que acabou por falecer recentemente. Estou a ver se me relanço ao trabalho mas primeiro quero arranjar meia dúzia de dias de férias, que estas últimas semanas têm sido bem pesadas.

Recebeste os 5 volumes do “Futuro”? Penso meter as tuas “bocas” ao Sousa Tavares nas cartas dos leitores do próximo número, mas, à parte disso, não me arranjas uma carta de Paris? Cá fico à espera. Um abraço.

[1]  Segundo MV, em carta de 21/6/94:

Cem vítimas do fascismo

Francisco Martins Rodrigues

Distribuído no 1º de Maio de 1994

O regime de Salazar-Caetano foi ou não fascista? A PIDE foi ou não
uma organização de assassinos? Estas parecem ser as grandes questões
em debate, neste 209 aniversário do 25 de Abril. Para avivar a memória
dos “distraídos”, recordamos os nomes de cem vítimas, extraídos de um
folheto publicado em 1974 pela Associação de Ex-Presos Anti-Fascistas.
Com uma pergunta: os que se sacrificaram pela liberdade merecem
o espectáculo vergonhoso a que se assiste de reabilitação do
fascismo?
Continuar a ler

Anti-história

Francisco Martins Rodrigues

Quem deve assumir as culpas pela fácil vitória da direita no 25 de Novembro: o PCP ou a extrema-esquerda? O debate, que alguns tomam como quezília inútil entre vencidos, vem muito a propósito neste 20º aniversário da queda do fascismo. Continuar a ler

O Futuro Era Agora

Agora em https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/futuro/index.htm

O Futuro Era Agora
O movimento popular do 25 de Abril

Edições Dinossauro


Primeira Edição: 1994
Coordenador: Francisco Martins Rodrigues

Colaboraram na recolha e tratamento dos textos : Ana Barradas; Angelo Novo; António Barata; António Castela; Beatriz Tavares; Filipe Gomes e Rogério Dias Sousa

Capa: António Barata

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

Direitos de Reprodução: © Edições Dinossauro


Índice

capa
Baixe o livro em pdf

Os 580 dias

Prefácio

Cronologia

Molotovs no Palácio de Cristal, Rogério Dias de Sousa

O mestre disse que a Pide tinha fugido, Maria Luísa Ernesto

As perdizes, Cândido Ferreira

Durante três dias mandámos no quartel, Manuel Figueira

Toda a gente empenhada em mudar a vida, Jorge Falcato Simões

Obrigámos o Jaime Neves a recuar, Manuel Monteiro

Da JUC para a fábrica, Berta Macias

O assalto à esquadra das Antas, José Carretas

Sindicalismos em conflito, Custódio Lourenço

Foi a minha universidade, Maria de Lurdes Torres

A “revolução” no Estado Maior, António S

Autogestão na Sogantal, José Maria Carvalho Ferreira

Assobiámos o Spínola no 25 de Abril, Amílcar Sequeira

Um jornal diferente, Júlio Henriques

Sem o 25 de Abril seria uma patetinha, Helena Faria

Revistar os carros da polícia, Luís Chambel

Meu saudoso PREC, João Azevedo

Despertar dum sindicato, Vítor Hugo Marcela

Ambição era tomar o poder, Joaquim Martins

Alegria e candura, José Manuel Rodrigues da Silva

Tudo era tratado na comissão, Maria da Graça Duarte Silva

O “Che” a falar na praça, pendurado num eléctrico, Paulo Esperança

Alegria nos arrabaldes, Fernando Dias Martins

Confrontos nas ruas do Porto, Alberto Gonçalves

Os partidos não me diziam grande coisa, Maria Amélia da Silva

Passámos de caçados a caçadores, António José Vinhas

Não soubemos explorar a crise de poder, Mariano Castro

O único perigo era para a direita, Vitorino Santos

Primeiros passos da Reforma Agrária

Fazer frente aos pcs não era pêra doce, José Paiva

Lisboa – Luanda, Orlando Sérgio

Foi uma descoberta, Bárbara Guerra

Reunião de prédio, Pedro Alves

O Pires Veloso dormia na cave, José Guedes Mendes

A militância era uma festa, Nela

Os soldados não ligavam aos oficiais, Manuel Borges

Vivi por antecipação a derrocada, Helena Carmo

Sempre atrasados, José Manuel Vasconcelos Rodrigues

Uma estranha liberdade, Rita Gonçalves

Falharam os três D, Mário Viegas

O povo à porta do quartel a pedir armas, José Manuel Ferreira

Despertei no 25 de Novembro, Altamiro Dias

O povo em armas? Uma fraude, Tino Flores

Como entrei nas “catacumbas”, “Brezelius”

Andei a vasculhar a sede da PIDE, Avelino Freitas

Comecei a pensar no que poderia vir, Maria da Glória R. Borges

Dormir ao relento à porta da fábrica, Maria Luísa Campina Segundo

O poder parecia tão próximo…, Fernando Reis Júnior

Um cabo-verdiano em Lisboa, Álvaro Apoio Pereira

Os polícias de braços no ar, António Castela

Uma burguesa entre operários, Marta Matos

Recordando o soldado Luís, Valdemar Abreu

Greve aos bilhetes, João Marques

Falar de Abril

25 de Abril: transformações nas escolas e nos professores, Eduarda Dionísio….

25 de Novembro: como a esquerda foi encurralada, Francisco Rodrigues

Autonomia dos trabalhadores, Estado e mercado mundial, João Bernardo

Brandos costumes & maus hábitos antigos, Manuel Vaz

Siglas

Bibliografia


Agruras da esquerda brasileira

Francisco Martins Rodrigues

Agruras da esquerda brasileira

A tradicional e salutar abertura à crítica reinante no PT confirma-se neste número da sua revista oficial, Teoria & Debate, agora a cumprir dez anos de publicação. A pouco mais de um ano de distância da eleição em que Lula disputará de novo a presidência, é visível a ansiedade nos meios partidários acerca do desfecho de uma aposta em que o PT joga as últimas esperanças de se afirmar como partido credível de governo. No centro dos debates a questão de saber se o PT deve ampliar mais o leque de alianças a sectores do PSDB e do PMDB, os dois grandes partidos do centro, ou se deve, pelo contrário, buscar alargar a sua base eleitoral própria dedicando-se com mais afinco à mobilização das massas pobres.

Todavia, nesta polémica parece não haver consciência, mesmo da parte dos “radicais”, do plano inclinado em que o PT mergulhou ao pôr-se como meta a conquista de posições sucessivamente mais altas no aparelho de Estado burguês. O mais que se consegue obter é a confissão algo eufemística de um dirigente de que “o grande problema que vivemos hoje no PT é que não estamos conseguindo fazer acompanhar o crescimento eleitoral e institucional pelo necessário avanço na coesão programática, pela manutenção da ética interna, pelo reforço da identidade ideológica”.

Um diagnóstico bem mais severo – e ao que nos parece mais certeiro – dos males do partido é traçado na revista Em Tempo, órgão da tendência Democracia Socialista (trotskista). A esquerda do PT, lê-se num documento aí reproduzido, “não soube compreender o quanto o poder real do partido já se havia deslocado das estruturas normais de direcção para centros autónomos em torno de personalidades, sindicatos, parlamentares e executivos eleitos pelo partido”.

Vai mais longe: “Se as instâncias de base há muito deixaram de existir, agora são as instâncias de direcção que começam a desaparecer ou a transformar-se em meros aparelhos para legitimar posições. As direcções das campanhas eleitorais são exemplos gritantes disso”.

Por último: “O carácter socialista do PT está sendo questionado dentro e fora do partido. A deia da transição e da socialização dos principais meios de produção desaparece e a lógica do mercado surge como inevitável.”

Apesar disto, e reflectindo as incuráveis ambiguidades do trotskismo, o documento considera impossível a repetição no Brasil do processo de social-democratização verificado nos partidos operários europeus e acredita numa “alteração radical do curso do Partido” pela mudança na composição da direcção. Críticas “principistas” “implacáveis” e manobras entristas “audaciosas”: Trotski não deixaria de aprovar…

Por muito que doa aos que depositaram grandes esperanças o “carácter novo” do PT, é a sua transformação plena num “partido burguês para operários” que está em curso. Não cremos que esse rumo possa ser mudado.

Submarinos

Do PT passemos a uma força menor mas com tradições na esquerda brasileira, o Partido Comunista do Brasil. É sempre com interesse que lemos a sua revista Princípios, já que nos permite – para além de informações sobre a situação política interna – fazer o ponto da deriva desse partido.

A imagem que nos fica do PC do B actual a partir dos principais artigos deste número é a de uma extrema corrupção oportunista – o que de forma alguma nos surpreende. Recorde-se que este partido teve há vinte e tal anos pretensões a “farol” do movimento comunista revolucionário e a esse título interferiu na nova corrente comunista nascente no nosso país, causando-lhe sérios prejuízos pela desagregação a que conduziu o PC(R).

Ficamos a saber através de dois artigos de fundo que o partido tem em curso uma campanha pela “intervenção cívica” das Forças Armadas nos grandes problemas do país. Segundo o deputado Haroldo Lima, a “melhor tradição” das Forças Armadas brasileiras sempre teria sido a “unidade nacional”. Nada justificaria pois o silêncio a que estão remetidos os militares e Lima desafia-os a libertarem-se de complexos… Basta que “deplorem publicamente o tratamento desumano dado a opositores do regime” (note-se o termo arrepiante: “deplorar”) e nada impedirá que reassumam o protagonismo. Num outro artigo, “Forças Armadas, poder naval e soberania nacional”, Aldo Rebelo, dirigente e também deputado federal do partido, defende que

“se é verdade que o golpismo, o caudilhismo e o partidarismo que envolveram as Forças Armadas na América Latina são experiências condenáveis, tais factos não podem ser usados como pretexto para excluir os militares da reflexão sobre os rumos do Brasil”.

E adianta propostas concretas para a Marinha e a Aeronáutica: “Uma marinha forte, versátil, adestrada e valorizada é uma garantia para a realização das aspirações nacionais e dos interesses geopolíticos do Brasil. Cuidemos, pois, da nossa marinha”. “O submarino nuclear e o caça AMX são produtos de um pioneirismo e persistência louváveis” que “devem merecer o incentivo, o apoio e o amparo de todos os brasileiros sinceros.” “O Brasil precisa do submarino nuclear. Se por um lado festejamos a certeza de construí-lo, por outro lamentamos as dificuldades orçamentais que têm atrasado o seu calendário”.

Lê-se e não se acredita! Estão assim tão longe os anos negros da ditadura militar? Não vamos ao ponto de supor que a direcção do PC do B esteja financeiramente interessada nas encomendas militares que tão ardorosamente defende. Admitimos que tudo se resuma a um caso de cretinismo patriótico, na linha do “nacional-comunismo” propugnado por João Amazonas. Como argumenta a revista: os Estados Unidos boicotam o reforço militar dos países latino-americanos, que não lhes convém nesta era de “globalização”; logo, devem os patriotas e progressistas bater-se por essas mesmas forças armadas!

Uma outra componente forte da política actual do PC do B transparece num editorial de João Amazonas, intitulado “Socialismo no século XXI”, triste peçazinha no estilo de “incentivo e confiança no futuro” onde, entre outras coisas, somos informados de que “o socialismo sofreu derrota passageira na União Soviética e no Leste europeu” mas que “é possível que os comunistas voltem ao poder na Rússia”; a China “acabará consolidando o regime socialista”, assim como o Vietname. Este namoro descarado ao bastião chinês (que é a actual esperança desesperada para que se volta esta corrente – veja-se a postura de Cunhal e do PCP) leva inclusive a revista a reproduzir um editorial do Diário do Povo de Pequim, “A luta Norte-Sul sobre os direitos humanos”, no qual a condenação da hipócrita campanha imperialista dos “direitos humanos” serve como álibi para fazer passar os atropelos do poder na China.

 (1997)