Cartas a MV – 29

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (34)

15/4/1992

Caríssimo:

Agora que a P.O. 34 foi para o correio, já posso pôr a correspondência em dia. Estás recomposto do desastre de ter perdido a bagagem? E de saúde, tudo bem? Eu continuo na maior.

P.O. – Espero que já tenhas recebido os 2 exemplares pedidos da P.O. 33. Da P.O. 34 seguiram 5 para a tua morada, mais um para o “Albatroz”. Como deves observar, estamos com dificuldade para fazer avanços teóricos. Falta de tempo, falta de gente. Aproveitei as tuas notas sobre o Amazonas e pus o teu nome a assinar comigo um artigo sobre o assunto. Correcto? Agora fico à espera de mais produção tua para o próximo nº, até 15 de Maio. Não esqueças!

Caso Joel Lamy – Fiz um artigo na P.O. 34 e enviei-lhe um postal para a prisão.

Marrocos – Com os materiais que me enviaste, fiz cartas às “forças vivas” cá da terra, desde o presidente da República, Assembleia, Amnistia Internacional, agência Lusa, jornais, denunciando as torturas, etc. e pedindo divulgação. Silêncio sepulcral! Ninguém disse nada, deve haver recomendações para não desfeitear sua majestade o torcionário em vésperas de visita (ainda não foi marcada data). Entretanto, recebi mais correspondência de Marrocos e vou fazer mais uma circular, a ver se furo o bloqueio.

Albatroz – suponho que estejas a lutar para o pôr na rua. Não escrevi nenhuma colaboração porque também não me deste um ultimatum com uma data precisa, e a tendência é para ficar à espera do último prazo. Francamente, também não estou a ver o que interesse mais para os teus leitores. Dá-me um palpite. Diz-me o que há.

Assinatura – Talvez tenhas recebido um aviso de fim de assinatura, enviado pelos nossos zelosos serviços administrativos. Não ligues.

PC(R) – seguem junto recortes do “Expresso” e da “Sábado” com entrevistas do Eduardo Pires, sobre a dissolução do partido. Lamentável. A “Sábado” tem umas declarações minhas, muito truncadas e com a cara do Tomé!

Situação política – Da situação internacional não digo nada; tu é que tens obrigação de me informar. A situação nacional está bastante repugnante: só se fala de altos negócios, corrupções, e intriguinhas políticas reles. As velhas famílias de tubarões, Mello, Champalimaud, Espírito Santo estão a refazer os seus impérios graças às privatizações. O governo, que andou uns anos a subornar os eleitores com concessões, para garantir a vitória nas eleições, agora está a pôr as contas em dia: aumento de preços e de impostos, tecto salarial. As pessoas não protestam; queixam-se, lamentam-se, e daí não passam.

 Em 21 de Março houve uma manifestação de protesto da CGTP; não chegou a mil pessoas. Um fiasco como nunca se tinha visto. Acho que já ninguém espera nada da CGTP. Quanto à UGT, além de furar as reivindicações, anda envolvida em casos mafiosos de roubos, que comentámos na última P.O., mas as pessoas verificam que é aceite pelo poder e portanto aceitam-na! De referir apenas uma boa e longa greve do Metro, com uma unidade fora do vulgar e contrariando inclusive decisões amarelas das duas centrais. Protestos há, sim, mas de sectores da burguesia que estão a ser atropelados pela integração europeia: professores, agricultores, magistrados, pequenos industriais… Os estudantes animaram o ambiente durante umas semanas com os seus protestos contra as restrições de acesso à Universidade e o aumento das propinas, mas é sol de pouca dura. Para onde vamos? Se a recessão europeia comprometer os planos de ajuda ao capitalismo nacional, as falências das pequenas e médias empresas podem tomar um ritmo assustador, e não sei como conseguirá o poder reintegrar toda a gente que está a ser mandada para a rua: têxteis, calçado, metalurgia, etc. Por enquanto o desemprego ainda não assusta. Seja o que deus quiser.

Os dissidentes social-democratas do PCP (Judas, Barros Moura) vão constituir um grupo político. Será a semente dum PS “de esquerda”, mais vocacionado para receber a herança do PCP quando o velho arrumar as botas? Em princípio, parece ter um espaço, mas não lhes vejo genica para isso. Por nós, seria bom que se metessem todos a negociantes e não viessem criar novas expectativas em alguns trabalhadores. O terreno da esquerda está quase todo varrido. Agora só falta nós tomarmos posse dele…

Quando cá vieres temos que trocar ideias sobre a hipótese duma revista não partidária, de esquerda, para penetrar mais longe do que a P.O., que continuaria, mais vocacionada para o debate ideológico. Não sei se estás a ver a ideia. Só falta dinheiro e gente… Um abraço, até breve.  

Cartas a MV – 28

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (33)

27/2/1992

Caro M,

Será possível enviares-me rapidamente uma cópia do depoimento dactilografado do preso marroquino Hassan Kartit, que me enviaste há tempo? Publicámos extractos na. P.O. 33 (já recebeste? gostaste?) mas agora não o encontro e queria mandar cópias à presidência da República, imprensa, etc. Fala-se nu vinda breve do rei Hassan II a Lisboa e queríamos aproveitar para falar nos presos políticos e nas torturas em Marrocos.

Por cá, tudo bem. Começa a haver alguma agitação contra o pacote de medidas de austeridade que o Cavaco começa a impor, por ordem dos comissários da Comunidade. Começa-se a perceber que a CEE tem as suas espinhas, veremos até onde vai. Mas o movimento sindical está de gatas e o PC a pensar se se há-de dissolver ou não. O Cunhal bem faz peito, mas as hostes estão já noutra onda.

Quando vens a Lisboa? Quando sai o avejão ?

Escreve. Um abraço

Cartas a MV – 16

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (21)

8/5/1989

Caro M:

Respondo às tuas cartas de 30/3 e 16/4. Estranho muito não teres mais uma vez recebido a P.O. Será que não está ninguém em casa da R durante o dia e o correio deita a encomenda fora? Enviei-te mais 4 ex. da PO 18 e 10 ex. da PO 19, espero que já tenhas recebido, assim co­mo a minha carta de 30/3 e alguns papéis da PER.

A candidatura está a andar. Compreendo que seria difícil a tua deslocação. Se pudesses en­viar-nos imagens (vídeo) da vida dos imigrantes aí para incluirmos no tempo de antena da TV se­ria bem bom. Quaisquer sugestões ou tópicos para metemos nos programas rádio e TV serão de grande valor, mas seria precise mandares com urgência.

Tenho recebido livros e jornais teus. O ZM telefonou há dias, está tudo bem mas difi­culdades financeiras impedem-no de ir a Paris.

A tradução francesa do Anti-Dimitrov está pronta, vou fazer uma revisão e depois edita-se. Tudo tão lento! Quando isto acalmar escrevo uma carta mais detalhada. Tivemos aqui um encontro com camara­das da Voie Prolétarienne. Confusos, pareceu-me.

Carta a MV (22)

15/5/1989

Camarada:

Um acrescento à minha carta de dia 8. Peço-te que nos informes rapidamente se tiveste conhecimento de que tenha estado alguma banca em nome da FER na festa da “Lutte Ouvrière” que se realizou em 15, 14 e 15 (acaba hoje). Isto porque nós aqui afirmámos não que­rer participar mas não temos a certeza de que os grupos trotskistas com que estamos a cola­borar na FER não nos preguem a partida de ir usar o nome da FER. Diz alguma coisa rapida­mente se puderes. E se puderes mandar algum vídeo sobre situação dos imigrantes em França mete-o no correio sem demora, para ver se ain­da incluímos no programa que estamos a prepa­rar para a campanha eleitoral.

Vamos fazer aqui um almoço anti-Salazar no dia 28 de Maio, está a haver uma recupera­ção descarada do fascismo. O Varela Gomes dis­cursa, eu se calhar também. Queres cá vir?

Um abraço

 Carta a MV (23)

14/6/1989

 Caro Camarada:

Só uma carta breve para te informar da nosso saída da frente da Esquerda Revolucionária que disputa as eleições ao Parlamento Europeu. Foi uma decisão difícil porque sabemos o descrédito que arrasta em torno da esquerda, mas não tivemos outra alternativa porque os nossos só­cios trotskistas são desleais em extremo e estavam a violar todos os acordos assinados, procurando servir-se de nós como muleta para a propaganda do seu “partido” em formação e para apresentar uma oposição moderada, reformista, que não correspondia nada ao que pretendíamos desta campanha. Como não tínhamos força para os meter na ordem (a Frente é legalmente propriedade deles), tivemos que sair. Envio comunicados e em breve poderás ver na PO 20 a análise que fazemos do incidente.

De resto, a nossa “guerra” conti­nua. E tu? Não tens mandado jornais nem livros. Não te esqueças de nós. Um abraço

 

 

 

Cartas a MV – 15

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (20)

30/3/1989

Caro Camarada:

Julgo que tenhas recebido a minha carta de 16/2, assim como as 1C’ 16, 17 e 16. Recebi o Albatroz (pouco político!!), Monde e outros jornais que tens mandado, tão vale a pena gas­tares dinheiro com o “Courant Alternatif, o “Communisme” c a “Critique Communiste”, já sei o que são.

A última novidade 6 que nos metemos numa frente com os trotskistas mais esquerdistas para concorrer às eleições do Parlamento Euro­peu. Seguem recortes, caso ainda não tenhas lido. Estamos a organizar a lista de candidatos, pro­grama, um comício na Voz do Operário para 24 de Abril, etc. queres vir até cá por três meses fazer campanha? Seria bem bom, acho que se te arranjava ocupação e rendimento para sobrevive­res. O objectivo desta candidatura, é claro, é exclusivamente de denúncia das instituições eu­ropeias e portuguesas, ataque ao governo, etc. Ainda não temos cabeça de lista. Escreve e manda novidades. Um abraço

 

 

Cartas a MV – 5

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (8)

28/5/1986

 

Caros camaradas:

Ainda não recebemos resposta à nossa carta de 14 de Fevereiro e estamos muito preocupados com o vosso silêncio tio prolongado. Esperamos que não seja motivado por quaisquer problemas pessoais graves nem por desinteresse em relação ao nosso projecto. Escrevam mesmo só umas linhas para sabermos que estão bem. Temos recebido os vossos jornais e revistas e enviámos há dias para a vossa mo­rada o último nº 2 daPO”. Algumas notícias:

Solidariedade contra a repressão – organizámos, em colaboração com elementos independentes, FUP e trotskistas e também com a UDP, uma associação que lançou um abaixo-assinado e um boletim, de que enviamos exemplares. Desfilámos no 25 de Abril com faixas da “Po­lítica Operária” e juntos com as famílias dos presos da FUP. Esti­vemos na vigília de Caxias, na véspera do 25 de Abril e lemos lá uma saudação da OCPO. Parece-nos que a luta contra a repressão se torna importante, dado o avanço do regime na criação de estrutu­ras de polícia secreta. Poderão vocês aí em Paris fazer alguma agitação em torno do problema, criar algum comité de apoio, etc.?

Almoço-debate de 5 de Maio – também em colaboração com inde­pendentes, FUP e trotskistas (mas neste caso sem a participação da UDP), lançámos um manifesto conjunto sobre o centenário do 1º de Maio, organizámos a participação conjunta na manifestação da CGTP e vamos fazer um almoço-debate comemorativo, que se espera que tenha de 150 a 200 pessoas. Esperamos com estes contactos “sair da casca” e conhecer gente desorganizada de esquerda com quem possamos trabalhar.

Jornal sindical – já vos falámos deste projecto na nossa car­ta anterior. Fizemos uma reunião em Setúbal com alguns elementos interessados e estamos a procurar criar uma base de ligações que permita a sua edição. Seria uma espécie de Tribuna das empresas, com denúncias, coisa que aqui não existe e faz uma falta tremenda. Estamos a preparar um nº 0, experimental, para ganhar mais apoios.

Assembleia – Está marcada definitivamente para 7-8 de Junho a nossa 2ª Assembleia anual, que discutirá o relatório de activi­dade da direcção, questões de linha política e elegerá a nova di­recção. Enviamos por correio separado a “Tribuna Comunista” nº 5 com os primeiros materiais para discussão. Pedimos que leiam es­tes documentos e nos façam chegar as vossas opiniões, a tempo de serem tomadas em consideração na Assembleia.

Internacional — temos mantido contactos estreitos com o Marxist-Leninist Party dos EUA e vamos receber no dia 16 de Maio um diri­gente deste partido. Preparamos os pontos para debate neste encontro. Informaremos depois do resultado. Começámos também a corresponder-nos com o PC do irão, que nos enviou grande quantidade de publicações que estamos a estudar. Como podereis ver pelo relató­rio, pensamos que começam a surgir perspectivas para um reagrupamento de uma nova corrente comunista internacional independente dos oportunismos do PTA, PC do Brasil ,etc.

Situação financeira – estamos prestes a assinar um contrato pa­ra fazer diversos livros até ao fim do ano, o que nos exigirá e permitirá trocarmos a máquina de composição actual por outra me­lhor. O negócio envolve mais 2.000 contos, mas é a única maneira de ficarmos equipados a sério e podermos aceitar todas as encomendas de trabalhos comerciais. Como calculam, isto é vital para ga­rantirmos a continuidade e independência do nosso projecto. No relatório da direcção à Assembleia, poderão ver os números prin­cipais das nossas contas neste ano de existência.

Neste momento, estamos a apelar à elevação das contribuições e à actualização das que estão em atraso, para podermos fazer face a este novo desafio (…)

E é tudo. O ZB está a trabalhar na Suíça, esperamos que possa regressar brevemente, logo que faça unas massas. Está lá também o ZM quo nos escreveu e apoia a revista. Pe­dimos que não se ocupem a mandar o “Parti san” (passámos a receber directamente) e a “Teoria y practica” (vamos fazer assinatura). Escrevam depressa. E mais bonecos? Um abraço

Carta a MV (9)

26/6/1986

Camaradas:

Temos recebido livros, revistas e bonecos do M, mas só uns pequenos bilhetes a acompanhá-los e não a carta detalhada que postaríamos de ter da vossa parte, para nos apercebermos melhor dos vossos problemas e perspectivas de actividade. Soubemos pelo R que pensam vir aqui em fins de Julho e esperamos nessa al­tura ter um dia para uma discussão a sério de todos os nossos problemas. Seria bom que nos avisassem com antecedência do dia que terão disponível para estar em Lisboa connosco.

A seguir damos as notícias mais importantes sobre o que es­tamos a fazer.

PO nº 5 – Enviamos pelo R apenas 3 exemplares porque sa­bemos que têm bastante dificuldade em colocá-la aí. Se estiverem de acordo, será esta quantidade que pastaremos a enviar. Este número saiu com algumas semanas de atraso por dificuldades de to­da a ordem, mas parece-nos que mantém o nível dos anteriores; ainda não é desta que entramos nos grandes problemas de fundo, mas a pressão dos acontecimentos e o quadro reduzido dos nossos redactores não nos deixou fazer melhor. Como verão, temos um novo colaborador, MC, de quem vocês se devem lembrar. Está disposto a fazer uma série de artigos e a sua perspectiva parece-nos correcta. E colaborações do M? Não compreendemos por que não mandas nada, nem que seja a Carta de Paris. Só se é por não gostar de nós.

Decidimos adiar o nº que calhava no período de férias porque a venda seria muito difícil. O nº 6 sairá em fins de Setembro-princípios de Outubro e tentaremos aproveitar este intervalo maior para trabalhar alguns artigos mais de fundo e, se possí­vel, fazer um nº melhorado para comemorar este primeiro aniver­sário. Discutiremos convosco o sumário e a v/colaboração.

Pensamos também fazer na altura uma campanha de publicidade para tornar a revista mais conhecida. As vendas têm tido uma certa quebra, que aliás esperávamos: houve um movimento inicial de curiosidade que levou a esgotar o nº 1. Mas à medida que um certo número de pessoas de tendência social-democrata se aperceberam da orientação da revista, deixaram de a comprar. Estamos a colocá-la numas 25 livrarias de Lisboa, mais umas 20 na provín­cia, mas a venda principal é a venda militante. Temos umas 100 a 150 de sobras, que se vão vendendo depois lentamente. Aproveita­mos manifestações, Feira do livro, etc., para mostrar a revista a público. O desafio que temos pela frente é descobrir os leito­res de esquerda que ainda ignoram a nossa existência e isso de­pende sobretudo da acção militante.

Assembleia – depois de vários adiamentos, realiza-se em definitivo nos próximos dias 5 e 6 de Julho. Já conhecem o relatório de actividade da direcção que vai ser discutido. Seguem junto as Tribunas nº 6 e 7 e, se possível, ainda vos enviaremos antes da­quela data outras duas que devem sair com materiais para discus­são. A Assembleia está a ser preparada por uma comissão organi­zadora com dois elementos da direcção e três dos núcleos para assegurar completa democracia. Temos feito diversas reuniões preparatórias envolvendo a maioria dos camaradas. Principais problemas em debate, para além dos que estão no relatório;

  • definição da situação de diversos camaradas que têm fun­cionado na prática mais como simpatizantes do que como membros da OCPO. Lutamos pela aplicação do artº 1º dos estatutos, tentando ganhar todos os camaradas como mem­bros activos, mas não conseguiremos evitar que alguns pas­sem a simpatizantes, porque é esse o seu desejo. Ê o caso dc R. Como não há perspectivas imediatas de recruta­mento e entretanto já perdemos alguns outros camaradas, esta situação preocupa-nos. O principal é mentalizar o conjunto dos camaradas para a ideia de que não há nada de dramático na situação de sermos um pequeno grupo, combater o pânico. Há épocas para estar num partido e há épocas pa­ra estar num grupo.
  • a atitude perante as eleições (as que houve e as que pode­rá voltar a haver dentro de meses) tem gerado bastante po­lémica. Embora todos concordem em que essa não é neste mo­mento uma questão prioritária para nós, dada a nossa es­cassíssima influência, o certo é que em torno da abstenção ou não abstenção se geram divergências. A direcção não foi capaz de apresentar um balanço de sua autoria e iremos con­frontar opiniões pessoais; em todo o caso, não pensamos que as divergências sobre esse assunto se tornem graves, pelo menos nos tempos mais próximos.

Quanto àfutura direcção, procede-se a consultas e a co­missão organizadora apresentará uma lista de candidatos à Assembleia. O G saiu da direcção há já meses por razões que todos consideraram injustificadas; na realidade, segundo pensamos, porque nunca se sentiu bem com essa res­ponsabilidade; o ZB teve que emigrar para a Suíça à procura de trabalho por se encontrar em situação aflitiva; está agora connosco (partiu um pé e veio-se tratar cá) mas voltará para lá mais 3 meses, a cumprir um contrato. Está moralizado e garante-nos que estará aqui de vez em Outubro. Os restantes continuam a funcionar, mas muito as­soberbados com trabalho, sobretudo desde que nos começámos a meter mais na intervenção política.

A vossa participação na Assembleia poderá fazer-se, de acor­do com os estatutos, através do voto por correspondência, com quaisquer declarações que entendam úteis e que serão levadas ao conhecimento da Assembleia. Achamos de bastante interesse que o façam, tanto sobre o relatório da direcção como sobre outros as­suntos. Se ainda nos for possível, enviar-vos-emos os projectos de moções que vão ser postos à votação, para que se pronunciem por carta. Achamos que o vosso afastamento não deverá impedir a vossa participação no essencial dos trabalhos.

Internacional – como tínhamos informado, estiveram entre nós dois dirigentes do MLP dos EUA, com quem tivemos uma semana de discussões bastante frutuosas; quando nos encontrarmos em Julho poderemos informar detalhadamente do que se tratou. Para já, re­sumidamente, podemos dizer que há um acordo no essencial; o en­tendimento do marxismo-leninismo como a demarcação nítida dos interesses do proletariado e portanto, a crítica às correntes burguesas democráticas, nacionais, etc., a crítica à linha do 7º congresso da IC, a crítica ao rumo da União Soviética desde os anos 30, a crítica ao PTA, a crítica às revoluções tipo sandinistas, etc. Alguns pontos em que fazemos apreciações diferentes: a corrente ML é ML com erros (tese deles) ou é apenas centrista? centralismo de­mocrático significa monolitismo (tese deles) ou esse conceito deve ser rejeitado? Os últimos 50 anos tiveram grandes vitórias (tese deles) ou devem considerar-se 50 anos de derrotas? não in­teressa destrinçar qual dos dois blocos é mais perigoso (tese deles) ou deve-se dizer que o imperialismo EUA é o principal inimigo?

Vamos continuar a debater mas ficámos com uma impressão geral bastante boa. Eles publicaram recentemente um longo artigo no jornal deles a nosso respeito. Infelizmente não temos cópia feita para vos enviar, mostrar-vos-emos quando cá vierem.

Quanto ao PC do Irão, como já dissemos antes, entrou em con­tacto connosco e mandou-nos muito material que estamos a estudar. Parece-nos ter algumas fraquezas teóricas, como poderão ver pelos extractos do programa que publicamos na PO 5 mas é um partido com real base de massas e que se bate de arrumas na mão contra o Khomeiny. Do PC da Nicarágua (ex-MAPML) é que ainda não obtivemos nada mas, pelo que temos lido, parece-nos ser um partido sério, que conjuga uma posição anti-imperialista inequívoca com uma crí­tica aberta aos sandinistas e às suas incoerências.

Tribuna Operária – seguem junto 3 exemplares do nº 0, que temos estado a fazer circular entre sectores operários que toca­mos, para ver se ganhamos base de apoio para a sua edição defi­nitiva. Só por nós não podemos fazer um jornal destes: precisamos de recolher notícias e informações de muitas empresas e ter uma rede de difusores. Vamos usar estes meses do Verão para tentar criar uma equipa de redacção e difusão, com vistas a iniciar pu­blicação regular em Outubro. Está em preparação um encontro sin­dical com activistas de vários pontos do país (alguns deles ex-UDPs) para Setembro. A dificuldade aqui resulta do facto de a ini­ciativa ser disputada por outros agrupamentos e nós não queremos fazer um consórcio de grupos, que acaba sempre em guerras.

O almoço comemorativo do centenário do 1º de Maio, de que já tínhamos falado, fez-se com 130 pessoas, na maioria operários, e intervenções dos representantes dos vários grupos promotores. Teve um efeito positivo na ideia de que se pode começar a reagru­par a esquerda.

cnico/finanças – acabamos de dar um novo grande salto em frente” com a troca da máquina da composição por outra mais evo­luída que nos permitirá agarrar encomendas de livros e trabalhos de mais vulto. Evidentemente, empenhámo-nos até a raiz dos cabe­los (mais uma vez) mas pensamos não estar a ser aventureiros. SÓ o futuro o dirá, e o nosso esforço, evidentemente; discutiremos também este assunto convosco quando cá estiverem. Recebemos os dois vales que mandaram (…) que saldaram as vosas dívidas em publicações. Vocês dir-nos-ão em Julho se têm possibilidade de manter uma quotização regular.

Bonecos Zav – receamos que Zav esteja desgostoso com o pouco apro­veitamento que temos dado aos bonecos. Isto não resulta de de­sinteresse da nossa parte. Pelo contrário, temo-los apreciado atentamente porque sentimos muito a necessidade de comentários gráficos; os reparos que têm sido feitos aos bonecos são os se­guintes; o humor amargo e por vezes brutal (o que  é um de­feito) torna-se em muitos casos difícil de apreender pelo lei­tor comum; as críticas a acontecimentos nacionais surgem com muito atraso, perdendo actualidade; há um certo número de piadas relativas à emigração que só se justificariam como ilustração a um artigo sobre o assunto (ex: a excelente venda de emigrantes às postas) mas a dificuldade é que não temos cartas de Paris.

Propomos pois que o Zav se procure inspirar em temas (nacio­nais ou internacionais) tratados na revista, que não sejam de mera conjuntura eleitoral, para não sofrerem com a perda de ac­tualidade. Sugestões: o povo espera pacientemente na bicha da sopa dos pobres que Cavaco, Soares, Eanes, etc. decidam nos seus congressos se vão aliar-se ou guerrear; parabéns ao gene­ral Pedro Cardoso, super-comandante da nova PIDE; 183 novos de­sempregados em cada dia – avançamos aceleradamente para níveis europeus; Cunhal nega terminantemente que existam divergências no PCP, enquanto atrás da cortina se esmurram eurocomunistas e “ortodoxos”; etc, etc. Também as questões internacionais poderiam ser tema para bonecos: como o massacre dos presos políticos no Peru pelo social-democrata Alan Garcia, na presença da social-democracia internacional; os massacres de negros na Africa do Sul, etc, etc.

Por agora é tudo. Acabamos esta carta para a entregar ao R, que vai partir. Até breve, abraços para vocês de todos nós.

 

 

Cartas a MV – 4

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (6)

18/12/1985

Caros camaradas,

 Cá estou finalmente a dar notícias mais detalhadas, depois de termos acabado com o carroussel da PO2. Aguardamos as vossas opiniões, sugestões e críticas implacáveis.

Foi geralmente considerada melhor que a PO nº 1, pela variedade de temas e realização gráfica mais cuidada, mas estamos conscientes de que ainda temos muito que melhorar. A nossa preocupação maior é evitar cair na superficialidade dos artigos feitos em cima do joelho, estilo “Bandeira Vermelha”, É preciso tempo para discutir, escrever e amadurecer ideias, mas o tempo falta-nos em absoluto porque somos poucos. O comité de redacção vai aprovar um programa de artigos de fundo, para preparar a longo prazo e destacar alguns camaradas para os irem trabalhando. Mandar-vos-emos esse programa e pedimos que vejam se, além das cartas de Paris, podem responsabilizar-se por algum artigo, dossier ou outra coisa de sumo. Há muito para dizer, falta-nos o fôlego.

A distribuição está a melhorar. Este nº já foi para umas 30 em Lisboa, 2 no Porto e outros 30 na província. A venda militante anda pelos 600 exemplares. Do nº 1 ficámos praticamente sem sobras. As vendas a operários são cerca de 30% da venda militante total – número a melhorar. As assinaturas é que vão subindo muito lentamente (até agora cerca de 70), são o nosso ponto mais fraco de difusão. (…)

Quanto aos bonecos, parecem-nos bons e têm sal. O problema é que ficámos com uma escolha limitada, por ser quase tudo sobre emigração ou então temas desactualizados.

 Carta a MV (7)

14/2/1986

Camaradas M e R,

 Temos recebido encomendas vossas, com revistas, jornais e li­vros, mas nada de notícias. Naturalmente os afazeres são muitos mas pedimos que nos escrevam nem que sejam umas linhas para sabermos que tudo vai bem por aí. Enviámos anteontem 15 exemplares da PO3 que acaba de sair, juntamente com um manifesto que editámos sobre as eleições. Passamos aos assuntos principais.

Revista – Interessa-nos muito receber as vossas (e outras) críti­cas, tanto sobre este nº como sobre o nº 2. Apesar das opiniões que nos chegam serem em geral favoráveis, temos consciência de que nos falta bastante para correspondermos ao nosso objectivo. Vai ser preciso um grande esforço sobretudo para atacamos as questões de fundo em aberto na corrente ML, como a degeneração da União Sovié­tica e da China, relações entre imperialismo e social-imperialismo, construção do Partido, perspectivas actuais da revolução, etc.

Nesse sentido, programámos a preparação a médio prazo de alguns artigos de maior fôlego, que tentaremos fazer sair nos próximos números: os processos de Moscovo 1936-38, a revolução cultural na China, a classe operária em Portugal, a guerra civil de Espanha, os 10 anos de democracia burguesa em Portugal… Se nos puderem dar quaisquer sugestões ou enviar materiais para estes temas, seria grande ajuda porque vamos ter grandes dificuldades.

Gostaríamos de saber se podemos contar com colaboração do M. para a PO 4, que já está na forja. Como sairá para a rua em fins de Março, seria interessante que trouxesse um comentário sobre a campanha eleitoral francesa. Mesmo sem poder analisar os resulta­dos (fechamos a redacção a 14 de Março), poderia fazer uma resenha das posições defendidas pelas diversas forças, orientação do PCF, ambiente na classe operária, ponto de vista dos emigrantes, etc. Pode ser? Pedimos resposta urgente.

Há além disso o artigo sobre associativismo dos emigrantes, que gostaríamos de publicar neste nº 4, com as modificações já suge­ridas pela redacção e que o MC expôs em carta anterior. a ideia geral era tornar o artigo mais interessante para o leitor de cá, pouco familiarizado com a questão. Digam-nos urgentemente se poderemos contar com ele. Continuamos muito interessados em bonecos do M. Metemos mais um no nº 3 (com uma pequena adap­tação) e gostaríamos de ter outros que focassem aspectos da situação política nacional ou internacional.       

Situação política – Editámos um manifesto sobre as eleições presidenciais, que segue junto. Não foi fácil chegar a conclusões so­bre a atitude a assumir, porque a situação actual reflecte a perda de espaço político a que chegou a esquerda neste país. A direita apresenta-se com o seu candidato de direita e a esquerda tem que se contentar em apoiar o outro candidato de direita…

As tentativas para apresentar uma candidatura contra o regime não deram nada porque se basearam apenas em reuniões de troskistas, otelistas e alguns independentes. De modo que realizámos uma assembleia em 5 de Janeiro, na qual aprovámos este manifesto por larga maioria, embora houvesse também opiniões favoráveis ao apoio à Pintasilgo, outras pela abstenção em todos os casos e outras no sentido de ignorarmos pura e simplesmente o processo eleitoral. Distribuímos o manifesto nos empresas e nas ruas. A imprensa ignorou-o, como já fizera com o nosso outro mani­festo, quando das legislativas. Agora vamos fazer o balanço aos resultados eleitorais (impossível prever qual dos dois vai ganhar). O ambiente operário é de grande desmoralização por terem falhado todos os planos do PCP, desde há 6 anos, para criar um aliado nos eanistas. O partido eanista parece sem consistência e tudo conti­nuará a jogar—se entre a direita e a social-democracia. A deslocação geral à direita, com um grande entusiasmo da juventude pelo Freitas (!) parece ser o primeiro presente que nos chega da CEE. Vamos continuar no refluxo “peculiar”, como dizia o Arruda.

Trabalho operário – Estamos neste momento a fazer esforços para lançar outra publicação! Pode parecer-vos loucura, mas temos verificado que o trabalho de propaganda feito pela revista precisa de ser completado por uma folha mais fácil, mais noticiosa, mais vi­rada para a luta económica, as denúncias locais, etc. Como não con­cordamos com os camaradas e amigos que gostariam de reduzir a PO a essa função (o que nos levaria a abdicar do projecto inicial de elaboração programática), resolvemos lançar esta folha ou pequeno jornal, para começar mensal. Não terá vinculação pública à OCPO, a fim de poder funcionar como animador da corrente sindical de es­querda que é, com a revista, a nossa grande tarefa.

Quem pode assegurar esta folha? Temos verificado que vários dos nossos camaradas operários estão desaproveitados, assim como ou­tros que andam na nossa orla, e vamos tentar ganhá-los para o pro­jecto. A elaboração e venda da folha poderia servir-nos de veícu­lo para dar corpo a um começo de estrutura nas empresas.

Assembleia anual – Tendo em conta que a OCPO completa um ano de existência em Março, a assembleia de 5 de Janeiro decidiu convo­car para fins de Maio uma assembleia com plenos poderes para dar o balanço ao trabalho realizado neste ano, aprovar documentos políticos e eleger nova direcção. Já está a funcionar uma comissão organizadora desta assembleia, com representantes da direcção e dos núcleos, e será editado o boletim interno de discussão durante o período preparatório. Na impossibilidade de uma participação direc­ta vossa, pedimos que vejam com atenção e dêm opiniões sobre os temas que vão ser tratados no boletim interno e nos projectos, que vos enviaremos à medida que sairem. É importante juntarmos a opi­nião e experiência de todos nós para reflectirmos sobre este ano de actividade e caminhos para a frente.

Situação financeira – A nossa empresa vai singrando, embora não tão depressa como desejaríamos. Sobrevivemos mas não estamos a cres­cer. Falta-nos dinheiro para trocar esta máquina por outra mais ren­tável; enquanto assim for, o volume de trabalho comercial que con­seguimos fazer é limitado. Lançámos no fim do ano uma campanha de contribuições extra para e compra de novo equipamento, que rendeu até agora 100 contos. É muito pouco. Quanto ao sector de impressão, deixámo-lo de parte porque não vemos perspectivas de nos ocuparmos dele num futuro próximo.

Gostaríamos de saber com o que poderemos contar de contribuições vossas e como e quando poderemos recebê-las, uma vez que já não se põe a ideia inicial de comprarem aí o tal pequeno offset. (…)

 Contactos – estabelecemos relações regulares por correspondência com o Marxist-Leninist Party USA, que nos parece um grupo sério, em crí­tica aberta ao centrismo do 7º congresso da IC, PC do Brasil, PTA. Pu­blicam um jornal mensal, “Worker’s Advocate”, no qual se propõem transcrever artigos nossos. Concordam no essencial com o “Anti-Dimitrov”. Estamos em processo de discussão com eles acerca de vários temas: social-imperialismo, centralismo democrático, frente única, apreciação do PTA, etc. Esperamos através deste grupo estabelecer também relações com o MAP da Nicarágua e com um PC do Irão que, se­gundo parece, não é o mesmo que está aí em ligação com o FCOF.

Do resto da corrente ML não nos chegou até agora mais nenhuma reacção. Continuamos a enviar—lhes a revista. Recentemente, tomámos conhecimento através dum camarada na Suíça da existência dum grupo suíço chamado “La cause du communisme”. Sabem alguma coisa a seu respeito?

PC(R) – Temos enviado a revista (nº 2 e 3) em oferta a umas deze­nas de militantes de vários pontos do país. Não há reacções aparen­tes mas sabemos que se atravessa um período de confusão e de certa crise nas suas fileiras por causa das tácticas eleitorais. Depois de ter feito uma campanha abnegada e totalmente bajuladora da can­didatura Pintasilgo, agora está a fazer campanha activa pelo Mário Soares. Pensamos que se está a dar uma gradual reconversão do lu­gar do PC(R) e da UDP, com os direitistas no comando, e que isso poderá eventualmente fazer saltar um ou outro militante com mais instinto de esquerda. Não prevemos contudo rupturas espectaculares, porque sabemos por experiência que o oportunismo é uma questão de hábito: começando a escorregar na ladeira, tudo vai parecendo nor­mal e admissível…

Publicações – Temos recebido jornais e revistas e 2 livros: L’Etat du monde e “Les metamorphoses de ia crise” de Fougeyrollas.

Propomos que concentrem os vossos envios em: boletim do Kessel, Afrique-Asie, Monde Diplomatique, Teoria y Practica, Partisans e Cause du Communisme.(…). 0 Canard e o Libération, só se virem que há algum tema de interesse para cá: do que temos visto, parece-nos que não justifica a despesa.

Poderiam obter-nos e enviar 2 livros de Bebei: A mulher e o so­cialismo e Situação da mulher? Não sabemos se estão esgotados, mas aqui não se encontra.

Por agora, é tudo. Têm algumas notícias do PA? Manda uma revista de vez em quando mas há muito que não escreve. (…)

Ficamos a aguardar notícias vossas. Aceitem os abraços de todos nós.

 

 

A Internacional Comunista na Europa

Francisco Martins Rodrigues

A Internacional Comunista na Europa

A primeira coisa que salta à vista é que as perspectivas revolucionárias da Europa neste século foram simplesmente inexistentes. A luta abnegada dos comunistas europeus (é só destes que falamos aqui) serviu para obter melhorias materiais, afrouxar por vezes a canga da exploração, derrubar ditaduras… mas não acumulou forças para a revolução anticapitalista. Pelo contrário, todos reconhecem que as massas trabalhadoras, se são hoje incomparavelmente menos miseráveis e ignorantes do que no princípio do século, estão contudo mais integradas no espírito da ordem burguesa.

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