Carta ao CMLP no exterior

Francisco Martins Rodrigues

Lisboa, 27/1/1966

Camaradas:

Recebemos a carta 1/66 e os fundos que indicam. Estamos a tratar de levantar a encomenda na morada indicada. Aproveitamos este portador para tratar detalhadamente algumas questões urgentes. Continuar a ler

Carta a João Pulido Valente

Francisco Martins Rodrigues

Carta manuscrita enviada de Paris – para onde fora destacado pelo PCP ainda enquanto militante, mas já expulso à data em que escreve – a João Pulido Valente

29 de Março de 1964

Meu caro João[i]:

A tua carta e as notícias que já tinha acerca da tua posição deram-me uma grande alegria. Num momento difícil como aquele que temos vindo a atravessar, é bom encontrar ao nosso lado os velhos companheiros de luta, não é assim?

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Cartas a HN – 12

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 12

7/5/1998

Caro Camarada:

Respondo à tua carta de 27 de Abril e, o que é grave, também às de 6 de Fevereiro e 12 de Janeiro, que ficaram por responder. Resultados da sobrecarga de trabalho que tu certamente compreenderás. Agora com a PO nº 64 despachada e o 1º de Maio passado, dedico-me a pôr a correspondência em dia. No 1º de Maio desfilámos (poucos, como sempre) com uma faixa dizendo “Já só falta pedir desculpa aos pides pelo 25 de Abril”. Foi bastante aplaudida porque as pessoas estão motivadas com o escândalo do pide Rosa Casaco, fugido há anos e que veio a Lisboa dar uma entrevista à imprensa, deves ter sabido. Também distribuímos um manifesto intitulado “sinais de perigo” (vem na próxima PO) e um outro sobre “Cem vítimas da PIDE” que fez sucesso Em seguida, fizemos o lanche de confraternização com 40 pessoas e… até para o ano! Vou agora dedicar algum tempo para preparar artigos para a PO, é essa a minha vida. E quanto à preparação de algum material de fundo, com vista a um livro, como tu sugeres, vai ficando eternamente adiado.

Recebi o vale postal de 4.000S00 (além dos 50 francos anteriores). Tenho recebido os diversos materiais que tens mandado, nomeadamente a “Rcvue Internationale” e o livro sobre “La révolution manquée”, de que fiz uma recensão na PO, deves ter visto. A encomenda com os livros que pediste segue dentro de dias, porque o Brecht está atrasado na tipografia. Só segue um exemplar do Thomas porque de momento não dispomos de mais, estão todos distribuídos; fica registado e logo que houver mais mandamos-te, certo? E fico à espera do livro de Lafargue de que falas, será que dava para uma edição em português? A Dinossauro está a postos, embora quase falida…

Espero que a tua actividade associativa te dê boas possibilidades de contactos, pelo que contas parece que sim. Calculo que o meio da emigração seja em geral muito pouco politizado, de resto aqui é o mesmo. Tomei parte recentemente em três debates (dois deles de estudantes) e pude constatar como os defensores das teses reaccionárias se movem à vontade e os defensores de ideias marxistas são incompreendidos ou mal vistos pela assistência. Faz dó ver os jovens, sem audácia nenhuma, a repetir as baboseiras capitalistas que lhes ensinam, como se fossem verdades incontroversas. Mas vai-se à luta e são obrigados a ouvir umas tantas verdades. Será que podemos programar um encontro lá mais para o fim do ano? Bem gostaria mas vejo as tropas muito desmobilizadas. pouco a pouco vão-se todos retirando para a sua vida pessoal.

Bem, mas não quero acabar em tom de lamentação. A disposição de prosseguir é firme cá pelo lado da PO. Estou a preparar um artigo para a próxima, que se chamará possivelmente “Partido: cuidado com os partos prematuros”, que vai ao encontro da vossa ideia do Centro Marxista. Estamos numa fase de germinação e não compensa querer queimar etapas. Temos é que saber cumprir as tarefas próprias desta etapa: jornais, debates, núcleos, etc. Só daí poderá surgir uma corrente de ideias suficientemente forte para dar base ao partido. Esforçamo-nos por que a PO cumpra a sua parte nesse trabalho preparatório, mas são precisas muitas mais iniciativas. Foi essa ideia que procurei transmitir na curta alocução que fiz no lanche do 1º de Maio.

Por agora c tudo. Desejo êxitos no vosso trabalho. Aceitem abraços de todos

 

Cartas a HN – 11

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 11

29/12/1997

Caro Camarada:

A resma das tuas cartas por responder já começa a ser assustadora, pelo que não sei como justificar a falta de resposta atempada. Mas no fundo considero-me ilibado, porque os últimos dois meses tiveram, além dos trabalhos habituais, a sobrecarga da mudança, com transporte de montanhas de papelada, classificação, arquivo, destruição Tudo isto a descer dum quarto andar e a subir para um quinto. De tal maneira que apanhei uma das minhas crises reumáticas, mas felizmente já passou. Quem tem feito força, é claro, tem sido o Bntónio Barata, que é rapaz novo e possante. Agora, com a mudança a chegar ao fim, a PO 62 expedida (recebeste?) e dois livros novos na tipografia, posso preparar-me para entrar no novo ano com espírito tranquilo.

Teus materiais – Aproveitei passagens duma carta tua sobre as actividades dos portugueses em Genève, mas, na dúvida sobre se te causaria problemas ter o teu nome por baixo, visto que agora és vice-presidente federativo (parabéns!), resolvi assinar com um pseudónimo. Fiz mal? Do artigo teu e do Z “Os caminhos difíceis do marxismo-leninismo” que já cá está desde Setembro, por não ter cabido no nº anterior, preparei agora uma condensação que sairá no próximo número. Creio que respeita a ideia central da vossa crítica. Esse problema da distância entre o que a OCPO se propôs fazer no início e o que é actualmente a PO preocupa-nos a todos, evidentemente, mas ainda não vejo meios de sair do impasse. Procurei tocar o assunto nesta última PO (“Acção comunista em tempo de maré baixa”) e penso continuar na próxima, para tentar clarificar um problema que muito tem contribuído para a paralisia dos antigos militantes saídos do PC(R): o que estava certo e o que estava errado na nossa prática anterior, nomeadamente na intervenção sindical, alianças, combate ao PC, táctica eleitoral, e sobretudo métodos de edificação do partido? Há quem pense, e ou sou um deles, que as ideias antigas sobre táctica comunista têm que ser passadas a pente fino, porque se infiltrou muito contrabando oportunista nos partidos comunistas, desde os anos 30, a coberto da Internacional Comunista. Por onde passa o esquerdismo e onde começa o oportunismo? Esta questão esteve sempre em aberto no PC(R) e aeho que nunca ficou esclarecida. Continuem a mandar as vossas colaborações, com muitas críticas, que isso faz faliu à evolução colectiva.

Anti-Dimitrov — A ideia de o traduzir foi posta de parte há muito, embora já houvesse uma tradução francesa bastante avançada[i]. A causa fundamental é as limitações que eu e todos nós aqui reconhecemos hoje ao trabalho. Foi importante sobretudo para o colectivo que rompeu com o PC(R) mas a visão que eu tinha na altura sobre as lutas internas na URSS e na Internacional Comunista era ainda muito superficial, não tínhamos compreendido a impossibilidade do socialismo na URSS e o carácter de capitalismo de Estado do regime, toda a nossa crítica girava à volta de “erros” dos dirigentes, “burocratizaçâo do partido”, quando isso eram apenas manifestações de uma estrutura burguesa. Por isso, hoje, o Anti-Dimitrov, embora não me envergonhe, porque tem muitas críticas justas, já não satisfaz. Tenho estado sempre à espera de poder redigir uma nova síntese mais avançada, mas não tem sido possível. Ainda agora pensámos editar em livro o conjunto dos artigos que publiquei na PO sobre a revolução russa mas acabei por desistir porque teriam que ser trabalhados, melhorados e o tempo não dá. No fim de contas, a minha produção tem que ser de artigos e não de livros, mas se os artigos forem fazendo alguns avanços úteis para a reconstrução de um partido comunista, tudo bem, dou-me por satisfeito.

Debates — Estava de facto previsto um para Outubro mas a acumulação de trabalho relacionada com a mudança levou-nos a adiar para data mais oportuna. Também é verdade que não vimos muita motivação do círculo de pessoas mais próximas, toda a gente anda envolvida nos seus problemas pessoais, profissionais, etc., e não sobeja muita disponibilidade. Pode ser que algum acontecimento político nacional ou internacional desperte as pessoas para a necessidade de debater ideias.

Livros Dinossauro – Temos na tipografia dois volumes novos, anunciados na última PO. Sobretudo o do Thomas é importante, embora nada fácil, porque é tudo tratado em termos filosóficos. Ele tem estudado Marx a fundo e faz uma desmontagem das loas que por aí se vendem acerca das liberdades e dos direitos humanos. Quando estiverem prontos, envio-vos uma encomenda de 5 exemplares de cada, para possíveis vendas aí. Os que não venderem, podem devolver. De acordo? Morada do ZB – Ele está a trabalhar na Beira, na Junta Autónoma das Estradas, lá para o lado de Penacova. mas vem aos fins de semana a casa. Temo-nos visto de longe em longe e ele continua rijo. A morada: (…)

Entrevista com o Alberto Pereira-Cem porcento de acordo, se puder vir já para este número melhor. Até 20 de Janeiro!

Revistas — Perguntas-me a opinião sobre duas revistas que vocês assinaram, Revue Internationale e Révolution Internationale, mas eu não conheço nem uma nem outra. Importas-te de me mandar os números já lidos para eu dar uma vista?

Vossa contribuição — Chegou em boa ordem , a dificuldade é trocar os francos suíços, no banco cobram uma taxa exorbitante, é um roubo, por isso vou-os conservando à espera de alguém conhecido que vá à Suíça e queira comprar francos à taxa de câmbio.

E por agora é tudo. Sempre vens cá em Janeiro como tinhas previsto? Não deixes de nos procurar. Envio-te a ti e ao Z um forte abraço e para ti em particular parabéns pelos progressos acelerados que tens feito com o computador. Ninguém te agarra. Abraços de todos nós.

 

[i] Existe a versão em francês, corrigida por FMR. Haja quem a edite. (Nota de AB)

Cartas a HN – 7

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 7

17/7/1996

Caro Camarada:

A entrevista vai sair no próximo número. Arranjei e encurtei, porque a linguagem escrita nunca é igual à falada, e acho que ficou interessante, sobretudo por ser uma experiência de mulher. Se puderes continuar a mandar “retratos da emigração” de vez em quando, serão bem-vindos. O António Castela relatou-nos os contactos convosco e veio contente por ter sido tão bem recebido.

Por aqui, tudo dorme… mas nós esforçamo-nos por não ir na onda. Já estamos a preparar a P.O. para depois de férias. Penso iniciar uma série de artigos sobre episódios da história do PC, tudo depende do tempo disponível. Quanto à Dinossauro temos em perspectiva um livro de ficção sobre a guerra colonial, escrito por um oficial do exército, um texto dum marxista do Senegal sobre a destruição de África pelo imperialismo. O resto é surpresa… O MV está a preparar o Contraponto n° 3, talvez saia lá para Setembro. Ele é forçado a regressar a Paris em fim de Agosto, para não perder o emprego.

Quanto a outro tipo de actividades mais organizativas, não deixamos de sondar as pessoas à nossa volta mas o estado de espírito geral é de esperar para ver… A empresa vai andando e a dívida tem continuado a ser paga, de modo que vemos o nosso futuro económico mais desanuviado. E por aí, como vão os teatros, as vossas actividades? Sempre que apanhes jornais ou revistas de esquerda, em francês (alemão não vale a pena) manda, para nós estarmos informados. Abraço de todos nós.

Cartas a HN – 5

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 5

10/12/1995

Caro Camarada:

Chegou aqui há 15 dias uma carta tua de 17 de Setembro. Crises dos Correios… Espero que tudo por aí esteja a correr bem. Aqui, apesar do golpe[i] que tivemos, as coisas não vão mal. Já conseguimos recuperar uma parte do dinheiro e esperamos que até ao fim do mês entre outra parte. Temos trabalho e vamos com a empresa por diante, que é o nosso ganha-pão para poder manter a P.O. Foi hoje para a tipografia o n° 52, que devem receber aí dentro de uma semana. Desta vez não tem colaboração do comité regional de Genève mas espero que no próximo número haverá alguma coisa. Põe-te em campo com o Z e arranjem-nos alguma coisa; por exemplo, mais uma entrevista com emigrantes; não é preciso ser pessoa com as nossas ideias, basta que conte coisas concretas e interessantes sobre a sua vida aqui em Portugal, porque emigrou, o que tem a dizer sobre o tratamento dado aos emigrantes pelas autoridades suíças, como está o desemprego aí, condições de trabalho, etc. Também pedimos recortes da imprensa daí que tenham coisas aproveitáveis para a P.O. Estamos a pensar dedicar o n° seguinte da P.O. à questão do desemprego e gostaríamos de ter elementos sobre a situação, sobretudo na Europa.

Neste n° carregámos sobretudo na questão das tropas para a Bósnia e nas eleições. Em qualquer destes assuntos, a nossa posição é mal aceite pela maioria das pessoas da área da esquerda, acham-nos “sectários”, “esquerdistas”, etc. É por isso que não conseguimos romper o isolamento, mas que lhe havemos de fazer? Temos que dizer aquilo que achamos mais justo, do ponto de vista dos interesses a longo prazo do proletariado. Esperemos que algum dia mais pessoas reconheçam isso. Sobre estes dois pontos em concreto: Não às tropas para a Bósnia e abstenção eleitoral, gostaríamos de conhecer as vossas opiniões.

Foi pena que o nosso conhecimento tenha sido em condições tão desagradáveis, devido ao golpe que nos foi dado e que quase fez abortar a festa de aniversário que pretendíamos ter. Haja confiança que no 20° aniversário será melhor… Abraços.

[i] Desfalque financeiro na empresa gráfica que sustentava a “Política Operária”. (Nota de AB)

Cartas a JM – 13

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JM – 13

7/10/1996

Olá, velho Zé, então mudaste-te outra vez? Passas o tempo a ver se nos despistas mas nós encontramos-te sempre! Este ano não vieste de férias à Pátria? Ou vieste e escondeste-te de nós?

 Seguiu há dias para tua casa o Contraponto nº 1 e 2 (5 exemplares de cada) (…). Aqui junto a guia de remessa. Vê se consegues assinantes, que as finanças estão apertadas. Dentro de dias, vai seguir a P.O. Traz a entrevista que o H fez com a Manuela Monteiro. Ficamos à espera de mais colaborações. Ela diz que tem coisas a contar sobre a situação da mulher na Suíça: era capaz de dar um artigo interessante. Falem-lhe.

Escrevo nesta data para o H e mando-lhe 3 exemplares do último livro da Dinossauro, é uma novela sobre a guerra colonial, podes vender por aí que nem pãezinhos aos emigrantes todos, a ver se abrem mais a cabeça.

Saúde e um abraço