Cartas a JM – 3

 

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JM – 3

24/5/1986

Camarada:

Respondemos à tua carta de 3/3 que recebemos com muito atraso porque tinha ido para a Rua de São Tomé, donde já saímos há uns meses. Mudámo-nos para uma casa maior, mas onde trabalha exclusivamente a nossa empresa gráfica. Deves por isso dirigir toda a correspondência a (…).

Também nós lamentamos muito o atraso em estabelecermos um contacto mais estreito. Quando o ZB esteve aí a trabalhar no Verão, mandámos um telegrama para a tua antiga morada a propor um encontro, mas veio devolvido com a indicação de “desconhecido”. O B chegou a procurar-te lá mas não conseguiu nenhuma informação a teu respeito. De modo que ficámos à espera que desses notícias. Actualmente, o B já regressou e a possibilidade de contacto entre nós será precisamente nas tuas férias, se te deslocares a Portugal. Seria muito importante conseguir discutir um bocado.

Tínhamos inicialmente a nossa 3ª Assembleia anual marcada para 27/28 de Junho, mas devido ao período eleitoral que se aproxima e que vai exigir de nós algum esforço, resolvemos adiá-la para Outubro. Não será por isso viável a tua participação na assembleia (supomos que vens em Agosto?) mas isso não impedirá de fazermos umas reuniões de debate, conheceres uns tantos camaradas e aperceberes-te melhor da situação por cá, do que é a OCPO e do que andamos a fazer. As condições de trabalho para uma força comunista revolucionária são neste momento péssimas em Portugal, devido ao ambiente de desmoralização que atravessa o movimento operário e a debandada reformista geral, que também já mina as fileiras do PC(R) e UDP. Cá vamos resistindo e tentando abrir espaço, baseados no debate teórico da PO e nalguma actividade sindical. O que é importante é não darmos o flanco a tendências de capitulação e aguentarmos o tempo que for preciso até a onda virar. Penso que temos um núcleo capaz de aguentar e furar.

Tudo isto teremos que discutir calmamente para tu saberes até onde deve ir a tua ligação à OCPO e o que poderás fazer em apoio deste projecto. É claro que o ideal seria tu fixares-te aqui em Portugal mas possivelmente não terás segurança de emprego. Assuntos para discutir, diz-nos rapidamente quando pensas chegar aqui e como nos poderemos encontrar. Um sítio aonde te poderás dirigir é à empresa, na Rua Frof. Sousa da Câmara, 166, Lis- boa (às Amoreiras-Campolide). Se houver desencontro, deverás ligar para … (empresa) ou para minha casa, …. Quanto aos materiais que pedes, fizemos seguir uma encomenda que já deves ter recebido, com factura junta. O valor do teu cheque foi de 5.520$00. Da “Tribuna Comunista” só enviámos o nº 9, com as resoluções da 2ª Assembleia; como os outros tratam de questões internas, não achámos bom enviá-los pelo correio. Poderas lê-los aqui, assim como obteres toda a informação sobre a nossa vida. Quanto ao jornal “Tribuna Operária”, não registámos a assinatura que pedes porque tem por enquanto uma saída irregular. Está agora para sair um nº que te enviaremos.

Enviamos junto um manifesto que distribuímos aqui e a que alguns jornais se referiram, propondo uma coligação eleitoral de esquerda. Não tivemos força para aglutinar os pequenos grupos de esquerda nesta coligação, como seria de prever. Os revisas, assim que souberam das negociações, trataram de ganhar um dos grupos (trotskista) oferecendo-lhe lugar nas suas listas; os outros dispersaram-se, por sectarismo de grupo e rivalidades, mas fundamentalmente por recearem aparecer a disputar publicamente espaço à esquerda do PCP. Enfim, estamos muito crus em todos os sentidos e somos ainda muito poucos para dar batalha a sério ao reformismo. Mas estamos na brecha.

No plano internacional, temos contacto com alguns partidos e grupos comunistas que romperam ou estão a romper com a corrente albanesa, cada vez mais amorfa. Contudo, também nessa frente as perspectivas são de uma luta prolongada, com poucas vitórias e curto prazo.

É tudo por agora. Ficamos a espera de notícias tuas, e sobretudo que nos apareças por aí um dia destes para discutirmos um bom bocado. Um grande abraço

 

PS – Se passares em Paris, poderias contactar o MV (conheces?). Mora na (…) Paris.

 

Cartas a JC – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JC – 2

24/5/1987

Camarada J:

Tenho estranhado não ter recebido mais notícias tuas depois da carta que te mandei em 26 de Fevereiro. Não sei se se deve a afazeres da tua vida ou se chegaste a conclusão de que não estás disponível para colaborar ou apoiar o projecto da “Política Operária”.

Na carta anterior perguntava-te se pensavas vir a férias a Portugal e se haveria oportunidade de nos encontrarmos. Esse seria o melhor meio de restabelecermos contacto e trocarmos ideias. Peço que me informes a este respeito e que, de qualquer forma, escrevas umas linhas a dizer como vai a tua vida e perspectivas de actividade.

Mando junto um manifesto que difundimos aqui e que foi noticiado nalguns jornais. Infelizmente a nossa proposta [de frente eleitoral] não se pôde concretizar. Víamos nela uma ocasião de por algumas forças de esquerda a falar na televisão e a dizer umas verdades. Ê claro que da parte da UDP não esperávamos resposta, mas nos outros grupos também houve muito sectarismo e também infiltrações do PCP, que acabou por convidar um desses grupos (Esquerda Revolucionária – trotskista) para as suas listas. Enfim, o velho jogo. De qualquer forma, continuamos a fazer força para afirmar a existência de uma corrente de verdadeira esquerda e ganhar algumas pontas no movimento operário.

Escreve, dá notícias e diz se pensas vir cá nas férias.

Um grande abraço

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 7

31/1/1996

Caro Amigo:

Tenho recebido as tuas cartas, recortes e os 100 marcos, que foram para renovação da tua assinatura. Já tens a revista assegurada pelos próximos dois anos! Aproveitei alguns dos elementos que mandaste para a P.O. 53, que está pronta e vai amanhã para a tipografia. Depois me dirás se te agrada.

É claro, sabemos que a nossa posição abstencionista desagradou a bastantes leitores, que achavam que o voto no PS se justificava para assegurar a derrota do Cavaco. Nós, sendo anticavaquistas ferrenhos e participando em todas as campanhas para deitar o PSD abaixo, só não participamos nessa de ir pôr o voto pelo PS, em que não acreditamos nem um poucochinho. A política é toda a mesma – é a que vem de Bruxelas. Agora mesmo, nas negociações da concertação social, o novo governo fez o que faria o Cavaco: 4,5% de aumentos, a troco da flexibilização dos horários e da polivalência de funções. Uma sacanice para agrdar aos grandes capitalistas. Por cá, tudo bem. E continuo à espera dos teus recortes e informações. Um abraço

Carta a MB – 7

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MB (7)

18/9/1995

 Caro Camarada:

Espero que tenhas tido boas férias (em Espanha?) e que estejas bem.

Venho pedir-te uma ajuda para as nossas edições Dinossauro. Como deves saber, passa este ano o centenário da morte de Engels e gostaríamos de editar uma biografia até ao fim do ano. Seria uma forma de contrariar a campanha de descrédito do marxismo que continua por aí em força. Foi-nos recomendada uma biografia que foi traduzida em inglês e editada em Londres em 1936, mas não sabemos o nome da editora:

Frederick Engels, por Gustav Mayer, Londres, 1936.

 Será possível que tu, com os teus conhecimentos em questões bibliográficas, nos descobrisses esta obra, mesmo em segunda mão? Dizem-nos que na edição alemã original era em dois grossos volumes. Se for esse o caso, teremos que desistir, porque um livro desses fica caríssimo e ninguém compra.

Temos em nosso poder duas biografias feitas pelos russos, mas não prestam, é o estilo dos grandes elogios e nenhuma objectividade. Também sabemos que há outras biografias em inglês. Não podes obter informação e dizer-nos como são? Se tu puderes consultá-las e alguma te parecer interessante, poderias mandar também. De qualquer modo, julgamos o Gustav Mayer mais adequado, desde que não seja muito grande. Ficamos à espera de notícias tuas, o mais cedo possível. Manda dizer qual a despesa que fizeres para te reembolsarmos.

Por cá tudo na mesma. As eleições, sem novidade: vai ganhar a democracia, como sempre, podemos dormir descansados. Estamos a preparar a P.O. 51, que receberás até meados de Outubro. Vamos fazer um encontro de confraternização e debate no dia 22 de Outubro, domingo, em Lisboa. Procuramos que seja uma data importante na nossa vida colectiva, que dê impulso para novas realizações. E se tu viesses até cá?

Aceita um grande abraço

Cartas a MV – 53

Francisco Martins Rodrigues 

Carta a MV (56)

29/12/1997

Caríssimo:

Com a PO na rua, dois livros na tipografia e a mudança de instalações quase completa,
posso finalmente vir pôr a correspondência em dia.

Tenho recebido toneladas de publicações tuas, sobretudo em torno do caso Sokal. Já li boa parte do livro e dos recortes e tenho-me divertido imenso. Afinal os nossos sábios pós-modernos andavam a copiar expressões dos livros de matemática sem sequer as perceber, só para fazer efeito junto dos papalvos. O nosso Prado Coelho, que é um desses papalvos, está para morrer e há mais gente fina de rabo entre as pernas. A B fez um comentário sobre o caso na última PO, que já deves ter recebido.

Como deves saber, o importante nesta terra neste dois últimos meses foram as eleições
autárquicas (pré-campanha, campanha, pós-campanha), com um investimento financeiro nunca visto e também um nível reles a tresandar. E a confirmação de que não há alternativas políticas em disputa mas apenas equipas de administradores a empurrar-se, a pisar-se e a insultar-se para conseguir dar nas vistas e ser escolhidos para os cargos. Desta vez, mesmo a anémica extrema-esquerda (?) se deixou arrastar na onda do
marketing, até o MRPP abandonou as suas tiradas antiburguesas, e foram castigados por isso, porque a votação baixou: perderam os votos de protesto contra o sistema e não ganharam outros em troca porque toda a gente sabe que, como governo autárquico, são inviáveis. Os tristes do PC, apesar de fazerem o reclame da sua administração honesta, levaram uma banhada de todo o tamanho (Amadora, Vila Franca!). O que dominou
foi a polarização nacional entre PS e PSD como os dois únicos candidatos credíveis à gerência da firma Portugal. SA. Toda a conversa sobre a importância cada vez maior do “poder local” e da “regionalização” é só conversa. O que conta é o aparelho central.

Com experiências destas, como não hei-de me tornar antiparlamentarista, mesmo que me
digam que isso vai contra o Lenine? A utilização revolucionária do parlamento está muito certo, mas é preciso termos condições para o utilizar e não sermos utilizados (e mastigados, digeridos e depois… evacuados) como aconteceu ao PCP e ao PC(R). Ando a ver se escrevo um artigo para o próximo número sobre a questão da concorrência às eleições.

E tu, vais mandar algum comentário? Contraponto — Embora não tenha ainda estudado os artigos que propões da Derive/Approdi, duvido que seja apropriado, ao fim de tantos meses, fazer um número dedicado à Albânia e com artigos todos da mesma origem. Poderíamos aproveitar um desses artigos, mas o resto deveria em minha opinião ser mais actual. Tens algum outro material em vista?

Como já te disse em carta anterior, proponho-me traduzir o artigo do Michael Lowy sobre o Che (não sei a tua opinião) e estou disponível para outros trabalhos de tradução. E preciso é que tu ponhas a máquina em marcha. (,,,)

Por agora é tudo. Assim que tiver os livros prontos do Thomas e do Founou, mando-te
5 exemplares de cada, para eventuais vendas aí. Um abraço.

 

Cartas a MV – 47

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (52)

30/11/1994

Caro Correspondente:

Os teus cartõezinhos começam a acumular-se e eu sinto-me em falta. A P.O. está praticamente pronta (com o teu excelente comentário, traduzido pela Ana) e vou ter uns dias para respirar.

Recebi o novo texto do Tom Thomas mas ainda não pude lê-lo. O livro dele sobre a Ecologia
está a imprimir, sob a chancela das prestigiadas edições Dinossauro; embora o nosso pedido de apoio financeiro da Comunidade não tivesse resposta (que surpresa!) decidimos avançar porque o tema desperta interesse e a abordagem do Thomas põe em causa muitas ideias feitas; vamos a ver se chocalha um bocado as cabeças nesta infeliz terra.

A Ana já começou a traduzir o Lissagaray que tu pontualmente mandaste, vamos mesmo para a frente. Decidimos suprimir os prefácios, o prólogo do autor, as extensas notas finais, para ver se o reduzimos a umas 350 páginas, e mesmo assim vai ficar muito caro, mas tem que ser. É monstruoso que nesta terra em que se edita tanto lixo nunca ninguém tenha achado interesse em dar a conhecer a história da Comuna de Paris. Pelos mesmos
motivos, não acho boa ideia acrescentar-lhe, como sugeres, o texto de Marx, porque já assim o preço vai ficar pesado e o público para estas matérias está muito reduzido.

Ainda no capítulo editorial (estamos de cabeça perdida!), gostaria que nos obtivesses traduções francesas de algumas das obras do Jack London, de conteúdo social. Recentemente, a Ana traduziu para a Antígona um livro chamado “O Povo do Abismo”, que achámos bestial. Gostaríamos que a Dinossauro também editasse algum. Vimos num registo de edições espanholas títulos dele com. Tempos dificilesNotas de viaje, Fragmentos del futuro. A 10/18 tem muitos publicados.

Também, já agora, poderás obter da Kollontai, as Memórias e a Autobiografia, para apreciação? Dos livros que tens disponíveis, gostaria de receber: Bettelheim, P. Gomes, Guillon, Gogol, Maurice Nadeau, Cavanna. Se te calhar, manda, mas sem preocupações, não há pressa.

Descuidei-me com o teu pedido de mais 3 P.O., vou enviar rapidamente. Agora, sobre o pedido que fizeste quantoa comentar o artigo do Vaiadas para a próxima série do Albatroz: fiquei embaraçado, por não saber muito bem o que escrever a este respeito, e sobretudo por temer que o homem se irrite por ver o trabalho dele acompanhado de comentário. Uma pergunta: do que tem saído na P.O. nos últimos meses não poderias traduzir ou adaptar qualquer coisa? Ficamos torcendo por que a nova série albatrosiana vá por diante.

Espero em breve escrever-te um extenso relatório sobre a situação política nacional e a vitoriosa campanha das forças democráticas para expulsar do poder a camarilha cavaquista. Partiram as pernas e os braços ao movimento operário e agora querem mobilizar as massas à base de agitações das classes médias. Muito fumo e pouca porrada, o Cavaco até se ri. Fiz um comentário sobre isto na P.O. que vai sair. Um abraço.

Cartas a MV – 46

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (51)

11/10/1994

Camarada Dinossauro Excelentíssimo:

Tenho visto pelos teus cartões que continuas a gozar férias a um ritmo apreciável e em sítios maravilhosos. E a revolução, como é? Ficas à espera que a gente faça aqui o trabalho todo? Bem podes ir esperando… Ao ritmo que isto por aqui vai, nem no ano 3000. Tirando a revolução da ponte, de que deves ter ouvido falar, todas as outras frentes de luta não dão luta. Neste momento, espera-se pela resposta das centrais sindicais a um plano de “concertação social” do governo absolutamente cínico e miserável, com aumentos de 2,5% (!!), mas pelas conversas moles que os líderes apresentam na televisão é de prever que não vão fazer nada.

Uma boa notícia, ontem, foi a ocupação das instalações da Rodoviária do Sul pelos operários, que sequestraram os administradores durante algumas horas e acabaram por ser expulsos pela polícia. Se houvesse meia dúzia de acções deste tipo, esta burguesia borrava-se toda. Eles fartam-se de dizer que a retoma dos negócios já começou mas o pagode, na parte que lhe toca, não nota retoma nenhuma.

De política, não falemos. O grande desafio, ao nível do PS é saber se vai optar por um oposicionismo sentimentaloide, como querem os soaristas, ou por uma linguagem tecnocrática, europeísta e abertamente reaccionária, como quer o Guterres, para ganhar as boas graças das grandes companhias. Há entre eles grandes divergências sobre
qual a fórmula que dará mais votos (porque é só de votos que se trata, evidentemente, o programa de governo é o mesmo, para Soares, Guterres ou Cavaco). Divergem também sobre qual a melhor maneira de engolir o PC: a chicote ou com abraços. Se continuarem a lutar nos próximos meses, quem vai ganhar as eleições por maioria absoluta é outra vez o Cavaco, a não ser que as dificuldades económicas empurrem as massas para a esquerda.

Outra grande “batalha em perspectiva é a entrada em cena dos aspirantes à corrida presidencial de 96: Jorge Sampaio, um social-democrata chato e sem imaginação, ou Eanes, o eterno general bronco, que o PSD estaria disposto a patrocinar. Estamos bem entregues.

O teu longo artigo sai nesta P.O. (para a semana) dividido em dois: Panamá e Pasqua, espero que aches bem. Agora há que começar a redigir para o próximo número, tem que cá estar até 15 de Novembro, o mais tardar, se não queres voltar a ser inscrito na lista dos redactores a abater.

Parecem-me até certo ponto justificadas as tuas objecções à associação de desertores (da qual, aliás, não voltei a ouvir falar), mas não me pareceu que a iniciativa estivesse a ser apadrinhada pelo Forum Cívico Europeu. Apenas o Zé Mário aproveitou o empurrão dado por esses tipos para pôr em movimento a ideia da associação, o que, se trouxesse a público o debate sobre a guerra colonial e os crimes, ajudaria a descomprimir a atmosfera. De qualquer modo, o medo é muito e o desinteresse maior, pelo que a ideia não conseguiu grandes ecos até à data.

Estive hoje com um nosso assinante de Paris, JR, ex-cabo da Força Aérea, ex-funcionário do PC, ex-preso político, que vive aí há já uns dez anos. É pessoa interessante; embora ainda preso à formação revisa, tem postura dissidente e simpatias anarco-trotsko-maoístas, não sei se me entendes. Se algum dia lhe quiseres falar ou mandar materiais, a morada é: (…).

Obrigado pelo Althusser, estou a penetrar nos meandros da sua história, mas devagar, para não ter algum acesso de loucura.

E que tal os pecadilhos de juventude do “mon ami Mitterrand”? O Bochechas deve estar embatucado com as proezas do seu amado líder e mentor espiritual. Não tarda, vais vê-lo a desfilar atrás do cortejo fúnebre, comovidíssimo. Aceita um grande abraço, até breve.

 

Cartas a MV – 44

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (49)

5/6/1994

Caríssimo:

Com a P.O. na tipografia, venho pôr em dia a correspondência. Desde já. para te
tranquilizar: tenho recebido os teus cartões (o relato sobre o 25 de Abril parisiense sai na P.O. nas Cartas do leitor), assim como o vale de 10.000$. Enviei o livro para os cinco nomes que  indicaste.

Perguntas porque não inclui o livro depoimentos do Guinot, Vanzeller, Brochado, etc. Não
foi por falta de os contactarmos, mas por falta de tempo para irmos à procura deles de gravador na mão. Foi assim que arrancámos muitos dos testemunhos, à má fila. Todos se mostravam interessados na ideia mas quando chegava a hora de falar para o gravador ou de escrever, cortavam-se. O BC foi um dos primeiros que convidei mas nunca chegou a dispor-se. O R a mesma coisa. O G quando viu o livro ficou arrependido de não ter contado
a sua história, o B também. O Zé Cigano não respondeu ao nosso convite e agora soube
que tem andado cá pelo país e não nos procurou. É parecido contigo… O V não sei onde
pára. A propósito, disseram-me há dias que o Zé Machado morreu, não sei se de acidente ou de doença súbita.

O livro está a sair razoavelmente mas em venda directa, na nossa área! A distribuidora já o
colocou nas livrarias, está à venda na Feira do Livro, mas, sem referências na grande imprensa, prevejo uma venda fraca. Saiu uma nota curtíssima no
Expresso, outra no Diário de Notícias e uma pequena crítica no Jornal de Letras. Nada mais. O crítico do Público, apesar de muito namorado, não se dignou mencionar. Amanhã vou ao Porto a uma sessão da lançamento nortenha na cooperativa “Gesto”, vamos a ver se a imprensa do Norte diz alguma coisa. Temos que compreender que os rapazes da imprensa fiquem embaraçados com este tipo de literatura, são “guerras” que já não interessam, agora que estamos em plena revisão da história.

Não sei se acompanhaste, mas o 20° aniversário aqui foi dominado pela reavaliação “objectiva da guerra colonial, do Marcelo Caetano, da PIDE… num retorno desbragado da velha direita, dando-se ares de vítima dos “excessos revolucionários”. Não é só aí que andam ocupados em saber se a morte do Luís XVI foi injusta ou se o Pétain foi um “patriota”. Aqui segue-se a moda. De modo que a produção dinossáurica aparece quase como uma obscenidade, a silenciar. Deixa- os andar…

Quanto a novos títulos Dinossauro, julgo que de imediato não podemos pensar nisso,
temos que digerir primeiro o rombo económico desta edição. Apesar de a composição e
montagem serem feitas com o nosso trabalho militante, a despesa da tipografia é brutal. Coisas que tu conheces de sobra.

O Tom Thomas mandou-me a declaração e concorri ao pedido de subsídio para a edição do livro dele sobre Ecologia (o subsídio é apenas para a tradução) mas sem esperança nenhuma de ver dinheiro daí. Esse livro é uma das nossas hipóteses de edição
próxima, embora receemos a falta de interesse do grande público, se a imprensa não disser
qualquer coisa favorável (e não vai dizer, decerto). Mais lá para diante, pensava na hipótese de dar uma redacção unificada e melhorada aos muitos artigos que tenho publicado na P.O. sobre o fracasso das revoluções deste século. Assunto a pensar melhor. Enfim, as Edições, por enquanto vão a meio gás, até por falta de mão-de-obra para assegurar ao mesmo tempo a P.O.

Neste número da P.O. incluímos umas teses sobre as eleições do Parlamento Europeu,
acerca das quais gostava de conhecer a tua opinião. Temos discutido muito pouco o assunto Europa e só temos algumas ideias gerais. O panorama das candidaturas de “esquerda” é lamentável, é tudo reformismo, sem quaisquer rasgos de radicalismo. Frutos da época.

Vou enviar-te os 5 exemplares pedidos do livro e espero que a tua editora brilhe no
mercado da poesia. Um abraço, até breve.

 

Cartas a MV – 43

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (49)

5/5/1994

M:

Com que então, de férias outra vez! Ainda vais ser sujeito a um inquérito do colectivo! Espero que tenhas voltado com as baterias bem carregadas para mais produção
literária.

O livro O futuro era agora saiu. No dia 25 de Abril, lá estávamos nós com a nossa banquinha, na Rua Augusta, cheia de multidão, a apresentar o nosso produto. Vendemos duas dúzias de exemplares, porque as grandes massas estavam mais interessadas nas quinquilharias dos africanos e chineses e no espectáculo de canções que ia decorrer no Terreiro do Paço.

Depois, fizemos o lançamento formal, com todo o aparato (caro como fogo!), no Clube dos
Jornalistas; apareceram umas dezenas de amigos, mas jornalistas, só um! Vendemos mais
umas dezenas de exemplares. A seguir, veio o desfile do 1º de Maio (menos concorrido este
ano), em que distribuímos um panfleto que te mando junto e depois, fizemos um lanche de
confraternização. Vendemos mais umas dezenas de exemplares. Entretanto, negociei com
um distribuidor, que vai colocar o livro nas livrarias e ando a bater à porta dos críticos
literários dos jornais, para ver se se dignam fazer a sua recensão. É assim a vida. Tu
conheces bem este calvário, não é? Enfim, como só imprimimos mil exemplares e vem aí a
Feira do Livro, estou convencido de que, pouco a pouco, há-de ir saindo e que salvamos a
despesa.

E o trabalho em si? A nós, que andámos em corrida contra relógio, a coligir os
depoimentos, a cronologia, etc., deu-nos uma grande satisfação fazê-lo e reencontrar coisas
importantes que já não lembrávamos. O livro saiu limpinho e, apesar de alguns erros, não
nos envergonha. Pelas primeiras reacções, acho que a mensagem vai ser recebida, mas, é
claro, no círculo restrito dos que não se envergonham do 25 de Abril. Este ano, os festejos
do 20º aniversário foram “apimentados” com entrevistas a tudo o que é reaccionário;
tivemos que gramar os salazaristas a darem os seus arrotos contra o “populismo”, a
descolonização, os capitães.

A emulação entre as televisões para conseguirem mesas redondas mais chamativas levou a SIC (do Balsemão) a pôr o parvo do Tengarrinha a dialogar com um pide, com o entrevistador cheio de respeito a recolher as opiniões do “senhor inspector” (que foi justamente o chefe do bando que me torturou em 1966, um Óscar Cardoso, que no ano seguinte foi para Angola como chefe dos “Flechas”). A coisa foi tão sórdida que causou uma reacção geral de indignação, protestos, declarações em massa de ex-presos na rádio e na imprensa, mas, como seria de esperar, acabou por ser tudo capitalizado pelo PS, o arauto da democracia pluralista. Dei dois depoimentos para a TSF e um para o Expresso, mas foram de tal modo “sintetizados” que quase não ficou nada além do meu nome! Foi na sequência desta onda de protestos que fizemos o folheto das Cem Vítimas, que foi bastante bem recebido pelos manifestantes no 19 de Maio e se esgotou em menos de uma hora.

E que tal aí as comemorações pascácias do Prado Coelho e companhia? Estiveste
lá? Sempre conseguiste espalhar o teu papel? Foste preso como desordeiro?

Mandei-te um pacote com 5 exemplares do livro e, mais recentemente, um
exemplar, oferta para ti do editor. Recebeste? Já deste uma vista de olhos? Como creio que
te disse no bilhete que acompanhava os 5 exemplares, o teu texto teve que ser amputado
das partes que já não se referiam ao PREC, porque foi essa a norma que adoptámos para
manter a unidade do tema. Tivemos que fazer o mesmo com muitos outros testemunhos e
um trabalho diabólico de condensação das entrevistas gravadas. De qualquer modo, acho
que a tua colaboração fecha muito bem o conjunto dos textos.
Apesar de termos procurado
compor um mosaico representativo das diversas áreas da “extrema esquerda” da época, há
um peso excessivo de udps. Teria sido preciso mais tempo para chegarmos a outra gente,
mas mesmo assim os anarquistas não têm de que se queixar. O amigo V não saiu
porque me mandou um artigo quase à última hora, e em francês, para eu traduzir!! Disse-lhe que assim não dá, não sei se ficou zangado. Também já não tivemos braços para
considerar a tua justa sugestão de enumerarmos os filmes produzidos sobre o assunto.
Mais grave foi a falta de testemunhos de assalariados rurais e camponeses pobres, mas no
prazo que nos demos, não foi possível ir à busca deles. Fica para a edição do 25º
aniversário!

Agora conto com o teu empenho em promoveres o livro aí junto do pessoal portuga.
Mando junto duas folhas de propaganda, que te podem ajudar a vender a mercadoria. As
eventuais receitas revertem, tal como as da P.O., para o teu fundo de maneio, claro.

O Albatroz 10 chegou aqui já depois de estar distribuída a P.O. 44 e, com a corrida
em que nos metemos com o livro, teve que ficar para trás. Conto tratar da sua distribuição
junto com a próxima P.O., no fim deste mês. É um bocado tarde mas, francamente, não
estamos com disponibilidades para mais. O colectivo cá continua e, apesar de
conseguirmos mais um ou outro colaborador para a revista, gente para trabalhar é que não se arranja. Estamos no osso, esfalfados, e sem tempo para trabalharmos e pensarmos
temas de fundo.
Se puderes mandar-nos alguma colaboração até dia 20 de Maio, será uma
boa ajuda: não tens nada para dizer sobre as eleições para o Parlamento Europeu?

Mando também junto cópia de uma carta que envio hoje ao Tom Thomas. Será que
o podes contactar para acelerar a passagem da declaração que aí lhe pedimos? Ou tens
para nos sugerir algum outro texto que fosse interessante nós traduzirmos e editarmos pelo Dinossauro? A condição para nos candidatarmos ao subsídio é termos na nossa mão uma autorização escrita do autor até dia 30 de Maio e as obras devem obedecer a certos
critérios, como podes verificar pela folha do regulamento cuja cópia envio. Devido ao aperto do prazo, pensámos que o mais viável seria o livro do Thomas, que todos nós achámos interessante e adequado para dar uma pedrada nas teias de aranha ecológico-folclóricas cá do burgo. Diz o que pensas disto, mas depressa!

 

 

Cartas a MV – 42

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (48)

9/2/1994

Caro M.:

Uma gripe que derrubou toda a gente lá em casa por alturas do fim do ano e depois a lufa-lufa da P.O. (vem hoje da tipografia) levaram-me a adiar sucessivamente a correspondência. Tenho recebido uma série de cartões teus a que só agora respondo, assim como o Albatroz 10. O teu comentário sobre a manif. da escola laica sai nesta
P.O. A nossa secção gráfica agradece a bolsa das cores que ofereceste e que lhes é muito útil.

Também recebi o teu desabafo sobre a militância do V, mas não estranhes, porque a partir de agora e até às legislativas (Outubro 95) vais ver mais gente a abraçar a “causa sagrada” do PS. Já se nota uma disputa acesa para lançarem a fateixa a todos os ex-esquerdistas que por aí andam desasados. Há umas semanas, na série de debates organizada pelo Museu República e Resistência (dependente da Câmara Municipal de Lisboa e portanto do PS), pude ouvir o “educador” Arnaldo Matos lançar um apelo a todos os que pertenceram a grupos maoístas para se encontrarem e debater experiências, para ver como ajudar a “esquerda democrática” a correr com o cavaquismo. Fez várias piscadelas de olho descaradíssimas em direcção ao PS e ao Soares. Em poucos dias, foi entrevistado em várias revistas e na televisão, repetindo, junto com as suas bacoradas “marxistas”, os mesmos acenos. Na apresentação da grande iniciativa do Soares para Maio, o controverso congresso “Portugal – Que Futuro?”, ele lá estava na primeira fila, junto com os pcs, udps, mdps, etc. Para mim, o homem está a soldo do Mário Soares para ver se recupera orlas da esquerda que por aí andam perdidas e metê-las na “grande frente democrática”.

Por aqui podes ver como os chefes social-democratas estão a dar tudo por  conseguirem a
maioria em 95. E têm razão em se esforçar porque sondagens recentes continuam a dar o primeiro lugar ao Cavaco na preferência dos eleitores. Apesar da crise, dos despedimentos, do “aumento” negativo nos salários, de escândalos diversos e feios. Por aí vês como o PS é “amado” pela grande massa e como precisa de angariar nomes e apoios, seja onde for. O caso do teu amigo V é só um no meio da enxurrada.

Houve recentemente umas oportunidades de intervenção pública. Falei na série de palestras do Museu República e Resistência (Dezembro) sobre o maoísmo em Portugal. Estava bastante gente, interessada, e as perguntas e respostas prolongaram-se por um bom bocado. No dia seguinte, falou a Ana sobre a revolução chinesa e a mulher, também com bastante interesse. Noutros dias falou o Arnaldo, o Pacheco Pereira (hoje PSD) e o Pedro
Baptista (hoje plataformista).

Há dias estive noutro debate no Porto, organizado pela Amnistia Internacional, sobre
a Democracia, com o Mário Brochado Coelho e uma professora Helena Vilaça. Houve bastante controvérsia e estive entretido a deitar abaixo as bacoradas “pós-modernistas” do rapaz da Amnistia e a falar para espectadores embasbacados sobre a luta de classes e a ditadura da burguesia. Muito estimulante.

Fui também convidado para entrar num debate na RTP1 sobre Mao mas recusei-me e acho que fiz bem porque só faltava mandarem-me pôr de gatas para ter direito à palavra Os teus amigos Louçã, Arnaldo e Baptista é que não se importaram e lá estiveram a palestrar. Falo nisso na P.O., tu verás.

Albatroz – O A fez uma recensão na P.O. Por mim, gostei particularmente da lista das malfeitorias mitterrandistas. Achei a parte poético-literária demasiado extensa para o meu gosto. Estava à espera de mais sumo político. Mas não faças caso, já sabes que eu sou obcecado. Tu disseste num dos teus bilhetes que nos enviarias 20 exemplares para ensaiarmos alguma distribuição mas até agora não chegaram. Desististe?

20º aniversário do 25 de Abril – Todos os estados-maiores partidários afiam o dente para capitalizar aquilo que lhes convém da data. Entre nós, temos andado a debater a possibilidade da edição de um livro que coleccione depoimentos, artigos e materiais diversos, no sentido de mostrar à nova geração que os 19 meses da “bagunça”
foram os mais criadores da nossa história moderna e de contrastar as iniciativas avançadas desse período com a pasmaceira derrotada em que hoje vivemos. Será que podes dar a tua colaboração a esta ideia, com materiais originais ou outros já anteriormente editados e que tivesse interesse dar a conhecer? Será que nos podes indicar
pistas, nomes a contactar, dar sugestões de trabalho, etc.? Podes enviar dados para a cronologia e a bibliografia? O problema aqui vai ser a escassez do tempo para coligir os materiais e pôr o livro na rua até ao 25 de Abril. Responde rapidamente, por favor, para sabermos se podemos contar com algo da tua parte.

Tenho continuado a receber o “Courrier”. Há semanas, em resposta a uma pergunta tua, dizia que, se pagas a assinatura não vale a pena, porque pouco colhemos desta revista. Recebeste essa minha carta?

Tomámos nota e vamos passar a mandar directamente 5 exemplares da P.O. para a Lusophone. Vou-lhes escrever a anunciar o envio, o preço de venda de 15 francos e a dizer que tratem de tudo contigo.

Recebi 5 novas edições albatrosianas de poesia. Tomáramos nós ser capazes de lançar livros a este ritmo! Mas as edições Dinossauro estão em marcha, o livro sobre o 25 de Abril será o primeiro. E se tu viesses para cá uns meses ajudar a organizar o livro?

Enviei o disco “Obrigado Otelo” para o assinante que me tinha pedido, agora gostava de saber o preço para lho cobrar, não há razão para lhe oferecermos um disco que certamente te custou dinheiro a ti. E, para já, é tudo.

Por aí, tudo bem? Abraços.