Cartas a JV – 11

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 11

9/2/1994

Caro Amigo:

Agradeço os jornais e documentos que tens mandado.. A P.O. deve vir hoje da tipografia e ficamos com um breve período de pausa, para respirar e sobretudo ler material que se vai acumulando. O teu reparo sobre o homossexualismo chegou quando se estava a fechar a redacção e ainda deu para o metermos em carta do leitor. Aguardemos as reacções. Se queres que te diga, nunca nos dedicámos a discutir muito o assunto e creio que existem opiniões diferentes entre nós. Talvez a tua carta nos obrigue a discutir o problema. A posição que saiu no artiguinho que referes não pretendeu obviamente dizer que a homossexualidade seja uma doença, mas apenas apontar o seu florescimento nas prisões como um dos índices da situação degradante em que os presos se encontram, privados duma vida sexual normal. Não concordas?

Por cá, a situação económica agrava-se lentamente, embora não tanto como alguns previam. O desemprego oficial é de 6% mas este número tem pouco a ver com a realidade. Será 8%, 10%? O funcionalismo público vai fazer a segunda greve no espaço de um mês, porque o governo pretende dar-lhe um aumento de 0% a 2%, omitindo a inflação, ou seja, um “aumento” negativo. Dos sectores operários há algumas acções de protesto, mas até agora dispersas. As duas centrais estão a radicalizar a linguagem mas não mais do que isso, é só para absorver o descontentamento. Qualquer delas, mas sobretudo a UGT, estão escandalosamente vendidas às verbas da Comunidade, a pretexto dos cursos de formação profissional, e ficam na dependência do governo para embolsar as massas. De modo que berram muito mas arrastam os pés e procuram dispersar as lutas. É a modernização que chega à ocidental praia lusitana.

Será que nos encontramos na sessão do aniversário da Batalha em 26 deste mês? Eu vou lá. Abraços meus,  da Ana e da Beatriz, para ti e para a S.

Cartas a LC (4)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 4

23/8/1993

Caro Amigo:

Respondo com atraso à tua carta, mas espero que me desculpes. Não sabia que tinhas esse problema tão embrulhado das hérnias. Estás a passar melhor agora? Eu tenho estado bem, fora uns ataques periódicos de reumático. Só agora, no fim de Agosto, me estou a preparar para ir fazer umas pequenas férias, talvez para o Alentejo. Se a tua filha e o namorado dela passarem pela sede da revista, como dizes, correm o risco de bater com o nariz na porta. Mas nos primeiros dias de Setembro já cá estarei, para começarmos a preparar o próximo número da revista.

A nossa propaganda cá continua, mas os frutos vêem-se pouco. A burguesia arranjou uma máquina de comunicação (embrutecimento) social que esmaga tudo. Nas bancas de jornais, a nossa revista fica escondida no meio de montanhas de papel: modas, crime, pornografia, negócios – não dá hipótese. Tu sabes como é, que ai na Alemanha é bem pior. Tenho lido as notícias sobre a crise do desemprego que aí também está a chegar. Aqui fecham fábricas atrás de fábricas e a agricultura e a pesca estão de rastos. Não sei como conseguem ir arrumando os trabalhadores despedidos. Diz-se que lá para o fim do ano vai ser pior. O problema é que as pessoas não vêem nenhuma alternativa política. O PS defende o mesmo programa que o PSD quanto à Europa. Talvez, com a continuação da crise, aqueles que acreditavam que o capitalismo ia dar prosperidade para todos, comecem a abrir os olhos e a dar ouvidos à propaganda revolucionária.

Caro L, estimo as tuas melhoras e que a vida te corra bem. Um abraço

 

Cartas a LC (3)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 3

11/2/1992

Caro Amigo:

Grato pela tua carta e pelo apoio. Infelizmente não recebi a importância que dizes ter enviado anteriormente em carta, mas não deixo por isso de registar a tua assinatura. Também vou enviar um nº da revista ao amigo cujo nome indicas e escrever-lhe a saber se quer tornar-se assinante. Deves receber a revista dentro de dias e espero que te interessem os assuntos tratados.

Aqui começa a sentir-se o efeito do programa económico do Cavaco: agravamento dos impostos, aumento de preços, tecto salarial e muitas empresas a fechar. Os que votaram no tipo a contar com a prosperidade geral estão desiludidos. Veremos a capacidade de resposta da CGTP, há greves marcadas para amanhã e para dia 18.

Um abraço e até breve

Cartas a MV – 46

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (51)

11/10/1994

Camarada Dinossauro Excelentíssimo:

Tenho visto pelos teus cartões que continuas a gozar férias a um ritmo apreciável e em sítios maravilhosos. E a revolução, como é? Ficas à espera que a gente faça aqui o trabalho todo? Bem podes ir esperando… Ao ritmo que isto por aqui vai, nem no ano 3000. Tirando a revolução da ponte, de que deves ter ouvido falar, todas as outras frentes de luta não dão luta. Neste momento, espera-se pela resposta das centrais sindicais a um plano de “concertação social” do governo absolutamente cínico e miserável, com aumentos de 2,5% (!!), mas pelas conversas moles que os líderes apresentam na televisão é de prever que não vão fazer nada.

Uma boa notícia, ontem, foi a ocupação das instalações da Rodoviária do Sul pelos operários, que sequestraram os administradores durante algumas horas e acabaram por ser expulsos pela polícia. Se houvesse meia dúzia de acções deste tipo, esta burguesia borrava-se toda. Eles fartam-se de dizer que a retoma dos negócios já começou mas o pagode, na parte que lhe toca, não nota retoma nenhuma.

De política, não falemos. O grande desafio, ao nível do PS é saber se vai optar por um oposicionismo sentimentaloide, como querem os soaristas, ou por uma linguagem tecnocrática, europeísta e abertamente reaccionária, como quer o Guterres, para ganhar as boas graças das grandes companhias. Há entre eles grandes divergências sobre
qual a fórmula que dará mais votos (porque é só de votos que se trata, evidentemente, o programa de governo é o mesmo, para Soares, Guterres ou Cavaco). Divergem também sobre qual a melhor maneira de engolir o PC: a chicote ou com abraços. Se continuarem a lutar nos próximos meses, quem vai ganhar as eleições por maioria absoluta é outra vez o Cavaco, a não ser que as dificuldades económicas empurrem as massas para a esquerda.

Outra grande “batalha em perspectiva é a entrada em cena dos aspirantes à corrida presidencial de 96: Jorge Sampaio, um social-democrata chato e sem imaginação, ou Eanes, o eterno general bronco, que o PSD estaria disposto a patrocinar. Estamos bem entregues.

O teu longo artigo sai nesta P.O. (para a semana) dividido em dois: Panamá e Pasqua, espero que aches bem. Agora há que começar a redigir para o próximo número, tem que cá estar até 15 de Novembro, o mais tardar, se não queres voltar a ser inscrito na lista dos redactores a abater.

Parecem-me até certo ponto justificadas as tuas objecções à associação de desertores (da qual, aliás, não voltei a ouvir falar), mas não me pareceu que a iniciativa estivesse a ser apadrinhada pelo Forum Cívico Europeu. Apenas o Zé Mário aproveitou o empurrão dado por esses tipos para pôr em movimento a ideia da associação, o que, se trouxesse a público o debate sobre a guerra colonial e os crimes, ajudaria a descomprimir a atmosfera. De qualquer modo, o medo é muito e o desinteresse maior, pelo que a ideia não conseguiu grandes ecos até à data.

Estive hoje com um nosso assinante de Paris, JR, ex-cabo da Força Aérea, ex-funcionário do PC, ex-preso político, que vive aí há já uns dez anos. É pessoa interessante; embora ainda preso à formação revisa, tem postura dissidente e simpatias anarco-trotsko-maoístas, não sei se me entendes. Se algum dia lhe quiseres falar ou mandar materiais, a morada é: (…).

Obrigado pelo Althusser, estou a penetrar nos meandros da sua história, mas devagar, para não ter algum acesso de loucura.

E que tal os pecadilhos de juventude do “mon ami Mitterrand”? O Bochechas deve estar embatucado com as proezas do seu amado líder e mentor espiritual. Não tarda, vais vê-lo a desfilar atrás do cortejo fúnebre, comovidíssimo. Aceita um grande abraço, até breve.

 

Cartas a MV – 29

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (34)

15/4/1992

Caríssimo:

Agora que a P.O. 34 foi para o correio, já posso pôr a correspondência em dia. Estás recomposto do desastre de ter perdido a bagagem? E de saúde, tudo bem? Eu continuo na maior.

P.O. – Espero que já tenhas recebido os 2 exemplares pedidos da P.O. 33. Da P.O. 34 seguiram 5 para a tua morada, mais um para o “Albatroz”. Como deves observar, estamos com dificuldade para fazer avanços teóricos. Falta de tempo, falta de gente. Aproveitei as tuas notas sobre o Amazonas e pus o teu nome a assinar comigo um artigo sobre o assunto. Correcto? Agora fico à espera de mais produção tua para o próximo nº, até 15 de Maio. Não esqueças!

Caso Joel Lamy – Fiz um artigo na P.O. 34 e enviei-lhe um postal para a prisão.

Marrocos – Com os materiais que me enviaste, fiz cartas às “forças vivas” cá da terra, desde o presidente da República, Assembleia, Amnistia Internacional, agência Lusa, jornais, denunciando as torturas, etc. e pedindo divulgação. Silêncio sepulcral! Ninguém disse nada, deve haver recomendações para não desfeitear sua majestade o torcionário em vésperas de visita (ainda não foi marcada data). Entretanto, recebi mais correspondência de Marrocos e vou fazer mais uma circular, a ver se furo o bloqueio.

Albatroz – suponho que estejas a lutar para o pôr na rua. Não escrevi nenhuma colaboração porque também não me deste um ultimatum com uma data precisa, e a tendência é para ficar à espera do último prazo. Francamente, também não estou a ver o que interesse mais para os teus leitores. Dá-me um palpite. Diz-me o que há.

Assinatura – Talvez tenhas recebido um aviso de fim de assinatura, enviado pelos nossos zelosos serviços administrativos. Não ligues.

PC(R) – seguem junto recortes do “Expresso” e da “Sábado” com entrevistas do Eduardo Pires, sobre a dissolução do partido. Lamentável. A “Sábado” tem umas declarações minhas, muito truncadas e com a cara do Tomé!

Situação política – Da situação internacional não digo nada; tu é que tens obrigação de me informar. A situação nacional está bastante repugnante: só se fala de altos negócios, corrupções, e intriguinhas políticas reles. As velhas famílias de tubarões, Mello, Champalimaud, Espírito Santo estão a refazer os seus impérios graças às privatizações. O governo, que andou uns anos a subornar os eleitores com concessões, para garantir a vitória nas eleições, agora está a pôr as contas em dia: aumento de preços e de impostos, tecto salarial. As pessoas não protestam; queixam-se, lamentam-se, e daí não passam.

 Em 21 de Março houve uma manifestação de protesto da CGTP; não chegou a mil pessoas. Um fiasco como nunca se tinha visto. Acho que já ninguém espera nada da CGTP. Quanto à UGT, além de furar as reivindicações, anda envolvida em casos mafiosos de roubos, que comentámos na última P.O., mas as pessoas verificam que é aceite pelo poder e portanto aceitam-na! De referir apenas uma boa e longa greve do Metro, com uma unidade fora do vulgar e contrariando inclusive decisões amarelas das duas centrais. Protestos há, sim, mas de sectores da burguesia que estão a ser atropelados pela integração europeia: professores, agricultores, magistrados, pequenos industriais… Os estudantes animaram o ambiente durante umas semanas com os seus protestos contra as restrições de acesso à Universidade e o aumento das propinas, mas é sol de pouca dura. Para onde vamos? Se a recessão europeia comprometer os planos de ajuda ao capitalismo nacional, as falências das pequenas e médias empresas podem tomar um ritmo assustador, e não sei como conseguirá o poder reintegrar toda a gente que está a ser mandada para a rua: têxteis, calçado, metalurgia, etc. Por enquanto o desemprego ainda não assusta. Seja o que deus quiser.

Os dissidentes social-democratas do PCP (Judas, Barros Moura) vão constituir um grupo político. Será a semente dum PS “de esquerda”, mais vocacionado para receber a herança do PCP quando o velho arrumar as botas? Em princípio, parece ter um espaço, mas não lhes vejo genica para isso. Por nós, seria bom que se metessem todos a negociantes e não viessem criar novas expectativas em alguns trabalhadores. O terreno da esquerda está quase todo varrido. Agora só falta nós tomarmos posse dele…

Quando cá vieres temos que trocar ideias sobre a hipótese duma revista não partidária, de esquerda, para penetrar mais longe do que a P.O., que continuaria, mais vocacionada para o debate ideológico. Não sei se estás a ver a ideia. Só falta dinheiro e gente… Um abraço, até breve.  

Cartas a MV – 17

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (24)

8/8/1989

Caríssimo M.:

Tenho recebido ultimamente um rio de encomendas da tua parte, o que é muito agradável. Só fico doente quando tu insistes em escrever para te mandar a P.O. quando nós a expedimos pontualmente cada vez que sai. Que número não recebeste? O 18? O 19? O 20? Será que o carteiro, não encontrando ninguém em casa, deita fora a encomenda? Queres que seja expedida para outra morada? Agora o próximo nº vai sair em fins de Setembro, princípio de Outubro. Diz se queres que vá para outro lado. O que te parece a revista?

Temos consciência de que tem evoluído pouco, tem dito poucas coisas novas e vamos fazer um esforço maior nesse sentido, O nosso carácter é de revista de propaganda e não ganhamos nada em ser uma espécie de revista-jornal. Ten­cionamos manter o figurino actual, mais ligeiro que o anterior, mas procurar dar mais conteúdo às secções, fugir ao estilo informativo que não nos compete. Fizemos recentemente um debate inconclusivo so­bre problemas da revolução russa e estou a preparar um artigo nessa base, talvez para o próximo nº. A nossa vida continua dentro de parâ­metros estreitos, numa área de influência reduzida, a participação na FER com os trotskistas foi uma tentativa para nos tornarmos mais conhecidos e alargarmos a influência mas estava de facto “acima das nossas posses” e fomos forçados a desistir.

Quanto à questão que colocas sobre a homenagem no próximo Al­batroz ao militante kanaka que matou Tjibou[i], só sei o que li na im­prensa e no recorte que me mandaste. Parece-me fora de dúvida a jus­teza disso, para trazer ao de cima toda a podridão do processo dos acordos neocoloniais. Mas só tu no terreno francês podes medir os reflexos e a maneira de tratar o problema. Receias que produza um isolamento em relação aos meios de esquerda dai? As tuas impressões sobre a jornada de 8 de Julho na Bastilha estão interessantes e pensamos publicar na próxima P.O., embora saia com atraso. Escreve mais. O boneco também irá sair, só estamos a matar a cabeça em como traduzir a tua piada “A bas la dette! A bas la disette!“.

Escreveu-me um moço francês, PK, a pedir contacto para ti. Dei-lhe a morada da R, não sei se fiz mal. Queres escrever-lhe? Era do Partisan. Um grande abraço e continua a mandar papel

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[i] Djoubelly Wea, militante independentista kanaka da Nova Caledónia que, em 5 de Maio de 1989, executou os líderes Tjibaou e Yeiwene do FLNKS,  movimento local que negociava com os colonos franceses uma solução neocolonial para a nação kanaka. (Nota de AB).

A situação política – 1988

Francisco Martins Rodrigues

A situação política – 1988

Nestes últimos meses a conjuntura modificou-se. Para a burguesia portuguesa as perspectivas no campo externo não são boas. A mi­ragem de um “capitalismo popular” foi tragada pela iminência de uma no­va recessão da economia mundial. As teorias liberais mostraram-se inca­pazes de provocar um ascenso do capitalismo e é incerto o caminho que poderá tomar a actual crise internacional. Continuar a ler