Cartas a JV – 13

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 13

14/7/1996

Caro Amigo:

Lamentavelmente, a tua estadia em Portugal quase se sobrepôs com uma saída minha para o Norte, a gozar umas curtas férias. Ainda telefonei no sábado e domingo (dias 6 e 7) para os teus números de Lisboa e do Algarve mas ninguém atendeu; devias estar na praia a aproveitar o famoso sol português. Ficaremos assim a aguardar que se complete mais um ano para nova tentativa…

Recebi e agradeço os materiais que ofereceste. A entrevista do Paul Mattik Jr., digo-te já, é forte de mais para a minha estrutura ideológica. Vou voltar a lê-la e gostaria de te pôr por escrito algumas das objecções que me levanta. Embora conhecendo muito mal o conselhismo, duvido de que os pontos de vista dele correspondam aos dos “fundadores”. Mas esta é questão para uma mesa redonda, quando calhar. Por aqui, a revolução continua… na ordem e na paz dos espíritos, como recomendava o Botas. Os telejornais abrem e fecham com as últimas da bola, no meio da ansiedade das famílias. Pelo meio, para cortar a publicidade, lá metem umas breves imagens de operários postos na rua ou de guerra no fim do mundo.

Como está a S.? A Ana e a Beatriz mandam cumprimentos. A Beatriz trabalha agora no novo jornal . Qualquer dia, temos toda a comunicação social sob controlo e então…

Um abraço.

Cartas a JV – 12

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JV – 12

31/1/1996

Caro Amigo:

De facto, a tua assinatura caducou mas não cortámos o envio. Mandamos sempre mais alguns números com a proposta de renovação. Se não recebeste, a culpa deve ter sido dos teus amigos grevistas dos correios aí de França, são uns malandros que não querem trabalhar, só querem privilégios à nossa custa. O Chirac é que os topa. De toda a maneira, os teus 100 francos são bem-vindos, e ficas inscrito por mais um ano.

Se vieres em Abril, vais encontrar Lisboa completamente mudada, respira-se um ar novo desde que o socialismo subiu ao poder. Em todo o lado há plenários, saneamentos de capitalistas, ocupações de casas e fábricas, desfiles populares com bandeiras vermelhas e vivas ao Sampaio… Espero que não acredites.

A P.O. vai para a tipografia, espero que desta vez a recebas e que aprecies. Mando também o número anterior, para não ficares privado da nossa prosa. Abraços para ti para a S.

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 7

31/1/1996

Caro Amigo:

Tenho recebido as tuas cartas, recortes e os 100 marcos, que foram para renovação da tua assinatura. Já tens a revista assegurada pelos próximos dois anos! Aproveitei alguns dos elementos que mandaste para a P.O. 53, que está pronta e vai amanhã para a tipografia. Depois me dirás se te agrada.

É claro, sabemos que a nossa posição abstencionista desagradou a bastantes leitores, que achavam que o voto no PS se justificava para assegurar a derrota do Cavaco. Nós, sendo anticavaquistas ferrenhos e participando em todas as campanhas para deitar o PSD abaixo, só não participamos nessa de ir pôr o voto pelo PS, em que não acreditamos nem um poucochinho. A política é toda a mesma – é a que vem de Bruxelas. Agora mesmo, nas negociações da concertação social, o novo governo fez o que faria o Cavaco: 4,5% de aumentos, a troco da flexibilização dos horários e da polivalência de funções. Uma sacanice para agrdar aos grandes capitalistas. Por cá, tudo bem. E continuo à espera dos teus recortes e informações. Um abraço

Cartas a LC (4)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 4

23/8/1993

Caro Amigo:

Respondo com atraso à tua carta, mas espero que me desculpes. Não sabia que tinhas esse problema tão embrulhado das hérnias. Estás a passar melhor agora? Eu tenho estado bem, fora uns ataques periódicos de reumático. Só agora, no fim de Agosto, me estou a preparar para ir fazer umas pequenas férias, talvez para o Alentejo. Se a tua filha e o namorado dela passarem pela sede da revista, como dizes, correm o risco de bater com o nariz na porta. Mas nos primeiros dias de Setembro já cá estarei, para começarmos a preparar o próximo número da revista.

A nossa propaganda cá continua, mas os frutos vêem-se pouco. A burguesia arranjou uma máquina de comunicação (embrutecimento) social que esmaga tudo. Nas bancas de jornais, a nossa revista fica escondida no meio de montanhas de papel: modas, crime, pornografia, negócios – não dá hipótese. Tu sabes como é, que ai na Alemanha é bem pior. Tenho lido as notícias sobre a crise do desemprego que aí também está a chegar. Aqui fecham fábricas atrás de fábricas e a agricultura e a pesca estão de rastos. Não sei como conseguem ir arrumando os trabalhadores despedidos. Diz-se que lá para o fim do ano vai ser pior. O problema é que as pessoas não vêem nenhuma alternativa política. O PS defende o mesmo programa que o PSD quanto à Europa. Talvez, com a continuação da crise, aqueles que acreditavam que o capitalismo ia dar prosperidade para todos, comecem a abrir os olhos e a dar ouvidos à propaganda revolucionária.

Caro L, estimo as tuas melhoras e que a vida te corra bem. Um abraço

 

Carta a MB – 7

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MB (7)

18/9/1995

 Caro Camarada:

Espero que tenhas tido boas férias (em Espanha?) e que estejas bem.

Venho pedir-te uma ajuda para as nossas edições Dinossauro. Como deves saber, passa este ano o centenário da morte de Engels e gostaríamos de editar uma biografia até ao fim do ano. Seria uma forma de contrariar a campanha de descrédito do marxismo que continua por aí em força. Foi-nos recomendada uma biografia que foi traduzida em inglês e editada em Londres em 1936, mas não sabemos o nome da editora:

Frederick Engels, por Gustav Mayer, Londres, 1936.

 Será possível que tu, com os teus conhecimentos em questões bibliográficas, nos descobrisses esta obra, mesmo em segunda mão? Dizem-nos que na edição alemã original era em dois grossos volumes. Se for esse o caso, teremos que desistir, porque um livro desses fica caríssimo e ninguém compra.

Temos em nosso poder duas biografias feitas pelos russos, mas não prestam, é o estilo dos grandes elogios e nenhuma objectividade. Também sabemos que há outras biografias em inglês. Não podes obter informação e dizer-nos como são? Se tu puderes consultá-las e alguma te parecer interessante, poderias mandar também. De qualquer modo, julgamos o Gustav Mayer mais adequado, desde que não seja muito grande. Ficamos à espera de notícias tuas, o mais cedo possível. Manda dizer qual a despesa que fizeres para te reembolsarmos.

Por cá tudo na mesma. As eleições, sem novidade: vai ganhar a democracia, como sempre, podemos dormir descansados. Estamos a preparar a P.O. 51, que receberás até meados de Outubro. Vamos fazer um encontro de confraternização e debate no dia 22 de Outubro, domingo, em Lisboa. Procuramos que seja uma data importante na nossa vida colectiva, que dê impulso para novas realizações. E se tu viesses até cá?

Aceita um grande abraço

Cartas a JMA (1)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JMA – 1

25/10/1995

Caro Amigo

Acabo de receber a encomenda com as publicações e o cheque para a assinatura da P.O., de acordo com a nossa conversa telefónica. Vou fazer a leitura dos jornais, para depois lhe transmitir as minhas impressões. Aproveitando a sua disponibilidade para recolher entrevistas ou informações para a revista, proponho-lhe que nos faça uma entrevista ou pequena reportagem sobre a situação dos portugueses na Austrália. Isto é a sugestão que me ocorre. Se tiver outra e nos quiser mandar colaboração, será bemvinda.

Fizemos no sábado passado um encontro-festa no Teatro da Comuna em Lisboa, para comemorar o 10º aniversário de publicação da revista. Correu bem. Segue junto o último número da P.O. e um catálogo das Edições Dinossauro, por nós criadas há um ano e que está agora dando os primeiros passos. Como mostrou interesse nos preços das casas nos arredores de Lisboa, mando junto um prospecto que o poderá elucidar. Fico a aguardar notícias suas e envio-lhe um abraço

Carta a JMA – 2

7/10/1996

Caro Amigo:

Recebi o cheque de 12.000$ que agradeço e que foi assim distribuído:

  • assinatura RO. (10 n2)……………………………. 6.000$
  • assinatura Contraponto……………………………..2.000$
  • Inquérito ao Capitalismo………………………….. 1.500$
  • apoio…………………………………………… 2.500$

Espero que esteja de acordo com as suas intenções.

A P.O. 56 seguirá dentro de dias, por avião, como pediu. Fiz uma pequena notícia com a informação que deu sobre as manifestações em Camberra. Ah, é verdade, foi finalmente corrigido o erro que tinha assinalado e de que ninguém até agora se apercebera: bimestral e não bimensal.

De resto, tudo por cá muito morto, só golpes de baixa política de que as pessoas estão saturadas. O espectáculo Política está em nítida baixa de audiências, em comparação com a Bola, Canções, Variedades e Crimes. Só quando os tipos dos partidos vierem para a televisão dar cabriolas ou despirem-se em público é que talvez consigam vender melhor o produto. Mas têm que prometer sorteios e brindes, como os outros.

Por agora é tudo. Aceite as minhas saudações

Cartas a MV – 55

Francisco Martins Rodrigues 

Carta a MV (58)

 15/10/1998

Caro M:

Depois de um tão longo silêncio respondo aos teus postais dos últimos meses. A minha desculpa é a acumulação do trabalho e a complicação da minha vida familiar, que bem conheces.

As nossas actividades continuam no fogo lento a que estamos condenados enquanto não aparecer uma geração com novas inquietações e nova audácia para abanar esta barraca podre. Das coisas internacionais, não preciso de te falar, decerto acompanhas com mais dados do que eu. Cá do Portugalório, as notícias são de “modernidade”: casos de corrupção em grande e uma despolitização atroz das massas populares. Estão neste momento a seguir aviões de combate para o Kosovo, o ministro decidiu sem sequer se dar ao trabalho de ouvir a Assembleia da República para salvar as aparências. O PC protestou mas em voz baixa, está empenhado com o PS na grande campanha pela regionalização, julgam que vão ficar a governar o Alentejo. O pior é que a maioria da população inclina-se para a abstenção ou para o “não”. E mesmo que o “sim” viesse a ganhar o PS dava um pontapé no cu dos Pcs e ficava com as regiões todas.

Dentro de dias vais receber a P.O. 66. Acabámos por não aproveitar a tua sugestão de procurar bonecos do Zav na Eduarda Dionísio, de resto só falamos da Expo a propósito de uma falcatrua que lá houve de um milhão de contos, Como verás, traduzi um capítulo do último livro do Tom Thomas, gostaria de traduzir o livro na íntegra e editá-lo pela Dinossauro mas era fiasco comercial certo, o público daqui ainda não está alertado para os debates em tomo do fim do trabalho e os estudantes só se mobilizam pelas propinas.

Estivemos na sessão realizada pela Abril em Maio sobre a Expo, a Ana fez uma intervenção, encontrámos lá o Samir Amin e fizemos-lhe uma entrevista, vem nesta P.O. É uma cabeça interessante mas as suas perspectivas para a revolução mundial são muito reformistas, embora envolvidas em teses coloridas. Tu verás.

Recebemos os materiais que mandaste sobre o Brecht, desculpa não te ter avisado a tempo que o livro já estava fechado, ficámos por uma edição modesta, sempre com medo das despesas que não aguentamos. Tem-se vendido alguma coisa porque os jornais e os teatros sempre vão falando no centenário.

Agora temos para sair um álbum de postais ilustrados sobre o Império Colonial Português do princípio do século[1], é uma forma de nos associarmos às patrióticas iniciativas dos 500 anos das Descobertas. Faremos apresentação pública no dia 24, vamos a ver que saída tem. Também estamos a preparar uma edição das Veias Abertas da América Latina[2], livro já antigo do Galeano mas que aqui nunca foi editado. Como já se começa a falar nos 500 anos do descobrimento do Brasil, é a altura própria. Vamos a ver o que dá.

E tu, não mandas nada para a P.O.? Nem que sejam uns recortes de imprensa> vai-te lembrando de nós. Quando vens a Portugal? Abraços para ti e para a V.

——————

[1] O império a preto e branco, colecção de fotografias de época, selecionadas e comentadas por Ana Barradas. (Nota de AB).

[2] As Veias Abertas da América Latina, Dinossauro, 1998.