Cartas a JC – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 1

26/2/1987

Caro J:

Claro que me lembro de ti e tive grande satisfação em receber a tua carta, por ver que não perdeste o norte, apesar destes anos de pausa, Quando se esteve envolvido na luta de classes, directa e brutal, sem disfarces, como foi o nosso caso no tempo da Pide, é muito difícil iludirmo-nos com histórias sobre a “importância de cada um viver a sua vida”. Viver a nossa vida, plenamente, é trabalhar por virar esta organização social, porque é isso que os tempos pedem. Ninguém pode escolher a época da sua vida e a nossa época tem esse problema em aberto, que lhe havemos de fazer? Se lhe virarmos costas, não nos libertamos de nada, estaremos apenas a desperdiçar a nossa vida. É por isso que eu não sinto a militância comunista como um sacrifício: faço aquilo de que realmente gosto e que me faz sentir vivo. Já há gente demais reduzida ao papel de joguetes cegos do capital, não tenho vontade nenhuma de lhe seguir o exemplo.

É claro que os nossos velhos planos de batalha estavam cheios de erros e isso contribuiu para muitas derrotas e para a actual fase de dispersão. Mas não serve de nada cairmos por isso no pessimismo e na amargura, lamentar “os anos perdidos”, como por aí se faz agora. A revolução é uma longa aprendizagem, não há outra forma de descobrir o caminho.

Se passares os olhos pelos números já publicados da nossa revista, verás as interrogações que nos colocamos e as respostas que procuramos. No eixo de tudo vejo esta ideia: a corrente ML revoltou-se com a passagem dos revisas para o campo da burguesia, mas teve medo de levar a crítica até ao fim e tentou salvar um pouco do compromisso operário-pequeno-burguês, que já vinha muito de trás. Foi um corte a 50%, que tentou combinar as ideias revolucionárias com um bocado da herança reformista. Por isso nos era impossível explicar a União Soviética de Staline, a IC, o maoísmo, a luta de classes em Portugal e no mundo. Por isso nos agarrávamos a citações e fórmulas feitas em vez de olharmos abertamente o presente e o passado com olhos marxistas. É muito estimulante poder fazê-lo agora. No “Anti-Dimitrov” (… poderá arranjar-to) comecei essa reflexão, que ainda está nos primeiros passos e que prosseguimos na revista.

Já deves saber pelo (…) o que somos: um pequeno grupo de propaganda que procura lançar as bases para um programa comunista e para um partido comunista, combinando a teoria e a prática. Edita- mos a revista, que é o nosso esforço principal, mas também vamos intervindo na acção política e sindical. (Começámos a publicar um pequeno jornal sindical, a “Tribuna Operária”). As condições actuais no nosso país não são nada favoráveis a este esforço, porque o movimento operário está amachucado pela derrota das ilusões de Abril (Povo-MFA) e a pequena burguesia intelectual atravessa uma fase de carreirismo, cinismo e descrença absoluta na classe operária. Mas isto não nos impede de reagrupar um núcleo de vanguarda que passe ao ataque quando a conjuntura mudar e possa formar uma corrente sólida capaz de influir nos acontecimentos.

No plano internacional, não descuramos nenhum contacto com grupos que se orientem num sentido semelhante ao nosso e já temos relações com comunistas dos EUA, Irão, Brasil, França, Itália. Todos fracos como nós, excepto os do Irão, mas todos dispostos a limpar o marxismo-leninismo de lixos reformistas. No que se refere à OCML de França, estamos interessados em conhecer melhor as suas análises e o seu percurso e encaramos a hipótese de uma deslocação minha a Paris para um debate organizado. Vamos estudar esses números da “Cause du Communisme” que mos envias, só conhecemos o “Partisan”, que recebemos regularmente.

Inteiramente de acordo em que publiquem artigos traduzidos da “PO”, o que aliás já lhes propusemos. Podes pois dar-lhes a tradução que fizeste para que eles corrijam a ortografia e mesmo suprimam partes que lhes pareçam de menos interesse para o leitor francês. Seguem junto as notas que pediste[i]. Publicámos no nº 8 da “PO” uma tradução condensada de um artigo do “Partisan”, seria bom mostrar-lhes. Mais importante que tudo: gostaria que te informasses junto do MV sobre o que é a OCPO, que criámos há cerca de dois anos e que nos dissesses em que aspectos estás interessado em colaborar. Ele pode dar-te diversos documentos, para teres uma ideia do que pretendemos e como funcionamos. Conheces “Para a história de uma cisão”? Ê um conjunto de cartas de diversos camaradas em que estão resumidas as razões da nossa ruptura com o PC(R). Também lhe podes pedir o Manifesto inicial da OCPO e outros documentos.

Para além da nossa correspondência, que espero se mantenha, seria muito bom termos uma discussão directa. Como a minha ida a Paris está por enquanto indefinida, seria muito bom se pudesses vir cá (em Junho seria o ideal). Diz-me como pensas que poderás colaborar na nossa actividade.

Uma forma de apoiares a revista, além da tradução de artigos, será enviares-nos algumas colaborações ou materiais para artigos, fazeres uma assinatura, angariares assinantes. Lutamos com grandes dificuldades financeiras, como calculas.

E por agora é tudo. Fico à espera de notícias tuas. Aceita um abraço do camarada

[i] NOTAS

Carlos Brito – líder parlamentar do PCP revisionista.

FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) – grupo clandestino inspi rado nas ideias do “poder popular de base” que nos últimos 6 anos praticou uma série de atentados contra capitalistas, latifundiários, contra a NATO, etc. Desmantelado pela polícia, os seus activistas estão e ser julgados como “terroristas”, junta- mente com Otelo Saraiva de Carvalho, acusado de ser o “mentor” da organização.

ORA (Organização Revolução Armada) – grupo dissidente das FP-25 surgido em 1986 e que pretende dar continuidade às acções armadas “excitativas”.

SIS (Serviço de Informações de Segurança) – embrião de uma nova polícia política, que tem na chefia um colaborador da antiga PIDE de Salazar.

FAP (Frente de Acção Popular) – primeiro grupo maoista surgido em Portugal em 1964, de tendência guerrilheirista. Destruído pela polícia em 1966.

LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária) – grupo armado surgido em 1968, liderado por socialistas radicais. Dissolveu-se algum tempo depois do 25 de Abril.

ARA (Acção Revolucionária Armada) – destacamento criado pelo PCP em 1970, levou a cabo atentados e sabotagens à guerra colonial.

BR (Brigadas Revolucionárias) – braço armado do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado), de tendência anarquizante, actuaram no início dos anos 70.

 

[1] NOTAS

Carlos Brito – líder parlamentar do PCP revisionista.

FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) – grupo clandestino inspi rado nas ideias do “poder popular de base” que nos últimos 6 anos praticou uma série de atentados contra capitalistas, latifundiários, contra a NATO, etc. Desmantelado pela polícia, os seus activistas estão e ser julgados como “terroristas”, junta- mente com Otelo Saraiva de Carvalho, acusado de ser o “mentor” da organização.

ORA (Organização Revolução Armada) – grupo dissidente das FP-25 surgido em 1986 e que pretende dar continuidade às acções armadas “excitativas”.

SIS (Serviço de Informações de Segurança) – embrião de uma nova polícia política, que tem na chefia um colaborador da antiga PIDE de Salazar.

FAP (Frente de Acção Popular) – primeiro grupo maoista surgido em Portugal em 1964, de tendência guerrilheirista. Destruído pela polícia em 1966.

LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária) – grupo armado surgido em 1968, liderado por socialistas radicais. Dissolveu-se algum tempo depois do 25 de Abril.

ARA (Acção Revolucionária Armada) – destacamento criado pelo PCP em 1970, levou a cabo atentados e sabotagens à guerra colonial.

BR (Brigadas Revolucionárias) – braço armado do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado), de tendência anarquizante, actuaram no início dos anos 70.

 

Carta a MB (1)

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MB – 1

16/11/1988

Caro Camarada:

Espero que estejas bem de saúde. Mando-te em carta separada alguns suplementos da PO em inglês. Brevemente enviaremos outros, entre os quais o artigo sobre Staline que te tínhamos pedido que traduzisses, portanto, se já começaste, não vale a pena continuar.

Mas não quer dizer que fiques isento da tarefa. Neste próximo número vai sair um artigo sobre o Trotsky, que espero que traduzas, sem falta,  para inglês. Estamos a fazer um sério esforço para tornar mais conhecidas as nossas posições junto de outros partidos e grupos. Indico também alguns livros que muito te agradecia obtivesses aí. Evidentemente, pagaremos a despesa que for necessária. Temos sobretudo urgência no livro do Tony Cliff. Quando é que cá voltas? Um abraço amigo

——-

  • Cliff, Tony – State Capitalism in .Russia. London, Pluto, 1974
  • Dobb , Maurice – Soviet Economic Development after 1917. London, 1951
  • Love, Alexander – An Economic History of the USSR. London, Allen & Unwin, 1969
  • Pethybridge, Roger – The Social Prelude to Stalinism. New York, St. Martin’s, 1974
  • Piltzer, Donald – Soviet workers and Stalinist Industrialisation. New York 1966
  • Schwarz, Solomon L. ~ Labour in the Soviet Union.
  • London, Creasefc, 1953
  • Fainsod, Merle and Hough – Smolensk under Soviet rule. Macmillan, 1956

 

 

Carta a PA (7)

Francisco Martins Rodrigues

Cartas a PA – 7

6/3/1987

 Caro Camarada:

Recebemos a tua carta, assim como o manifesto do Revolutionary Communist Group, que agradecemos. Ficámos decepcionados, porque é um grupo muito pró-soviético. Tínhamos esperança que houvesse algum novo grupo marxista-leninista revolucionário por aí, mas ainda não é desta…

As tuas dúvidas e preocupações perante a linha de orientação da “PO” são naturais mas parece-nos que resultam de um erro de base da tua parte: receias que se critique aquilo que, apesar de tudo, ainda aparece mais à esquerda. Mas talvez não tenhas em conta que, sem essa crítica às inconsequências da chamada corrente marxista-leninista, não se conseguirá fazer surgir uma corrente de ideias e de acção sólida e ofensiva. A nós parece-nos que o declínio da corrente M-L se tem acentuado nos últimos anos, precisamente porque se proibiu toda a crítica aos erros. Foi por não querermos acabar no oportunismo, como aconteceu à maioria dos antigos dirigentes do PC(R) e como está a acontecer com a UDP, que decidimos investigar as origens do revisionismo. E isso passa obrigatoriamente por uma crítica a Staline. Os Kruchov & Cª não poderiam ter feito o que fizeram na União Soviética e no movimento internacional se o terreno não tivesse sido adubado antes pela política de compromissos de Staline. Vamos continuar a debater o problema, em espírito revolucionário, e esperamos que virás a reconhecer a utilidade do caminho que encetámos.

Sobre a tua vinda aqui: estou ao corrente dos teus problemas, mas supus que já tivesses sido abrangido por uma amnistia e já não houvesse esse impedimento. Não sendo assim, é pena que não possamos discutir de viva voz e confrontar as nossas ideias.

O B encontrou-se aqui comigo há um ano, mas não soube mais notícias dele. Vou escrever-lhe brevemente, até para saber como está de saúde.

Ficamos à espera da “New Left Review”, que nos é útil para compreender a evolução de certas correntes marxistas reformistas. Se tiveres oportunidade de nos enviar qualquer outro jornal ou revista daí, será uma boa ajuda para nós.

Agradecendo os teus votos de bom trabalho, aceita um abraço

 

Carta a PA (6)

Francisco Martins Rodrigues

Cartas a PA – 6

30/12/1985

Camarada A:

Enviámos-te há dias a PO nº 2, espero que já a tenhas recebido e te tenha agradado. Tenho estranhado não receber notícias tuas ultimamente, depois da carta de 15 Outubro em que informavas dos contactos que tiveste com representantes do RCP e do PCE (m-l), assim como com o secretário da Associação de Amizade Inglaterra-Albânia. Foi bom teres esses contactos, mas não estranho a reacção negativa dos partidos. Na medida em que pomos em causa as posições oficiais da Albânia (e agora do PC do Brasil), isso dá lugar a um retraimento geral desses partidos. 0 caso é que os problemas existem, são bem reais, e a crise da corrente ML vai inevitavelmente agravar-se por não querer enfrentá-los. Estamos preparados para prosseguir no nosso trabalho de debate durante longos meses, mesmo que as repercussões pareçam nulas por enquanto. Julgo que já te disse que o Marxist-Leninist Party dos EUA e o PC do Japão (Esquerda) têm feito na sua imprensa críticas semelhantes às nossas. Seria bom que continuasses a discussão com o secretário da Associação de Amizade e lhe desses a conhecer o conteúdo da nosso revista.

A Carta de Londres continua a ser uma falta nas páginas da PO. Quando te decides? Um comentário mesmo breve a acontecimentos políticos daí daria um interesse maior ao nosso noticiário internacional. 0 MV está lançado nas Cartas de Paris, há que seguir-lhe o exemplo. Se mandasses alguma coisa até 10 de Janeiro, ainda poderíamos incluir no nº 3.

Recebeste os 3 exemplares da PO 1? Conseguiste vender algum aí? Queres que enviemos também da PO 2? E quando é que te fazes assinante? E o Brandão, como vai? Da New Left Review só recebemos o nº 150 (Março/Abril 85). Como tinhas dito que irias fazer uma assinatura, estranhamos não ter chegado mais nenhum.

A nossa actividade por cá continua sem desfalecimentos. Vamos tomar posição pública acerca das eleições presidenciais, depois envio-te. Aceita um abraço do camarada  

Cartas a PA – 5

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (5)

25/9/1985

Caro Camarada:

Não respondi mais cedo à tua carta de 20 de Junho porque estava à espera da ocasião para te dar a boa notícia: saiu finalmente (hoje mesmo) o nº 1 da “Política Operária”. Embora esteja ainda longe do que desejamos, é um. passo importante pare o avanço do nosso projecto, Mando em correio separado uns exemplares, para tu veres se consegues arranjar compradores ou assinantes. E espero, claro, que tu próprio te tornes assinante, o que é uma boa forma de apoio.

Fico à espera da tua opinião e sugestões sobre a revista. Espero também que te resolvas a escrever a tua “Carta de Londres”” como te tinha proposto antes, para publicar no nº 2. Deveria estar cá até 10 de Novembro. O tema da carta ficaria ao teu critério, naturalmente: panorama do movimento sindical inglês neste momento, actualidade política, Irlanda, etc. Como poderás ver, o MV já fez umacolaboração para o nº 1.

Agradeço as revistas que mandaste. Se não existir aí algo acessível sobre o movimento operário, parece-me que a única de interesse, apesar da orientação trotskista, é a “New Left Review” e nesse caso poderias fazer-me uma assinatura dela? A dos revisionistas é francamente má, não se aprende ali nada.

Não cheguei a ter notícias do amigo a quem tinhas pedido para entregar aqui as 10 libras. Se te for possível enviar o dinheiro por outra via, seria importante para nós, pois, como calculas, as dificuldades financeiros são muitas. Organizámos uma pequena empresa de artes gráficas e é com o dinheiro dela que vamos sustentar a revista, mas os encargos são pesados, sobretudo enquanto tivermos as prestações das máquinas para pagar.

Quando vires o Brandão dá-lhe as minhas saudações e peço que lhe entregues o “Anti-Dimitrov” e a revista, para ele ver se lhe interessa tornar-se assinante. Se quiser escrever-me, terei muito gosto em responder-lhe. E tu, quando vens cá, nem que seja só de fugida? Gostaria de podermos conversar e veres directamente o andamento dos nossos trabalhos. As nossas actividades cá prosseguem, enfrentando as naturais dificuldades destes tempos. Fizemos sair um manifesto aconselhando a abstenção nas eleições, de que mando cópias. As organizações ML para quem enviamos o nº 1 da revista são as seguintes (ver folha junto). Se quiseres mandar para cá outras moradas que aches de interesse, nós encarregamo-nos de a expedir directamente.

Um grande abraço e fico a espera da Carta de Londres!

Cartas a PA – 5

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (5)

23/6/1985

Caro Amigo:

Como vais? Aqui estou a dar-te algumas notícias dos nossos trabalhos e a pedir de novo a tua colaboração no que te for possível.

Revista – Temos estado a montar as infraestruturas essenciais: temos formada uma empresa de composição e montagem de artes gráficas, com uma máquina de fotocomposição por nós comprada que nos vai servir para fazer a revista pelos nossos meios e obter receitas com trabalhos comerciais. É um projecto ambicioso, que nos obrigou a juntar todos os dinheiros disponíveis, empréstimos, etc., mas creio que vai singrar. Sem ele, a revista não teria hipótese de sobrevivência.

A saída do nº 1 está prevista para fins de Setembro-princípios de Outubro. Artigos de fundo em preparação neste momento:

– Portugal: revolução democrática e nacional ou revolução socialista?

– Disciplina e liberdade de discussão no Partido Bolchevique – um exemplo.

– Lições do Verão quente de 197b no seu 102 aniversário.

– 0 Partido Bolchevique e o movimento operário russo as vésperas da revolução de Outubro.

– Cometna: um exemplo das novas realidades da luta de classes nas empresas.

– A viragem à direita do PCE e o começo da guerrq de Espanha.

– Situação política – tendências de classe por detrás dos alinhamentos dos partidos.

Para além destes artigos principais, haverá um Editorial, comentários curtos, crítica de livros e revistas, etc. Pergunta: poderemos contar com uma carta de Londres feita por ti, sobre um tema à tua escolha? Para ser actual, deveria ser redigida em Setembro e enviada para cá até 13 de Setembro o mais tardar. Decerto compreendes a importância que terá para este começo da revista o aparecimento da tua colaboração. Espero que venças as tuas ideias de incapacidade e nos mandes um comentário sobre temas aqui desconhecidos.

Também seria importante para nós receber, como te pedi há tempos, jornais daí, ML ou outros, recortes da imprensa, uma revista de noticiário internacional que enriqueça a nossa informação, etc. Não te esqueças de que contamos com a tua ajuda para que a nossa revista ganhe público nos meios operários e no público avançado que, embora reduzido, ainda subsiste. Há um espaço para nós.

Mando junto alguns boletins de assinatura antecipada, que é uma forma de apoiar financeiramente o lançamento da revista. Peço-te que vejas o que podes fazer para angariar uma ou outra assinatura. Os preços, como vês, são excepcionalmente baixos reste período de promoção .

“Anti-Dimitrov” – Gostaria de saber se já leste e qual a tua opinião. Aqui não passou despercebido, foi bastante referido na imprensa e vendeu-se já praticamente toda a edição, o que deu uma fonte de receita apreciável para a revista. Podes vender aí algum exemplar ou fazer chegar a gente da emigração?

Actualmente, o meu plano é começar a trabalhar na preparação de um livro, a publicar no Outono do ano que vem, acerca da evolução do PCP, para fazer a tal crítica concreta às origens do revisionismo, que o PC(R) nunca consentiu que se fizesse.

PC(R) – Os dois últimos acontecimentos espectaculares desta banda são a estrondosa adesão do Frederico Carvalho (c pequeno Fred) ao PCP de Alvaro Cunhal e a demissão colectiva de 37 membros da UDP do Porto, quase todos operários. O núcleo central desses operários, encabeçado polo ex-membro do CC do PC(R), José Magalhães, aderiu à nossa organização c constituiu-se em núcleo de apoio da revista .

Seguem junto recortes de imprensa sobre um e outro caso, assim como uma carta por nós dirigida aos membros do , C(R) sobre o caso Fred, lembrando-lhes que ele foi o nosso principal inimigo no 4º congresso e o promotor da nossa expulsão. Afinal quem tinha razão?

Organização – Fizemos a 12 de Maio um encontro para debater a nossa intervenção operária e sindical, çue nos abre algumas perspectivas. A 2 de Junho fizemos a nossa Assembleia, para tomar decisões sobre a constituição do empresa gráfica, que envolve grandes responsabilidades financeiras, e para debater o andamento geral do nosso trabalho. A 16 de Junho realizámos um Encontro, aberto a diversos amigos, onde debatemos o balanço da experiência do PC(R) e da corrente ML em Portugal. Continuará no dia 30 e será transformado num artigo para o nº 2 da revista. Publicamos um boletim interno de debate, “Tribuna Comunista”, de que já saíram três números.

Movimento ML internacional – Segue junto cópia de uma carta aos partidos e grupos ML informando sobro o caso de Frederico Carvalho. Poderás endereçá-la a partidos e grupos ingleses ou de outros países de que tenhas o endereço? rodes mandar-nos os endereços de todos os partidos e grupos ML que conheças?

Até breve, camarada, escreve-nos. Um abraço

Cartas a PA – 4

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (4)

7/5/1985

Amigo P:

Algumas informações sobre a nossa actividade e perspectivas:

“Anti-Dimitrov” – Está praticamente todo vendido, estamos a pensar em reeditar. Não sei se tens aí algum comprador em perspectiva. Já leste? Que te pareceu? Estamos a realizar algumas reuniões de debate para agitar as ideias do livro e tentar criar corrente de ideias. Junto dois recortes dos muitos que saíram nos jornais daqui.

“Política Operária” – é o nome da futura revista de crítica marxista, a começar em Outubro. Segue junto o manifesto de lançamento e o estatuto editorial. Vão também algumas folhas para subscrição antecipada. Estamos a preparar as condições técnicas, financeiras e de redacção para assegurar a revista a partir de Outubro, bimensal. Vamos fazer um número experimental, no mês próximo, que não será impresso e servirá só para nos treinarmos. Como já te pedi anteriormente, será muito importante a tua ajuda: recortes da imprensa, jornais ou revistas, livros ou folhetos, artigos ou notas tuas. 0 ideal era seres o nosso correspondente em Londres, o que implicava mandares-nos de dois em dois meses um comentário sobre questões em foco aí (na política interna, na política externa, ou na corrente ML). Poderemos contar contigo? Lembrámo-nos de que poderias fazer aí uma assinatura para nós de uma revista que nos ponha ao par dos debates na corrente ML. Falaram-nos na “New Left Review”, mas não sabemos se é essa a mais interessante. Tu estás em melhores condições para decidir. Podemos contar?

Organização – Inaugurámos a nossa sede no 12 de Maio, com uma confraternização e debate que reuniu cerca de 70 camaradas e amigos. Participámos com as nossas faixas e palavras de ordem próprias nas manifestações do 25 de Abril e do 1º de Maio. Estamos agrupados em núcleos, temos uma direcção constituída e vamos fazer debates amplos periódicos. Para já, um sobre intervenção sindical, para o mês que vem haverá outro sobre a experiência do PC(R) e da corrente ML em Portugal.

Partidos ML – enviámos a 25 partidos e grupos ML, incluindo o PTA e PC do Brasil, uma carta em que expomos resumidamente a nossa plataforma política e as razões do nosso corte com o PC(R). Segue junta uma cópia traduzida em inglês. Talvez tu pudesses enviá-la a partidos ou grupos (Inglaterra, índia, Canadá, etc.) de que tenhas referência. Podes fazer-nos chegar os endereços de partidos ou grupos ML para completarmos o nosso ficheiro? Pretendemos enviar a revista para todos os que estejam interessados em fazer troca de publicações.

PC(R) – Depois de alguns artigos no “BV” a chamar-nos anarco-trotskistas, têm feito silêncio a nosso respeito. Sabemos que prometeram aos militantes uma resposta ao “Anti-Dimitrov” numa Conferência que vão realizar em breve, mas temos fortes dúvidas de que se metam nisso. A táctica do PC(R) para “um candidato único das oposições contra a reacção” nas eleições presidenciais, ou seja, na prática, o apoio à candidatura de Lurdes Pintasilgo, está a provocar algum descontentamento nas fileiras, ao mesmo tempo que reforça as tendências mais direitistas. Isto reforça a nossa convicção de que o PC(R) se irá afastando gradualmente e cada vez mais do campo revolucionário, depois da ruptura que fez com a sua ala esquerda (nós).

Manifesto – Tirámos 1.000 exemplares do manifesto inaugural da OC-PO (Organização Comunista “Política Operária”), que estamos a usar para debates em torno das nossas posições e para ganhar novas adesões. Gostaria que mandasses a tua opinião e que digas se há alguma possibilidade de traduzir em inglês para divulgação aí. Mando também uma carta que temos estado aqui a enviar a militantes do PC(R).

Finanças – Apoiando-nos nos nossos recursos financeiros e num empréstimo, vamos comprar uma máquina de fotocomposição em segunda mão, que nos servirá não só para fazer a revista como para trabalhos comerciais que a financiem. Esperamos ter a funcionar dentro dos próximos dois meses um ateliê de composição, fotografia e montagem, pois vieram do PC(R) vários camaradas especializados nestes trabalhos. Como decerto compreendes, a questão financeira é a mais premente. Haverá aí algumas condições para recolheres verbas de apoio para o lançamento deste projecto? Peço-te que faças todo o possível neste campo, pois as dificuldades são enormes. Neste sentido escrevi também ontem ao MV.

Contando com notícias tuas logo que possível e com todo o apoio que possas dar ao nosso projecto, aceita um abraço

 

Cartas a PA – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (1)

22/11/1984

Amigo A.

Não tenho recebido notícias tuas e não sei se me conseguiste obter alguns dos livros que te tinha pedido, é natural que as tuas ocupações não te deixem tempo para respirar, mas temos que procurar manter contacto.

Tenho uma novidade que não sei como receberás, saí do PC(R) ontem mesmo, outros camaradas, entre eles o ZB e o JME, antigos dirigentes do partido, também saíram ou foram demitidos. Não foi uma decisão leviana, como calculas, mas fomos forçados a ela pela campanha de perseguições a que vínhamos sendo sujeitos desde há ano e meio. O conflito gira à volta de nós exigirmos que se levasse à prática a viragem à esquerda decidida pelo 4º congresso, de Março 83, e o CC estar a encostar-se cada vez mais aos elementos direitistas. Actualmente, todos os elementos “esquerdistas” estavam metidos em células de base, marginalizados e sujeitos a uma série de ataques. Já não nos davam o mínimo espaço para travar uma luta interna, os atropelos ao centralismo democrático por parte do CC eram diários e, em nome do perigo de fraccionismo, impunham-se as proibições mais absurdas à discussão, mesmo só dentro das células.

Lima das coisas que mais contribuiu para a agudização do conflito era um estudo que tenho andado a fazer sobre o 7º congresso da IC, reavaliando o relatório de Dimitrov e a linha de Staline nos anos 30-50 como fontes donde nasceu o revisionismo. Consegui acabá-lo, com grande dificuldade, e ontem mesmo o entreguei ao CC, para ver se é capaz de o criticar com o mínima de seriedade. É absurdo tentar congelar a crítica rnarxista-leninista em nome dos “princípios”, como vem fazendo o CC. Está a conduzir o PC(R) a um definhamento desastroso, no que têm graves responsabilidades, na minha opinião, o PTA e o PC do Brasil.

Gostaria que lesses o meu estudo e me desses uma opinião. Eu e outros camaradas que se afastaram ou foram afastados neste processo estamos dispostos a dar corpo organizada à nossa corrente de ideias. Somos marxistas-leninistas, queremos um partido comunista em Portugal e não nos resignamos à confusão, impotência e esvaziamento de ideias a que se chegou. A acusação de “anarco-trotskismo” que nos é feita não tem pés nem cabeça.

Gostaria de saber o que pensas disto tudo e se estás disposto a continuar a corresponder-te comigo, Isso depende naturalmente da tua atitude face ao PC(R). Poderias dar opinião sobre o meu estudo e outros materiais que temos em preparação, obteres aí livros e jornais, dares-nos contactos para grupas ou organizações estrangeiras, contactares camaradas da emigração, etc. Duma coisa te posso dar a certeza; vamos fazer um trabalho sério para renovar a corrente marxista-leninista, crítico, revolucionário, e virado para os operários avançados. Vamos fazer um trabalho preparatório para reorganizar o partido comunista no nosso país.

Seja o que for que pensares do sucedido, peço que me escrevas a dar a tua opinião. Se tiveres algum dos livros de que te falei, peço que mo envies. Se pensas vir a Portugal proximamente, gostaria de conversar contigo.

Um abraço

Cartas a MV – 50

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (54)

27/11/1996

Caro M:

Estou a escrever-te com bastante atraso, porque só agora acabámos uma corrida para pôr na rua a P.O. 57 e dois livros da Dinossauro. A PO seguirá dentro de uns dez dias Dos
bvros, mando ja 3 exemplares de cada, para veres se tens compradores. Vai também a P.O. 56 que deve ter-se extraviado ou falhado na nossa expedição, não tenho a certeza. Mando 3 exemplares.

E o Contraponto n° 3, está em marcha? Não sei se precisas de apoio, diz. Mando-te junto um artigo que traduzi da Transituation, “Vectores”, dum tal Miguel Vitaliis. Achei interessante e poderá eventualmente servir para o Contraponto.

O M está interessado em preparar para a próxima P.O. um artigo sobre a greve dos çanúonistas franceses. Por favor, manda o que tiveres, recortes com posições sindicais,
dos partidos, etc.

Seguem junto duas cartas que vieram em teu nome para o Apartado da Dinossauro. Abri uma por inadvertência, desculpa. Também têm chegado endereçadas ao Contraponto algumas revistas francesas como o Courant Alternatif, Partisan, uns materiais dos zapatistas, etc., que não mando porque julgo que podes obter aí sem dificuldade. Veio também um livrinho dum congresso do Partido Marxista-Leninista Alemão, que retive porque julgo que não tem utilidade para o Contraponto e me serviu para um comentário na P.O. Simplesmente miserável. Depois te mando para te instruíres.

Mando aqui junto um cheque e duas notas em moeda estrangeira: 100 francos (para
uma assinatura do Contraponto, toma nota do nome), 20 marcos e 10 coroas holandesas. Não vale a pena eu trocar aqui porque o banco fica com uma data de massa nestas conversões de moeda estrangeira. Podes usar para comprar algum livro que aches interessante enviar-nos.

Diz como correm as coisas e quais os teus planos. Virás a Portugal no fim do ano?
Cumprimentos para a V. A S. está boa? Um abraço

Cartas a MV – 42

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (48)

9/2/1994

Caro M.:

Uma gripe que derrubou toda a gente lá em casa por alturas do fim do ano e depois a lufa-lufa da P.O. (vem hoje da tipografia) levaram-me a adiar sucessivamente a correspondência. Tenho recebido uma série de cartões teus a que só agora respondo, assim como o Albatroz 10. O teu comentário sobre a manif. da escola laica sai nesta
P.O. A nossa secção gráfica agradece a bolsa das cores que ofereceste e que lhes é muito útil.

Também recebi o teu desabafo sobre a militância do V, mas não estranhes, porque a partir de agora e até às legislativas (Outubro 95) vais ver mais gente a abraçar a “causa sagrada” do PS. Já se nota uma disputa acesa para lançarem a fateixa a todos os ex-esquerdistas que por aí andam desasados. Há umas semanas, na série de debates organizada pelo Museu República e Resistência (dependente da Câmara Municipal de Lisboa e portanto do PS), pude ouvir o “educador” Arnaldo Matos lançar um apelo a todos os que pertenceram a grupos maoístas para se encontrarem e debater experiências, para ver como ajudar a “esquerda democrática” a correr com o cavaquismo. Fez várias piscadelas de olho descaradíssimas em direcção ao PS e ao Soares. Em poucos dias, foi entrevistado em várias revistas e na televisão, repetindo, junto com as suas bacoradas “marxistas”, os mesmos acenos. Na apresentação da grande iniciativa do Soares para Maio, o controverso congresso “Portugal – Que Futuro?”, ele lá estava na primeira fila, junto com os pcs, udps, mdps, etc. Para mim, o homem está a soldo do Mário Soares para ver se recupera orlas da esquerda que por aí andam perdidas e metê-las na “grande frente democrática”.

Por aqui podes ver como os chefes social-democratas estão a dar tudo por  conseguirem a
maioria em 95. E têm razão em se esforçar porque sondagens recentes continuam a dar o primeiro lugar ao Cavaco na preferência dos eleitores. Apesar da crise, dos despedimentos, do “aumento” negativo nos salários, de escândalos diversos e feios. Por aí vês como o PS é “amado” pela grande massa e como precisa de angariar nomes e apoios, seja onde for. O caso do teu amigo V é só um no meio da enxurrada.

Houve recentemente umas oportunidades de intervenção pública. Falei na série de palestras do Museu República e Resistência (Dezembro) sobre o maoísmo em Portugal. Estava bastante gente, interessada, e as perguntas e respostas prolongaram-se por um bom bocado. No dia seguinte, falou a Ana sobre a revolução chinesa e a mulher, também com bastante interesse. Noutros dias falou o Arnaldo, o Pacheco Pereira (hoje PSD) e o Pedro
Baptista (hoje plataformista).

Há dias estive noutro debate no Porto, organizado pela Amnistia Internacional, sobre
a Democracia, com o Mário Brochado Coelho e uma professora Helena Vilaça. Houve bastante controvérsia e estive entretido a deitar abaixo as bacoradas “pós-modernistas” do rapaz da Amnistia e a falar para espectadores embasbacados sobre a luta de classes e a ditadura da burguesia. Muito estimulante.

Fui também convidado para entrar num debate na RTP1 sobre Mao mas recusei-me e acho que fiz bem porque só faltava mandarem-me pôr de gatas para ter direito à palavra Os teus amigos Louçã, Arnaldo e Baptista é que não se importaram e lá estiveram a palestrar. Falo nisso na P.O., tu verás.

Albatroz – O A fez uma recensão na P.O. Por mim, gostei particularmente da lista das malfeitorias mitterrandistas. Achei a parte poético-literária demasiado extensa para o meu gosto. Estava à espera de mais sumo político. Mas não faças caso, já sabes que eu sou obcecado. Tu disseste num dos teus bilhetes que nos enviarias 20 exemplares para ensaiarmos alguma distribuição mas até agora não chegaram. Desististe?

20º aniversário do 25 de Abril – Todos os estados-maiores partidários afiam o dente para capitalizar aquilo que lhes convém da data. Entre nós, temos andado a debater a possibilidade da edição de um livro que coleccione depoimentos, artigos e materiais diversos, no sentido de mostrar à nova geração que os 19 meses da “bagunça”
foram os mais criadores da nossa história moderna e de contrastar as iniciativas avançadas desse período com a pasmaceira derrotada em que hoje vivemos. Será que podes dar a tua colaboração a esta ideia, com materiais originais ou outros já anteriormente editados e que tivesse interesse dar a conhecer? Será que nos podes indicar
pistas, nomes a contactar, dar sugestões de trabalho, etc.? Podes enviar dados para a cronologia e a bibliografia? O problema aqui vai ser a escassez do tempo para coligir os materiais e pôr o livro na rua até ao 25 de Abril. Responde rapidamente, por favor, para sabermos se podemos contar com algo da tua parte.

Tenho continuado a receber o “Courrier”. Há semanas, em resposta a uma pergunta tua, dizia que, se pagas a assinatura não vale a pena, porque pouco colhemos desta revista. Recebeste essa minha carta?

Tomámos nota e vamos passar a mandar directamente 5 exemplares da P.O. para a Lusophone. Vou-lhes escrever a anunciar o envio, o preço de venda de 15 francos e a dizer que tratem de tudo contigo.

Recebi 5 novas edições albatrosianas de poesia. Tomáramos nós ser capazes de lançar livros a este ritmo! Mas as edições Dinossauro estão em marcha, o livro sobre o 25 de Abril será o primeiro. E se tu viesses para cá uns meses ajudar a organizar o livro?

Enviei o disco “Obrigado Otelo” para o assinante que me tinha pedido, agora gostava de saber o preço para lho cobrar, não há razão para lhe oferecermos um disco que certamente te custou dinheiro a ti. E, para já, é tudo.

Por aí, tudo bem? Abraços.