Cartas a HN – 17

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 17

9/2/2002

Velho H

Tenho aqui duas cartas tuas recentes e vou tentar responder às questões que colocas e dar-te algumas notícias.

Teu artigo – Parece-me extenso mas ainda não tive oportunidade de o estudar. Vou ler e dir-te-ei depois o que penso.

Curso de marxismo em Bruxelas – O MV já me falou com interesse desse curso onde esteve há dois anos, julgo. Leio aqui o jornal desse partido, que é de facto radical, dentro da área dos “revisas duros”, muito mais consistente por exemplo do que o Avante do meu amigo Cunhal. De qualquer modo, sendo claramente anti-imperialistas, não temos dúvidas de que são reformistas e que têm uma ideia muito sinistra do que seja o socialismo. Isso basta para sabermos que não são do nosso campo. Terá interesse o curso? Eu, se tivesse disponibilidade, ia assistir, pela curiosidade de ver como expõem as questões centrais do marxismo e até para activar as objecções e críticas do nosso lado. Nesta época de deserto quase total no campo do marxismo, tudo o que proporcione debate e luta de ideias pode ser frutuoso. Era bem bom se tu ou o Manuel, ou os dois, redigirem um comentário sobre o que viram, o que vos pareceu aceitável e o que acham errado, etc. Era uma boa malha para a PO. Agora tu é que verás se compensa a deslocação, a despesa e o tempo gasto.

Voz do Trabalho – São naturais as tuas preocupações com o andamento do projecto. De facto, as coisas têm patinado um bocado, houve uma doença e ausência do M (já voltou), afastamento (temporário?) dos elementos ligados ao Bloco de Esquerda e que se meteram a fundo na campanha eleitoral deles (e agora já estão metidos noutra) e uma certa indefinição sobre o carácter da folha, com discussões sobre se devia ser mais política ou mais dedicada às lutas económicas.

Por tudo isto a correspondência, os envios do jornal, etc., têm andado um bocado ao deus-dará. Saiu em Dezembro o n° 4 (que pelos vistos não recebeste) e está a sair o n° 5. Vou fal ar com eles para transmitir as tuas preocupações e pedir que te enviem exemplares do 4 e do 5.

Af, Leo – Numa reunião de redacção da PO, em Novembro, foram feitas algumas criticas a artigos que eles tinham escrito: o do Leo sobre o 11 de Setembro, e o do Af sobre um subsídio de Natal igual para todos. Os camaradas reagiram mal às críticas e não quiseram alterar os artigos. Depois disso não vieram a mais reuniões. Lamentamos e esperamos que reconsiderem. São poucos os que participam no colectivo e não gostamos de ver camaradas afastarem-se mas não podemos prescindir de discutir abertamente as colaborações de cada um.

 Entrevista Argentina – É pena que não se consiga. Como verás na PO 83, que aí chegará dentro de uma semana, juntámos um comentário vindo do Brasil com um artigo que a Ana fez a partir de textos que nos chegaram pela Internet. O assunto ainda talvez mereça mais análise na próxima PO.

(…)

Leituras – Não conheço nenhum dos dois livros que estás a ler sobre a I Internacional e o movimento operário francês. Também não prevejo tão cedo disponibilidade para me dedicar ao assunto. São tantos os livros, artigos, etc. que vão ficando para trás que às vezes desespero, mas sou obrigado a fazer opções todos os dias entre o que gostaria e o que posso fazer.

PO – Vais recebê-la por estes dias. Tem uma declaração do colectivo sobre as eleições, justificando por que não votamos, a política que vai ser seguida já está feita pelas “instâncias superiores”    e os partidos  são  os comissários políticos ás ordens de Bruxelas. A possibilidade de mudança não está no voto, está na intervenção directa dos trabalhadores, e essa é que tem faltado de há bastantes anos para cá, etc.

Galiza – Nos dias 13-15 Fevereiro reúne-se na Galiza uma Cimeira dos ministros da Justiça e do Interior da UE para tratar da “segurança”. Os camaradas galegos do NÓS Unidade Popular (que vieram ao nosso encontro de Dezembro) organizam uma contracimeira nos mesmos dias, com debates e manifestações. Vão estar presentes 2 ou 3 camaradas nossos para intervir no terceiro dia, sobre questões laborais. Mando-te aqui o último número que recebemos do jornal do partido ML deles, para teres uma ideia. São pelo menos bastante activos.

Por agora é tudo. Um abraço e até breve  

Cartas a HN – 16

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 16

25/9/2001

Caro Camarada:

Os acontecimentos estrondosos de 11 de Setembro puseram tudo em polvorosa, aí como aqui, certamente. E a P.O. também foi fortemente abalada, porque tivemos que nos pôr a escrever à pressa sobre as lições a tirar do que se passou e de que modo vai afectar a nossa actividade futura. Estamos a esforçar-nos por não deixar atrasar a saída da revista, que espero seja em meados de Outubro. Resulta daqui que uma boa parte dos materiais que estavam para entrar tiveram que ser metidos em carteira, entre eles o teu artigo.

De resto, eu estava para te escrever acerca do artigo, porque nos pareceu (não só a mim) que precisa de alguma reformulação. Estou inteiramente de acordo com a tese central que defendes – a urgência de uma educação política e filosófica do proletariado para que este tome consciência do poço em que está metido e se lance numa luta não só estreitamente económica mas sobretudo política e organizada em Partido – mas isto está dito de uma forma pesada, abstracta, demasiado alongada, que não convida o leitor a chegar até ao fim. Numa palavra, os poucos argumentos que desenvolves não correspondem à extensão do texto. Por isso te propomos que trabalhes o artigo um pouco mais, para publicação futura, ou, se isso não te for possível de imediato, que abordes outro tema. De uma maneira geral, acho que deverias escolher exemplos, casos concretos como ponto de partida para a tese que queres defender. É isso que desperta o interesse do leitor e lhe permite captar a mensagem que queres transmitir.

Sei que não levarás a mal esta crítica, já nos conhecemos o suficiente para trocar ideias em perfeita franqueza. Pelas razões já atrás expostas, o capítulo do Tom Thomas que te deste ao trabalho de traduzir também não será publicado, ao menos por agora. Falas na possibilidade de uma entrevista a uma camarada: manda a cassete quando quiseres. Quanto à “Voz do Trabalho”, está a dar os primeiros passos e, por agora, a preocupação principal é conseguir que a criança não morra à nascença. Todo o apoio ou divulgação que possas dar será bom, pois o núcleo redactorial luta com grandes dificuldades.

Trabalhos práticos: 1) Dirigimos uma carta ao Bloco, UDP, PSR, FER, MRPP e outros grupos da esquerda propondo um encontro urgente para se formar um comité unitário capaz de fazer agitação contra o assalto americano em preparação contra os árabes; não estamos optimistas quanto a respostas porque andam todos empenhados na porcaria das eleições autárquicas e não lhes sobeja tempo para se ocuparem de casos “menores” como este; além disso, receiam queimar-se como “extremistas” e perder votos nas eleições. A esta miséria chegou a esquerda.

2)      Estamos a convocar uma reunião de pessoas mais próximas de nós para ver se lançamos esse tal comité, mesmo que não envolva partidos. Será a 13 de Outubro.

3)      Dia 28 de Setembro vamos a uma concentração promovida pelo Conselho da Paz (revisa) frente à embaixada de Israel. Vamos a ver se aparecer gente. Os revisas, pelo mesmo motivo dos outros, estão encolhidos. Além disso, a sua crise interna tem-se agravado e estão com dificuldades de mobilização. Há em Lisboa uma luta acirrada entre os cunhalistas e o sector intelectual.

4)      Projectamos fazer em Novembro um encontro pelo aniversário da P.O., que gostaríamos de transformar num encontro anual de debate da nossa corrente. Já começámos a fazer convites mas por enquanto não sabemos o que se vai conseguir. O tema central, claro, teria que ser este do “antiterrorismo” dos maiores terroristas que já houve à face da terra, os americanos.

De tudo te darei mais notícias à medida que as coisas se confirmarem. Caro camarada, um abraço e votos de saúde  

Cartas a MV – 10

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (14)

16/9/1987

Caro M:

Respondo à tua carta de 9/9, que recebi hoje, pedindo também desculpas por este silêncio tão prolongado que te terá causado estra­nheza. A causa única é a grande sobrecarga de trabalho que caiu sobre mim e sobre todos os camaradas mais activos, devido à situação finan­ceira difícil da empresa gráfica. Como já te tinha dito na última car­ta, a acumulação das dívidas estava a tomar-se ameaçadora, pelo que decidimos, em fins de Junho, concentrar todas as forças disponíveis na produção. Neste momento, felizmente, já pagámos cerca de metade da dí­vida e, continuando assim neste ritmo por mais uns meses, ficaremos com a situação normalizada.

É claro que isto cria uma situação preocupante quanto ao nível da revista e quanto à nossa actividade organizada, porque as pessoas me­nos activas são precisamente as que ficam sem assistência política e em risco de fazer a sua crise geral ideológica, que é coisa agora muito em moda. Mas não vemos alternativa porque, sem base gráfica própria, a re­vista ficaria tão cara que teríamos que a suspender. Para já, interrom­pemos a publicação da folha sindical “Tribuna Operária” e reduzimos os nossos contactos ao mínimo (o que também se proporcionou, naturalmente, pelo período das férias).Até ao fim do ano, teremos que fazer o ponto da situação e tomar novas medidas, até porque a assembleia que deveria ter sido realizada em Junho ficou adiada.

Com tudo isto, não pretendo fazer-te crer que não tivesse uma hora para me sentar a máquina e escrever-te (até tive tempo para uma semana na praia…), mas o facto é que a mudança de ocupações levou-me a deixar de lado toda a correspondência que habitualmente mantinha. Es­tou neste momento a ver se ponho as coisas em ordem.

Acerca do “Albatroz”Foi especialmente chato da minha parte não te ter dito uma palavra sobre o trabalho em que puseste tanto empenho. Mas con­fesso que, além das razões acima mencionadas, fiquei desnorteado pelo tipo da revista e sem saber muito bem que apreciação fazer. Esperava uma coisa mais empenhada na crítica política e social, mais séria, o que não quer dizer que não fosse mordaz. Sou muito pouco competente para fazer apreciações a textos literários, mas a impressão que me ficou foi duma certa exibição de irreverência e agressividade que se pretende de­molidora, mas que na realidade fica muito pela superfície, é muito mais uma atitude do que um ataque. Depois, pergunto-me: que espécie de públi­co esperam vocês atingir com a vossa literatura de aguarrás? Não será precisamente o tipo de público que neste momento já renunciou a troçar do sistema e que redescobre os encantos da ordem estabelecida? É claro que não tenho ilusões de que fosse possível uma revista para a massa dos emigrantes. Esses, na melhor das hipóteses, papam as “Peregrinações”.

Mas não será que, ao rebelares-te contra a estreiteza mental da “Peregrinação”, foste para um tipo de divertimento gratuito que faz pouca mossa?

Estas são, com toda a franqueza, as minhas reservas, sobre o vosso trabalho. Gostaria que vocês fizessem denúncias concretas, certeiras, com vistas a construir uma corrente de crítica ao que existe. É possível que esteja inteiramente desfasado das vossas preocupações, nas, já sabes, sou de ideias fixas.

Sobre a colaboração que me pedes, e à parte as minhas tremendas dificuldades de tempo, não tenho nenhuma objecção e pelo contrário tenho mui­to gosto em colaborar nessa questão dos salários em atraso. Tentarei escrever alguma coisa mas terás que me avisar com antecedência do prazo.

E já agora, troca por troca, porque não nos mandas tu uma carta de Paris para o próximo nº da PO? O prazo é até ao fim de Setembro, impreterivelmente.

Tenho recebido o Monde e outros materiais teus com certa regularidade. Estou a ler o livro que me mandaste em fotocópia, mas não faço ideia de quem é aquele homem (era do Libération?) e acho-o muito declamatório e moralista. Os outros até se riem dele. Quanto à PO 9, de que só recebeste um exemplar, vou dizer para te mandarem, mas julgo que tenha havido extravio dos correios por­que os nossos serviços de expedição são (quase) infalíveis. Os ditos serviços pedem para te perguntar se queres que continuem a enviar a PO para (…).

Quanto à próxima PO, a sair até meados de Outubro, terá um dossier re­lativo ao 70º aniversário da revolução russa, com artigos do PC do Irão, do PCR do Brasil e de um grupo italiano, que me parecem interessantes. Além dis­so, comentários às últimas eleições portuguesas e a situação nacional e inter­nacional. Infelizmente não vai haver bagagem para nenhum estudo ou artigo mais profundo e assim teremos que continuar até ao fim do ano. Temos trocado ideias entre nós sobre uma possível mudança de figurino da PO, tornando-a mais política e acessível, para tentar captar um público operário que até agora se ma­nifesta pouco receptivo às nossas elaborações ideológicas. De qualquer modo, o assunto terá que ser maduramente discutido.

Tive encontros, com pequeno intervalo, com dois franceses que por aqui passaram de férias: um, muito jovem, do Partisan “dissidente” (…); e outro, que não deu o nome, do Partisan maioritário. Conversei com eles, sobretudo com o último, mas não fi­quei muito esclarecido sobre as causas da cisão e o que lhes vai acontecer, quer um quer outro mostraram-se interessados em contactar-te, tu verás o que podes dizer-lhes. Fora disso, os nossos contactos internacionais estão todos conge­lados, à excepção da Suécia, donde nos escreveram, quase simultaneamente, dois partidos ML a propor contactos. Como dizia o Enver Hoxha, “o movimento cresce e fortalece-se…”

Há mais notícias e pontos a discutir mas ficará para a próxima, que espero seja em breve. Um grande abraço para ti e para todos aí em casa

 

Cartas a LN

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LN (1)

28/8/1998

Caro Amigo:

Agradeço a sua carta. Das suas observações, creio que se destaca a preocupação com a questão do Partido Comunista. Eu também o considero a questão política central, para que possamos passar de meros espectadores a interventores activos. Mas por isso mesmo, porque o assunto tem uma importância decisiva, receio a repetição das experiências de partidos que se fizeram no nosso país nos anos 70. No próximo número da P.O., que receberá em Outubro, volto à carga sobre o assunto, para falar das experiências negativas em que participei. Hoje não tenho dúvida que se tivesse sido possível uma perspectiva mais amadurecida do partido nesses anos, os acontecimentos políticos poderiam ter seguido outro rumo. Não digo que a revolução pudesse ser vitoriosa (faltavam imensas condições para isso) mas de certeza o proletariado teria saído da prova sem o sentimento de frustração e desmoralização em que se encontra. E se, da esquerda m-l, que então parecia tão pujante, nada restou, creio que isso se deve em grande medida às falsificações que se praticaram em nome do partido leninista, que de leninista pouco tinha.

Se dou portanto alertas contra o perigo de um partido prematuro é porque já me pareceu detectar aqui ou além tendências de “criar o partido” sem querer saber da crítica ao que esteve mal na fase anterior. Talvez não haja razão para os meus alertas; o abatimento é tanto que se calhar ainda vão passar muitos anos antes de um núcleo de gente capaz tomar o assunto em mãos. Se assim for, fica pelo menos a crítica aos erros anteriores (aquela que eu sou capaz de fazer), poderá ser uma ajuda para os que venham mais tarde. Francamente, se for para fazer um novo PC(R) ou um novo MRPP, acho que é tempo perdido.

Aqui afasto-me de si, julgo, no que toca à tradição stalinista de partido. Foi essa que conhecemos no passado, apoiámo-la como uma alternativa positiva aos partidos revisionistas, mas hoje, com maior distanciamento, acho que era preciso ter dado o salto que não se deu para o partido inspirado no leninismo. E que, de facto, o partido bolchevique que sob a direcção de Lenine lutou pela revolução tinha métodos muito diferentes dos que depois adoptou com Staline, embora nos fizessem crer o contrário. Compreende-se porquê: exercendo o poder em nome de uma ditadura do proletariado que de facto não existia na Rússia (nem podia ainda existir), o partido foi deformado, tornou-se muito diferente do que era nos seus tempos revolucionários, estagnou sob o monolitismo e a “caça às bruxas”. É a repetição desse estilo que eu procuro evitar, porque um partido desses será absolutamente incapaz de conduzir uma luta revolucionária coerente.

Quanto às questões teóricas, reconheço que temos muitas limitações, mas creia que, ao longo dos 13 anos que já leva a nossa revista, tem abordado diversos temas marxistas. É verdade que não fazemos muitas citações dos textos clássicos mas procuramos aplicar e desenvolver as suas ideias em torno das questões políticas actuais. Também aí, estou de pé atrás com o “marxismo-leninismo” de citações que se praticava há vinte ou trinta anos. Verifiquei como muitos dos que papagueavam com mais ardor essas citações e estavam sempre com o Lenine e o Staline na boca viraram a casaca assim que viram as coisas a correr para o torto. Era “cultura marxista” só para enfeitar… Num ponto lhe dou inteira razão: a necessidade de fazer uma análise das classes em Portugal e de fundamentar o carácter da nossa revolução (também eu penso que só pode ser socialista). Somos poucos e faltam-nos os elementos para produzir essas análises com um mínimo de seriedade marxista. Mas espero que ainda o conseguiremos. Não estamos cansados e a revista vai continuar a batalhar.

Sobre a Marinha Grande. Não pretendemos promover as pessoas a que se refere a militantes comunistas. Simplesmente, apoiamos e divulgamos as poucas críticas de esquerda ao PCP que ainda aparecem. No ponto a que chegámos, e que o meu Amigo deve conhecer tão bem como eu, seria insensato abafar essas críticas a pretexto de que os seus autores têm algumas contradições e o seu passado contém muitos erros. Em números anteriores da P.O. temos publicado entrevistas com operários, alguns mesmo da orla do PCP, quando eles fazem críticas de esquerda que merecem ser divulgadas. Publicamos o que há, não é por nossa culpa que não ocupamos as páginas da revista com tomadas de posição de revolucionários comunistas.

Refere-se a José Gregório e a um trabalho meu de há trinta anos (ou mais) sobre o assunto. Continuo a achar que Gregório deve ser respeitado e apresentado como exemplo de militante comunista mas a minha opinião sobre ele e sobre o PCP do seu tempo é hoje diferente da que tinha há trinta anos. Se devemos valorizá-los em oposição ao revisionismo cunhalista que veio depois, não devemos idealizá-los nem ocultar as suas limitações. O PCP dos anos 30-40, com a sua abnegação e combatividade antifascista, sofreu dos mesmos problemas que todo o movimento comunista, forçado pelas circunstâncias a apoiar a URSS de Staline e a calar tudo o que aí corria mal, envolvido numa desastrosa política de “frente popular”, etc. O caso de Manuel Domingues é apenas um episódio na história desse tempo; evoquei-o não para minimizar Gregório mas para mostrar a duplicidade de Cunhal, que continua a fazer silêncio sobre o assunto.

E por agora é tudo. Creio ter tocado os tópicos principais da sua carta. Espero que poderemos continuar a corresponder-nos e aguardo com muito interesse todas as críticas e sugestões que a leitura da P.O. lhe vá suscitando. Aceite as minhas saudações comunistas.

 Carta a LN (2)

29/12/1988

Caro Amigo:

Já deve ter recebido por esta altura a P.O. 67 e por ela verá a solução que encontrei para os extractos da sua carta, em que procurei conservar aquilo que há de mais significativo quanto ao estilo de partido e ao problema da vigilância de classe. São questões que tendem a ser esquecidas no clima democrático-pacífico actual e a sua carta vem lembrá-las. Também alterei o nome, tendo em conta as suas reservas a esse respeito. Espero que lhe tenha agradado a solução. Se de futuro nos quiser enviar para publicação as suas reflexões sobre o problema do Partido, ou outros, teremos muito gosto nisso.

Tem acompanhado as notícias sobre a aproximação entre a UDP, PSR e Política XXI, com vistas a uma candidatura conjunta às próximas eleições? Há quem fale num projecto de fusão para criação de um novo partido da esquerda. Pessoalmente, sou muito céptico quanto à viabilidade e sobretudo quanto aos reflexos políticos de um tal partido. Só será útil na medida em que, percorrendo até ao fim o seu reformismo intrínseco, esse novo partido apressará a abertura de um espaço na esquerda para um real partido revolucionário. Em todo o caso, a curto prazo, talvez cause alguma ilusão em pessoas de esquerda que têm estado isoladas.

Aceite as minhas saudações e votos de bom Ano Novo.

 Carta a LN (3)

9/3/1999

Caro Amigo:

O seu artigo saiu, como deve ter visto. Não me incomodou absolutamente nada a discordância, pois o tom é correcto. Temos por norma dar espaço à polémica na nossa revista, polémica que sentimos como absolutamente indispensável para a corrente marxista sair da crise em que se encontra e que foi devida, em boa medida, à supressão do debate. Não sei ainda se redigirei algum artigo de resposta ao seu, mas por agora parece-me preferível deixar os leitores interessados compararem as duas posições. Em todo o caso, gostaria de lhe sublinhar o seguinte: 1) não pretendi pôr em causa a política de vigilância do tempo de José Gregório nem o documento dos Espiões e Provocadores, mas apenas chamar a atenção para o mistério da morte de Manuel Domingues; 2) é um facto incontestável que o documento relaciona o Domingues com os titistas; leia-o atentamente e verá a importância que é dada a esse assunto; 3) parece hoje fora de dúvida que não foi a P1DE que matou Domingues; 4) quando falo em “paranóia da perseguição” refiro-me, não à vigilância necessária, mas a suspeitas infundadas que no início dos anos 50 levaram ao afastamento de bastantes militantes honestos; em todo o caso, refiro que essa paranóia é inseparável da perseguição bárbara a que o partido era submetido na época; 5) não pretendi omitir nada quanto a Militão Ribeiro, só não o referi porque não é o caso dos militantes assassinados no momento da prisão ou sob a tortura nos interrogatórios; 6) agitar hoje o caso Manuel Domingues não é favorecer de modo nenhum o cunhalismo (que aliás venho criticando em dezenas de artigos), mas justamente desafiar Cunhal a fazer luz sobre o assunto, ele que tanto fala em transparência e em “paredes de vidro”. Enfim, o assunto ainda tem muito que se lhe diga e se calhar durante muitos anos, porque os principais envolvidos não querem falar.

Quanto ao seu outro artigo, acho-o, como aliás você diz, um bocado “complicado”, isto é, não ressaltam claras as conclusões a que se pretende chegar. Se não se importa que lhe faça uma sugestão, proponho que o trabalhe melhor e o reformule, com vista a publicação futura. Continuamos abertos à sua colaboração. Extraí uma passagem da sua carta, que publico sob o mesmo pseudónimo anterior. Aceite as minhas saudações.

 Carta a LN (4)

 17/9/2000

Caro Camarada:

A sua resposta vai ser publicada, e na íntegra, como pede, no próximo n° da PO. a sair em meados de Outubro (em Agosto, como de costume, fazemos a pausa das férias). Não queremos que suspeite de qualquer discriminação da nossa parte. Se efectivamente somos obrigados muitas vezes a fazer cortes nas cartas que nos são enviadas é sempre por razões de espaço e não para mutilar ou deturpar as opiniões dos nossos colaboradores. Neste caso em debate, que gira em torno da apreciação do PREC, não creio que haja mal entendidos entre nós; há sim perspectivas diferentes no balanço à luta de classes que se travou naquela altura em Portugal e ao papel social desempenhado pelo PCP, como de resto esta sua última colaboração confirma, quanto a mim. Você argumenta como se eu fosse inclinado a poupar e a desculpar o PCP, o que me deixa… sem palavras, já que há quase 40 anos que não faço outra coisa senão escrever que ele é um falso partido comunista, um partido burguês para operários. A nossa grande divergência é em saber se os PCs são uma peça subalterna da sociedade burguesa ou se são aparelhos de tipo fascista vocacionados para a tomada do poder. Aqui é que está o ponto a esclarecer. Essa diferença de opiniões manifestou-se desde que nos começámos a corresponder e possivelmente nenhum de nós consegue convencer o outro dos seus pontos de vista. Infelizmente não será possível dar-lhe a conhecer a grande quantidade de artigos que temos publicado desde o começo da revista, nem os debates que fizemos sobre o assunto, sobretudo nos primeiros anos, após sairmos do PC(R). Também seria bom que outros colaboradores se manifestassem e que o debate se alargasse. Veremos se isso acontece. Eu, pela minha parte, ainda gostaria de voltar a comentar, mais tarde, o que você escreve nesta carta.

Agora uma questão prática. Do seu artigo sobre o Joaquim Carreira, não se poderia extrair para a próxima P.O., na secção de Cartas dos Leitores, a lista de abusos e prepotências do PC na Marinha Grande? Tem o mérito de ser muito concreta e poder elucidar os nossos leitores mais simpatizantes do PC (também os temos). Diga-me, o mais breve possível, se está de acordo, em que termos, que nome se deve pôr a assinar a carta, etc.

Fico a aguardar a sua resposta. Aceite as minhas saudações

 Carta a LN (5)

 30/7/2002

Caro Camarada:

Depois de alguns dias de férias, encontrei a sua carta com os 25 euros, para duas assinaturas da PO por um ano. Ficou registado, receberá o próximo número em Outubro, como habitualmente. O seu reparo sobre a fraca cobertura dada às medidas do novo governo tem toda a razão de ser: vamos ver se no próximo número corrigimos o tiro.

No que se refere à “Voz do Trabalho”, é uma folha iniciada há cerca de um ano por um grupo de activistas da Margem Sul. Inicialmente participavam alguns elementos do Bloco de Esquerda mas, passado pouco tempo, por indicação dos seus dirigentes, afastaram-se. De modo que a folha é editada só por camaradas sem organização partidária, a maioria antigos membros do PC(R), uns mais próximos do colectivo da PO, outros mais afastados. O interesse desta iniciativa é que tem tido um acolhimento muito bom na Lisnave, Autoeuropa e outras grandes empresas da região. A edição de mil exemplares esgota-se em poucos dias e os apoios recolhidos junto dos operários cobrem as despesas de edição. Creio que é uma iniciativa válida e de apoiar. Se lhes quiser enviar pequenas crónicas, em estilo simples, ou mesmo recortes da imprensa do Norte, será uma forma de ajuda. Já agora, digo o mesmo para a nossa P.O.: se tiver materiais que ache de interesse não hesite em enviá-los.

Por agora é tudo. Aceite as saudações do nosso colectivo

 Carta a LN (6)

26/8/2004

 Caro camarada:

Recebi o dinheiro que enviaste e registei a renovação da tua assinatura (entendo que queres continuar a receber dois exemplares, como até aqui). As observações e reparos que fazes sobre artigos da P.O. sairão no próximo número.

Levantas na tua carta uma série de questões de cuja importância não duvido, mas que infelizmente, ainda não se aplicam àquilo que somos neste momento, e não sei por quanto tempo mais. O colectivo que edita a “P.O.” não é ainda um grupo político estruturado, porque para tal não temos encontrado condições. É um grupo que se dedica a fazer propaganda através da revista e de livros, tentando ajudar a criar uma corrente de opinião para a existência de um partido comunista revolucionário neste país. Participamos em acções pontuais (por exemplo contra a invasão do Iraque, no Io de Maio, etc.), mas até agora os ecos da nossa propaganda têm sido pouquíssimos. E se continuamos dispostos a prosseguir nesta actividade, que julgamos indispensável, não pretendemos fazer-nos passar por aquilo que não somos. Devido à fase incipiente em que nos encontramos e ao nosso pequeno número, as questões relativas à vigilância de classe e ao perigo de infiltrações que tu colocas põem-se num plano ainda bastante restrito. Naturalmente, procuramos afastar de nós indivíduos que nos sejam suspeitos, mas não temos questões organizativas internas que seja preciso defender. Em relação à pessoa que julgo que referes em particular, houve apenas uma troca de correspondência e o aproveitamento de umas notas que nos enviou sobre antigos militantes comunistas. Mesmo que seja pessoa pouco recomendável, como dizes, não vejo que esse contacto esporádico nos tenha causado nenhum prejuízo. De qualquer modo, tomo em conta os teus alertas.

E é tudo por agora. Aceita um abraço

 Carta a LN (7)

31/8/2004

 Caro Camarada:

Devolvo por correio separado o teu trabalho que puseste à nossa consideração, para se ver a hipótese de ser publicado. Como tu próprio dizes, o texto ainda precisa de ser trabalhado. Mas a nossa dúvida (minha e de outro camarada que também leu) é se, mesmo melhorado, o texto se presta a uma edição em livro. Como deves saber, existe uma inflação tremenda de edições e os distribuidores e livreiros rejeitam à partida todos os livros que lhes parecem pouco vendáveis, argumentando que não têm espaço para tanto livro, etc. Nós, na Dinossauro, somos obrigados a entremear certos livros mais teóricos com novelas e textos mais ligeiros, para tentar ir andando. Mesmo assim, o nosso distribuidor recusou-se há três meses a continuar a aceitar os nossos livros, porque lhe davam pouco lucro. Estamos agora a tentar um novo distribuidor, sem saber ainda o que vai acontecer.

Falaste na hipótese de pagares 100 exemplares mas os custos da edição seriam tão pesados, mesmo que se fizessem só 300 ou 400 exemplares, que haveria sempre um prejuízo enorme que não podemos suportar, nem tu provavelmente.

Existe no teu livro um relato de uma experiência directa que viveste na Marinha Grande, na fase final do fascismo. Essa experiência não se deve perder. Porque não tentas abordar o tema por outra forma, fazendo um relato não romanceado, bastante mais curto, dos acontecimentos? Poderia dar um caderno de que tirarias fotocópias e que se poderia fazer circular nos meios que conservam interesse pela história da luta de classes no nosso país. Seria um registo válido de acontecimentos que hoje se procuram fazer esquecer. É a sugestão que te podemos dar.

Com as nossas saudações

 Carta a LN (8)

30/8/2007

 Caro Camarada:

 Respondo à tua carta. Quanto aos materiais que comentas, algumas informações:

Foi de nossa iniciativa o projecto de criação de uma organização “anticapitalista” que foi lançado em Novembro do ano passado e que levou à Declaração “Mudar de vida” e ao projecto de um jornal com o mesmo nome. Fizeram-se várias reuniões juntando camaradas da PO com alguns amigos como o cantor José Mário Branco, com vista à preparação desse jornal. Todavia, desde Julho deixámos de ter qualquer relação com esse projecto devido a um conflito surgido com José Mário Branco. Este exigia que os comunistas não falassem das suas actividades nas reuniões do colectivo. Praticamente, quis pôr a PO fora do projecto e conseguiu porque nos retirámos. Seguem junto alguns documentos que te ajudarão a entender o que aconteceu. Na próxima PO sairá um artigo de polémica com as opiniões de J. Mário acerca das relações entre a vanguarda e as massas (artigo dele que saiu na PO 109).

Neste momento, portanto, a PO retomou a sua intervenção independente. Continuamos com a edição da revista e damos passos para lançar um jornal mensal, a que chamámos provisoriamente “Visor”. Não se sabe por enquanto quando poderá esse jornal sair para a rua, ainda poderá demorar alguns meses a definir melhor o modelo e a reunir as condições quanto a colaboradores, distribuição, apoio financeiro, etc. Entretanto, a PO sairá como normalmente. O próximo número em fins de Setembro.

Sobre as tuas sugestões de trabalho – Como creio que já te disse na nossa troca de cartas anterior, as tuas propostas para criarmos uma comissão de organização, que apure os currículos dos futuros membros, aprove um programa, crie um jornal interno, prepare a criação do partido comunista, não corresponde à situação real. Continuamos sem condições para criar uma organização comunista. A prática totalidade dos camaradas que se aproximam da PO aceitam fazer alguma acção sindical, anti-imperialista, etc. mas não querem organizar-se numa base comunista. Por isso tentámos esta experiência da organização anticapitalista, mas mesmo assim logo apareceram os fantasmas contra os comunistas que “querem controlar tudo”, etc. Mantemos por isso o comité editor da PO, com as actividades limitadas que conheces e assim nos vamos manter até que surjam outras perspectivas.

Visor – Este é o nosso projecto de jornal. Depois do primeiro número experimental, lançaremos um outro melhorado em Outubro, que te será enviado e para que pedimos as tuas críticas e sugestões. O título é provisório, tal como a ficha técnica.[i]

“Erguer o trabalho contra o Capital” – Essa foi a Declaração (que eu próprio redigi e a que depois foram acrescentadas algumas ideias) e que agora se chama “Mudar de Vida”. O grupo que se mantêm em tomo dessa Declaração inclui dois anteriores colaboradores da PO que a abandonaram, Manuel Raposo e Vladimiro Guinot.

Envio junto vários documentos para te pôr em dia com a situação. Fico à espera das tuas opiniões sobre tudo isto e propostas de trabalho.

Saudações

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[i] Este projecto do jornal Visor não foi para a frente porque, em Setembro de 2007, FMR começou a manifestar sintomas graves da doença que o vitimou em 22/4/2008. (Nota de AB).

Cartas a JRR

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JRR (1)

25/7/1991

Caro Amigo:

Segue por correio separado o livro que nos pediu. Numa outra encomenda enviamos o últi­mo número da nossa revista, esperando que lhe desperte o interesse e que o leve a tornar-se nosso assinan­te. Os preços de assinatura vêm lá indicados. Seguem também alguns folhetos dos que temos publi­cado, para ter uma ideia das nossas posições. Escusado será dizer que o conteúdo desta segunda en­comenda é grátis.

Na esperança de voltar a ter notícias suas, subscrevemo-nos, com as nossas melhores saudações

 Carta a JRR (2)

14/8/1991

Caro Amigo:

Agradecemos a sua carta e o cheque para assinatura da nossa revista. Se não vir in­conveniente, publicamos extractos da carta na próxima PO, a sair em fins de Setembro.

Esperando que a revista continue a merecer o seu interesse, enviamos as nossas sauda­ções cordiais.

Carta a JRR (3)

26/12/1991

Caro Amigo:

Atendendo o seu pedido, fazemos se­guir em dois pacotes os números disponíveis da P.O., do nº 2 ao 29. Só falta o nº 1, que há muito se encontra esgotado. O valor total consta da fac­tura junta: 3.950$00. Pode enviá-lo por cheque ou vale de correio para o nosso Apartado.

Muito agradecemos as indicações que nos enviou sobre possíveis pontos de venda da re­vista. Já transmitimos cópia da sua car­ta ao nosso núcleo de apoio no Norte, para que aproveitem as suas sugestões e tentem alargar a di­fusão. Também em Lisboa, embora com bastante mais distribuição (cerca de 50 pontos de venda), esta­mos a procurar tornar a revista mais conhecida. É uma condição vital para a nossa sobrevivência, agora que toda a gente parece estar a olhar para outros lados… Não temos dúvidas de que o ambien­te mudará quando certas ilusões se desfizerem; a questão ê mantermo-nos até lá! Um abraço

Pode dar-nos o endereço do “Barcelos Popular”?

 Carta a JRR (4)

20/4/1992

Caro Amigo:

Respondemos à sua carta de 19 de Março, de que publicámos um pequeno extracto no último nº da P.O., que já deve ter recebido e que esperamos lhe tenha agradado.

A sua sugestão de que a influência das nossas ideias poderia aumentar muito se nos transformássemos em partido político é sem dúvida verdadeira, mas infelizmente estamos muito longe de ter forças para isso. Somos apenas um pequeno grupo de propaganda do comunismo e não pretendemos fazer-nos passar pelo que não somos. Houve um tempo em que no nosso país se formavam partidos com a maior facilidade, mas os resultados para a esquerda não foram nada bons. A partir do momento em que um pequeno grupo se arvora em partido revolucionário sem ter forças para uma acção política diária e coerente, afoga-se nas questões organizativas, começa a envolver-se em manobras para aparentar uma força que não tem e perde toda a seriedade.

Por isso, embora consideremos a formação dum partido comunista revolucionário como o nosso objectivo a longo prazo, para já temos objectivos mais modestos: alargar a difusão da nossa revista e melhorar o seu conteúdo, estabelecer contactos com activistas e grupos de esquerda, desenvolver algumas campanhas políticas, como foi no caso da guerra do Golfo… Se a corrente de ideias comunistas se tornar mais forte no nosso país, a formação do partido impor-se-á a um conjunto maior de pessoas e terá uma base sólida para começar. Até lá, e no caso concreto das eleições a que se refere, não teremos outro remédio senão votar no partido que nos pareça menos mau ou abster-nos (é o que nós na P.O. temos feito).

Esperando continuar a receber os seus comentários e informações, aceite as nossas saudações cordiais

 Carta a JRR (5)

11/6/1992

Caro Amigo:

Os comentários da sua carta sobre o partido da Coreia foram aproveitados, com mais uns acrescentos da minha lavra, para um artigo na P.O. nº 35, que deve estar a receber por estes dias. Você verá, mas creio que não alterei a orientação do seu texto. Como não sabia se lhe interessava ter o seu nome na revista, assinei com as iniciais. Mais informações da Coreia ou outras, comentários ou notas suas que ache de interesse para divulgação na revista, críticas, recortes de jornais locais ou estrangeiros — tudo nos interessa. Como já deve ter visto, estamos a procurar alargar a cobertura informativa da revista, para além dos temas ideológicos. Com a falta de publicações de esquerda, a circulação de informações é uma necessidade que todos sentimos.

Ainda quanto ao tema do partido: para além de todos os inconvenientes de que já lhe falei, acresce a dificuldade que representaria para nós, nesta altura, reunir 5.000 assinaturas de eleitores proponentes do novo partido, com os respectivos certificados de eleitores, etc. Foi essa dificuldade que nos levou a entrar em colaboração com a LST (trotskista) há três anos, para concorrer às eleições para o Parlamento Europeu sob a sigla FER. A colaboração correu mal, como é norma entre pequenos grupos, e desistimos a meio da campanha eleitoral, o que foi desagradável para todos.

Vi a sua carta no «Público» de 29 de Abril. É bom furar por onde se possa para romper o unanimismo da asneira que por aí vai. Cordiais saudações.

 Carta a JRR (6)

15/9/1992

Caro Amigo:

Muito gratos pelos materiais que nos enviou e a que vamos dar o melhor aproveitamento. Junto enviamos fotocópia do artigo pedido da P.O. nº 1 sobre o Verão quente. Tomámos boa nota do novo endereço e para aí será já enviada a próxima P.O., a sair em início de Outubro.

Tendo em conta a boa vontade que manifesta em dar-nos colaboração, lembrámo-nos de lhe fazer um pedido: ser-lhe-ia possível preparar um artigo sobre o tema a que se dedica, eleições, para uma das próximas P.O., por exemplo a repartição de forças dos diversos partidos nas autarquias? Ou as deslocações de votos na área da «extrema esquerda» nas últimas legislativas? Isto são sugestões. A nossa única limitação seria quanto à necessidade do artigo não ser demasiado técnico, dado o carácter da nossa revista, mas isso certamente será tomado em consideração por si. Esperamos a sua opinião com o maior interesse. Aceite as nossas saudações cordiais.

Carta a JRR (7)

9/12/1992

Caro Amigo:

Respondo à sua carta de 14 de Novembro e espero que me desculpe pela demora, mas só agora fechámos o último nº da P.O. Alegrou-nos muito a sua disponibilidade para colaborar na revista e a promessa de um artigo já para o nº 38. Como verá pela P.O. 37, que espero chegue às suas mãos no fim da próxima semana, estamos a procurar alargar o número de colaborações. Teremos muito gosto em contar consigo como colaborador regular, na medida das suas possibilidades.

O tema das deslocações de votos à esquerda da CDU é interessante, porque permite sondar qual o estado de espírito da extrema esquerda que resta. Sabemos que isso o obriga a consultar e tratar muitos números, dos quais só os mais significativos ficarão no artigo final, para não sobrecarregar muito a leitura. Pode ser um bocado ingrato para si, mas deixamos ao seu critério ver como conseguirá pôr em relevo as conclusões políticas que se podem extrair dos números. Quanto ao tamanho, não sabemos bem de que espaço precisa; sugerimos não mais de 6.000 caracteres, por motivos de paginação. Como data-limite de entrega propomos 15 de Janeiro. Acha que lhe será possível?

Quanto a futuros artigos; falei nas autarquias por ser assunto que já começa a agitar os partidos, mas não quer dizer que tenha que ser esse o tema. Temos lido alguns artigos e cartas suas no «Público» sobre diversos temas, expondo opiniões com que concordamos no essencial.

Se você tivesse interesse em tratar qualquer outro tema não referente a eleições para o nº 39, estamos de acordo. Só lhe peço que nos diga com alguma antecedência, para fazermos as nossas programações e distribuições de temas entre nós. Você conhece os nossos interesses.

Quanto às suas perguntas;

  1. a) não vemos explicação para a sobrevivência do PCTP/MRPP, até porque, ao que sabemos, não se trata de um grupo com ligações estrangeiras. Por vezes, é frequente nesta área grupos sem qualquer expressão manterem-se em funcionamento devido a subsídios da corrente internacional em que se inserem. Parece não ser este o caso do MRPP. Embora alinhe pelo «marxismo-leninismo-stalinismo-maoísmo», corrente que está organizada internacionalmente em torno de um «Partido Comunista Revolucionário» dos EUA e na qual se inclui o PC do Peru («Sendero Luminoso») e muitos outros pequenos partidos, não nos consta que o MRPP mantenha contactos ou receba apoio dessa corrente. O facto de há muito não publicar imprensa e de os seus órgãos dirigentes estarem paralisados por divergências e «lutas de linhas» ainda torna a sua continuidade mais surpreendente. Julgamos que uma certa recuperação de linguagem de extrema esquerda feita por eles nos últimos anos, depois da desgraçada política de apoio ao PS e PSP contra o «social-fascismo», lhes terá criado aos olhos do eleitorado de esquerda uma imagem dos «últimos revolucionários que não se rendem». As intervenções radicais do Dr. Garcia Pereira, em períodos eleitorais talvez contribuam para alimentar essa imagem. Fica uma dúvida: se daqui a um ano ou dois ou três a situação social se agravar e houver tendências de radicalização, não será que o MRPP ressurgirá em força com o seu discurso radical a servir de capa a uma táctica direitista, como no passado?
  2. b) OCMLP — integrou-se de facto no PCP(R) em 1976, depois de uma assembleia de militantes no Porto, a que eu próprio assisti como convidado por parte do PCP(R), mas uma fracção minoritária recusou aceitar a integração. Era animada pelo antigo secretário-geral Pedro Baptista, e por um indivíduo cujo nome agora não recordo, que era jornalista do «Jornal de Notícias», suponho. A base da divergência era um «anti-socialfascismo» virulento e acusarem o PCP(R) de conluio com o social-imperialismo. Foram utilizados pelo PSD nessa altura. Mantiveram-se como grupo autónomo, numa espécie de hibernação durante vários anos. O seu núcleo forte era na Foz do Douro. Depois de uma tentativa de reanimação eleitoral, acabaram por se dissolver. Pedro Baptista é actualmente um dos animadores do Movimento Pró-Referendo e julgo estar ligado ao grupo de Barros Moura.

Registámos o seu reparo sobre a necessidade de demarcação do PCP na questão angolana e publicámos esse extracto da sua carta na revista que vai sair. (…) Interessa-nos tudo o que nos tem enviado e também esses artigos do Edgar Rodrigues[i], se for possível.

Quanto às possibilidades de colocar a P.O. em duas tabacarias de (…) e (…), interessa-nos muito. Justamente agora estamos a fazer um esforço acrescido na difusão; o nº 36 foi pela primeira vez colocado em mais de 120 bancas na região de Lisboa, número modesto mas que, para a nossa dimensão, é um record. Estamos a tentar que os nossos camaradas do Porto alarguem também a distribuição na cidade.

Proponho o seguinte: mandaremos do próximo nº da P.O., além do seu exemplar, mais 6, 3 para cada tabacaria. Seguem umas guias que usamos na entrega da revista e que você apenas terá que preencher com o nome dos vendedores (isto se eles quiserem as guias, pois há muitas bancas com quem fazemos contas sem papéis). Daqui a dois meses, quando sair a próxima P.O., você passaria por lá a colocá-la e a levantar as sobras. Em princípio, o pagamento de importâncias tão irrisórias dispensa facturas e recibos, mas se eles pedissem passávamos em nome da empresa distribuidora. Você não precisa de nos devolver logo as sobras; pode juntá-las aí e enviar ao fim de seis meses, por exemplo. Não precisa de fazer contas connosco: guarda o dinheiro das eventuais vendas numa conta-corrente, de que nos enviaria o que houvesse ao fim de seis meses, por exemplo. É muito possível que, durante alguns meses, as vendas sejam decepcionantes, até haver alguém que repare na revista; temos essa experiência quando vamos para um local novo. Mesmo nesse caso, gostaríamos que persistisse na distribuição, se isso não lhe causar muito incómodo.

Desconhecíamos esse projecto do «Dicionário da extrema esquerda» do Pacheco Pereira. Vai ser preciso comprar, por muito que nos custe. Não sei se viu um artigo desse tipo no «Público» de 4/12 sobre «Os rivais de Cunhal». Como se metia comigo, respondi-lhe à letra, espero que saia brevemente no «Público».

Por agora é tudo. Teremos muito gosto em receber as suas notícias. Aceite as minhas saudações

 Carta a JRR (8)

16/2/1993

Caro Amigo:

Suponho que já terá recebido a P.O., com mais um pacote de 6 exemplares. O seu artigo ainda veio a tempo de ser incluído. Foca um aspecto geralmente esquecido nas discussões sobre o ensino e penso que valorizou a revista. Ficamos agora à espera de colaboração sua para o próximo número… se os seus afazeres lho permitirem. O fecho da redacção está previsto para 15 de Março e agradecemos que nos diga que tema pensa tratar, para fazermos a nossa programação e evitarmos sobreposição de artigos sobre o mesmo assunto. Esperamos também, como já vai sendo hábito, os boletins e recortes que nos puder obter. Procuramos sempre aproveitar esses elementos, duma forma ou de outra, para tomar a revista mais informativa.

A propósito do grupo ligado ao «Barcelos Popular», foi-nos referido há dias como estando empenhado, com diversos outros membros e ex-membros da UDP e do PC(R), na realização dum encontro, cujo objectivo não parece muito bem clarificado. Suspeitamos que alguns dos antigos dissidentes da UDP com mais aspirações políticas querem aproveitar a crise e o descrédito da organização para formar um grupo-fantasma para, apoiados nele, regatearem lugares em listas do PS ou do PCP nas próximas eleições autárquicas. Veremos.

Por agora é tudo. Continuamos à espera duma oportunidade para conversarmos de viva voz. Aceite as nossas saudações

 Carta a JRR (9)

7/4/1993

Caro Amigo:

Afinal, o seu artigo ainda veio a tempo. É interessante e mostra um conhecimento por dentro do assunto; entrou no nº 39, cujo fecho se atrasou uns dias. Já está na tipografia mas, devido ao feriado da Páscoa, só vai ser expedido provavelmente na segunda-feira. Vamos enviar-lhe, como combinado, mais 6 exemplares. Recebemos o cheque dos exemplares vendidos e as publicações. Citámos na secção Telex o semanário “Opinião Pública” como sendo de Famalicão, mas não temos a certeza. Quando tiver notícias regionais que ache interessantes, pode mandar apenas o recorte para não fazer despesa desnecessária em correio. Quanto à devolução das sobras, não se preocupe porque não temos pressa nenhuma.

Para o próximo número, já sabe, se tiver disponibilidade, estamos interessados na sua colaboração. Podemos manter uma secção sobre temas do ensino, que lhe parece?

Aceite as nossas saudações cordiais

 Carta a JRR (10)

23/8/1993

Caro Amigo:

Recebemos o cheque, que agradecemos, e as publicações. Infelizmente, o artigo «As lições de Courel» já não chegou a tempo de ser incluído no n° de Maio/Junho. Mesmo assim, ainda talvez não fique mal no próximo nQ, porque toca num tema de fundo que não se desactualizou. Se além desse puder enviar o prometido artigo relativo às autárquicas, será óptimo. Quanto ao tema das passagens administrativas, não estou em condições de lhe dar uma opinião por conhecer mal o assunto. Tenciono transmitir as suas opiniões a alguns amigos professores e dir-lhe-ei depois, se recolher alguma ideia. De qualquer forma, se entender escrever algum comentário sobre o assunto, já sabe que estamos interessados em manter uma coluna sobre temas do ensino.

Quanto à cisão da FER, envio-lhe junto um folheto que distribuíram no 1Q de Maio. Apesar da boa apresentação e do nome pomposo, ficaram parados depois disso. Prometeram ir iniciar uma revista, mas até agora não sabemos nada. Pelo que nos informaram, a cisão foi o seguinte: o antigo grupo «Esquerda Revolucionária», que publicava a revista «Versus» (não sei se chegou a ler), e que se tinha fundido com a LST por pressão da LIT (4a Internacional) agora voltou a separar-se. Houve entretanto perdas, devido ao ambiente político desfavorável, e os que saíram (MPS) parecem ser muito poucos. A FER ficou com ligações aos estudantes e com a revista «Alternativa Socialista». O motivo da cisão, segundo nos foi dito, teve a ver com o debate internacional na LIT sobre a “revolução política” no Leste: a FER acharia que houve excesso de optimismo quando da derrocada do poder na URSS, ao passo que o MPS acharia que foram mesmo grandes revoluções e que a situação está mais revolucionária do que nunca. Isto foi o que nos disseram, não lhe posso garantir que seja assim. O que é certo é que o partido-pai da LIT, o MAS argentino, partiu-se em vários bocados e toda a corrente parece atravessar uma grande crise, o que não é de estranhar.

Fomos convidados a assistir à apresentação da nova revista «Manifesto», feita por alguns dissidentes jovens do PCP que formam a ala esquerda da Plataforma de Esquerda: Paulo Varela Gomes, Ivan Nunes, etc. Começa a sair em Setembro e é bimensal. As intervenções só não me pareceram decepcionantes porque já ia mentalizado para uma grande superficialidade. Muita retórica de esquerda, mas muita indefinição nas questões vitais. Enfim, podem fazer uma revista apesar de tudo interessante. Com o panorama fúnebre que vivemos neste pais, algo que apareça na área da esquerda pode servir pelo menos para agitar as cabeças.

E com isto é tudo, não lhe tomo mais tempo. Um abraço e até breve.

 Carta a JRR (11)

6/12/1993

Caro Amigo:

Respondo às suas cartas de 10 e 28 de Novembro, agradecendo o cheque de 1.470$ e a indicação dum possível assinante. Foi pena esta última carta nos chegar às mãos já depois de ter fechado a redacção, pois as suas notas sobre o carnaval autárquico aí na zona tinham todo o cabimento. Talvez se possam incluir junto com outras coisas que reuniremos sobre o balanço das eleições no próximo número. Se entretanto se lhe proporcionar, já sabe que estamos interessados em colaboração sua. A redacção fecha por volta de 20 Janeiro.

Aqui, de novo apenas um convite que recebemos, a Ana Barradas e eu, para intervirmos numa semana de debates sobre o centenário de Mao, realizada pela Biblioteca-Museu da Resistência, organismo dependente da Câmara de Lisboa. Outros participantes (em dias diferentes!) são o Arnaldo Matos, Pacheco Pereira e Pedro Baptista (ex-OCMLP). Pelo menos, estão convidados. Decidimos aceitar, embora o público seja restrito, para valorizar o Mao revolucionário e fazer fogo contra a bronca ironia com que PS e PC falam da revolução chinesa, como se fosse uma anedota.

A P.O. deve sair breve da tipografia. Mando-lhe 3 exemplares extra, como de costume. Um abraço.

 Carta a JRR (12)

14/12/1993

Caro Amigo:

De acordo com o seu pedido telefónico, mando-lhe um livro de guias de remessa. Suponho que terá recebido a minha carta de 6 do corrente e os 6 exemplares da P.O. (na carta, por lapso, eu dizia 3). Mandámos um exemplar como oferta à pessoa cujo nome indicou, com uma carta propondo-lhe tomar-se assinante. Espero que o conteúdo da revista lhe agrade e lhe dê sugestões para uma colaboração sua no próximo número.

 No próximo dia 22 participarei num debate na SIC sobre o centenário de Mao: se tiver oportunidade, veja e diga-me depois a sua opinião. Por agora é tudo. Aceite um abraço e os meus votos de um bom Ano Novo.

Carta a JRR (13)

8/8/1994

Caro Amigo:

Fico-lhe muito grato pelo seu convite e de sua mulher para ir aí passar uns dias, mas creio que não será possível este ano. Problemas familiares difíceis (o falecimento de uma minha irmã) exigem a minha presença aqui e tiram-me a oportunidade e disposição para grandes férias. Vamos a ver se até ao fim do mês consigo tirar dois ou três dias para descontrair, aqui por estas bandas.

Recebi os cheques e registei a renovação da sua assinatura e espero que tenha recebido o livro em boas condições e que lhe esteja a agradar. Quanto à liquidação das P.O.s vendidas aí, de acordo.

 Quanto ao prof. Lages, só soubemos da sua passagem por Lisboa através da sua carta e foi pena, porque justamente nesta altura tínhamos pensado em contactá-lo para tentar obter documentação relativa à guerra colonial. Um grupo de antigos desertores e refractários tem feito algumas reuniões para preparar a formação de uma associação, que teria entre outros objectivos o de divulgar factos e números relativos à guerra. Como você gosta de estar informado sobre estas questões, mando-lhe o projecto inicial, redigido pelo José Mário Branco.

Conto desde já com um artigo seu para a próxima P.O. sobre a participação da extrema-esquerda nas eleições europeias. Quanto ao PT – Partido dos Trabalhadores, ouvimos falar mas não sabemos nada. Se obtiver alguma informação, não deixarei de lha mandar. E por hoje, é tudo. Aceite um abraço e mais uma vez o meu agradecimento pelo seu amável convite.

José Manuel Lages foi o professor que impulsionou a criação de uma extensa exposição e um museu sobre a guerra colonial, em Famalicão, em 1989. (Nota de AB)

Carta a JRR (14)

26/4/1995

Caro Amigo:

Em resposta ao seu pedido por telefone, junto envio 10 guias de remessa da P.O., em duplicado (nº 5/073 a 6/082) e 10 recibos já carimbados (nºs 252 a 261), umas e outros em duplicado, para usar conforme necessário.

Se por acaso vier a Lisboa no 1º de Maio, não deixe de se encontrar connosco na apresentação do último livro Dinossauro, ‘‘História da Comuna de 1873”, de Lissagaray, que vai ter lugar no restaurante “Expresso de Paris”, Avenida de Paris, 12-A (perto da praça do Areeiro), pelas 17 horas.

Aproveito a ocasião para lhe pedir já colaboração para a próxima PO. É o nº 50, completa dez anos de publicação e tencionamos fazer um número com mais páginas e, na medida do possível, com a participação de todos os colaboradores. Como de costume, o assunto do artigo fica ao seu critério.

Por aí tudo bem? Aceite um abraço com as minhas saudações

 Carta a JRR (15)

6/9/1995

Caro Camarada:

Obrigado pela sua carta, devoluções da P.O. e cheques. Está tudo em ordem. Também recebi a sua mensagem telefónica. Depois duma semana de férias (o stalinismo é assim, não dá direito a mais!), retomo actividades e já temos alguns artigos (demasiado extensos e pesados, receio) para organizar o sumário da próxima revista. Contamos dedicar umas 5-6 páginas aos dramas eleitorais, comentados sob várias vertentes. Se estiver para aí virado e quiser mandar-nos alguma coisa sobre isso até dia 30 do corrente, faz-nos jeito. Se a sua colaboração for sobre outra matéria (questões do ensino, por exemplo), aí já lhe peço que nos faça chegar um pouco mais cedo, até dia 22. Vamos tentar fechar a revista por essa data, deixando só as páginas do dossier eleições para os últimos episódios.

Marcámos para 22 de Outubro, domingo, um encontro para comemorar o nosso 10º aniversário. Constará duma parte de confraternização e de outra dedicada a debater um pouco o balanço de dez anos, perspectivas da P.O., situação do movimento marxista internacional, etc. Sobre estes temas será elaborado um texto introdutório do debate, de que lhe enviarei cópia oportunamente (lá para meados de Outubro, não antes, porque até lá a P.O. 51 vai dar-nos trabalho). Se quiser e puder vir a este encontro, dar-nos-á grande satisfação. Diga-nos depois alguma coisa. Aceite um abraço.

 Carta a JRR (16)

12/10/1995

Caro Amigo:

A P.O. já está na tipografia e deve recebê-la no princípio da próxima semana. Verá que o seu artigo foi fortemente cortado. Espero que não me leve a mal mas chegou já no fim e o espaço excedia em muito o que me tinha dito inicialmente (1 pág.). Procurei conservar o fio da exposição, restringindo ao essencial. Também o quadro ficou reduzido aos dois grupos, Trotsquistas e M-L, sem discriminar. Penso ter mantido o interesse do artigo. Você dirá.

O nosso encontro-festa vai por diante, no sábado 21 (e não domingo, como lhe tinha dito). O Fernando Rosas vem participar no debate[ii], assim como o nosso colaborador Ângelo Novo. À noite teremos convívio com intervenção de alguns artistas. Se puder, venha. Um abraço

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[i] Edgar Rodrigues radicou-se no Brasil desde 1951, ano em que deixou Portugal para escapar à perseguição de Salazar. Foi um dos principais responsáveis pela documentação e publicação de boa parte da história recente do anarco-sindicalismo nos dois países. (Nota de AB).

[ii] Fernando Rosas não pôde comparecer. (Nota de AB).

Cartas a FR – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (21)

29/12/1997

Caro Camarada:

Desejo que a “Quadra da Família” tenha sido passada da melhor forma possível. A esta hora já deves ter recebido a P.O. 62 onde incluí o artigo sobre o caso do teu filho. A foto, apesar de copiada do jornal, saiu boa. Mas, é claro, não são artigos da P.O., com uma difusão limitada, que vão fazer mexer os nossos homens. Pode ser que as diligências junto do Tribunal Europeu os façam acordar; se assim for, o mais certo é inventarem uma explicação qualquer para a montanha de contradições e absurdos do processo. Infelizmente, não existe uma corrente de oposição popular que os encoste à parede neste como noutros casos. Como viste, o caso do padre Max acabou sem tocarem nos figurões mandantes do crime. O cónego Melo até ganhou um carro de luxo oferecido pelas beatas para ser compensado pelos “enxovalhos” sofridos!

E como vamos de Associação Ateísta? Diz-me o que houver de novo, poderei publicar sob a forma de carta na próxima P.O., pode ser que alguns leitores se queiram associar. Também tenciono fazer- me sócio quando estiver constituída, para já não tenho disponibilidade para contribuir, por aqui está tudo muito apertado, como decerto calculas.

E que tal de eleições, gostaste do espectáculo? Como circo não há melhor, o pior é que nos sai muito caro.

Aceita um abraço e desejos de boa saúde

Carta a FR (22)

7/5/1998

Caro Camarada:

Tenho deixado passar várias cartas tuas sem resposta, mas sei que com­preendes as minhas dificuldades e não levas a mal, não é por menos interesse. Agora que a P.O. nº 64 está na rua e o 1º de Maio já lá vai, ponho a correspondência em dia. Distribuímos um manifesto no 1Q de Maio, que publicaremos na próxima P.O. e também um outro com uma lista de 100 vítimas da PIDE. Mando junto um exemplar. Fez sensação e era disputado pelas pessoas que assistiam ao destile. Levámos uma faixa dizendo “Já só falta pedir desculpa aos pides pelo 25 de Abril”. Foi bastante aplaudida, as pessoas estão mais motivadas com estes últimos escân­dalos do Rosa Casaco[i] e também do bandido do padre Frederico[ii]. Veremos quando chega o dia de romper a barreira do silêncio em torno da morte do teu filho. Pela minha parte, podes crer que apoio no que puder.

Quanto ao endereço que me pedes do jornalista (…) o seguinte: (…)

É tudo por agora. Dá sempre notícias. Um abraço.

Carta a FR (23)

15/10/1998

Foi bom receber notícias tuas. Aqui em Lisboa está tudo na paz dos mortos desde que fechou a célebre Expo, a coisa mais espantosa que o mundo já tinha visto até aos dias de hoje. Agora, para animar a televisão e os jornais só o último caso de corrupção: como de costume, os favores do Estado aos tubarões são na ordem das centenas de milhares de contos, quando não dos milhões. E a “sociedade aberta” com que os nossos homens sonhavam. O outro caso do dia é a campanha sobre a regionalização, que me cheira a mais um grande negócio. As nossas simpatias vão todas para o “não” mas, para não ficar na companhia do PSD e do PP, decidimos aconselhar a abstenção na P.O. Deves recebê-la dentro de dias e não está atrasada, porque é sempre nesta data que sai depois das férias do Verão em que não se publica.

Por agora é tudo. Vai dando notícias. Um abraço

Carta a FR (24)

5/3/1999

Caro Camarada:

Junto envio um Apelo para as comemorações do 25 de Abril que estamos a organizar, num grupo bastante alargado. Haverá uma sessão pública na tarde de 24 e um “julgamento” da PIDE. O texto destina-se a recolher assinaturas para ser publicado. Se estiveres de acordo em assinar e em recolher algumas assinaturas aí em Aveiro, peço que me devolvas até ao fim de Março.

Em relação a dois pedidos teus anteriores, da revista (…) e do endereço do AM, lamento não te poder mandar nem uma coisa nem a outra, porque não as tenho.

Viste a escandalosa absolvição dos assassinos do padre Max? Não há escrúpulos, a palavra de ordem deles é abafar e limpar os crimes relacionados com o 25 de Novembro. Se houver alguma diligência nova em relação ao teu filho, manda-me informações. Um abraço.

Carta a FR (25)

17/10/2000

Caro Camarada:

Espero que a tua saúde esteja melhor e que a operação à perna tenha corrido bem. Acerca da hipótese de recurso para o Supremo no caso do teu filho, não estou a ver nenhum advogado meu conhecido directo que sirva para conduzir o processo. Ocorre-me o João Nabais, ligado ao Bloco de Esquerda e que com certeza conheces de nome, dizem que é bom. bastante combativo. Estaria ele disposto a tomar o caso? E em que condições financeiras? Não te sei dizer.

Agora sobre a Associação dos Ateus. Não julgues que por eu não dar andamento ao caso é por desinteresse meu, mas tenho feito umas sondagens nos meios onde me mexo e não encontrei até agora gente interessada em meter ombros à tarefa e eu sozinho não posso. Não quero meter um apelo na revista sem ter algum ponto de partida para dar seguimento. Se faço um apelo e cai no vazio isso contribuirá para desacreditar a ideia. Já publiquei em tempos uma carta tua com a proposta e posso publicar novamente, a ver se há reacções. Uma forma de sensibilizar os leitores da revista seria pela publicação de textos de crítica à religião. Tens alguns que me emprestes para ver a possibilidade de publicação?

Os nossos agradecimentos pelos 1.000$ que enviaste, vêm na próxima P.O. na lista de apoios recebidos. Como verás, houve uns tantos amigos que corresponderam, espero que outros se resolvam. A ver se ultrapassamos as dificuldades em que nos debatemos de há um tempo para cá. Acabámos por não publicar o discurso do Louçã, não por termos alguma coisa contra, mas em todos os números fica sempre algum material de fora por falta de espaço.

Como verás na PO, fazemos no próximo dia 4 de Novembro uma sessão em Lisboa, a propósito dos 15 anos de publicação da PO. Convidámos duas pessoas do Brasil e haverá debate. Em princípio de Dezembro faremos outra sessão, para que convidámos o Samir Amin e Tom Thomas. Se possível seguir-se-ão outros debates. Se por acaso estiveres em Lisboa de visita gostaríamos que participasses.

Até breve, caro Camarada, aceita um abraço com desejos de muita saúde e bom andamento para o processo relativo ao teu filho.

Carta a FR (26)

20/6/2001

Estimado Camarada:

Por esta altura deves estar chateado comigo, e com razão, porque há muito não dou resposta aos problemas que me tens posto. Eu tenho a minha desculpa, que foi a tragédia da doença e morte de uma minha irmã, pessoa deficiente de quem eu cuidava e cujo desaparecimento me abalou bastante. Durante estes últimos dois meses, tenho continuado o meu trabalho como habitualmente, na edição da revista e dos livros mas reduzi a correspondência ao mínimo. Por isso as tuas cartas ficaram em arquivo todo este tempo, como as outras. Estou agora a pôr o correio em dia.

Em primeiro lugar, a tua saúde, como vai? Espero que continues rijo.

A razão de não ter falado recentemente no caso do teu filho é a falta de elementos novos. Como sabes, numa revista ou jornal é preciso renovar e refrescar o assunto com factos novos para interessar o leitor. Tenho estado à espera que surgisse mais alguma declaração ou decisão das altas esferas para onde tu tens apelado, para poder voltar a atacar o assunto. Mas não quer dizer que não volte a falar, mesmo que não haja factos novos. Logo que haja oportunidade, recordaremos a morte do teu filho e as circunstâncias em que se deu, exigindo um inquérito. O Brochado Coelho não pode fazer mais nada?

O assunto do ateísmo: a minha ideia é preparar um pequeno livro ou folheto. Por isso te pedi algum material. Estou a tentar recolher várias coisas para dar corpo ao livro, também da parte dos anarquistas, eles dedicam-se bastante à crítica da religião. Até agora os elementos que tenho não são suficientes mas espero que o livro vá avante, porque é daqueles assuntos tabu, ninguém quer falar para não se queimar com a padralhada. Quanto à associação que tu tens proposto: como já te disse, eu não tenho disponibilidade de tempo para me pôr à frente. Darei uma ajuda se um grupo de pessoas quiser pegar no assunto. Tenho falado por aqui e por ali, mas até agora sem êxito. Não estou muito inclinado a pôr um anúncio na P. O. sem ter algum ponto de partida, um núcleo de três ou quatro pessoas que queiram trabalhar mesmo na propaganda. Veremos como a coisa corre. Entretanto, se souberes de mais algum livro ou artigo de interesse, diz-me que eu tentarei arranjá-lo para a publicação que tenho em vista.

Dizes-me numa das tuas cartas que estiveste muito tempo sem receber a revista. Fico admirado porque a expedição nunca falha, temos-te mandado sempre. Só se há aí algum problema com a distribuição, vê lá. Quanto à situação financeira, agradeço o apoio que mandaste e não estou à espera que faças mais sacrifícios. Aqueles que têm posses é que devem ajudar. E foi o caso, nesta dificuldade que atravessámos. Como deves ter lido na P. O., vários amigos ofereceram-nos equipamentos para podermos continuar o trabalho. Agora estamos mais desafogados. A revista vai continuar e as edições de livros também. Estou a preparar um sobre a vida do Marx e outro sobre o sistema prisional nos Estados Unidos, a exploração do trabalho dos presos é um dos maiores negócios do capitalismo americano, já têm dois milhões de presos, e ainda falavam eles do Gulag dos russos.

Quanto a outras actividades é que vejo pouca gente disponível. O Bloco de Esquerda está por aí a mexer, como tens visto, e conseguiram agrupar pessoas que estavam paradas há muito tempo. Mas estão muito voltados para eleições e eu aí, francamente, não vejo interesse na situação actual. Precisávamos de formar grupos e associações em todo o lado, pôr gente a atacar o sistema. Parece-me que vêm aí tempos de crise económica séria, vai haver muita gente que vai despertar. Enfim, fazemos o que está ao nosso alcance, esperemos que os mais novos percebam no que estão metidos e vão à luta.

Velho camarada, muita saúde e aceita um grande abraço

Carta a FR (27)

3/5/2005

Caro Camarada:

Registei a renovação da tua assinatura da revista. Em relação à sugestão que me fazes de uma edição de livro sobre o assassinato do teu filho, lamento ter te dizer que não é viável. É um género de livro que a empresa distribuidora certamente não aceitará e portanto teria que ser vendido de mão a mão, o que dá uma venda muito reduzida e não cobre os custos de tipografia. Qualquer livro que eu faço para a Dinossauro custa, só na tipografia, para cima de 1.500 euros e este dinheiro só se recupera desde que a distribuidora encomende umas centenas de exemplares. Não tenho maneira de chegar às livrarias directamente, eles só aceitam os livros através de uma distribuidora.

A única hipótese num caso como o teu é uma edição de autor mas que, como te disse, fica muito cara. Se quiseres estudar a hipótese de mesmo assim fazeres uma edição tua, poderia encarregar-me por minha conta de todo o trabalho inicial (revisão, paginação, montagem) e pedir um orçamento a uma tipografia para a parte de impressão. Podes prever quantas páginas aproximadamente teria o livro? Meter fotos é que não convém porque encarece bastante o preço.

Isto é tudo o que te posso dizer sobre o assunto e crê que não há falta de boa vontade da minha parte. Compreendo e compartilho a tua indignação pelo silêncio que o poder faz em torno da morte do teu filho. Aceita um abraço fraterno do

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[i] Rosa Casaco foi funcionário da polícia política PIDE/DGS  durante  37 anos, chegando a inspector. Chefiou a brigada que assassinou Humberto Delgado em Badajoz.  Nunca foi julgado por nenhum crime.

[ii] O padre Frederico, brasileiro de 42 anos, foi condenado pelo tribunal de Santa Cruz na Madeira a 13 anos de prisão, pelos crimes de homicídio e abuso de menor. Gozando de cumplicidades, evadiu-se e vive actualmente no Rio de Janeiro.

Cartas a FR – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (13)

5/1/1990

Caríssimo Camarada

Só agora tive ocasião de responder à tua carta de 2 de Novembro. Espero que tenhas tido boas entradas no ano de 1990.

Como certamente sabes, está a decorrer uma greve de fome iniciada pelo Ramos dos Santos e apoiada por outros (cinco até à data. O Ramos completou três anos de prisão preventiva em 30 de Novembro; deveria ter sido libertado, como fizeram com o Otelo e os outros, mas recusam-se a libertá-lo. Já foram metidos dois habeas corpus, até agora sem resposta favorável. Ele está bastante enfraquecido, já perdeu quilos e está sujeito a uma crise cardíaca. Tem sido visitado por todos nós e por diversos médicos e está bastante animado.

Fiz um pedido para sermos recebidos pelo Presidente Bochechas, mas o pulha até agora não deu resposta. Vamos lá no princípio da próxima semana, assim como ao Provedor, Assembleia da República, PS, PCP, etc.

Com tudo isto e com o esforço para manter a saída regular da revista, já calculas que não proposta sobre a posso pensar na tua Associação do Ateísmo. Somos poucos para tantos problemas.

E que me dizes à crise do Leste e do PC? Os falsos comunistas e socialistas estão a abrir falência, o que é bom, mas o pior é vermos os americanos a fortalecerem-se com tudo isto. O caso da invasão do Panamá é impressionante. Quem será a próxima vítima?

Por agora é tudo. Já sei que não deixarás de fazer aí tudo o que estiver ao teu alcance em apoio dos companheiros. O Carlos Antunes está-se a portar muito mal neste caso.

Um grande abraço e desejos de muita saúde

Carta a FR (14)

6/12/1993

Caríssimo Camarada

Gostei muito de ter notícias tuas e de saber que continuas cheio de força. O meu projecto de te visitar tem sido sucessivamente adiado, porque me desloco cada vez menos e até o LGo há muito que não vai ao Norte. Registámos a tua assinatura e publicamos a tua carta. Nada temos a opor às tuas propostas, a não ser a nossa falta de qualificação para promover essa união dos revolucionários e dos ateus que propões. Vamos editando a revista com bastantes dificuldades e na esperança de que gente jovem desperte para as questões da emancipação social e faça aquilo que não somos capazes de fazer. É bem verdade, como escreves, que a burguesia só se derruba com armas na mão e não com palavras. Mas para que surjam pessoas dispostas a pegar em armas, muitas palavras terão ainda que ser impressas. Não nos envergonhamos por este nosso modesto trabalho de propaganda – ele é indispensável. O que é preciso é que as palavras esclareçam e animem vontades revolucionárias em vez de semearem a confusão e o conformismo, como fazem quase todos por aí. Esperamos sinceramente que a revista te agrade e que a leves ao conhecimento de amigos teus.

Aceita um abraço e até um dia.

Carta a FR (15)

28/4/1994

Caro Camarada:

Só agora posso responder às tuas cartas. O trabalho de preparação do livro tem-nos ocupado bastante nas últimas semanas. Já mandei o teu exemplar pelo correio e fico à espera da tua apreciação. Se conseguires angariar aí (…) mais algum comprador, será uma forma de nos ajudares a recuperar a despesa da edição. Temos muito mais vantagem nos exemplares vendidos directamente por nós do que naqueles que entregamos à distribuidora, que abocanha logo 55% do preço de capa. Também, nas livrarias vai vender-se a 2.300$00 + IVA, é a única maneira de recebermos algum.

Ainda bem que te agradam os artigos que tenho feito na P.O., o que é preciso é malhar na burguesia; o bicho tantas há-de levar que algum dia há-de ir abaixo, não te parece? Agora, quanto à campanha que pedes para desenvolvermos, de denúncia do assassinato do teu filho, talvez tu não tenhas uma ideia actual das nossas forças, que são muito limitadas. Dão para irmos editando a revista e nada mais. A pouco e pouco, as pessoas que alinhavam nas posições revolucionárias foram escasseando e agora encontramo-nos reduzidos a um pequeníssimo núcleo. Vamos a ver quantos aparecem depois de amanhã para segurar a nossa faixa na manifestação do 1º de Maio. A faixa diz: “Nós também somos culpados do 25 de Abril”. Que achas? Foi a maneira que encontrámos de protestar contra o descaramento de trazerem um pide à televisão nas vésperas do 25 de Abril e não só: toda a casta de salazaristas são agora ouvidos como grandes autoridades para explicar a queda do regime, falar dos sentimentos democráticos do Marcelo Caetano, atribuir a democracia ao mérito do Spínola, etc. Ninguém diz a verdade simples: o país estava na posse duma associação de bandidos e os pides eram os que faziam o trabalho mais sujo e repugnante ao serviço dos outros.

Em conclusão: para além do que já temos feito várias vezes, ou seja, publicar artigos na P.O. lembrando as circunstâncias suspeitíssimas da morte do teu filho[i], nada mais podemos fazer. Eu sei que é muito pouco porque a circulação da revista é muito reduzida. Mas talvez nem seja isso o mais necessário, porque o caso é já hoje do conhecimento de muita gente, graças aos artigos que tens conseguido fazer sair em grandes órgãos de imprensa. Talvez o mais importante para desbloquear o processo fosse um advogado que tomasse o caso a peito, como fez o Brochado Coelho com o assassinato do padre Max (e mesmo assim sem conseguir resultados até à data). Que pensas disso? Duma coisa podes estar certo: da nossa solidariedade em tudo o que estiver ao nosso alcance.

Aceita as nossas saudações revolucionárias e desejos de boa saúde.

Carta a FR (16)

6/6/1994

Caro Camarada:

Com base nos documentos que mandaste sobre o caso do teu filho, fiz um artigo que sai nesta P.O. (amanhã ou depois estará na rua). Reproduzimos a fotocópia dos despachos contraditórios do Hospital Militar, para não deixar dúvida de que houve grossa tramóia em todo o caso. Espero que os argumentos com que apresento o assunto estejam correctos, tu verás se o assunto foi bem tratado.

Já enviaste essas fotocópias para a grande imprensa? Pode ser que algum jornalista se decida a agarrar novamente no assunto e quebre a barreira do silêncio, agora que estão a vir ao de cima vários casos de ilegalidades. (…)

Aceita um grande abraço meu, com desejos de coragem para continuar a luta.

Carta a FR (17)

16/1/1995

Camarada:

Lamento muito o novo golpe que sofreste e espero que mantenhas ânimo para enfrentar mais esse grande desgosto. Eu, infelizmente, tive que acompanhar nos últimos meses a doença e morte duma irmã minha e sei as marcas que isso nos deixa.

Faço seguir pelo correio o livro que encomendaste. A revista deverá estar pronta na primeira semana de Fevereiro e lá vem o comentário acerca da morte do teu filho. Aceita abraços de todos nós, com desejo de muita saúde e coragem.

Carta a FR (18)

6/10/1995

Caro Camarada:

Desculpa a demora em responder-te, mas aproveitei para tirar umas férias e só agora retomo actividades. Não tenho dúvida em dar-te apoio na questão dos processos que queres consultar mas creio que isso passa em primeiro lugar por uma procuração tua e mesmo assim, sendo como são os gajos que tomam conta da Torre do Tombo, é de duvidar que atendam o pedido. Julgo que tens lido os artigos do Fernando Rosas e de outros professores que protestam porque o facho que lá está em director daquilo arranja sempre pretextos para não permitir a consulta dos documentos. Em todo o caso, se me passares uma procuração, eu vou atacar o animal no seu esconderijo. Nome: Francisco Martins Rodrigues, B.l. 6481598, Arquivo de Lisboa, 7/5/84. Creio que é suficiente.

Espero que a tua saúde vá menos mal. Aceita um abraço do camarada

Carta a FR (19)

19/5/1996

Caro Camarada:

Estou a preparar um artigo para a próxima P.O. com base nos dados que me enviaste sobre a morte do teu filho. Sei que é pouco mas é o que está ao nosso alcance. Tudo mostra que existe de facto uma conspiração em alto nível para bloquear as investigações em tomo do caso – quando estão em jogo os comandos da tropa, os juízes metem o rabo entre as pernas. A impunidade é tão grande que agora até já gajos da GNR chegam ao ponto de matar, decapitar e enterrar um preso (um negro?) para esconder o crime, à moda do Brasil. É o que está hoje a rádio a noticiar. Era motivo mais que suficiente para o ministro se demitir de imediato, mas envolvem tudo em palavreado chocho e lá vai tudo andando como se fosse o incidente mais natural desta vida.

Tens mais que razão quando propões a formação de associações de ex-presos políticos e de ateus. São mais do que necessárias para fazer contracorrente neste clima podre de pretensa normalidade democrática, em que o grande capital manipula as pessoas a seu bel-prazer. O nosso problema, já te tenho dito, é a escassez de pessoas dispostas a empenhar-se. Vamos editando a nossa revista com grandes dificuldades, lançando um ou outro livro de denúncia do capitalismo e esperando por melhores dias, que outros venham ajudar-nos para o nosso lado. Algum dia será.

Sobre a tradução do “Trabalho Assalariado e Capital” de Karl Marx, gostaria que a enviasses quando possível para o nosso apartado. É uma obra fundamental e poderiam proporcionar- se condições para a editarmos num livrinho.

Junto envio um livro de poesia recentemente editado pela Dinossauro[ii], com um grande abraço solidário e desejos de boa saúde

Carta a FR (20)

14/7/1996

Caríssimo:

Só agora respondo à tua carta de 26 de Junho. Desculpa o atraso mas meti umas curtas férias, para relaxar. Recebi o texto mas, por coincidência, encontrei-o, poucos dias depois, na Feira do Livro. Existe numa edição do PC, Editorial Avante, e barata. Concluímos que não teríamos saída para o livro e que seria só despesas. Desistimos, portanto da ideia e só é pena não nos termos informado primeiro, escusavas de ter o trabalho e a despesa de nos mandar o original. Se quiseres que to devolva, diz.

Quanto aos outros projectos, só te posso repetir o que já tenho dito: não temos contacto com gente interessada em criar as associações que propões. O P há muito que o não vejo. Aquilo pelo lado deles também não anda fácil. Por muito que nos custe, será necessário aguardar que surjam melhores condições, uma corrente de interesse que dê força a essa ideia. Não deixaremos de fazer a propaganda possível na P.O.

O que responderam os partidos à tua última carta sobre o teu filho? Nada, natural­mente. Precisavas que a televisão se interessasse, daria outro impacto. Já tentaste escrever ao Carlos Narciso, que faz os “Casos de Polícia” na SIC? Se ele te entrevistasse, a coisa dava barulho e teria que haver alguma resposta do poder.

Dá sempre notícias. Aceita um abraço do camarada

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[i] Júlio Pires Ribeiro, capitão da Força Aérea, que apareceu morto na Base 3 de Tancos depois de cinco dias de prisão por ter ajudado para-quedistas revoltosos. (Nota de AB).

[ii] AAVV, “Notícias da Raiva”. (Nota de AB).