Cartas a MV – 30

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (35)

15/6/1992

M. caríssimo:

Que há? Não respondeste à minha carta de 15 de Abril e não tenho recebido os teus cartõezinhos. A P.O. 35 saiu e já vai a caminho da tua casa, mas sem colaboração tua, o que é lamentável. Queremos à viva força diversificar as colaborações, para não cansar o leitor sempre com os mesmos conceitos e os mesmos estilos. Tens aqui um lugar de colaborador garantido, que mais queres?

E o «Albatroz», porque não pia? Está afectado pela poluição? Manda-me notícias, mesmo breves, para eu saber que está tudo bem contigo.

Vi no «Partisan» que saiu da cadeia o Joel Lamy. Também recebi do «Partisan» um projecto de plataforma que vou ler cuidadosamente para lhes enviar alguma opinião. Recebeste também?

As actividades internacionais continuam reduzidas e, o que é pior, tendem a minguar. Alguma vez chegaremos ao fim da descida, que diabo!

No 1º de Maio distribuímos ao longo da manifestação da CGTP (em que desfilámos) o manifesto que vai reproduzido na P.O e fizemos um encontro de confraternização, com umas vinte e tal pessoas por junto. Pela primeira vez, não participámos no desfile do 25 de Abril, que está a tomar um ambiente semelhante às romagens que, no tempo do Salazar, os velhos republicanos faziam ao cemitério.

Escreve depressa. Um abraço.

Anti-história

Francisco Martins Rodrigues

Quem deve assumir as culpas pela fácil vitória da direita no 25 de Novembro: o PCP ou a extrema-esquerda? O debate, que alguns tomam como quezília inútil entre vencidos, vem muito a propósito neste 20º aniversário da queda do fascismo. Continuar a ler

O Futuro Era Agora

Agora em https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/futuro/index.htm

O Futuro Era Agora
O movimento popular do 25 de Abril

Edições Dinossauro


Primeira Edição: 1994
Coordenador: Francisco Martins Rodrigues

Colaboraram na recolha e tratamento dos textos : Ana Barradas; Angelo Novo; António Barata; António Castela; Beatriz Tavares; Filipe Gomes e Rogério Dias Sousa

Capa: António Barata

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

Direitos de Reprodução: © Edições Dinossauro


Índice

capa
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Os 580 dias

Prefácio

Cronologia

Molotovs no Palácio de Cristal, Rogério Dias de Sousa

O mestre disse que a Pide tinha fugido, Maria Luísa Ernesto

As perdizes, Cândido Ferreira

Durante três dias mandámos no quartel, Manuel Figueira

Toda a gente empenhada em mudar a vida, Jorge Falcato Simões

Obrigámos o Jaime Neves a recuar, Manuel Monteiro

Da JUC para a fábrica, Berta Macias

O assalto à esquadra das Antas, José Carretas

Sindicalismos em conflito, Custódio Lourenço

Foi a minha universidade, Maria de Lurdes Torres

A “revolução” no Estado Maior, António S

Autogestão na Sogantal, José Maria Carvalho Ferreira

Assobiámos o Spínola no 25 de Abril, Amílcar Sequeira

Um jornal diferente, Júlio Henriques

Sem o 25 de Abril seria uma patetinha, Helena Faria

Revistar os carros da polícia, Luís Chambel

Meu saudoso PREC, João Azevedo

Despertar dum sindicato, Vítor Hugo Marcela

Ambição era tomar o poder, Joaquim Martins

Alegria e candura, José Manuel Rodrigues da Silva

Tudo era tratado na comissão, Maria da Graça Duarte Silva

O “Che” a falar na praça, pendurado num eléctrico, Paulo Esperança

Alegria nos arrabaldes, Fernando Dias Martins

Confrontos nas ruas do Porto, Alberto Gonçalves

Os partidos não me diziam grande coisa, Maria Amélia da Silva

Passámos de caçados a caçadores, António José Vinhas

Não soubemos explorar a crise de poder, Mariano Castro

O único perigo era para a direita, Vitorino Santos

Primeiros passos da Reforma Agrária

Fazer frente aos pcs não era pêra doce, José Paiva

Lisboa – Luanda, Orlando Sérgio

Foi uma descoberta, Bárbara Guerra

Reunião de prédio, Pedro Alves

O Pires Veloso dormia na cave, José Guedes Mendes

A militância era uma festa, Nela

Os soldados não ligavam aos oficiais, Manuel Borges

Vivi por antecipação a derrocada, Helena Carmo

Sempre atrasados, José Manuel Vasconcelos Rodrigues

Uma estranha liberdade, Rita Gonçalves

Falharam os três D, Mário Viegas

O povo à porta do quartel a pedir armas, José Manuel Ferreira

Despertei no 25 de Novembro, Altamiro Dias

O povo em armas? Uma fraude, Tino Flores

Como entrei nas “catacumbas”, “Brezelius”

Andei a vasculhar a sede da PIDE, Avelino Freitas

Comecei a pensar no que poderia vir, Maria da Glória R. Borges

Dormir ao relento à porta da fábrica, Maria Luísa Campina Segundo

O poder parecia tão próximo…, Fernando Reis Júnior

Um cabo-verdiano em Lisboa, Álvaro Apoio Pereira

Os polícias de braços no ar, António Castela

Uma burguesa entre operários, Marta Matos

Recordando o soldado Luís, Valdemar Abreu

Greve aos bilhetes, João Marques

Falar de Abril

25 de Abril: transformações nas escolas e nos professores, Eduarda Dionísio….

25 de Novembro: como a esquerda foi encurralada, Francisco Rodrigues

Autonomia dos trabalhadores, Estado e mercado mundial, João Bernardo

Brandos costumes & maus hábitos antigos, Manuel Vaz

Siglas

Bibliografia


Cartas a MV – 20

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (24)

30/10/1990

M…íssimo:

Recebi hoje a tua carta de 22 e agora mesmo respondo. Vou aproveitar as tuas notas pa­ra uma crónica de Paris, incluindo-lhe alguns comentários sobre os panfletos que envias da manifestação; para dar mais cor local, de acordo?

Segue aqui o texto sobre a revolução russa, com a parte final mal lambuzada, por dois motivos: 1º porque já não tive tempo; 2º porque o MLP pouco fala sobre o período inicial. Em todo o caso, penso que precisa de definir posições quanto a algumas críticas usuais (os bolcheviques montaram a cavalo nos sovietes para se servir de­les e destruí-los? o grupo “Oposição Operária” tinha uma alternativa? etc.), Enfim, sobre o que aí vai peço que se tiveres reparo ou sugestão de vulto escrevas urgentemente, porque a PO será fechada cerca de 20 Novembro.

Vou-te mandar dentro de 4-5 dias o artigo que pedes sobre o Golfo, embora não tenha bem ideia do tamanho que pretendes. Então agora andas associado com o V? Vamos acabar todos em anarquistas! Não deixem cair o Albatroz!

Carta a MV (25)

9/11/1990

Caro M:

Aí te mando o comentário sobre o Gol­fo. Receio que não adiante grande coisa e que esteja demasiado ideológico (defeito das minhas literaturas) mas de imediato não me saiu melhor.

O V escreveu-me há dias sobre a colaboração que te vai dar no Albatroz e propunha a publicação (com arranjos) dum artigo meu que saiu no “Público” sobre o Verão quente. Deixou o assunto ao teu critério; por mim não há impedimento nenhum, mas dois artigos meus na mesma revista é capaz de ser demasiado. Publicas os dois ou só um deles ou nenhum, con­forme convier.

Não pias nada sobre o texto que te mandei acerca da URSS? Mau sinal: Ou não lhe encontras nada novo ou discordas. Vemos fazer amanhã o debate, logo se vê o que sai. Um grande abraço

 

 

 

Cartas a SL

Francisco Martins Rodrigues

 Carta a SL (1)

 7/11/1991

 Caro Amigo L:

 Agradeço-te o interesse que te levou a escrever a úl­tima longa carta. Gostaria de responder brevemente. Francamente, não vejo razões para divisares “sintomas alarmantes” no nosso ali­nhamento político-ideológico. O problema não é querermos permanecer “cristalinos e puros” como tu dizes, mas estarmos atentos a uma muito real e muito brutal pressão de direita, contra-revolucionária, que hoje tenta varrer, cilindrar ou corromper tudo o que seja comunista ou próximo. O debate em torno da revolução russa e do leninismo inscreve-se nessa batalha. Muito francamente, também, acho que os teus argumentos revelam falta de vigilância da tua par­te quanto ao que está em jogo neste debate. Quer isto dizer que eu, para não ceder terreno à reacção, vou defender Lenine à viva força? Não. Não penso que os artigos da P.O. contenham nada disso. Dá-me a impressão do que tu os leste muito pela rama, pois tu próprio dás argumentos já expostos anteriormente nesses artigos. Achas muito es­tranho que se diga que os bolcheviques, ao não vir a revolução da Europa, aplicaram, em situação de emergência, um programa de sobre­vivência alheio ao seu programa inicial? Nesse caso peço que me digas, concretamente, na Rússia de 1918 tal como era nesse momento, como concebes que se pudesse levar por diante a ditadura do proleta­riado, a sério, com democracia de massas, sovietes com poder real, etc. Parece-me deduzir da tua argumentação que achavas preferível que a Rússia dos sovietes se tivesse deixado ir ao fundo sem ceder um palmo nos princípios do comunismo, que isso seria melhor do que acabar por ir ao fundo na mesma, apodrecida pelo capitalismo de Es­tado, a burocracia, o terror, etc. Hoje podemos fazer essa compara­ção, mas em 1920 ninguém podia fazê-la. Os homens que estavam à fren­te da Rússia pensavam: “fazemos uma série de entorses ao que deveria ser a ditadura do proletariado mas é a única forma de mantermos o poder de pé e, quem sabe, talvez dentro de um ano ou dois, venha uma revolução na Alemanha, que nos permita depois endireitar a nossa”. Tentavam ganhar tempo. Explica-me então qual teria sido a política de princípios neste caso. Mas em concreto; porque tu dizes sempre que nós não fazemos análises concretas mas dás opi­niões muito no abstracto.

Capitalismo de Estado – Não sabia que tu tinhas objecções a esse conceito. Marx e Engels não o usaram porque era desconhecido no seu tempo. Foi usado na Alemanha bismarckiana, e depois em escala crescente por outras burguesias que precisavam de se apoiar nos capitais do Estado por insuficiência de acumulação privada. Lenine não disfarçou a dura realidade e disse que pôr a economia a fun­cionar na Rússia (houve uma fome em que morreu um milhão de pes­soas no Volga devido à guerra civil e à desorganização total da economia) tinha que se recorrer ao capitalismo de Estado. Mostrou a sua atitude de princípio: não disfarçar de “socialismo” uma coi­sa que não o era. Mais tarde, foi esse sistema que ficou a vigorar na URSS, assim como nos países da Europa de Leste, etc. Não perce­bo o teu reparo. Não chamamos a esses regimes pura e simplesmente capitalistas porque não tinham apropriação privada dos capitais, concorrência, etc. A burguesia “comunista” desfrutava-se da mais-valia através do capital do Estado. Parece-me um conceito claro, que já demonstrou a sua aplicação. O crescimento e apodrecimento desse regime, com todas as suas taras, é uma coisa; a sua aplicação inicial, como recurso de emergência num país devastado que não con­segue organizar a produção socialista, é outra. Se não fosse isso, que alternativa ficava? Devolver as fábricas e as terras à burgue­sia?’ Deduzo dos teus argumentos que vês uma certa justificação na “propriedade privada fundada no trabalho pessoal”. Mas não sabemos nós que o pequeno burguês gera diariamente o médio e o grande, que o processo de acumulação capitalista reproduz sempre os mesmos fe­nómenos?

Imperialismo soviético – Acusas-me de o “camuflar” e mais uma vez foges à análise concreta da situação concreta do que foi esse tal imperialismo que ruiu como um castelo de cartas. Temos sobre o as­sunto artigos publicados e dispenso-me de os repetir. Sou eu que te alerto para um desvio de que pareces não ter consciência: ao repetir as histórias infundadas postas a correr pelo imperialismo ocidental acerca do “império soviético” perdes contacto com a realidade e co­laboras involuntariamente numa barragem de propaganda destinada a amortecer a oposição ao imperialismo.

Pensas ver espírito de seita da nossa parte quando dizemos que “tínhamos razão”. Mas, caro         L, não achas que temos motivos para sentir algum orgulho por ter dito há anos que o “império soviético” era um mito porque não tinha base económica e portanto era vulnerável? Tu, por exemplo, acreditavas que a URSS tinha um poderio terrível, estava em igualdade ou até acima do Ocidente… Somos nós que temos espírito de seita ou és tu, neste caso, que resistes a dar um balanço a ideias que tinhas e que se comprova­ram erradas?

Conhecemo-nos há bastantes anos e por isso não hesito em falar-te com toda a franqueza, sem rodeios, como tu, aliás, fazes em relação a mim.

A tua carta termina com uma proposta concreta: colaborares na revista com um estatuto independente, para expores as tuas opiniões sobre a URSS, a evolução actual do capitalismo, etc. Levei esta proposta ao conhecimento da redacção e considerámos unanimemente que não deve haver esse estatuto de colaborador indepen­dente. Os artigos passam todos pela discussão na redacção e, em­bora tenham uma margem de pontos de vista individuais, saem quan­do a redacção considera que não vão contra a sua linha geral.

O que não quer dizer que recusemos publicar artigos que nos man­des. Já os temos publicado e estamos interessados em continuar a fazê-lo, teus e de outros leitores da revista, como tens vis­to. Só que essas pessoas não são colaboradores independentes, mas leitores que enviam trabalhos que nós publicamos ou não con­forme entendemos. Vários têm sido publicados, outros têm sido recusados por não lhes acharmos interesse. O que não podemos é assumir qualquer compromisso contigo de passarmos a considera-te nosso colaborador independente e de publicarmos o que tu nos envies. Julgo que a nossa atitude é perfeitamente clara e não foge às normas habituais em qualquer revista de opinião, como a nossa. Continuamos portanto abertos e interessados em publicar textos que nos envies, pondo em questão as nossas posições, apenas com a reserva quanto à oportunidade e espaço para o fazermos.

E é tudo, caro  L. Fico à espera de uma ocasião para prosse­guirmos o nosso debate de viva voz. Um abraço

Carta a SL (2)

 28/4/1994

 Caro Amigo:

Não sei se teremos oportunidade de nos ver na apresentação do livro[i], no Clube dos Jornalistas, sábado, dia 30, a partir das 18.30, e por isso respondo já por este meio à tua carta. No que diz respeito à necessidade duma avaliação ponderada do PREC, para destrinçar entre o que nele foi autenticamente revolucionário e o que foi folclore “revolucionarista” pequeno-burguês, estou de acordo contigo. Mas já nos exemplos que evocas, se concordo inteiramente em que a palavra de ordem do “não à guerra civil” teve um conteúdo capitulacionista, já quanto a ter sido erro o começar, naquela situação concreta, pela formação da UDP, tenho as minhas dúvidas; e quanto ao assalto à embaixada de Espanha ter sido anarqueirada estudantil, já não concordo nada contigo – pensa só na escassez de acções de confronto com a ordem que todo o PREC registou – não houve um desastroso excesso de moderação? Não nos devemos regozijar com um dos raros actos violentos – inteiramente justificado, aliás, dada a barbaridade do crime franquista, e que foi imitado noutras capitais?

Mas se o que importa é uma avaliação política reflectida desse período, penso que o livro que fizemos só ajudará a avançar-se nesse sentido, na medida em que reúne testemunhos de intervenientes directos e desenterra experiências que têm vindo há vinte anos a ser cobertas de entulho. Romper com a prática do silêncio e da calúnia gratuita que por aí se fazem é do interesse da esquerda, parece-me. Não sei se tencionas promover alguma referência da Lusa à edição, mas, se for esse o caso, peço que tenhas em consideração o mérito que representa darmos voz aos que estão privados dela há longos anos. Se não fores ao lançamento, vou enviar-te um exemplar para poderes ajuizar por ti e veres se é possível chamar a atenção para esta iniciativa.

A segunda parte da tua carta, relativa à apreciação da revolução russa à luz do marxismo de Marx, retoma uma polémica que vimos fazendo há anos, sem aproximação dos nossos pontos de vista. Só posso responder às tuas notas repetindo as opiniões que já expus noutras oportunidades e que, pelos vistos, não te convencem. Eu acho que há um erro metodológico na tua perspectiva, que é admitires que as revoluções russa, chinesa, cubana, poderiam ter sido socialistas, se os seus dirigentes tivessem sido melhores marxistas. Isso parece-me puro idealismo. Não tomas em consideração que o nível económico-social desses países impossibilitava a instauração do socialismo, por muito que os líderes revolucionários, os partidos ou as massas o desejassem; só permitiam a passagem ao capitalismo – que foi o que aconteceu. O leninismo, que tu culpas pelo fracasso, foi justamente a aplicação viva do marxismo que permitiu o êxito inicial dessas revoluções, o cumprimento das suas tarefas antifeudais, anti-imperialistas, burguesas, da forma mais radical e acelerada. Sem leninismo, não teríamos tido revoluções nenhumas porque teriam sido afogadas pela reacção logo à partida.

Isto, para te apontar brevemente como encaro a tua conclusão de que “a estreiteza revolucionária actual está na hesitação em romper definitivamente com o leninismo”. Do meu ponto de vista, uma tal atitude só poderia levar a recuarmos para trás de Lenine e a afastarmo-nos do marxismo. Enfim, este é um debate para continuar entre nós. Chegaste a ler a série de artigos que publiquei na P.O. sobre a revolução russa? Não lhe encontraste nenhum argumento que abalasse as tuas convicções?

Se não me disseres nada em contrário, publicarei na próxima P.O. a primeira parte da tua carta, relativa ao PREC (assinada com iniciais). A segunda parte repete opiniões tuas que já temos publicado noutras ocasiões e por isso penso omiti-la, para não ocupar muito espaço. Em todo o caso, se entenderes fazer-nos chegar algum texto nesse sentido, de crítica ao leninismo, não como carta, mas como artigo, estamos abertos a publicá-lo.

Um abraço

 

[i] “O futuro era agora”, ed. Dinossauro, 1994. (Nota de AB).

Cartas a AV – 3

Francisco Martins Rodrigues

Carta a AV (22)

28/2/1995

Caro Camarada:

 Recebi a tua carta e recolhi os dados sobre Sines para uma correspondência a sair no próximo número. Como só fechamos a redacção a 20 de Março, se entretanto tiveres mais informações ainda podes mandar.

Escrevo-te pelo seguinte: soubemos que está aí na tua escola de Sines um professor chamado JR, que nos dizem estar interessado em ler a P.O. Podes abordá-lo e ver se o tornas assinante? Envio junto ficha e envelope de resposta paga, para ajudar a convencê-lo… Além disso, não sei se estás a fazer alguma actividade conjunta com ele. Conta.

Espero que tenhas recebido o n° 48 e que tenha agradado. O lançamento do livro “Coração Forte”, sobre a guerra colonial, foi na Casa de Moçambique em Lisboa e correu muito bem, com bastante gente, moçambicanos e portugueses. Esteve lá a embaixadora de Moçambique e vendemos logo umas dúzias de livros. Segue-se agora a História da Comuna de Paris, cujo lnaçamento será no Io de Maio, espero. E se tu cá viesses nessa data?

Um abraço

Carta a AV (23)

9/5/1995

Caro Camarada:

Estamos neste momento a preparar o n° 50, que completa os dez anos de publicação, pelo que pretendemos seja um número especial, com mais páginas e maior variedade de temas. Dado o interesse com que nos tens acompanhado, fazemos-te um pedido: poderás contribuir para este número, com as tuas habituais notas mas também com críticas, sugestões, proposta de temas a tratar, etc.? Junto uma circular sobre o assunto. Atenção! Para poder ser incluídos, os elementos que nos envies deverão estar na redacção até 25 do corrente, o mais tardar.

A apresentação da “História da Comuna” foi um acontecimento social de esquerda. A imprensa, rádio e televisão não quiseram saber dos nossos convites mas apareceram amigos em barda e estivemos umas horas a comer e a beber e a debater os altos problemas da revolução. E claro que a manifestação do Io de Maio ajudou. Lá fomos, com uma faixa que dizia “Com PS ou PSD quem se lixa é você” – ideia óbvia e elementar mas que surpreendeu o público ao longo da Almirante Reis, só habituado ao paleio seminarista dos pcs e que aderiu frequentemente com aplausos e acompanhando-nos no entoar do estribilho. Fiquei rouco mas valeu a pena.

Quando nos vemos? Aceita um abraço

Carta a AV (24)

12/9/1995

Caro Camarada:

As notícias laborais da tua carta já estão aproveitadas para a próxima P.O. Se entretanto tiveres mais alguma coisa, sobretudo relativa à campanha eleitoral por esses lados, manda. É bom que venhas para Rio Maior, porque permitirá contactarmos. E temos já uma proposta a fazer-te: no dia 22 de Outubro vamos realizar em Lisboa uma sessão comemorativa do 10º aniversário da revista. Constará de um encontro-convívio, com a actuação de algum artista, e uma outra parte, menos concorrida, para as pessoas interessadas em debater a situação e perspectivas do comunismo, trabalho feito pela revista, ctc. Sobre este assunto será distribuído previamente um curto texto. Vamos enviar-to, assim que esteja pronto (em começos de Outubro), com o convite para compareceres, indicação do local e hora, etc. Que dizes? Reserva já o dia, de acordo?

Quanto às eleições, como já calculas, a nossa posição é a mesma de sempre: abstenção, como única maneira de nos demarcarmos da palhaçada a que se resume esta pretensa “escolha democrática dos representantes do povo”. Um abraço.

 Carta a AV (25)

31/1/1996

 Caro Camarada:

A tua carta veio mesmo a horas para ser incluída no noticiário da P.O., que vais receber dentro de dias.

A nossa vida continua como de costume. O LGo foi afastado do colectivo por termos descoberto que há bastante tempo vinha gastando em proveito próprio dinheiros obtidos na nossa actividade gráfica (ele era o gerente). Fizemos algumas reuniões e já o obrigámos a repor a maior parte do dinheiro. Um caso lamentável, que seria bom que não existisse entre nós, mas o que se lhe há-de fazer? Agora estamos a preparar mais algumas edições Dinossauro.

A tua vida continua na mesma? Manda notícias. Aceita um abraço.

 Carta a AV (26)

7/9/1996

 Caro Camarada:

Espero que tudo corra bem por aí. A P.O. 56 está a sair mas as tuas informações laborais desta vez ficaram de fora porque houve uma concentração de textos grandes e tiveram que saltar várias colaborações. Se ainda tiverem actualidade, entram no próximo número, mas o melhor era mesmo tu mandares uma nova correspondência lá para meados de Novembro. Apesar da tua escrita hieroglífica, suponho que as tuas aulas agora são em Tomar, que não é de facto terra de muita abertura de ideias. É donde saem os empreiteiros todos deste país e isso basta.

Como verás na revista, a Dinossauro lançou mais um livro, desta vez uma novela do célebre capitão Fernandes sobre a guerra em Angola. Na próxima quinta-feira é a apresentação, na Biblioteca-Museu da Resistência, pelo Pezarat Correia, vamos a ver se não diz muitas asneiras. Da política não te digo nada, está na pior e assim continuará enquanto os desgraçados não se cansarem de amochar e não fizerem por aí algum borborinho.

Aceita um abraço

 Carta a AV (27)

14/2/1997

 Caro Camarada:

 Como habitualmente, agora que mandámos a P.O. 58 para a tipografia (com atraso, diga-se), venho pôr a correspondência em dia. Os teus apontamentos sobre Tomar e as fábricas de Coimbra têm sido aproveitados, como deves ter visto. Contamos com a continuação da tua colaboração, porque a revista precisa de reflectir melhor o “país real”. Sempre que tenhas recortes de jornais regionais com noticias significativas ou comentários manda, alguma coisa se aproveita. Quanto aos livros que pediste, espero que tenham chegado em boa ordem e que te tenham interessado.

O Claude Bitot é uma boa cabeça e o “Inquéri­to” é um livro com muito interesse. Nesta última P.O. entro em polémica com ele a propósito do outro livro que ele publicou e de que já demos referências em números anteriores da revista (“O comunismo ainda não começou”). Na preocupação de retomar a Marx, o homem deita abaixo tudo o que diz respeito a Lenine, e aí parece-me que entra por maus caminhos. Veremos se ele dá resposta e se a discussão serve para esclarecer alguma coisa.

Como deves ter visto, também tem havido debate entre Ângelo Novo e Manuel Raposo acerca da guerra da Jugoslávia, e embora o tom tenha aquecido um pouco demais entre eles, acho que foi útil. Não queres meter-te ao barulho sobre os assuntos polémicos? Nem que seja com uma simples carta de leitor?

E as tuas actividades sindicais, pararam? Também nesse capítulo, se tiveres jornais ou boletins que não queiras, manda, basta que juntes uma anotações.

 Carta a AV (28)

29/12/1997

 Caro Camarada:

Tenho aqui várias cartas tuas para responder, espero que me desculpes. O atraso deveu-se à acumulação de trabalho por termos mudado de instalações (agora estamos na R. do (…). tel (…)), além de termos preparado dois livros novos que estão na tipografia e a PO 62, que já deves ter recebido. Como deves ter visto, metemos algum do teu material em vários sítios. E bom que nos mandes sempre notícias e impressões da região, recortes de jornais, etc.

A tourada autárquica chegou ao fim e, para minha surpresa, o PSD ficou com boas posições. Julguei que sofressem mais pela triste exibição que têm dado mas enganei-me: o eleitorado de direita, na falta de melhor opção, mantém-se-lhe fiel. Foi uma campanha vergonhosa. E a confirmação de que não há alternativas políticas em disputa mas apenas equipas de administradores a empurrar-se, a pisar-se e a insultar- se para conseguir dar nas vistas e ser escolhidos para os cargos.

Desta vez, mesmo a anémica extrema-esquerda (?) se deixou arrastar na onda do marketing, até o MRPP abandonou as suas tiradas antiburguesas, e foram castigados por isso, porque a votação baixou: perderam os votos de protesto contra o sistema e não ganharam outros em troca porque toda a gente sabe que, como governo autárquico, são inviáveis. Sei que tem havido lá dentro fortes divergências entre uma “linha negra” a aproximar-se do PS (o Arnaldo e o Garcia Pereira estariam nesta onda) e uma “linha vermelha” a reclamar mais radicalismo; vamos a ver o que dá. Quanto aos tristes do PC, apesar de fazerem o reclame da sua administração honesta, levaram uma banhada de todo o tamanho (Amadora, Vila Franca!).

O que dominou foi a polarização nacional entre PS e PSD como os dois únicos candidatos credíveis à gerência da firma Portugal, SA. Toda a conversa sobre a importância cada vez maior do “poder local” e da “regionalização” é só conversa. O que conta é o aparelho central.

E as tuas actividades sindicais? Conta o que houver de novo. Um abraço.

 Carta a AV (29)

30/9/1998

 

Caro Camarada:

Envio por correio separado o livro “O Império a preto e branco”. O outro ainda está na tipografia, assim que chegar mando um exemplar. Junto também cópia da tua ficha de sócio do Clube onde verás que ficas com um crédito de 1.220500, visto que os preços dos livros são mais baratos para os sócios; saiu errado no anúncio da PO.

Por aqui estamos todos felizes com a nova região que vamos ganhar. E tu não deixes que ponham capital da tua região em Aveiro, Coimbra é que é. Fui ontem assistir a uma sessão do MRPP com o Garcia Pereira, pouca gente e poucas ideias, mas a posição deles pelo “não”[1] não está mal. Se tiveres alguma colaboração para a práxima PO manda até dia 20. Um abraço

 Carta a AV (30)

29/12/1998

 Caro Camarada:

(…)

Por aqui fala-se na necessidade de tomar alguma iniciativa pública a propósito do 25° aniversário do 25 de Abril, como por exemplo um manifesto assinado por antigos activistas do movimento popular. Que achas? Podes dar alguma contribuição? Também já deves ter visto nos jornais o intenso namoro entre a UDP, PSR e Política XXI, com vistas a concorrer juntos às eleições e, segundo se diz, associarem-se mesmo num único partido. Vão os três realizar congressos em Janeiro. O Fernando Rosas já escreveu dois grandes artigos no “Público” defendendo a “união da esquerda” e parece ser um dos inspiradores do projecto. O que vai sair é uma salada reformista “de esquerda” que não sei se terá longa vida.

Por agora é tudo. Boas entradas em 1999. Um abraço para ti e cumprimentos à tua companheira

Carta a AV (31)

5/5/1998

Caro Camarada:

A segunda reunião correu bem e apareceram mais caras novas. Agora estão a reunir comissões para concretizar as iniciativas. A sessão será na tarde de 24, sábado. Peço que devolvas o texto que aqui te envio em versão definitiva com as assinaturas que puderes recolher até ao fim deste mês.

Como foi a reunião do Bloco da Esquerda? Fiquei surpreendido por escolherem o Miguel Portas para cabeça de lista à Europa, não me parece pessoa para ganhar muitos votos para o Bloco. Falta sobretudo um debate que seria de esperar quando três organizações de esquerda se agrupam, numa época destas e com tudo o que aconteceu. Parece-me claro que a motivação central deles é eleger um deputado por Lisboa, o que até poderá acontecer, mas não sei se com algum proveito para o avanço da esquerda. Diz-se que já está escolhido o Louçã para cabeça de lista. De qualquer maneira, o desafio vai ser duro, com o Bochechas a concorrer na Europa e o duelo PS-AD a polarizar os votos.

Se tiveres mais algumas informações ou comentários para a PO, convém mandares até dia 20 deste mês. Um abraço.

Carta a AV (32)

9/2/2002

Camarada:

As tuas últimas notícias já chegaram depois da PO estar na tipografia, por isso não as pude aproveitar. Mas eu compus com o que me tinhas enviado antes e com notícias dos jornais um artigo sobre a “Hecatombe industrial em Coimbra”, que assinei como de “Correspondente”. Deve chegar-te dentro de dias.

Traz também uma Declaração sobre as eleições justificando porque não propomos o voto em partido nenhum. As pessoas da esquerda mobilizam-se como de costume para ver se conseguem bons resultados para o Bloco. Nós dizemos-lhes que a sua boa vontade as leva a cair numa armadilha porque estão a trabalhar para aquilo que não desejam: tomar o Bloco um partido institucional, que amanhã será chamado a apoiar um governo PS, fazendo o seu discurso de esquerda mas abandonando e mesmo opondo-se à mobilização independente dos trabalhadores.

E não é só com o Bloco. Nos últimos anos, com os subsídios e apoios financeiros a toda a espécie de iniciativas, o sistema tem conseguido domesticar muita gente de esquerda que está ansiosa por fazer qualquer coisa e acaba por se agachar para não perder o direito ao subsídio. Deves conhecer aí casos destes.

Julgo que conheces a folha “Voz do Trabalho”, de que temos transcrito alguns artigos na PO. Tem custado a tomar balanço mas esperamos que se aguente e enraíze. Tem boa venda sobretudo na Margem Sul do Tejo, em algumas grandes empresas. Vou pedir que te mandem o n° 5, que está para sair, e seria bom se fizesses circular entre gente tua conhecida e também enviares para lá algumas notícias de empresas de Coimbra, ou recortes de jornais, como fazes para a PO.

Mando-te o último número que recebemos do jornal “Abrente” dos camaradas galegos, para fazeres uma ideia do estilo deles. Eles são pelo menos bastante activos. Agora nos dias 13-15 Fevereiro há lá uma Cimeira dos ministros da União Europeia sobre a “segurança” e eles promovem uma Contracimeira com debates, manifestações, etc. Vão lá intervir dois camaradas nossos.

E tudo por agora, um abraço, até breve.

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[1] Referendo sobre a regionalização. (Nota de AB)

Cartas a AV – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a AV (11)

6/11/1991

Caro Camarada:

 Com as informações que mandaste nas tuas duas últimas cartas compus uma correspondência a sair no próximo número sobre o fecho das fábricas têxteis. Vamos ter um dossiê razoável so­bre a crise têxtil: entrevista com um operário de lanifícios da Covilhã, entrevista com operárias que ocupam uma fábrica em São Mamede de Infesta, comentário sobre as negociações entre os sindicatos e os industriais no Vale do Ave.

Se tiveres mais alguma coisa interessante com vistas ao próximo número podes enviar até dia 22-23 o mais tardar. A AB e outros camaradas da P.O. estiveram aí na 6ª feira a debater com alguns estudantes as hipóteses de for­marem um núcleo do MAR em Coimbra, seguiram logo para o Porto e não chegaram a contactar-te. É possível que no fim deste mês vão aí de novo e se for fim- de-semana e estiveres em casa poderiam encon­trar-se, não? Há algumas perspectivas de alarga­mento do MAR e bom preciso é, porque a questão do racismo vai ficar quente. Um abraço

 Carta a AV (12)

11/12/1991

Caro Camarada:

 Deves receber por estes dias a PO 32. Traz o teu nome na ficha técnica como colaborador. Só por distracção não te falei no assunto quando nos vimos no Rossio, na manifestação sobre Timor, pelo que peço me desculpes. Julgo que não tens objecção porque na realidade já há bastante tempo és colaborador da revista, Esperamos que continues e intensifiques o envio de notícias, comentários ou recortes, para nos ajudar a tornar a revista mais variada e interessante. Recebemos a tua corta com diversos recortes.

MAR – O lançamento do livro da Ana foi um êxito, com muita gente presente e debate sobre o colonialismo. Veremos o que diz a imprensa, a Ana foi entrevistada pelo Público e TSF, mas não sei se não haverá boicote. No próximo sábado dia 14 há um debate do MAR no Grémio Operário de Coimbra. O JH, activista do MAR em Coimbra, ficou de te contactar. Será importante ires lá. Alguns de nós iremos aqui de Lisboa.

Por agora é tudo. Um abraço

 Carta a AV (13)

11/2/1992

Caro Camarada:

 Já tenho várias cartas tuas a que não respondi, espero que me desculpes. Agora com a PO pronta (sai amanhã) estou a pôr a correspondência em dia. As tuas últimas notícias laborais não vieram a tempo de meter na revista. Manda sempre que possas. Sobre a questão dos professores, talvez pudesses mandar um comentário mais desenvolvido para o próximo número, que fecha na terceira semana de Março. Tu agora estás por dentro da questão. E quanto a entrevistas, não nos sugeres ninguém para o próximo número?

(…)

A Ana foi entrevistada pela televisão no dia 4/2, não sei se viste e esteve numa sessão no Porto, no mesmo dia, para apresentação do livro, apareceu bastante gente e foi entrevistada por três rádios locais. De Espanha, já pediram 20 exemplares do livro e para o Brasil também seguiu. Agora anda-se a combinar uma reunião no Norte do país a que se espera que venham gale­gos, para impulsionar a propaganda contra os 500 anos.

Então e o que me dizes do sucesso” do Cavaco? Julgo que as condições de vida vão apertar para muita gente e talvez o ambiente mude um bocado, bem precisamos.

(…)

Manda sempre notícias. Um abraço

Carta a AV (14)

15/4/1992

Caro Camarada:

 Espero que já tenhas recebido a P.O. 34 e que te tenha agradado. Publicámos como artigo o texto que mandaste sobre os professores porque nos pareceu interessante e veio a propósito dos últimos acontecimentos na área do ensino. Ajeitei-o um pouco mas penso que náo alterei nada do que escreveste. Diz o que te pareceu.

Vais ser delegado ao congresso da Fenprof do próximo mês? Seria interessante se fizesses um artigo para a próxima P.O. sobre as decisões do congresso, luta de tendências, etc., assim como as reacções dos professores às promessas do governo. Desde que chegasse à nossa mão até 20 de Maio, ainda vinha a tempo. O mesmo quanto à situação na União dos Sindicatos de Coimbra, de que falas na última carta. Tens algumas sugestões para o sumário do próximo número?

As nossas actividades vão reduzidas, como deves calcular. Participámos na manifestação da CGTP de 21 de Março, com uma faixa em defesa dos trabalhadores imigrantes africanos. A manifestação foi a mais fraca que eu até hoje vi, o Rossio estava quase vazio. As pessoas estão descontentes com os agravamentos dos preços mas não esperam nada dos sindicatos nem dos partidos.

Mando junto uns postais de propaganda do MAR, pagas quando vieres cá ou tiveres alguma coisa para enviar, é 100$00 a colecção. O livro da Ana está esgotado, está a ser feita edição, até agora rendeu uns 220 contos para o MAR. Tem-se discutido a possibilidade de comemorar o primeiro aniversário do MAR com um encontro-acampamento em 6/7 de Junho, em Guimarães, na quinta do TF. Será oportunidade para conviver e debater ideias. Pensa-se convidar uns galegos que pertencem a uma comissão de propaganda contra o V Centenário. Será que te interessaria (e à tua companheira)? Podiam levar o miúdo, numa boa. Diz depois alguma coisa. Quanto ao grupo “Contra-a-Corrente” do Porto, a Ana e outros camaradas do MAR já estiveram numa iniciativa deles e propuseram colaboração. Também lhes enviamos o boletim do MAR. Veremos se surgem condições para fazer alguma coisa em conjunto.

Por agora é tudo. Um abraço e fico à espera de notícias.

 Carta a AV (15)

21/5/1992

Caro Camarada:

 Não sei se recebeste a minha carta de 15 de Abril. Como estamos a fechar a P.O., preciso de saber com alguma urgência se vais mandar alguma colaboração, particularmente sobre o congresso dos professores. Foste delegado ao congresso? Deve haver coisas para contar. Peço que envies rapidamente o que tiveres, ou que mandes dizer que não há nada da tua parte desta vez, para distribuirmos os materiais.

Fizemos uma boa confraternização no 1º de Maio, na esplanada onde já estiveste uma vez. O MAR cá continua. Deves estar a receber por estes dias o boletim nº 4. Houve um debate na Universidade Lusíada em que a Ana se pegou com o Prof. Borges de Macedo, foi interessante. Vamos amanhã a uma sessão em Alcácer do Sal. O plano do acampamento em Guimarães de que te falava é que teve que ser adiado, porque o local não estará disponível no 10 de Junho.

Sem outro assunto por agora, fico à espera de notícias tuas. Um abraço.

Carta a AV (16)

7/6/1992

Caro Camarada:

Aproveitámos uma série de informações da tua carta para a P.O. n° 40, que sai dentro de uma semana. Estive no Porto no 25 de Abril, a convite da “Inquietação”, para um debate e lá restabeleci contacto com o grupo “Contra-a-Corrente” e recebi o último boletim deles, de que te mando cópia, visto teres mostrado interesse. O debate correu bem, com interesse, embora as ideias dominantes me pareçam altamente derrotistas. Falo disso num artigo que escrevi para a P.O. A festa na Associação de Moradores de Vilar foi animada e notei sobretudo a grande participação de jovens. Mando-te também folhas duma revista francesa sobre questões de ensino, que poderá ter alguma coisa interessante para as tuas actividades sindicais.

A partir de agora, fazemos a pausa de férias habitual e voltaremos com uma nova série em Outubro. Contamos como sempre com a tua colaboração e críticas. Um outro pedido que vamos mandar pelo correio a todos os assinantes e amigos: poderás tu indicar-nos dois ou três nomes e moradas de pessoas possivelmente interessadas em assinar a P.O. para nós lhes escrevermos a fazer proposta?

Se pensares vir a Lisboa, avisa para nos encontrarmos e trocar ideias. Um abraço.

 Carta a AV (17)

23/8/1992

Como está tudo a correr desde o nosso encontro na Bica? Foi um encontro frustrante e eu senti-me responsável por te ter dado falsas perspectivas, mas também fui iludido pela ideia que o MM deu, dum encontro muito amplo e com debate. Afinal, foi tudo mal organizado e o debate nenhum, o que é reflexo das desgraças em que se arrasta a esquerda.

Nós cá estamos a tomar balanço para mais um ano de revista, que desejaríamos fosse mais acutilante, se possível, e mais conhecida do público. Fazemos uma reunião de redacção no domingo 12 de Setembro, à tarde, e se por acaso te calhasse vires a Lisboa ficas desde já convidado. De qualquer modo, quero-te pedir que envies notícias e comentários actualizados sobre a região para o próximo número, até 25 de Setembro, o mais tardar. Se estiveres com pachorra para uma Carta das Beiras, melhor; se não, mesmo informações dispersas sobre a situação nas fábricas, crise da agricultura, lutas na CGTP, etc. Vou ver se ainda se aproveitam algumas das notícias que mandaste na última carta e que chegou já depois da P.O. estar feita, mas a maioria deve estar desactualizada.

Por agora é tudo. Um abraço e desejos de bom trabalho.

 Carta a AV (18)

8/12/1993

 Caro Camarada:

 Espero que tudo corra bem no teu novo “desterro”. Supomos que vais frequentemente a casa e por isso é para aí que continuamos a escrever. Da tua longa carta, extraímos um artigo sobre o Baixo Alentejo. Tomámos em conta as outras considerações que fazes. Nomeadamente, a sugestão quanto a uma candidatura revolucionária ao Parlamento Europeu, embora não tenhamos contactos internacionais que nos permitam pensar numa candidatura conjunta, propomos (na carta-resposta ao MM) a cooperação das forças de esquerda do nosso país para uma candidatura, repetindo a experiência que há anos resultou tão mal com a FER, mas que poderia agora resultar se houvesse mais gente interessada. Temos as nossas dúvidas mas a proposta fica lançada, assim como as outras que verás na carta (a P.O. deve estar a sair da tipografia por estes dias).

A discussão de 7 de Novembro foi interessante e participada, pelo que teve que continuar na semana seguinte. Debateu-se basicamente o artigo sobre o cavaquismo e os seus apoios sociais. Sai na P.O. 42 como o artigo principal. O tema está longe de esgotado e planeamos continuar a discutir outros aspectos da luta de classes nacional, com vista mais artigos em futuros números da revista.

Aqui, de novo apenas um convite que recebemos, a Ana Barradas e eu, para intervirmos numa semana de debates sobre o centenário de Mao, realizada pela Biblioteca-Museu da Resistência, organismo dependente da Câmara de Lisboa. Outros participantes (em dias diferentes!) são o Arnaldo Matos, Pacheco Pereira e Pedro Baptista (ex-OCMLP). Pelo menos, estão convidados. Decidimos aceitar, embora o público seja restrito, para valorizar o Mao revolucionário e fazer fogo contra a bronca ironia com que os tipos do PS e PC falam da revolução chinesa, como se fosse uma anedota. Mando-te um convite.

Em relação à preparação do próximo número, ficamos à espera do que nos possas enviar, relativo ao Alentejo, ao movimento dos professores ou a outros temas. Tu decidirás. Convém-nos receber até 20 de Janeiro, o mais tardar. Abraços e desejos de bom começo de ano.

Carta a AV (20)

8/2/1994

 Caro Camarada:

 A P.O. 43 está na tipografia e aproveito para pôr a correspondência em dia. Metemos a teu artigo sobre a situação sindical dos professores mas teve que ser resumido. Também incluímos na correspondência uma passagem da tua carta sobre o Alentejo. As colaborações, felizmente, têm aumentado e temos que fazer cortes para caber tudo. Se quiseres mandar-nos algo para o nº 44, aponta para 15 de Março como limite, certo?

Houve recentemente umas oportunidades de intervenção pública. Falei na série de palestras do Museu República e Resistência (Dezembro) sobre o maoísmo em Portugal. Estava bastante gente, interessada, e as perguntas e respostas prolongaram-se por um bom bocado. No dia seguinte, falou a Ana sobre a revolução chinesa e a mulher, também com bastante interesse. Noutros dias falou o Arnaldo, o Pacheco Pereira (PSD) e o Pedro Baptista (hoje plataformista). Há dias estive noutro debate no Porto, organizado pela Amnistia Internacional, sobre a Democracia, com o Mário Brochado Coelho e uma professora Helena Vilaça. Houve bastante controvérsia e estive entretido a deitar abaixo as bacoradas “pós-modemistas” do rapaz da Amnistia e a falar para espectadores embasbacados sobre a luta de classes e a ditadura da burguesia. Muito estimulante. Quanto ao debate na RTP1 sobre Mao, como creio que já te disse, recusei participar e acho que fiz bem porque só faltava mandarem-me pôr de gatas para ter direito à palavra. Os nossos amigos Louçã, Arnaldo e Baptista é que não se importaram e lá estiveram a palestrar. Falo nisso na P.O., tu verás.

20º aniversário do 25 de Abril – Todos os estados-maiores partidários afiam o dente para capitalizar aquilo que lhes convém da data. Entre nós, temos andado a debater a possibilidade da edição de um livro (que inaugurará as edições Dinossauro), que coleccione depoimentos, artigos e materiais diversos, no sentido de mostrar à nova geração que os 19 meses da “bagunça” foram os mais criadores da nossa história moderna e de contrastar as iniciativas avançadas desse período com a pasmaceira derrotada em que hoje vivemos. Será que podes dar a tua colaboração a esta ideia, com materiais originais ou outros já anteriormente editados e que tivesse interesse dar a conhecer? Será que nos podes indicar pistas, nomes a contactar, dar sugestões de trabalho, etc.? Podes enviar dados para a cronologia e a bibliografia? O problema aqui vai ser a escassez do tempo para coligir os materiais e pôr o livro na rua até ao 25 de Abril. Responde rapidamente, por favor, para sabermos se podemos contar com algo da tua parte.[1]

Também recebemos a notícia da dissolução do MLP dos EUA. Não nos surpreendeu muito porque um dos elementos que cá esteve de visita no ano passado já nos tinha dado a entender que poderiam seguir esse caminho. Poucos dias depois, veio um outro documento do núcleo de Chicago fazendo várias críticas à dissolução e afirmando-se decidido a continuar a actividade e a editar uma revista de debate. Agora, acabamos de receber essa revista. Suponho que te irão mandar para ti também mas se por acaso não receberes poderemos tirar fotocópias. Vamos estudá-la e possivelmente fazer um comentário na próxima P.O.

Por agora é tudo. Um abraço.

 Carta a AV (21)

30/11/1994

Caro Camarada:

:Foi bom ter notícias tuas, após um intervalo tão grande. Espero que esteja tudo a correr bem. Aproveitámos a notícia sobre a fábrica Empele, que sai nas Breves no nº 47 da P.O., deve estar impresso para a semana. Agora que estás colocado numa zona mais industrial, tenho esperança que nos mandes para a próxima P.O. algumas notícias de questões laborais, recortes da imprensa local, etc. Ao que sei, existe em Sines uma certa actividade cultural em tomo da Biblioteca e algumas pessoas interessantes, reunidas em volta do Al Berto no centro cultural Emmerico Nunes, mesmo ao pé do forte. Conta-nos o que descobrires. Soubemos pelos jornais que tem estado a haver uma greve importante aí. Esperamos receber relato e comentários teus a respeito, de preferência com fotos.

Se vieres a Lisboa, não deixes de nos contactar, para irmos beber um copo. As nossas actividades continuam, bastante restritas mas sempre com o mesmo ânimo. Agora, que vem aí um ano político agitado, de guerra anticavaquista, vamos poder unir-nos todos com o Dr. Cunhal, o Dr. Soares, o Dr. Guterres, o dr. Sampaio, o major Tomé, e todos juntos pôr a oposição democrática no Poder. Atenção, estou a brincar!

 Um abraço para ti e cumprimentos para a tua companheira.

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[1] AAVV, “O Futuro Era Agora”, Edições Dinossauro, 1994. (Nota de AB)

A ruptura com o PCP em 1964-1965 (1)

Francisco Martins Rodrigues

A ruptura com o PCP em 1964-1965 (1)

Duas linhas opostas na luta contra a ditadura de Salazar

Este texto recupera um conjunto de artigos escritos quando do meu abandono do PCP cm 1963, já lá vão 40 anos. Editados no ano seguinte em Paris, na revista Revolução Popular, do Comité Marxista-Leninista Português (à excepção do primeiro, publicado cm panfleto nos finais de 1963), há muito esquecidos, tiveram contudo na altura, apesar da circulação reduzida, uma influência indiscutível nos meios mais radicalizados da resistência, sobretudo entre a juventude. Basicamente, abriram a discussão sobre qual deveria ser a política comunista para o derrubamento da ditadura fascista, quando o início das guerras coloniais anunciava a crise final desta.

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Informe à 3ª Assembleia da OCPO

Francisco Martins Rodrigues

  1. Forças escassas, grandes tarefas

Desde a ruptura com o PC(R) tornou-se evidente a desproporção entre as metas que fixámos à OCPO e as forças reais de que dispú­nhamos: elaborar um programa comunista — mas com que prepara­ção teórica? ganhar raízes na vanguarda operária — mas onde estão os militantes capacitados para isso? fazer um largo trabalho de agitação e propaganda — mas que é dos meios técnicos e financeiros?

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Carta aos militantes do PC(R)

Francisco Martins Rodrigues

Carta aos militantes do PC(R)

Camarada,

Já deves ter conhecimento de que um conjunto de militantes comunistas decidiram, em assembleia realizada no início de Março, constituir um agrupamento comunista. Esta iniciativa vem no seguimento do corte que esses militantes fi­zeram com o PC(R) nos finais do ano de 84. Continuar a ler