Carta de João Pulido Valente ao CMLP

João Pulido Valente

Carta ao CMLP

 

3/8/1966

Caros Amigos

Só agora tive oportunidade de contactar com vocês. Há aproximadamente um mês que fui transferido para Caxias. Durante esse tempo inteirei-me do comportamento perante a polícia de todos os camaradas presos, tendo actualmente um conhecimento profundo do comportamento dos camaradas mais responsáveis.

Ainda não chegou ao nosso conhecimento nenhum documento publicado por vocês. Consta-nos no entanto que saiu um em que eram expulsos Chico e Rui e estes eram acusados de traição. Também nos consta que X foi nomeado secretário geral.

Todo o caso dos maus portes da maioria dos camaradas presos e muito em especial o de Chico vieram abalar muito o prestígio da corrente m-l e da FAP. Devemos no entanto manter a serenidade. A ser verdade o que nos consta, considero precipitadas as expulsões públicas e profundamente errado chamarem-se-lhes traidores. A fraqueza de Chico perante a polícia (só a este me refiro por ser o caso de maiores repercussões) tem muitas atenuantes, que só no futuro poderemos avaliar cabalmente. Temos de ter sempre presente que a maioria dos presos e organizações que atacaram Chico pretendem atingir a corrente revolucionária portuguesa. Os nossos inimigos são muitos (“democratas”, revisionistas, trotskistas, PIDE) que não olham a meios para atingir os seus fins. (A maioria dos autos de Chico, assim como de outros camaradas, foram forjados). É preciso que vocês não se deixem iludir e que não façam o jogo do inimigo. Ao tomarem uma decisão devem sempre ter em conta que o que está acima de tudo são os interesses do movimento e não pequeninos ódios e questões de prestígio pessoal.

Sabemos que anteriormente à minha chegada aqui os amigos tinham pedido para vocês prepararem o nosso julgamento fazendo vir a Lisboa juristas estrangeiros, que este pedido foi não só recusado como escarnecido, tendo vocês tido se queríamos “televisão e radiodifusão”. Francamente, esta atitude deixa-me pelo menos perplexo.

Também soube que recusaram aceitar qualquer colaboração dos camaradas que fraquejaram na polícia. Esta atitude é errada, pecando pelo menos de idealismo extremo. Saberão os amigos que a revolução se não faz com santos mas sim homens de carne e osso, crivados de defeitos e fraquezas que herdamos da sociedade em que vivemos? Saberão os amigos da extrema carência de quadros que enfrenta a corrente m-l portuguesa? Pergunto mais se na avaliação do camarada Chico se serviram só de informações vagas ou concretas que lhes vieram parar às mãos, mas que apesar de partir de uma base real, foram aumentadas, falseadas e deturpadas. Ou se entraram linha de conta com todo o seu passado e presente. Chico foi o primeiro a fazer a sua total autocrítica, sem nenhuma complacência por si próprio. É ele ainda que já conseguiu combater o derrotismo dos outros amigos, organizá-los para o trabalho político e para a luta ideológica, o que levou a ser nossa (Chico não pertence) a direcção prisional de Caxias e ter atrás de nós a maioria (quase totalidade) dos membros do Partido revisionista. Não estarão os amigos a errar o alvo? Enquanto alcunham de traidores os camaradas que fraquejaram, fazendo coro com os nossos inimigos, não seria mais correcto atacar como traidores os dirigentes revisionistas que, calma, fria e conscientemente traem o proletariado e que, calma, fria e conscientemente denunciam no Avante membros da FAP na clandestinidade? Camaradas, queria terminar este assunto que já vai longo mas não está esgotado, por uma afirmação que talvez vos escandalize. Apesar dos graves prejuízos causados à nossa organização (o que não deve ser esquecido) considero o camarada Chico de longe o primeiro revolucionário português. Ao dizê-lo levo em conta todo o seu passado e o muito que o povo português já lhe deve e o muito que ainda tem a esperar dele. Julgo-me “especialmente” autorizado a fazê-lo pois que o meu comportamento na polícia permite que eu não possa ser suspeito, ao não hipervalorizar nem hipertrofiar esse facto ma avaliação de um revolucionário.  O comportamento na polícia, para toda a gente, e para um dirigente em especial, é um facto de inegável importância. Mas está longe de ser tudo. Julgo que as “críticas” feitas a Chico são ainda fruto de idealismo. Muitos dos camaradas, ao reconhecerem nele qualidades invulgares, criaram um mito, forjaram um Deus, e não resistiram a ver o seu Deus falhar.  Como o seu mito não era Deus, tinha de ser Demónio, não admitiram meio termo. Chico não era um Deus, não é um Demónio, era, foi e será um grande revolucionário, mas um homem, sujeito a falhar.

A ser verdade que o camarada X foi nomeado secretário geral, gostaríamos de saber as razões invocadas para se justificar a criação do cargo. No tempo em que não tinha havido prisões, julgámos todos nós que esse cargo se não justificava, apesar de um de nós sobressair de entre todos pelo seu passado e qualidades. Hoje que não existe ninguém nessa situação, julgo que não se justifica a criação do cargo. Julgo que na actual situação (que provavelmente é ainda pior do que a imagino) a criação do cargo de secretário geral não proporcionará o melhor meio de garantir uma direcção do movimento.

Passo a fazer algumas sugestões e pedidos:

  • Encarar os maus portes sem desprezo e sensatez, devem evitar-se expulsões públicas que prejudica, ainda mais o movimento.
  • Não se deve deixar dissolver a FAP ainda que atravesse período de estagnação. Não se deve abandonar o nome que se tornou conhecido.
  • Dadas as derrotas que sofremos e a falta de quadros, aconselhamos que se faça um recuo no campo político e que se mantena no exterior o trabalho ideológico e as publicações, preparação de quadros, etc. Ser pacientes, a precipitação fez-nos recuar e novas precipitações poderiam fazer-nos recuar mais ainda. Em resumo, antes de um novo avanço, temos que superar a crise actual, consolidar o que temos.
  • Procurar todos os meios para fazer as nossas publicações entrarem no interior do país.
  • Fazemos todo o possível para enviar artigos colectivos por nós elaborados para a direcção do exterior ver o que têm de aproveitável. Esta colaboração deve ser considerada não individual, mas do conjunto dos camaradas presos.
  • Pedimos que façam todos os esforços para manter ligação connosco e nos façam cehgar regularmente a imprensa e informações, etc.
  • Procurar o apoio do movimento m-l internacional.
  • Estar sempre atento para evitar lutas internas, para não cairmos numa espécie de clube de maledicência, tipo das muitas organizações trotskistas existentes.
  • Propomos (insistentemente) a reintegração de Manuel Claro na FAP, no cargo que anteriormente ocupava.
  • Vários núcleos de amigos existentes no interior estão em vias de trabalho regular e organizado (publicações, etc.) que posteriormente serão ligados.

Saudações comunistas do camarada

João Pulido Valente

 

One thought on “Carta de João Pulido Valente ao CMLP

  1. Obrigado Ana por esta homenagem ao nosso Chico. Acabei agora também de ler carta do João ao CMLP de 3/8/66, que desconhecia completamente e que me vem dar um grande alento. Foi sempre essa a minha opinião quanto ao problema do “porte” do Chico e de outros antigos dirigentes presos. Gostaria de ter visto alguns títeres dos que os “expulsaram” se tivessem passado por um milésimo do que eles passaram. Ângelo Santana Barreto (Ortigão)

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