RELATÓRIO AO CMLP

Francisco Martins Rodrigues

RELATÓRIO AO CMLP[i]

(s. d.)

Como não sei se foram recebidos os dois relatórios anteriores, repito a descrição do meu porte na PIDE, procurando ser o mais completo possível.

Fui preso no dia 30 de Janeiro às 21 horas, em frente da igreja de Santa Isabel, quando acabava de me encontrar com o engenheiro Acácio. (Ilegível) de que a minha prisão foi casual: a PIDE, que vigiava a casa onde vivia minha mulher (pois supunha que eu ia a essa casa), tinha resolvido prendê-la nessa noite e tinha o bairro cercado. Suspeitaram de mim quando me encontrei com Acácio e prenderam-me à sorte. Cometi um erro gravíssimo ao marcar o encontro nessa zona, provocando assim a minha ilegível). Gritei o meu nome. No carro, consegui desfazer-me de alguns papéis, distraindo os pides com gritos, mas não pude desfazer-me de um envelope que trazia no bolso com apontamentos de organização muito inconvenientes (trazia-os comigo porque estava em más condições de casa). Ao chegar à sede, fui despido e revistado. Recusei-me a dar o nome. Espancado por um grupo de pides, fiquei a sangrar do rosto. Levaram-me para os gabinetes e começaram imediatamente o sono.[ii] No dia seguinte, levaram-me às fotografias: não preenchi a ficha de identificação. Mortágua e Inácio Afonso[iii] começaram (ilegível). Nada respondi. Ao terceiro dia, levei uma forte sova de Mortágua e de outro pide, a soco e pontapé; não respondi nada, À noite, veio do director da PIDE oferecer-me libertação. Saccheti garantia que ou eu falava ou me matavam num descampado.

Pelo quarto dia, comecei a ter as perturbações habituais (alucinações visuais e auditivas) mas estava bem disposto. Era guardado alternadamente por um pide “bom” e por um pide que espancava, dava pontapés, apertava os dedos, atirava-me contra as paredes, etc. Fizeram a cena dos gritos horríveis de mulher.

Por esta altura, sob efeito da bebedeira do sono, comecei a conversar largamente com os pides “bons”, que puxavam conversa: discutia política e religião, a URSS, a China; por instinto, não falava de assuntos de organização mas ia perdendo a consciência nítida do que se passava. Comecei a ter períodos prolongados de delírio, em que perdia a noção de onde estava. Os espancamentos continuaram, alternados com conversa, Ao 8º dia (6 de Fevereiro) comecei a contar espontaneamente, em conversa com o pide, a morte do Mateus (que a PIDE já conhecia pelos camaradas presos antes). À noite, Saccheti trouxe-me um auto descrevendo pormenorizadamente o caso e mencionando Rui, Figueiredo, Saul, Pulido, Catanho. Assinei o auto sem resistência. Perguntaram-me então onde tinha (ilegível) funcionavam imperfeitamente; contudo, tinha ainda o reflexo de recusar denunciar; quando Saccheti me veio oferecer libertação em troca de traição completa, respondi-lhe a rir que fraquejara e sabia que estava arrumado politicamente por ter assinado o auto, mas que nunca denunciaria camaradas.

Com os pides “bons” falava e conversava sem cessar sobre assuntos gerais: como era Pequim (foi assim que souberam que tinha estado na China), a revolução popular em Portugal, etc; às perguntas sobre CMLP, FAP e Partido revisionista não respondia. Penso que não estava desmoralizado, mas sim sob o efeito da bebedeira do sono e possivelmente de droga que me pusessem na comida (?).

Pelo 7º dia, começaram a moer-me para saber duma mala com uma espingarda que e teria recebido. Neguei. Quando estava com um pide “bom”, pedi-lhe para ir entregar a minha mãe um bilhete em que lhe pedia para ir saber da mala. O bilhete, escrito em delírio, estava ilegível e não devia ter nada prejudicial, mas, num lampejo de consciência, tirei-o das mãos do pide e rasguei-o. Continuaram a insistir sobre a mala, espancando-me durante uma noite. No dia seguinte (?) fiz outro bilhete ilegível pedindo a M.H.A. que entregasse uma mala de roupa minha que ficara em sua casa (pensava assim mostrar aos pides que não tinha a espingarda). Depois disse ao pide que fosse ao emprego da M.H.A. levar-lhe o bilhete, mostrando-lhe a morada do emprego na lista telefónica. Naquele momento, acreditava que o pide era porreiro (convidei-o a dar-me a fuga a troco de dinheiro, ensinei-lhe o hino de Caxias,[iv] etc.). O meu raciocínio funcionava imperfeitamente e tinha longos períodos de delírio em que desconhecia onde estava. Adormecia constantemente a andar. Batia contra as paredes e mantinham-me acordado à bofetada. Pela 10º dia (suponho que a 18 de Fevereiro) Mortágua apareceu-me com os apontamentos do envelope que tinham apanhado e disse com bom modo: “Vamos lá decifrar isto”. Sentei-me e comecei a decifrar os apontamentos sem resistência, sem sentir qualquer escrúpulo ou horror, num embrutecimento total, obedecendo qo que me mandavam fazer. Caía a dormir sobre a mesa enquanto falava mas refrescavam-me com água e com cigarros. Desses apontamentos alguns eram muito maus e já os devia ter destruído: havia um papel que trouxera de França com indicações de pessoas em perspectiva para abordar, credenciais, a cifra e o código para as cartas, e onde apontara também os novos pseudónimos dos membros do CMLP no exterior e os bilhetes de identidade e passaportes depositados em Alain Oulman. Decifrei praticamente todo esse papel, excepto as coisas que de momento não recordava. Decifrei também outros apontamentos de organização e balancetes que estavam no envelope; não descrevia as actividades dos camaradas, mas ia dizendo os nomes que correspondiam aos pseudónimos (…).

Não me lembro de ter qualquer noção de que estava a entregar pessoas à PIDE ou de pensar em falar tudo para me deixarem, ou qualquer coisa semelhante. Quando acabei os papéis, deixaram-me dormir. Dormi uns quatro dias, só com o intervalo das refeições. Desta vez, não retomei logo consciência claro do que fizera; estava num esgotamento total, numa indiferença completa, só queria era dormir. Pouco a pouco, os pés e as pernas começaram a desinchar, comecei a ser capaz de falar (no princípio não articulava as palavras) e comecei a medir o que fizera. A cada passo, duvidava se teria realmente falado, se seria um sonho, não percebia o que me acontecera. Sofri um abalo enorme e não fui capaz de retomar imediatamente a firmeza inicial: aos interrogatório que me vinham fazer, confirmava aquilo que via que eles sabiam já (actividades de Rui, Capilé, Saul), as outras coisas atribuía-as a mim próprio (tipografia em minha casa, prelo recebido por mim, documentos falsificados por mim, etc.). Assinei antes descrevendo essas actividades, mas recusei assinar quaisquer referências em auto a pessoas que não estavam presas ou que eu julgava não estarem presas; recusei assim assinar um auto que mencionava Alain Oulman. Levaram-me e fizeram outro que assinei. Nunca me apresentaram nenhum auto com a lista dos nomes, actividades de (…), nomes dos camaradas no estrangeiro. Tudo isso foi intercalado num dos autos sem meu conhecimento, como já expliquei. Além disso, um dos autos tinha data anterior àquela em que o assinei; embora protestasse contra isso, assinei.

Embora deixando-me dormir, mantiveram-me no gabinete da sede e interrogavam-me frequentemente sobre os papéis apanhados: ou dizia que as coisas tinham sido feitas por mim, ou que não me lembrava; das pessoas cujos nomes decifraria, dizia que não tinham nenhuma actividade. Saccheti veio interrogar-me sobre a minha actividade no Partido revisionista, trouxe-me uma fotografia de um funcionário para ver se eu o reconhecia, mas a tudo dizia que não me lembrava. Fui esbofeteado uma vez por Inácio Afonso mas não me espancavam e deixavam-me dormir. Como eu estava esgotado e tinha ainda dificuldade em falar, deram-me um remédio qualquer. Assinei neste período três ou quatro autos descrevendo actividades (…), rubriquei papéis apreendidos. (Ilegível), queriam saber se recebíamos dinheiro dos chineses, mas neguei. Ainda nesse período veio a Judiciária interrogar-me à sede da PIDE. Fiz nova descrição da morte do Mateus, provocando chamar a mim a responsabilidade e descarregar Rui e desmenti o que constava no auto da PIDE sobre a colaboração de Catanho. Teria sido fácil recusar prestar declarações à Judiciária e recusar assinar o auto mas pareceu-me ridículo fazê-lo depois de ter falado à PIDE; além disso, supus que poderia assim aliviar a carga de Rui.

No dia 8 de Março, 40 dias depois de ter sido preso, fui levado para um quarto no Reduto Norte de Caxias, onde me puseram junto com um elemento do assalto ao banco da Amadora. (Ilegível) sobre o que se passara, (Ilegível) os prejuízos que causara, e não vi outro caminho senão lutar o mais possível a favor da causa revolucionária, não para me reabilitar pessoalmente, mas para desfazer um pouco o mal que fiz; pensei que entregando-me ao desespero acabaria de me aniquilar, o que no fim de contas só convém ao inimigo.

Neste período em que estive no quarto (8 d Março a 12 de Abril) fui duas vezes à PIDE, uma para ser interrogado sobre (…). Recusei responder e neguei actividades que lhe atribuíam, outra para rubricar papéis apreendidos, o que fiz.

A 12 de Abril fui transferido para o Reduto Sul; fui levado com Rui à reconstituição da morte do Mateus, o que recusámos fazer, denunciando as torturas da PIDE, e ainda mais uma vez à PIDE, para perguntarem sobre (…), o que recusei responder, assim como a assinar auto.

Penso que o relatório fala por si e não quero diminuir a gravidade do meu porte. Apenas vejo interesse em acrescentar o seguinte: nunca tinha estado no sono nas prisões anteriores e ignorava que a minha resistência à tortura do sono fosse tão pequena. Julgo que esta falta de resistência estará ligada ao facto de ter dois irmãos que são doentes mentais incuráveis e um outro que sofria perturbações mentais; é possível que a minha constituição nervosa e mental seja mais fraca que a média, embora eu nunca sofresse de perturbações mentais. Quero tornar bem claro que não procuro desculpar o meu mau, nem digo que falei em estado de loucura ou delírio; quando falei, sabia o que dizia, mas não tinha raciocínio para ver as consequências, nem vontade para me opor à PIDE. Continuo a afirmar que só em Maio, através de advogado, soube que um dos meus autos trazia uma lista de nomes (decifrados e de outros camaradas já presos); li a cópia do auto e afirmo categoricamente que só vi o princípio e o fim quando assinei e que as folhas interiores foram intercaladas mais tarde pela PIDE, que falsificou a minha rubrica; o auto com data de 30/1 que agora aparece também não foi nunca assinado por mim. Sei que não me acreditarão, mas só posso dizer a verdade.

Quanto à minha falta de resistência à tortura do sono, que é um facto, não me tira nenhuma parcela da minha responsabilidade pelo que fiz. Quando, logo nos primeiros dias, comecei a delirar, devia ter feito o possível para interromper a tortura, deixando de comer, gritando ou mesmo suicidando-me, para ter a certeza de que não falaria em estado de embrutecimento. Sobretudo depois da primeira sessão de tortura do sono e de ter constatado a minha incapacidade de resistência, foi uma falta imperdoável ter-me sujeitado a nova sessão de privação de sono, quando era de prever o resultado; em vez de tentar impedir a tortura por quaisquer meios, deixei-me ir, na convicção de que resistiria. Essa inércia, no momento em que se jogavam coisas tão importantes, mostrou que eu não tinha têmpera de comunista. Também foi uma falta grave minha nunca ter discutido com os camaradas os problemas mentais dos meus irmãos, o que, considerando que eu nunca tinha sido verdadeiramente posto à prova na PIDE, teria talvez levado a tomar outros cuidados de defesa, não me dando tudo a conhecer. Como já há muitos anos andava na actividade e já fora várias vezes preso, acabei por não dar importância aos problemas mentais, o que também foi uma prova de falta de consciência comunista e falta de responsabilidade.

A minha expulsão é completamente justa. Quando a compararem-me com o Verdial, acho que é fácil ver a diferença entre um caso e o outro. Nunca em momento nenhum colaborei conscientemente e voluntariamente com o inimigo. Quando, já depois de ter falado, o Saccheti me ofereceu passaporte e passagem para o Brasil, para mim e para minha mulher, recusei, sabendo que não podia já evitar nem a pesada condenação nem a expulsão como traidor. Sou um elemento fraco, que não deveria ter tido tão grandes responsabilidades, mas traidor não sou. Apesar do que fiz, espero ainda poder acabar a vida como comunista.

Saudações

——–

[i] , Para o CMLP, provavelmente nos primeiros meses de 1966. (Nota de AB)

[ii] A tortura do sono. . (Nota de AB)

[iii] Agentes da PIDE.  Inácio Afonso gabava-se de vários feitos ao dizer para os presos “com estas mãos matei 40”, segundo depoimento de Zeca Afonso EMtributozecaafonso.blogspot.com/2017/. (Nota de AB)

03/4-de-outubro-de-1971.html. (Nota de AB)

[iv] Hino dos presos da cadeia de Caxias: “Longos corredores nas trevas percorremos / sob o olhar feroz dos carcereiros / mas nem a luz dos olhos que perdemos / nos faz perder a fé nos companheiros”. (Nota de AB)

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