Carta a C.

Francisco Martins Rodrigues

Carta a C.

Março [de 1965]

Querida C.:[i]

Com a costumada irregularidade e atraso, venho escrever-te um pouco, porque os meses passam sem eu dar por isso e se não fosse a N.[ii] chamar-me a atenção e repreender-me constantemente, desconfio que o desleixo era ainda mais escandaloso. Eu sei que não é justo mas custa-me escrever e sobretudo estas cartas nossas em que temos de passar por cima de tudo o que é a nossa vida e os nossos problemas diários.

Como estás? Como consegues desembrulhar-te dessa tua vida tão difícil, tão sobrecarregada? À medida que o tempo passa eu e a N. sentimos mais como é injusto teres ficado amarrada dessa forma, sem poderes respirar, sem poderes aproveitar a tua vida e isso em grande medida pela situação do nosso filho. A N. pensa, e eu penso como ela, que é preciso arranjarmos outra solução, que não devemos deixar-nos descansar na inércia de ir deixando tudo indefinidamente como está. Estamos a chegar a um ponto em que todos sentimos que não se deve prolongar mais esta situação; o nosso P.[iii] já aproveitou durante mais de dois anos de certas condições de educação e convivência, devemos arranjar outra solução, mesmo que não lhe dê tantas largas. Espero que dentro de algum tempo poderemos discutir directamente o que há a fazer e combinarmos as coisas. Na nossa vida tudo se resolve lentamente mas espero que não passem muitos meses até podermos resolver este caso. O que pensas disto?

E que novidades há na tua vida? Gostava bastante de termos uma boa conversa, discutirmos, com o correr dos anos vamos ficando desfasados uns dos outros. Gostava sobretudo de discutir política contigo, claro, o meu vício incorrigível. Porque tenho a certeza de que há muitos assuntos em que não estamos de acordo e eu vou-me sentindo cada vez mais um “discutidor”, quando me combatem e me levantam objecções é quando me entusiasmo mais a defender os meus pontos de vista e a procurar perceber os dos outros. Estou certo de que teríamos muito para discutir e de que te daria uma coça valente, não acreditas?

Eu, talvez “fanatizado” como muitas pessoas pensam nestes casos, não posso aceitar que haja motivos para que todas as pessoas progressistas do nosso país não estejam interessadas na luta política no nosso país, agora que estamos a viver uma fase de crise revolucionária. Aflige-me e indigna-me pensar que a apatia de tantas pessoas progressistas, a falta de confiança no povo e de audácia de tantas outras, pode dar lugar a que a burguesia encontre uma saída qualquer para prolongar o seu regime, quando existem condições para irmos para uma revolução a sério. Duvidas, tu também? É porque estás contagiada pelo trabalho de sufocação destes 37 anos.

Portugal hoje é um barril de pólvora a que todos têm medo de chegar um rastilho, uns por umas razões, outros por outras; ora eu parece-me que se há pólvora acumulada, o dever dos revolucionários deve ser chegar-lhe o rastilho, atiçá-lo, não o deixar apagar, até fazer ir tudo pelos ares: o governo, mas não só o governo; o sistema de opressão, a base do poderio dos ricos, o espírito de submissão e conformismo dos pobres. Se fizermos deflagrar a primeira explosão séria, não tenhas dúvida de que elas se sucederão umas às outras em cadeia e que então toda a gente começará a acreditar que em Portugal também pode haver uma revolução, das tais a sério. E o essencial para isso é sabermos como se acende o rastilho e depois não ter receio de o acender mesmo. A paz podre que se vive hoje só ilude quem não conhece a tempestade que a guerra colonial está acumulando. A repressão constante, a desorganização que provoca, todas as nossas fraquezas, fazem com que este movimento não progrida em linha recta, que avance aos impulsos, com pausas e recuos pelo meio; mas temos visto como ele avança, às vezes quando menos se espera! Agora este período de “repouso” tem a particularidade de ser uma acumulação de forças para novas acções, mas, mais do que isso, para acções qualitativamente diferentes. As conclusões que centenas de milhares de pessoas tiraram durante as manifestações de 1961-62 não foram em vão; na primeira ocasião propícia veremos a que atitudes práticas conduzem essas conclusões que cada um tirou sobre a forma de derrubar o governo. Quer isto dizer que nos basta esperar que o fruto caia de maduro? Já se sabe que não. Num país como o nosso, onde o barril de pólvora está rodeado por um exército de “bombeiros” experientes e atentos, não é qualquer amador que acende esse rastilho; há-de ser preciso um esforço enorme para o conseguir e a colaboração de muita gente, cada um ajudando de sua forma. Claro que há também outra hipótese: o rastilho não se acende e a carga explosiva acaba por ser desmontada sem prejuízos de maior para a sociedade estabelecida e as instituições. Mas temos nós o direito de nos prepararmos antecipadamente [o texto é interrompido aqui]

[i] Cunhada. (Nota de AB)

[ii] Companheira. (Nota de AB)

[iii] Filho. (Nota de AB)

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