Cartas a HN – 9

Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN – 9

14/2/1997

Caro Camarada:

Respondo à tua carta de 28 de Janeiro. A PO 58 está na tipografia, desta vez atrasámo-nos mesmo, mas tenho tido complicacões familiares (somos uma casa de velhos doentes —excepto eu, claro, que não sou doente e muito menos velho). Como a equipa já é pequena, isto foi o bastante para termos um atraso duns quinze dias. Mesmo assim, este número tem mais colaboradores do que tem acontecido ultimamente. A vossa proposta do Centro Marxista suscitou uma carta de um colaborador, desfavorável. Não vejo razão para contrapor, como ele faz, o estudo do marxismo para um lado e a intervenção política para outro. Mas é um ponto de vista, aguardemos que mais leitores se sintam motivados para intervir sobre o assunto.

Já comecei a ler o material que me mandaste da revista Dialéctica. O Adam Schaff levanta de facto muitos problemas interessantes mas tem a pecha de conceber sempre o socialismo de forma a não desagradar à burguesia. Já aqui há anos criticámos na P.O. um artigo dele numa revista que por aí apareceu, “O Socialismo do Futuro”, com grande reclame, mas que teve um futuro muito curto. Em todo o caso, é sempre muito instrutivo ler pontos de vista diferentes e, se for capaz, farei uma nota sobre o assunto para a próxima PO. Quanto à sugestão que dás de eu colaborar nessa revista, é que me parece pouco realista:

1º) eu já mal consigo manter a PO/Neograf/Dinossauro a flutuar; tinha que dedicar bastantes horas a preparar esses tais artigos, que teriam que ser diferentes dos da PO; 2º) a Dialéctica parece-me uma revista de gente “séria”, universitária (oportunista), e pontos de vista como os meus são aí considerados “sectários” e impublicáveis. Tenho sido criticado por vários camaradas, já por mais de uma vez, por não fazer mais esforços para fazer publicar artigos meus na grande imprensa, fora do círculo restritíssimo da PO, mas confesso-te que isso hoje me aparece como um desperdício de tempo. Tenho que poupar bem os meus esforços porque as capacidades já não são muitas e não me sinto com pachorra para andar em luta com as redacções para conseguir que me aceitem artigos. A experiência que tive com o Público aqui há meia dúzia de anos e a censura descarada que me fizeram quando foi da guerra do Golfo serviram-me de lição: para ser publicado, eu teria que me autocensurar, evitar certas expressões mais agressivas, dizer certas coisas só por meias palavras… enfim, não dá. Ao menos, na PO, posso fazer fogo à vontade e chamar os bois pelos nomes. Faz bem à saúde.

Bem, caro camarada, por agora é tudo. Agradeço a atenção em me mandares recortes e espero que continues e que arranjes alguma colaboração para a próxima PO: Espero que a tua saúde e da família vá bem. Abraços do pessoal para ti e para o Z.

 

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