Cartas a MV – 43

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (49)

5/5/1994

M:

Com que então, de férias outra vez! Ainda vais ser sujeito a um inquérito do colectivo! Espero que tenhas voltado com as baterias bem carregadas para mais produção
literária.

O livro O futuro era agora saiu. No dia 25 de Abril, lá estávamos nós com a nossa banquinha, na Rua Augusta, cheia de multidão, a apresentar o nosso produto. Vendemos duas dúzias de exemplares, porque as grandes massas estavam mais interessadas nas quinquilharias dos africanos e chineses e no espectáculo de canções que ia decorrer no Terreiro do Paço.

Depois, fizemos o lançamento formal, com todo o aparato (caro como fogo!), no Clube dos
Jornalistas; apareceram umas dezenas de amigos, mas jornalistas, só um! Vendemos mais
umas dezenas de exemplares. A seguir, veio o desfile do 1º de Maio (menos concorrido este
ano), em que distribuímos um panfleto que te mando junto e depois, fizemos um lanche de
confraternização. Vendemos mais umas dezenas de exemplares. Entretanto, negociei com
um distribuidor, que vai colocar o livro nas livrarias e ando a bater à porta dos críticos
literários dos jornais, para ver se se dignam fazer a sua recensão. É assim a vida. Tu
conheces bem este calvário, não é? Enfim, como só imprimimos mil exemplares e vem aí a
Feira do Livro, estou convencido de que, pouco a pouco, há-de ir saindo e que salvamos a
despesa.

E o trabalho em si? A nós, que andámos em corrida contra relógio, a coligir os
depoimentos, a cronologia, etc., deu-nos uma grande satisfação fazê-lo e reencontrar coisas
importantes que já não lembrávamos. O livro saiu limpinho e, apesar de alguns erros, não
nos envergonha. Pelas primeiras reacções, acho que a mensagem vai ser recebida, mas, é
claro, no círculo restrito dos que não se envergonham do 25 de Abril. Este ano, os festejos
do 20º aniversário foram “apimentados” com entrevistas a tudo o que é reaccionário;
tivemos que gramar os salazaristas a darem os seus arrotos contra o “populismo”, a
descolonização, os capitães.

A emulação entre as televisões para conseguirem mesas redondas mais chamativas levou a SIC (do Balsemão) a pôr o parvo do Tengarrinha a dialogar com um pide, com o entrevistador cheio de respeito a recolher as opiniões do “senhor inspector” (que foi justamente o chefe do bando que me torturou em 1966, um Óscar Cardoso, que no ano seguinte foi para Angola como chefe dos “Flechas”). A coisa foi tão sórdida que causou uma reacção geral de indignação, protestos, declarações em massa de ex-presos na rádio e na imprensa, mas, como seria de esperar, acabou por ser tudo capitalizado pelo PS, o arauto da democracia pluralista. Dei dois depoimentos para a TSF e um para o Expresso, mas foram de tal modo “sintetizados” que quase não ficou nada além do meu nome! Foi na sequência desta onda de protestos que fizemos o folheto das Cem Vítimas, que foi bastante bem recebido pelos manifestantes no 19 de Maio e se esgotou em menos de uma hora.

E que tal aí as comemorações pascácias do Prado Coelho e companhia? Estiveste
lá? Sempre conseguiste espalhar o teu papel? Foste preso como desordeiro?

Mandei-te um pacote com 5 exemplares do livro e, mais recentemente, um
exemplar, oferta para ti do editor. Recebeste? Já deste uma vista de olhos? Como creio que
te disse no bilhete que acompanhava os 5 exemplares, o teu texto teve que ser amputado
das partes que já não se referiam ao PREC, porque foi essa a norma que adoptámos para
manter a unidade do tema. Tivemos que fazer o mesmo com muitos outros testemunhos e
um trabalho diabólico de condensação das entrevistas gravadas. De qualquer modo, acho
que a tua colaboração fecha muito bem o conjunto dos textos.
Apesar de termos procurado
compor um mosaico representativo das diversas áreas da “extrema esquerda” da época, há
um peso excessivo de udps. Teria sido preciso mais tempo para chegarmos a outra gente,
mas mesmo assim os anarquistas não têm de que se queixar. O amigo V não saiu
porque me mandou um artigo quase à última hora, e em francês, para eu traduzir!! Disse-lhe que assim não dá, não sei se ficou zangado. Também já não tivemos braços para
considerar a tua justa sugestão de enumerarmos os filmes produzidos sobre o assunto.
Mais grave foi a falta de testemunhos de assalariados rurais e camponeses pobres, mas no
prazo que nos demos, não foi possível ir à busca deles. Fica para a edição do 25º
aniversário!

Agora conto com o teu empenho em promoveres o livro aí junto do pessoal portuga.
Mando junto duas folhas de propaganda, que te podem ajudar a vender a mercadoria. As
eventuais receitas revertem, tal como as da P.O., para o teu fundo de maneio, claro.

O Albatroz 10 chegou aqui já depois de estar distribuída a P.O. 44 e, com a corrida
em que nos metemos com o livro, teve que ficar para trás. Conto tratar da sua distribuição
junto com a próxima P.O., no fim deste mês. É um bocado tarde mas, francamente, não
estamos com disponibilidades para mais. O colectivo cá continua e, apesar de
conseguirmos mais um ou outro colaborador para a revista, gente para trabalhar é que não se arranja. Estamos no osso, esfalfados, e sem tempo para trabalharmos e pensarmos
temas de fundo.
Se puderes mandar-nos alguma colaboração até dia 20 de Maio, será uma
boa ajuda: não tens nada para dizer sobre as eleições para o Parlamento Europeu?

Mando também junto cópia de uma carta que envio hoje ao Tom Thomas. Será que
o podes contactar para acelerar a passagem da declaração que aí lhe pedimos? Ou tens
para nos sugerir algum outro texto que fosse interessante nós traduzirmos e editarmos pelo Dinossauro? A condição para nos candidatarmos ao subsídio é termos na nossa mão uma autorização escrita do autor até dia 30 de Maio e as obras devem obedecer a certos
critérios, como podes verificar pela folha do regulamento cuja cópia envio. Devido ao aperto do prazo, pensámos que o mais viável seria o livro do Thomas, que todos nós achámos interessante e adequado para dar uma pedrada nas teias de aranha ecológico-folclóricas cá do burgo. Diz o que pensas disto, mas depressa!

 

 

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