Cartas a MV – 42

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (48)

9/2/1994

Caro M.:

Uma gripe que derrubou toda a gente lá em casa por alturas do fim do ano e depois a lufa-lufa da P.O. (vem hoje da tipografia) levaram-me a adiar sucessivamente a correspondência. Tenho recebido uma série de cartões teus a que só agora respondo, assim como o Albatroz 10. O teu comentário sobre a manif. da escola laica sai nesta
P.O. A nossa secção gráfica agradece a bolsa das cores que ofereceste e que lhes é muito útil.

Também recebi o teu desabafo sobre a militância do V, mas não estranhes, porque a partir de agora e até às legislativas (Outubro 95) vais ver mais gente a abraçar a “causa sagrada” do PS. Já se nota uma disputa acesa para lançarem a fateixa a todos os ex-esquerdistas que por aí andam desasados. Há umas semanas, na série de debates organizada pelo Museu República e Resistência (dependente da Câmara Municipal de Lisboa e portanto do PS), pude ouvir o “educador” Arnaldo Matos lançar um apelo a todos os que pertenceram a grupos maoístas para se encontrarem e debater experiências, para ver como ajudar a “esquerda democrática” a correr com o cavaquismo. Fez várias piscadelas de olho descaradíssimas em direcção ao PS e ao Soares. Em poucos dias, foi entrevistado em várias revistas e na televisão, repetindo, junto com as suas bacoradas “marxistas”, os mesmos acenos. Na apresentação da grande iniciativa do Soares para Maio, o controverso congresso “Portugal – Que Futuro?”, ele lá estava na primeira fila, junto com os pcs, udps, mdps, etc. Para mim, o homem está a soldo do Mário Soares para ver se recupera orlas da esquerda que por aí andam perdidas e metê-las na “grande frente democrática”.

Por aqui podes ver como os chefes social-democratas estão a dar tudo por  conseguirem a
maioria em 95. E têm razão em se esforçar porque sondagens recentes continuam a dar o primeiro lugar ao Cavaco na preferência dos eleitores. Apesar da crise, dos despedimentos, do “aumento” negativo nos salários, de escândalos diversos e feios. Por aí vês como o PS é “amado” pela grande massa e como precisa de angariar nomes e apoios, seja onde for. O caso do teu amigo V é só um no meio da enxurrada.

Houve recentemente umas oportunidades de intervenção pública. Falei na série de palestras do Museu República e Resistência (Dezembro) sobre o maoísmo em Portugal. Estava bastante gente, interessada, e as perguntas e respostas prolongaram-se por um bom bocado. No dia seguinte, falou a Ana sobre a revolução chinesa e a mulher, também com bastante interesse. Noutros dias falou o Arnaldo, o Pacheco Pereira (hoje PSD) e o Pedro
Baptista (hoje plataformista).

Há dias estive noutro debate no Porto, organizado pela Amnistia Internacional, sobre
a Democracia, com o Mário Brochado Coelho e uma professora Helena Vilaça. Houve bastante controvérsia e estive entretido a deitar abaixo as bacoradas “pós-modernistas” do rapaz da Amnistia e a falar para espectadores embasbacados sobre a luta de classes e a ditadura da burguesia. Muito estimulante.

Fui também convidado para entrar num debate na RTP1 sobre Mao mas recusei-me e acho que fiz bem porque só faltava mandarem-me pôr de gatas para ter direito à palavra Os teus amigos Louçã, Arnaldo e Baptista é que não se importaram e lá estiveram a palestrar. Falo nisso na P.O., tu verás.

Albatroz – O A fez uma recensão na P.O. Por mim, gostei particularmente da lista das malfeitorias mitterrandistas. Achei a parte poético-literária demasiado extensa para o meu gosto. Estava à espera de mais sumo político. Mas não faças caso, já sabes que eu sou obcecado. Tu disseste num dos teus bilhetes que nos enviarias 20 exemplares para ensaiarmos alguma distribuição mas até agora não chegaram. Desististe?

20º aniversário do 25 de Abril – Todos os estados-maiores partidários afiam o dente para capitalizar aquilo que lhes convém da data. Entre nós, temos andado a debater a possibilidade da edição de um livro que coleccione depoimentos, artigos e materiais diversos, no sentido de mostrar à nova geração que os 19 meses da “bagunça”
foram os mais criadores da nossa história moderna e de contrastar as iniciativas avançadas desse período com a pasmaceira derrotada em que hoje vivemos. Será que podes dar a tua colaboração a esta ideia, com materiais originais ou outros já anteriormente editados e que tivesse interesse dar a conhecer? Será que nos podes indicar
pistas, nomes a contactar, dar sugestões de trabalho, etc.? Podes enviar dados para a cronologia e a bibliografia? O problema aqui vai ser a escassez do tempo para coligir os materiais e pôr o livro na rua até ao 25 de Abril. Responde rapidamente, por favor, para sabermos se podemos contar com algo da tua parte.

Tenho continuado a receber o “Courrier”. Há semanas, em resposta a uma pergunta tua, dizia que, se pagas a assinatura não vale a pena, porque pouco colhemos desta revista. Recebeste essa minha carta?

Tomámos nota e vamos passar a mandar directamente 5 exemplares da P.O. para a Lusophone. Vou-lhes escrever a anunciar o envio, o preço de venda de 15 francos e a dizer que tratem de tudo contigo.

Recebi 5 novas edições albatrosianas de poesia. Tomáramos nós ser capazes de lançar livros a este ritmo! Mas as edições Dinossauro estão em marcha, o livro sobre o 25 de Abril será o primeiro. E se tu viesses para cá uns meses ajudar a organizar o livro?

Enviei o disco “Obrigado Otelo” para o assinante que me tinha pedido, agora gostava de saber o preço para lho cobrar, não há razão para lhe oferecermos um disco que certamente te custou dinheiro a ti. E, para já, é tudo.

Por aí, tudo bem? Abraços.

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