Cartas a MV – 34

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (40)

7/4/1993

Caro M:

Tenho recebido os teus pacotes. Só agora, que acabei a P.O., pude tratar do artigo que me pediste para o Albatroz. É um comentário despretencioso sobre os últimos desenvolvimentos cá na terra; não diz nada de novo mas para o público português de Paris pode ter algum interesse. De momento, não estou capaz de desencavar nada melhor. Se achares que não interessa, já sabes que não tens problema, deitas fora.

Agora, quero-te pedir um favor importante e urgente: estou a preparar o último artigo da série da revolução russa (na P.O. 39, que receberás dentro de uma semana, vem um sobre os anos iniciais da Internacional Comunista, coisa a que até agora não me tinha atrevido. Diz o que achas). Mas, para fazer esse artigo final, tenho que responder à pergunta que me têm feito de alguns lados: não será que esta crítica ao falhanço da revolução russa equivale a um reconhecimento tácito de que afinal o Kautsky tinha razão nas suas críticas ao bolchevismo? Eu não tenho dúvida de que a resposta é negativa, mas preciso basear bem os meus argumentos. E para isso é-me indispensável o livro de Kautsky sobre “A Ditadura do Proletariado” que nunca foi editado em português. Será que me podes adquirir esse livro aí e enviar-mo a curto prazo? Se não o encontrares, pelo menos alguma outra coisa dele sobre a matéria. O meu destino fica entregue nas tuas mãos, Manel! Fico à espera.

Acho que consigo localizar a citação de Lenine que me enviaste[i], julgo que é de 1915 ou 16. Hoje já não dá, mas muito brevemente escrevo-te com mais vagar e então indicarei de onde é (se a encontrar).

A tua vida vai boa? Quando é que abandonas essa Europa decadente e em crise e regressas ao nosso Portugalório, agora rico, próspero e invejado, desde que passou a ser governado pela mão firme do nosso professor Cavaco?

Um abraço.

[i] « Un communiste part à toute guerre, même réactionnaire pour y poursuivre la lutte contre la guerre. II travaille là où il est placé. S’il en était autrement, nous aurions une situation telle que nous prendrions position sur des bases purement morales, d’après le caractère de l’action menée par l’armée, au détriment de la liaison avec les masses ». (N. de AB).

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