Cartas a MV – 25

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (29)

24/10/1991

Olá, M, só agora respondo aos teus múltiplos materiais, o último de 16/10 com o livro do Tom Thomas.

A última P.O. pode estar um pouco mais arejada, como dizes, mas isso não corresponde a nenhuma activação especial entre nós. Continuamos muito reduzidos e asfixiados. A última Assembleia não correu mal mas não produziu nenhuma discussão de fundo. O debate concentrou-se demasiado na questão eleitoral, com alguns camaradas (Porto) a insistir para não apelarmos publicamente à abstenção, para não se verem atacados e isolados na sua empresa, como “cúmplices da direita”. Houve algumas vozes (uma aberta e outras implícitas) no sentido da concentração de votos na CDU, “para ajudar a deslocar os militantes que lá estão desorientados”. Contudo, não foi difícil concluir pela abstenção. O pior foi que se gastou demasiado tempo nisto. E também num outro debate significativo (também com o Porto): a reclamação de que deveríamos ser menos ideológicos e mais virados para os problemas económicos da classe, a fim de rompermos o isolamento… Sintomas do grande refluxo, que leva os nossos camaradas e sentirem-se acossados.

O debate sobre a União Soviética, em que participaram alguns amigos da revista (faltaram contudo vários outros que esperávamos aparecessem) não adiantou muito, talvez por má preparação nossa. Na falta duma apresentação audaciosa do tema, prevaleceu a confusão da maioria das pessoas, especulações sobre o que vai acontecer a seguir, etc., e não debates sobre o fundo do fenómeno.

Enfim, como terás notado pela notícia da Assembleia na P.O. 31, esta não adiantou muito à nossa história.

Marroquinos – vamos enviar a revista aos dois presos que nos “recomendas”. Estranhámos as declarações calorosas do Serfaty acerca do PCF. Tens algum contacto com ele? Podes mandar-nos a morada dele em Paris? Seria possível debater com ele para evitar que se encoste demasiado aos revisas?

O Frederico do “Expresso” é mesmo o Fred. Foi ele que me telefonou no outro dia a pedir o depoimento. A princípio não quis atender o telefone mas depois lá me convenci que, como .jornalista, podia falar com ele. Publicou só uma parte do que escrevi mas não me sacaneou.

Albatroz – vi a informação de que tiveste um subsídio para o próximo número. Isso é que é sorte! Tenho ideia de que ficou combinado há já tempo eu enviar-te algum texto mas já estou um pouco confuso. Diz-me que género de literatura queres, tamanho, prazo, tudo, para ver se não dou barraca.

Para a próxima P.O., o que é que nos ofereces? Vou ver se faço já de seguida um artigo muito simples sobre o ano 1917, por causa das aldrabices que agora todos os vigaristas escrevem com o maior à-vontade sobre “o golpe dos bolchevistas” contra a pobre democracia que lá existia na Rússia nessa altura. O emérito Espada escreve sobre a “contra-revolução” de Lenine e toda a gente baixa as orelhas! A isto chegámos! Mas não posso passar o tempo a escrever sobre o passado, tu também me dás o toque na tua carta e é verdade, vou insensivelmente concentrando a minha atenção nos tempos antigos, quando é preciso dizer tanto sobre o que acontece hoje. Estarei com a perspectiva do velho combatente a falar dos seus tempos? Não quero! Enfim, ajuda-nos a fazer uma P.O. mais viva, manda coisas da tua lavra. Por agora é tudo. Até breve, um abraço  

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