Cartas a MV – 4

Francisco Martins Rodrigues

Carta a MV (6)

18/12/1985

Caros camaradas,

 Cá estou finalmente a dar notícias mais detalhadas, depois de termos acabado com o carroussel da PO2. Aguardamos as vossas opiniões, sugestões e críticas implacáveis.

Foi geralmente considerada melhor que a PO nº 1, pela variedade de temas e realização gráfica mais cuidada, mas estamos conscientes de que ainda temos muito que melhorar. A nossa preocupação maior é evitar cair na superficialidade dos artigos feitos em cima do joelho, estilo “Bandeira Vermelha”, É preciso tempo para discutir, escrever e amadurecer ideias, mas o tempo falta-nos em absoluto porque somos poucos. O comité de redacção vai aprovar um programa de artigos de fundo, para preparar a longo prazo e destacar alguns camaradas para os irem trabalhando. Mandar-vos-emos esse programa e pedimos que vejam se, além das cartas de Paris, podem responsabilizar-se por algum artigo, dossier ou outra coisa de sumo. Há muito para dizer, falta-nos o fôlego.

A distribuição está a melhorar. Este nº já foi para umas 30 em Lisboa, 2 no Porto e outros 30 na província. A venda militante anda pelos 600 exemplares. Do nº 1 ficámos praticamente sem sobras. As vendas a operários são cerca de 30% da venda militante total – número a melhorar. As assinaturas é que vão subindo muito lentamente (até agora cerca de 70), são o nosso ponto mais fraco de difusão. (…)

Quanto aos bonecos, parecem-nos bons e têm sal. O problema é que ficámos com uma escolha limitada, por ser quase tudo sobre emigração ou então temas desactualizados.

 Carta a MV (7)

14/2/1986

Camaradas M e R,

 Temos recebido encomendas vossas, com revistas, jornais e li­vros, mas nada de notícias. Naturalmente os afazeres são muitos mas pedimos que nos escrevam nem que sejam umas linhas para sabermos que tudo vai bem por aí. Enviámos anteontem 15 exemplares da PO3 que acaba de sair, juntamente com um manifesto que editámos sobre as eleições. Passamos aos assuntos principais.

Revista – Interessa-nos muito receber as vossas (e outras) críti­cas, tanto sobre este nº como sobre o nº 2. Apesar das opiniões que nos chegam serem em geral favoráveis, temos consciência de que nos falta bastante para correspondermos ao nosso objectivo. Vai ser preciso um grande esforço sobretudo para atacamos as questões de fundo em aberto na corrente ML, como a degeneração da União Sovié­tica e da China, relações entre imperialismo e social-imperialismo, construção do Partido, perspectivas actuais da revolução, etc.

Nesse sentido, programámos a preparação a médio prazo de alguns artigos de maior fôlego, que tentaremos fazer sair nos próximos números: os processos de Moscovo 1936-38, a revolução cultural na China, a classe operária em Portugal, a guerra civil de Espanha, os 10 anos de democracia burguesa em Portugal… Se nos puderem dar quaisquer sugestões ou enviar materiais para estes temas, seria grande ajuda porque vamos ter grandes dificuldades.

Gostaríamos de saber se podemos contar com colaboração do M. para a PO 4, que já está na forja. Como sairá para a rua em fins de Março, seria interessante que trouxesse um comentário sobre a campanha eleitoral francesa. Mesmo sem poder analisar os resulta­dos (fechamos a redacção a 14 de Março), poderia fazer uma resenha das posições defendidas pelas diversas forças, orientação do PCF, ambiente na classe operária, ponto de vista dos emigrantes, etc. Pode ser? Pedimos resposta urgente.

Há além disso o artigo sobre associativismo dos emigrantes, que gostaríamos de publicar neste nº 4, com as modificações já suge­ridas pela redacção e que o MC expôs em carta anterior. a ideia geral era tornar o artigo mais interessante para o leitor de cá, pouco familiarizado com a questão. Digam-nos urgentemente se poderemos contar com ele. Continuamos muito interessados em bonecos do M. Metemos mais um no nº 3 (com uma pequena adap­tação) e gostaríamos de ter outros que focassem aspectos da situação política nacional ou internacional.       

Situação política – Editámos um manifesto sobre as eleições presidenciais, que segue junto. Não foi fácil chegar a conclusões so­bre a atitude a assumir, porque a situação actual reflecte a perda de espaço político a que chegou a esquerda neste país. A direita apresenta-se com o seu candidato de direita e a esquerda tem que se contentar em apoiar o outro candidato de direita…

As tentativas para apresentar uma candidatura contra o regime não deram nada porque se basearam apenas em reuniões de troskistas, otelistas e alguns independentes. De modo que realizámos uma assembleia em 5 de Janeiro, na qual aprovámos este manifesto por larga maioria, embora houvesse também opiniões favoráveis ao apoio à Pintasilgo, outras pela abstenção em todos os casos e outras no sentido de ignorarmos pura e simplesmente o processo eleitoral. Distribuímos o manifesto nos empresas e nas ruas. A imprensa ignorou-o, como já fizera com o nosso outro mani­festo, quando das legislativas. Agora vamos fazer o balanço aos resultados eleitorais (impossível prever qual dos dois vai ganhar). O ambiente operário é de grande desmoralização por terem falhado todos os planos do PCP, desde há 6 anos, para criar um aliado nos eanistas. O partido eanista parece sem consistência e tudo conti­nuará a jogar—se entre a direita e a social-democracia. A deslocação geral à direita, com um grande entusiasmo da juventude pelo Freitas (!) parece ser o primeiro presente que nos chega da CEE. Vamos continuar no refluxo “peculiar”, como dizia o Arruda.

Trabalho operário – Estamos neste momento a fazer esforços para lançar outra publicação! Pode parecer-vos loucura, mas temos verificado que o trabalho de propaganda feito pela revista precisa de ser completado por uma folha mais fácil, mais noticiosa, mais vi­rada para a luta económica, as denúncias locais, etc. Como não con­cordamos com os camaradas e amigos que gostariam de reduzir a PO a essa função (o que nos levaria a abdicar do projecto inicial de elaboração programática), resolvemos lançar esta folha ou pequeno jornal, para começar mensal. Não terá vinculação pública à OCPO, a fim de poder funcionar como animador da corrente sindical de es­querda que é, com a revista, a nossa grande tarefa.

Quem pode assegurar esta folha? Temos verificado que vários dos nossos camaradas operários estão desaproveitados, assim como ou­tros que andam na nossa orla, e vamos tentar ganhá-los para o pro­jecto. A elaboração e venda da folha poderia servir-nos de veícu­lo para dar corpo a um começo de estrutura nas empresas.

Assembleia anual – Tendo em conta que a OCPO completa um ano de existência em Março, a assembleia de 5 de Janeiro decidiu convo­car para fins de Maio uma assembleia com plenos poderes para dar o balanço ao trabalho realizado neste ano, aprovar documentos políticos e eleger nova direcção. Já está a funcionar uma comissão organizadora desta assembleia, com representantes da direcção e dos núcleos, e será editado o boletim interno de discussão durante o período preparatório. Na impossibilidade de uma participação direc­ta vossa, pedimos que vejam com atenção e dêm opiniões sobre os temas que vão ser tratados no boletim interno e nos projectos, que vos enviaremos à medida que sairem. É importante juntarmos a opi­nião e experiência de todos nós para reflectirmos sobre este ano de actividade e caminhos para a frente.

Situação financeira – A nossa empresa vai singrando, embora não tão depressa como desejaríamos. Sobrevivemos mas não estamos a cres­cer. Falta-nos dinheiro para trocar esta máquina por outra mais ren­tável; enquanto assim for, o volume de trabalho comercial que con­seguimos fazer é limitado. Lançámos no fim do ano uma campanha de contribuições extra para e compra de novo equipamento, que rendeu até agora 100 contos. É muito pouco. Quanto ao sector de impressão, deixámo-lo de parte porque não vemos perspectivas de nos ocuparmos dele num futuro próximo.

Gostaríamos de saber com o que poderemos contar de contribuições vossas e como e quando poderemos recebê-las, uma vez que já não se põe a ideia inicial de comprarem aí o tal pequeno offset. (…)

 Contactos – estabelecemos relações regulares por correspondência com o Marxist-Leninist Party USA, que nos parece um grupo sério, em crí­tica aberta ao centrismo do 7º congresso da IC, PC do Brasil, PTA. Pu­blicam um jornal mensal, “Worker’s Advocate”, no qual se propõem transcrever artigos nossos. Concordam no essencial com o “Anti-Dimitrov”. Estamos em processo de discussão com eles acerca de vários temas: social-imperialismo, centralismo democrático, frente única, apreciação do PTA, etc. Esperamos através deste grupo estabelecer também relações com o MAP da Nicarágua e com um PC do Irão que, se­gundo parece, não é o mesmo que está aí em ligação com o FCOF.

Do resto da corrente ML não nos chegou até agora mais nenhuma reacção. Continuamos a enviar—lhes a revista. Recentemente, tomámos conhecimento através dum camarada na Suíça da existência dum grupo suíço chamado “La cause du communisme”. Sabem alguma coisa a seu respeito?

PC(R) – Temos enviado a revista (nº 2 e 3) em oferta a umas deze­nas de militantes de vários pontos do país. Não há reacções aparen­tes mas sabemos que se atravessa um período de confusão e de certa crise nas suas fileiras por causa das tácticas eleitorais. Depois de ter feito uma campanha abnegada e totalmente bajuladora da can­didatura Pintasilgo, agora está a fazer campanha activa pelo Mário Soares. Pensamos que se está a dar uma gradual reconversão do lu­gar do PC(R) e da UDP, com os direitistas no comando, e que isso poderá eventualmente fazer saltar um ou outro militante com mais instinto de esquerda. Não prevemos contudo rupturas espectaculares, porque sabemos por experiência que o oportunismo é uma questão de hábito: começando a escorregar na ladeira, tudo vai parecendo nor­mal e admissível…

Publicações – Temos recebido jornais e revistas e 2 livros: L’Etat du monde e “Les metamorphoses de ia crise” de Fougeyrollas.

Propomos que concentrem os vossos envios em: boletim do Kessel, Afrique-Asie, Monde Diplomatique, Teoria y Practica, Partisans e Cause du Communisme.(…). 0 Canard e o Libération, só se virem que há algum tema de interesse para cá: do que temos visto, parece-nos que não justifica a despesa.

Poderiam obter-nos e enviar 2 livros de Bebei: A mulher e o so­cialismo e Situação da mulher? Não sabemos se estão esgotados, mas aqui não se encontra.

Por agora, é tudo. Têm algumas notícias do PA? Manda uma revista de vez em quando mas há muito que não escreve. (…)

Ficamos a aguardar notícias vossas. Aceitem os abraços de todos nós.

 

 

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