Cartas a FR – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FR (13)

5/1/1990

Caríssimo Camarada

Só agora tive ocasião de responder à tua carta de 2 de Novembro. Espero que tenhas tido boas entradas no ano de 1990.

Como certamente sabes, está a decorrer uma greve de fome iniciada pelo Ramos dos Santos e apoiada por outros (cinco até à data. O Ramos completou três anos de prisão preventiva em 30 de Novembro; deveria ter sido libertado, como fizeram com o Otelo e os outros, mas recusam-se a libertá-lo. Já foram metidos dois habeas corpus, até agora sem resposta favorável. Ele está bastante enfraquecido, já perdeu quilos e está sujeito a uma crise cardíaca. Tem sido visitado por todos nós e por diversos médicos e está bastante animado.

Fiz um pedido para sermos recebidos pelo Presidente Bochechas, mas o pulha até agora não deu resposta. Vamos lá no princípio da próxima semana, assim como ao Provedor, Assembleia da República, PS, PCP, etc.

Com tudo isto e com o esforço para manter a saída regular da revista, já calculas que não proposta sobre a posso pensar na tua Associação do Ateísmo. Somos poucos para tantos problemas.

E que me dizes à crise do Leste e do PC? Os falsos comunistas e socialistas estão a abrir falência, o que é bom, mas o pior é vermos os americanos a fortalecerem-se com tudo isto. O caso da invasão do Panamá é impressionante. Quem será a próxima vítima?

Por agora é tudo. Já sei que não deixarás de fazer aí tudo o que estiver ao teu alcance em apoio dos companheiros. O Carlos Antunes está-se a portar muito mal neste caso.

Um grande abraço e desejos de muita saúde

Carta a FR (14)

6/12/1993

Caríssimo Camarada

Gostei muito de ter notícias tuas e de saber que continuas cheio de força. O meu projecto de te visitar tem sido sucessivamente adiado, porque me desloco cada vez menos e até o LGo há muito que não vai ao Norte. Registámos a tua assinatura e publicamos a tua carta. Nada temos a opor às tuas propostas, a não ser a nossa falta de qualificação para promover essa união dos revolucionários e dos ateus que propões. Vamos editando a revista com bastantes dificuldades e na esperança de que gente jovem desperte para as questões da emancipação social e faça aquilo que não somos capazes de fazer. É bem verdade, como escreves, que a burguesia só se derruba com armas na mão e não com palavras. Mas para que surjam pessoas dispostas a pegar em armas, muitas palavras terão ainda que ser impressas. Não nos envergonhamos por este nosso modesto trabalho de propaganda – ele é indispensável. O que é preciso é que as palavras esclareçam e animem vontades revolucionárias em vez de semearem a confusão e o conformismo, como fazem quase todos por aí. Esperamos sinceramente que a revista te agrade e que a leves ao conhecimento de amigos teus.

Aceita um abraço e até um dia.

Carta a FR (15)

28/4/1994

Caro Camarada:

Só agora posso responder às tuas cartas. O trabalho de preparação do livro tem-nos ocupado bastante nas últimas semanas. Já mandei o teu exemplar pelo correio e fico à espera da tua apreciação. Se conseguires angariar aí (…) mais algum comprador, será uma forma de nos ajudares a recuperar a despesa da edição. Temos muito mais vantagem nos exemplares vendidos directamente por nós do que naqueles que entregamos à distribuidora, que abocanha logo 55% do preço de capa. Também, nas livrarias vai vender-se a 2.300$00 + IVA, é a única maneira de recebermos algum.

Ainda bem que te agradam os artigos que tenho feito na P.O., o que é preciso é malhar na burguesia; o bicho tantas há-de levar que algum dia há-de ir abaixo, não te parece? Agora, quanto à campanha que pedes para desenvolvermos, de denúncia do assassinato do teu filho, talvez tu não tenhas uma ideia actual das nossas forças, que são muito limitadas. Dão para irmos editando a revista e nada mais. A pouco e pouco, as pessoas que alinhavam nas posições revolucionárias foram escasseando e agora encontramo-nos reduzidos a um pequeníssimo núcleo. Vamos a ver quantos aparecem depois de amanhã para segurar a nossa faixa na manifestação do 1º de Maio. A faixa diz: “Nós também somos culpados do 25 de Abril”. Que achas? Foi a maneira que encontrámos de protestar contra o descaramento de trazerem um pide à televisão nas vésperas do 25 de Abril e não só: toda a casta de salazaristas são agora ouvidos como grandes autoridades para explicar a queda do regime, falar dos sentimentos democráticos do Marcelo Caetano, atribuir a democracia ao mérito do Spínola, etc. Ninguém diz a verdade simples: o país estava na posse duma associação de bandidos e os pides eram os que faziam o trabalho mais sujo e repugnante ao serviço dos outros.

Em conclusão: para além do que já temos feito várias vezes, ou seja, publicar artigos na P.O. lembrando as circunstâncias suspeitíssimas da morte do teu filho[i], nada mais podemos fazer. Eu sei que é muito pouco porque a circulação da revista é muito reduzida. Mas talvez nem seja isso o mais necessário, porque o caso é já hoje do conhecimento de muita gente, graças aos artigos que tens conseguido fazer sair em grandes órgãos de imprensa. Talvez o mais importante para desbloquear o processo fosse um advogado que tomasse o caso a peito, como fez o Brochado Coelho com o assassinato do padre Max (e mesmo assim sem conseguir resultados até à data). Que pensas disso? Duma coisa podes estar certo: da nossa solidariedade em tudo o que estiver ao nosso alcance.

Aceita as nossas saudações revolucionárias e desejos de boa saúde.

Carta a FR (16)

6/6/1994

Caro Camarada:

Com base nos documentos que mandaste sobre o caso do teu filho, fiz um artigo que sai nesta P.O. (amanhã ou depois estará na rua). Reproduzimos a fotocópia dos despachos contraditórios do Hospital Militar, para não deixar dúvida de que houve grossa tramóia em todo o caso. Espero que os argumentos com que apresento o assunto estejam correctos, tu verás se o assunto foi bem tratado.

Já enviaste essas fotocópias para a grande imprensa? Pode ser que algum jornalista se decida a agarrar novamente no assunto e quebre a barreira do silêncio, agora que estão a vir ao de cima vários casos de ilegalidades. (…)

Aceita um grande abraço meu, com desejos de coragem para continuar a luta.

Carta a FR (17)

16/1/1995

Camarada:

Lamento muito o novo golpe que sofreste e espero que mantenhas ânimo para enfrentar mais esse grande desgosto. Eu, infelizmente, tive que acompanhar nos últimos meses a doença e morte duma irmã minha e sei as marcas que isso nos deixa.

Faço seguir pelo correio o livro que encomendaste. A revista deverá estar pronta na primeira semana de Fevereiro e lá vem o comentário acerca da morte do teu filho. Aceita abraços de todos nós, com desejo de muita saúde e coragem.

Carta a FR (18)

6/10/1995

Caro Camarada:

Desculpa a demora em responder-te, mas aproveitei para tirar umas férias e só agora retomo actividades. Não tenho dúvida em dar-te apoio na questão dos processos que queres consultar mas creio que isso passa em primeiro lugar por uma procuração tua e mesmo assim, sendo como são os gajos que tomam conta da Torre do Tombo, é de duvidar que atendam o pedido. Julgo que tens lido os artigos do Fernando Rosas e de outros professores que protestam porque o facho que lá está em director daquilo arranja sempre pretextos para não permitir a consulta dos documentos. Em todo o caso, se me passares uma procuração, eu vou atacar o animal no seu esconderijo. Nome: Francisco Martins Rodrigues, B.l. 6481598, Arquivo de Lisboa, 7/5/84. Creio que é suficiente.

Espero que a tua saúde vá menos mal. Aceita um abraço do camarada

Carta a FR (19)

19/5/1996

Caro Camarada:

Estou a preparar um artigo para a próxima P.O. com base nos dados que me enviaste sobre a morte do teu filho. Sei que é pouco mas é o que está ao nosso alcance. Tudo mostra que existe de facto uma conspiração em alto nível para bloquear as investigações em tomo do caso – quando estão em jogo os comandos da tropa, os juízes metem o rabo entre as pernas. A impunidade é tão grande que agora até já gajos da GNR chegam ao ponto de matar, decapitar e enterrar um preso (um negro?) para esconder o crime, à moda do Brasil. É o que está hoje a rádio a noticiar. Era motivo mais que suficiente para o ministro se demitir de imediato, mas envolvem tudo em palavreado chocho e lá vai tudo andando como se fosse o incidente mais natural desta vida.

Tens mais que razão quando propões a formação de associações de ex-presos políticos e de ateus. São mais do que necessárias para fazer contracorrente neste clima podre de pretensa normalidade democrática, em que o grande capital manipula as pessoas a seu bel-prazer. O nosso problema, já te tenho dito, é a escassez de pessoas dispostas a empenhar-se. Vamos editando a nossa revista com grandes dificuldades, lançando um ou outro livro de denúncia do capitalismo e esperando por melhores dias, que outros venham ajudar-nos para o nosso lado. Algum dia será.

Sobre a tradução do “Trabalho Assalariado e Capital” de Karl Marx, gostaria que a enviasses quando possível para o nosso apartado. É uma obra fundamental e poderiam proporcionar- se condições para a editarmos num livrinho.

Junto envio um livro de poesia recentemente editado pela Dinossauro[ii], com um grande abraço solidário e desejos de boa saúde

Carta a FR (20)

14/7/1996

Caríssimo:

Só agora respondo à tua carta de 26 de Junho. Desculpa o atraso mas meti umas curtas férias, para relaxar. Recebi o texto mas, por coincidência, encontrei-o, poucos dias depois, na Feira do Livro. Existe numa edição do PC, Editorial Avante, e barata. Concluímos que não teríamos saída para o livro e que seria só despesas. Desistimos, portanto da ideia e só é pena não nos termos informado primeiro, escusavas de ter o trabalho e a despesa de nos mandar o original. Se quiseres que to devolva, diz.

Quanto aos outros projectos, só te posso repetir o que já tenho dito: não temos contacto com gente interessada em criar as associações que propões. O P há muito que o não vejo. Aquilo pelo lado deles também não anda fácil. Por muito que nos custe, será necessário aguardar que surjam melhores condições, uma corrente de interesse que dê força a essa ideia. Não deixaremos de fazer a propaganda possível na P.O.

O que responderam os partidos à tua última carta sobre o teu filho? Nada, natural­mente. Precisavas que a televisão se interessasse, daria outro impacto. Já tentaste escrever ao Carlos Narciso, que faz os “Casos de Polícia” na SIC? Se ele te entrevistasse, a coisa dava barulho e teria que haver alguma resposta do poder.

Dá sempre notícias. Aceita um abraço do camarada

————–

[i] Júlio Pires Ribeiro, capitão da Força Aérea, que apareceu morto na Base 3 de Tancos depois de cinco dias de prisão por ter ajudado para-quedistas revoltosos. (Nota de AB).

[ii] AAVV, “Notícias da Raiva”. (Nota de AB).

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