Cartas a FG

Francisco Martins Rodrigues

Carta a FG (1)

1/4/1989

Caro Camarada:

Espero que tenhas recebido a carta e o livro que te mandei a semana passada. Mando aqui uns recortes de imprensa e folhas do apelo para que te peço que recolhas assinaturas de apoio se possível, a recolha vai decorrer até 20 Abril e será tornada pública no comício da Voz do Operá­rio em 24 de Abril, bera importante trazeres cá uma delegação algarvia nessa data, que dizes?

Para já, temos uma sessão da Solidariedade Contra a Repressão (SCR) na Ama­dora, dia 7 às 21 horas. Se puderes vir será excelente. Vens aqui a Campolide e seguimos juntos para lá.

Um abraço

Carta a FG (2)

(sem data)

Caro Camarada:

Recebemos a tua carta de 2/5 e a outra com o cheque. Segue amanhã uma encomenda com as 12 PO e manifestos da FER, por enquanto em pouca quantidade mas em breve haverá mais. A candidatura está a andar, mas por enquanto fraca das pernas. Mando-te cópia da inter­venção que fiz na Voz do Operário. O nosso esforço agora é para es­tabelecer contactos com a ajuda dos papéis (vamos editar outro texto mais curto) e preparar sessões locais de esclarecimento ou simples reuniões. Poderás tu organizar, com a ajuda do ZL, uma reunião aí (…), nem que seja com meia dúzia de pessoas, para ir um de nós falar sobre a FER? Evidentemente, se surgissem condições para formarem uma comissão de apoio para distribuir propaganda durante a campanha eleitoral seria o ideal, era preciso um grande esforço para nos darmos a conhecer, desfazemos as desconfianças e chegarmos a contacto com pessoas de esquerda (que continuam a existir mas dis­persas e desmoralizadas). Estamos a preparar os programas para a te­levisão e rádio mas não podemos ficar por aí, são necessários contactos pessoais, até para ver se fica alguma coisa para além dos votos.

Quando tiveres uma oportunidade de vir a Lisboa, telefona para organizarmos um encontro. Actividades já programadas a que se­ria bom assistires: um almoço de apoio à candidatura (falará o Vare­la Gomes) em 3 de Junho; e o comício de encerramento em 16 Junho na Voz do Operário com o Zé Mário Branco, discursos, etc.

A tua crítica ao livro sobre o cristianismo não saiu por falta de espaço mas sairá no próximo. Manda mais. Manda opiniões e sugestões sobre pontos a tocar durante a campanha. Quanto aos ende­reços de grupos ML de Europa, quando vieres a Lisboa poderei mostra-tos, assim como a imprensa que temos.

A tua oferta para traduzires para inglês o artigo sobre Staline ê óptima, pois continuamos com enormes dificuldades nesse campo. Tive recentemente uma promessa de traduções para inglês dum camarada em Londres mas por enquanto nada concreto, de modo que po­des avançar. Depois nós aqui compomos e tiramos cópias para mandar.

Um abraço

Carta a FG (3)

8/8/1989

Caro Camarada:

O encontro com os camaradas estrangeiros vai ser no dia pelas 15 horas no Perragial. Caso possas estar presente, terá bastante inte­resse. Vou mandar-te amanhã ou depois fotocópias dumas 20 páginas do livro sobre a URSS que me em­prestaste, para ver se podes traduzir para publi­cação na próxima P.O. £ sobre a política externa, relações com os EUA, etc., e parece-me que seria interessante para continuar una discussão que tem havido na revista a esse respeito. Teria que estar pronta até 15-10 Setembro. Achas que podes? Também terias que fazer alguns cortes porque não cabe o capítulo todo nas páginas que temos disponíveis.

Se quiseres mandar produção tua também podes. Já li alguns dos jornais que me deixaste, queres que to mande pelo correio, ou levas quando cá vieres?

Continua tudo na maior. Um abraço

Carta a FG (4)

20/2/1989

Caro Amigo:

Não respondi de imediato à tua carta de 24 Janeiro por andar muito assoberbado em questões urgentes e também porque me surpreendeu a tua de­cisão de deixares de colaborar com a revista. n certo que vinhas manifestando de há uin tempo para cá uma maior impaciência com o que tu chamas o nosso “estalinismo” e “dogmatismo”, mas julguei que nos manterias um crédito de confiança, de a- guardar pela evolução dos acontecimentos e pela clarificação ias posições. Pessoalmente\ penso que o sumo da tua posição tenderá a conduzir-te para a social-democracia e não para a renovação do marxismo que desejas ver. Mas neste momento o diálogo político tornou-se difícil entre nós e estamos a cair na “conversa de surdos”. Aguarde­mos as lições da vida. Se alguma vez quiseres passar pelo nosso local para conversarmos, farei o possível por te expor o meu “estalinismo” com melhores argumentos. De acordo?

Um abraço

Carta a FG (5)

9/8/1990

Caro Camarada:

Tenho recebido as tuas colaborações mas não leves a mal que te diga que as achamos pouco interessantes e fore do campo de debate da revis­ta. Não temos objecção a publicar opiniões em contrário das nossas, como tens visto (no próxi­mo número sairão outras) mas não vemos que as cola­borações que enviaste suscitem o debate nas fi­leiras da esquerda. Não basta dizer que o marxis­mo é autoritário, culpado de todos os fracassos, é preciso desenvolver argumentos para o provar e tu não o teus feito. Como somos amigos, acho que não levarás a mal que te diga que as tuas novas convicções anarquistas não estão a activar as tuas ideias, estão a levar-te pare uma argu­mentação simplista e moralizante, quando o que é preciso é explicar como vemos sair deste buraco. Não concordas? Quando te calhar vir a Lisboa, procura-me para discutirmos. De acordo?

Um abraço

Carta a FG (6)

20/12/1990

Caro Camarada:

Tenho recebido os teus apontamentos, notas e cartas. Não temos publicado nada, pa­ra dar lugar a outras correspondências; só umas pequenas linhas na última PO para teres a certeza de que a porta continua aberta à crítica… Na próxima PO, já em preparação, virá uma longa carta dum amigo teu e a devida resposta.

Fi­zemos uma sessão na Voz do Operário, no dia 14 contra a guerra do Golfo, que a imprensa não noticiou mas que teve mais de 100 pessoas e foi boa. Pensa-se numa manifestação.

Escrevo para te informar que deixámos a rua (…). Como anunciado na última PO, temos agora telefone (…).

(…) e espero que algum dia que venhas a Lisboa nos queiras visitar.

Tudo segue normal.

Um abraço

Carta a FG (7)

20/2/1991

Caro Camarada:

Cá termo recebido as colaborações/sugestões. Pareceu-me interessante a última, sobre a guerra, mas devido ao espaço estar todo tomado ficou para a próxima, com outras cartas para sair. Também achei interessante o manifesto anarquista, já tinha sido distribuído aqui em Lisboa durante a manifestação de 26 de Janeiro.

Temos estado bas­tante activos, ainda hoje estivemos na Baixa com uma exposição de painéis contra a guerra, que pro­voca bastante discussão, pró e contra. Depois de amanhã, quinta-feira, vamos concentrar-nos dian­te da embaixada americana, pela segunda vez. Queres vir?

Devolvi-te hoje o livro sobre o Anarquismo, acerca do qual fiz uma nota crítica na P.O. 28 que já deves ter visto (e discordado). Uma coisa é certa: nesta questão da guerra, só leninistas (nós) e anarquistas (vocês) estão a aparecer em antagonismo com a agressão dos EUA. Perece que so­mos a extrema-esquerda real.

Um abraço

Carta a FG (8)

Sem data

FG:

A tua última carta[i] passou as marcas na grosseria e estupidez. A partir de agora, basta! Tenho tido desde o iní­cio uma infinita paciência contigo, por me aperceber da tua curteza de ideias em matéria de política, mas tu possivelmente con­fundes tolerância com fraqueza e tens vindo a tornar-te cada vez mais malcriado e insolente. Como te atreves a escrever que “jul­gaste ver em mim uma pessoa pelo menos recuperável”, invocares a minha “confessa aversão à moral”, aconselhares-me “mais respeito e gosto pelo estudo” e outras baboseiras semelhantes? Não tens ao menos o discernimento de compreender que nunca te dei confiança para me falares nesses termos, que não te conheço de parte nenhu­ma e que ando nestas coisas há mais de 40 anos? E não te apercebes do ridículo de dizeres que “ainda não perdeste a esperança em mim”? Quem és tu para adoptares esse tom paternalista comigo?

As tuas opiniões sobre o marxismo e o anarquismo estão abaixo de toda a discussão. Conheço pessoas que defendem o anarquismo com as quais consigo discutir e manter relações correctas. Contigo é impossível, não por causa da divergência de opiniões mas por causa da tua ignorância e grosseria. Deixa portanto de me escrever os teus disparates porque não tenho obrigação nenhuma de te aturar.

——————

[i][i] Datada de 23/2/1991. (Nota de AB).

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