Cartas a AG

Francisco Martins Rodrigues 

Carta a AG (1)

4/6/1996

Caro Amigo:

Registo e agradeço o novo assinante que angariou. Receberá já o número da revista que sai dentro de dias. Também o “Contraponto”, embora se tenha atrasado um pouco, está prestes a sair. Espero que ambos lhe interessem. Informa-nos a distribuidora que o livro de Guevara[i] tem saído bem na Feira e nas livrarias, pelo que tivemos que fazer uma reimpressão. E a sua tradução de Tom Thomas, está a progredir bem? Diga-nos depois alguma coisa. Aceite um abraço com muita amizade

Carta a AG (2)

14/2/1997

A sua carta sai neste número. Gostaríamos que a sugestão dos amigos da Suíça[ii] suscitasse algum debate entre os leitores, vamos a ver. Eu acho-a pouco realista, como já lhes disse, não tanto por desviar as atenções da acção prática (creio que é o seu ponto de vista) mas porque o estado de espírito das pessoas de esquerda ainda não chegou a um ponto em que se juntem para estudar e discutir marxismo. Terão que acontecer algumas coisas, não sei bem quais, para se criar uma vaga de fundo de busca do marxismo revolucionário.

O previsto livro do Tom Thomas que traduziu está encalhado, não sei por quanto tempo. Depois do enorme esforço que representaram para nós os últimos lançamentos (anunciados na PO 57), fizemos contas com a distribuidora e chegámos à conclusão de que estamos falidos, pelo menos por alguns meses. As tiragens são pequenas, a tipografia leva muito dinheiro pela impressão e encadernação e a distribuidora abocanha mais de metade do preço de capa. Resultado: tirando a “Viagem pela América” de Che Guevara, todos os outros nossos títulos deram prejuízo. Mesmo “Os meus anos com o Che”, em que púnhamos esperanças de recuperar dinheiro, está a sair mel. Ora, nós vivemos de fazer trabalhos gráficos para clientes, como forma de sustentar a PO e não podemos meter a revista no fundo por causa dos livros. Quer dizer que, quanto a novas edições, proximamente, estamos em jejum. A propósito, não nos poderia dar algum contacto de clientes interessados em trabalhos gráficos (paginação, revisão, fotografia)? Somos bons nisso e nada careiros, pode crer. Aceite as minhas saudações.

Carta a AG (3)

15/10/1998

 Caro A:

Dentro de dias receberás a PO. 66. O teu artigo foi incluído, infelizmente um boca­do retalhado para caber numa página. Como de costume, houve afluência à última hora e ainda ficou um artigo de fora. Espero ter mantido o essencial da tua argumentação. Caso queiras mandar colaboração para o próximo número, terei muito gosto. Fechamos a redacção na terceira semana de Novembro. Tive que recusar um artigo do nosso amigo RN, que era, na opinião do nosso colectivo, muito justificativo da ex-URSS e atacava fortemente a extrema-esquerda. Escrevi-lhe a explicar as nossas razões e espero que ele compreenda. Praticamos bastante abertura à crítica mas não queremos descaracterizar a revista, o que aconteceria se se tornasse um lugar das mais desencontradas posições.

De debates, nada feito até agora, não conseguimos as condições mínimas para um encontro com êxito. Vamos apresentar ao público um livro da Ana Barradas, “O Império a preto e branco”, uma colecção de postais ilustrados do princípio do século com comentários elucidativos sobre a “missão civilizadora” dos portugueses por esse mundo fora. A sessão é na FNAC, no Centro Colombo, dia 24, sábado, pelas 18 horas. Contamos com a tua presença, não?

Sabemos também que recebeste um convite, tal como nós, para uma sessão do MRPP sobre a regionalização, em Mem Martins. Pela minha parte, ainda não decidi se irei, depende da disponibilidade e da disposição do momento. Soubeste que eles receberam uma nova sede das mãos do João Soares? Agora é que já podem fazer o congresso.

Na questão da regionalização concordo no essencial com os argumentos deles para o não, só não defendemos o “não” na P.O. porque achámos desagradável aparecer em sintonia com os partidos da direita, por isso apelamos à abstenção. Apelo quase desne­cessário, porque segundo tudo indica a abstenção vai ser semelhante à do referendo anterior. A massa das pessoas não vê o interesse prático do assunto e não se comove nem com os argumentos do “sim” nem com os do “não”.[iii]

Assim vamos, cantando e rindo, com mais um grosso caso de corrupção. Até breve, um abraço

 —————-

[i] “Viagem na América”, Edições Dinossauro, 1996. (Nota de AB).

[ii] Sugestão de formação de um “centro de estudos marxistas” em Portugal. (Nota de AB)

[iii] O referendo sobre regionalização realizou-se a 8 de Novembro e foi rejeitado por larga margem. (Nota de AB)

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