Francisco Martins Rodrigues

A arma do ódio de classe

“A organização é a arma dos oprimidos”. Falso. A organização é um instrumento indispensável, mas se fosse essa a nossa arma para vencer os opressores estávamos bem lixados. A arma dos oprimidos é o ódio aos opressores, e não há outra, nem nunca houve.

Porque se diz isto tão poucas vezes? (Na realidade, há muito que ninguém se atreve a dizê-lo porque o ódio aos opressores envolve a decisão de os derrubar e isso não é autorizado). Estamos em liberdade vigiada, que só se mantêm enquanto nos comportarmos segundo as condições que nos são fixadas de cima. Por isso, surge a tendência natural para derivar a luta dos oprimidos para o campo da organização. É uma forma de a esvaziar de conteúdo. Todos temos visto como o investimento dos explorados na “arma” da organização pode fazer deles “lutadores” inofensivos, rebanhos queixosos que o poder vai entretendo com “alternativas” e “alternâncias”.

– Mas o ódio é irracional, próprio de gente atrasada, que não sabe o que quer e para onde vai! O ódio não é digno de marxistas que lutam por um mundo melhor!

Este preconceito de que o ódio não é próprio de revolucionários esclarecidos tem vindo a minar o nosso campo e ninguém lhe dá luta. Temos que dizer que o ódio não tem que ser necessariamente irracional, e que o nosso ódio, porque esclarecido e consciente, ódio de classe, é mil vezes mais eficaz do que o ódio irracional de um indivíduo que se rebela isoladamente. Mas é ódio a única conclusão racional que se extrai de um conhecimento da sociedade actual. Se o sistema é irreformável, como já demonstrou mais de cem vezes de forma sangrenta, se os donos do sistema estão dispostos a tudo para prosseguir, porque é essa a sua natureza e não sabem nem podem agir de outra maneira, a única conclusão racional é trabalhar para derrubá-los pela força. E isso ninguém o fará se não for impelido pela arma do ódio de classe.

Porque é que se perdem diariamente tantos esforços de esclarecimento, de organização, tantas boas vontades? Porque lhes falta o núcleo coerente, que só pode vir da vontade de abater o inimigo. Na ausência desse espírito, tudo se dissolve – e a burguesia sabe-o bem, por isso cuida de manter a oposição e a denúncia no nível “civilizado”, “cordato” – para a privar de garras.

Deixemo-nos pois do cristianismo que se faz passar por marxismo e retomemos o espírito da revolta intransigente. E esse o sumo do marxismo: os oprimidos contra os opressores, o derrubamento do sistema, a expropriação dos expropriadores. Guerra prolongada, cheia de pequenas escaramuças, de avanços e recuos? Decerto. Mas uma guerra permanente significa que todos os episódios menores devem tender ao objectivo final e ser avaliados pela medida em que favoreçam ou prejudiquem esse objectivo.

E isto significa o quê? Dar tiros? Pôr bombas? Também, sem falta. Mas para nós, aqui, agora, significa demarcar a cada momento os dois campos opostos, excitar o seu antagonismo, desacreditar os conciliadores, activar o alinhamento de cada indivíduo num ou noutro campo, acirrar a sua resolução de se bater por um lado ou pelo outro, aproximar com cada acção o choque necessário entre duas forças, dois objectivos – manter o sistema caduco a todo o preço, como eles pretendem, ou instalar um novo sistema, um novo modo de viver, como nós exigimos.

(Texto inédito, possivelmente de 2007)