O revisionismo é imbatível?

Francisco Martins Rodrigues

Está a classe operária a abandonar o PCP e a deslocar-se para as posições do nosso Partido? Esta é a pedra de toque para saber se trilhamos o caminho iusto. Enquanto um forte núcleo operário não se deslocar para posições revolucionárias, destruindo a actual hegemo­nia revisionista sobre o movimento operário e sindi­cal, todas as nossas preten­sões a fazer uma “política para milhões”, amplas alian­ças, etc., não passarão de folclore.

Ora, é um facto incon­testável que a nossa luta anti-revisionista não tem dado os frutos que dela esperávamos. É de resto essa falta de êxitos que leva ao abandono de muitos camaradas e que tem ani­mado os direitistas, desde Ricardo a Amadeu, a defen­derem uma nova política de abertura ao PCP. Para derro­tarmos as teses direitistas e firmarmos a luta contra o revisionismo em bases sóli­das, é necessário neste 4° Congresso do nosso Partido quebrarmos os laços políti­cos e ideológicos até hoje ocultos que nos colocam na dependência do revisio­nismo.

Esta afirmação pode parecer estranha e mesmo absurda à maioria dos cama­radas. O nosso Partido funda a sua política no papel motor das acções de massas, na radicalização da luta popular independente, na denúncia da política revisionista de subserviência face à burgue­sia liberal. Como pode haver dependência? A dependên­cia existe porque, tal como o PCP, nós apoiamos a nossa táctica na perspectiva de uma viragem política e de um governo fora da conquista revolucionária do poder. Tal como o PCP, nós defende­mos que a pequena- burguesia terá um papel revolucionário a desempe­nhar nessa viragem e nesse governo.

Este é o laço de depen­dência que é preciso que­brar. Esta é a origem da nossa falta de espaço no movimento operário. A polí­tica de colaboração de clas­ses e de evolução gradual defendida pelo PCP, contra­pomos uma política muito mais radical, mas também de colaboração de classes e também de evolução gradual.

Por isso, criticar o refor­mismo encapotado do “caminho do 25 de Abril do povo”, assentar as bases para a intervenção revolu­cionária independente da classe operária na política, é a primeira condição para começarmos finalmente a deslocar para a esquerda massas importantes de ope­rários e fazermos entrar em declínio a influência revisio­nista e reformista sobre a classe A vida já provou que o falso caminho do 25 de Abril do povo atenua as fron- teiras entre revolução e reformismo, entre proleta­riado e pequena burguesia, e por isso nos atira para a órbi­ta dos revisionistas, nos retira campo de acção polí­tica independente.

Só no dia em que o nosso Partido se libertar do pavor oportunista de proclamar o seu objectivo revolucionário como o verdadeiro fim de todas as manobras tácticas, só no dia em que se libertar do medo de desagradar à pequena burguesia, lhe ficará aberto o caminho para arrancar a massa operária, o movimento sindical, a Reforma Agrária, os campo­neses pobres, o povo, à in­fluência revisionista. Antes disso, não.

Só no dia em que o nosso Partido der esse passo, a nossa luta contra o PCP sur­girá em toda a sua força como uma luta de classes no seio do proletariado, como a forma superior da disputa da hegemonia entre o proleta­riado e a pequena burguesia, como o combate entre a revolução e o reformismo.

Nesse dia, conseguire­mos atingir certeiramente o antagonismo de classe latente nas fileiras do PCP, entre a base operária, que precisa da revolução embora não tenha ainda consciência disso, e a aristocracia operá­ria, a burocracia, a intelec­tualidade, os quadros reformistas até à medula, ini­migos da revolução e do socialismo, precisamente porque são pequeno- burgueses. Só então sabere­mos acirrar e fazer explodir a luta de classes adormecida dentro do PCP, entre os ope­rários que servem de força de choque dócil e a pequena burguesia que os dirige e pensa por eles.

Nesse dia, já teremos base para praticar uma audaciosa política de frente única com os operários da base do PCP. já teremos ini­ciativa para propostas, desa­fios e acções comuns, tanto na luta política como na for­mação da corrente sindical revolucionária. Dispondo de uma linha revolucionária sólida e de uma demarcação firme face à pequena bur­guesia, perderemos o medo de ser empalmados pelos revisionistas, libertar-nos-emos do sectarismo, que não é mais do que uma ati­tude defensiva produzida pelas ambiguidades da nossa plataforma política.

É claro que esse dia não chegará enquanto explicarmos o revisionismo como a política de uma “camarilha renegada” ou de “estreitos sectores contra-revolucionários”, para evitar chamá-la pelo seu nome: política da pequena burgue­sia que aspira chegar ao poder a cavalo na classe operária. Enquanto recear­mos dizer que o poder de atracção da política revisio­nista sobre largas massas proletárias e semi-proletárias traduz uma aliança des­ses trabalhadores com a pequena burguesia “comu­nista”, à qual entregam a condução dos seus destinos, por não se atreverem a acre­ditar na revolução proletária e a prepará-la. Enquanto mantivermos nas nossas fileiras sem critica as mais escandalosas ideias conci­liadoras com a pequena burguesia.

Quando o camarada Raul protesta na TC-4 contra o “ódio chapado e a guerra aberta à pequena burguesia” e reclama que não se subes­time a sua “real importância política”, ele está a exprimir fielmente todo o espírito de colaboração de classe que anima o “caminho do 25 de Abril do povo” e que nos lança desarmados na luta para arrancar a classe operá­ria aos revisionistas.

Sim, camarada Raul, para fazer política comunista, é obrigatório ter ódio à pequena burguesia, é pre­ciso mover-lhe guerra aberta, é preciso atacar a sua “real importância política”, para poder neutralizar os seus aspectos reaccionários e poder subjugá-la ao prole­tariado. Por estranho que te pareça, tudo isso é assim. Se negas isto, cais no oportunismo.

Não se trata de colocar a pequena burguesia “dez graus abaixo de cão”. Não se trata de “hostilizar um possível aliado, lançando-o nos braços da reacção”. Não se trata de- “regressar ao obreirismo dos grupos. Tudo isso são balelas. Trata- se de resolver se o proleta­riado tem ou não o direito de se demarcar politicamente da pequena burguesia, dizer que os interesses, a política, a táctica, a ideologia, a moral da pequena burguesia, não lhe servem. Trata-se do pro­letariado afirmar os seus próprios interesses, falar da luta de classes sem cerimó­nias “unitárias” balofas, expor à luz do dia os seus direitos revolucionários diante da sociedade bur­guesa, começar a inverter a dinâmica actual da luta de classes, atrever-se a come­çar a marchar para a revolução.

É disto que se trata. Sem isto, bem poderemos conti­nuar a excomungar os revi­sionistas. Eles continuarão imbatíveis.

Tribuna do Congresso nº 6, 9 de Outubro de 1982