O 18 de Janeiro de 1934 foi anarquista?

Francisco Martins Rodrigues

O silêncio embaraçado que os dirigentes revisio­nistas mantêm em torno do 18 de Janeiro (como de toda a história do PCP) tem dado espaço a uma campanha anarquista de recuperação dessa jor­nada, campanha que se impõe desmistificar.

A acreditar nos artigos que por estes dias têm saído na imprensa, o 18 de Janeiro teria sido obra quase exclu­siva da CGT anarquista; a CIS, a Comissão Inter-Sindical vermelha, teria uma implantação insignificante; a derrota do movimento seria culpa do Partido Comunista, por adiamentos sucessivos, por falta de secretismo ou até mesmo por denúncia à polícia! Todos estes dispara­tes anarquistas estão a ser vendidos ao público com o apoio do PS e de outras for­ças social-democratas, inte­ressados em fazer do 18 de Janeiro um trunfo do seu baralho ideológico. Mas a história não se faz com mentiras.

O ESTERTOR DA AGONIA

Se a CGT agrupasse em 1933 mais de 100 sindicatos, em comparação com os 5 ou 6 da CIS — é Emídio Santana que o declara sem pestane­jar — como se compreende que a força que as duas cor­rentes revelaram no movi­mento fosse mais ou menos equilibrada? E como se compreende que, em face da repressão, a CGT se des­mantelasse e a CIS prosseguisse?

As informações fantasis­tas sobre a “máquina organizativa” da CGT não resistem à confrontação com os fac­tos; a CGT era já em 1933 uma organização paralisada, isolada das massas, em vias de desagregação. Nem podia ser de outro modo. Sem uma estratégia e uma táctica revolucionárias, sem métodos de luta clandestina, era impossível aguentar o fascismo. A CGT agonizava porque lhe tiravam a sua base de existência, o sindi­calismo legal.

Precisamente porque não sabiam corno conduzir a luta do proletariado nas novas condições da ditadura, os anarquistas não viam como acumular forças revolucio­nárias para a derrubar e não encontravam outra resposta à ilegalização dos sindicatos senão jogar tudo por tudo na greve geral revolucionária. Aventureirismo suicida e obtuso que ainda hoje Emídio Santana reivindica como uma glória: “Decidiu-se a greve geral revolucionária, fosse qual fosse o resultado”.

A REBOQUE DA TROPA

Este desespero roma­nesco, impensável em homens que tivessem de facto à sua responsabilidade a direcção do movimento operário, encobria cálculos políticos tortuosos. Há muito que os chefes anarquistas tinham descoberto o elo que faltava na sua coxa teoria da revolução sem política: era o golpe militar, o “reviralho”.

Ao convocar a greve geral revolucionária, os dirigentes da CGT esperavam fazê-la coincidir com um golpe mili­tar então em preparação. Esse golpe eclodiu prematuramente a 17 de Novembro no Regimento de Infantaria 10, em Bragança, mas estava prometida uma segunda fase.

Esta foi a origem dos sucessivos adiamentos da greve geral, que mais tarde se pretendeu atribuir aos comunistas. Esta a razão por que a CGT queria convocar a greve geral de surpresa (!), sem agitação prévia entre as massas operárias, sem mani­festos, etc.

Lê-se numa obra anar­quista: “A greve geral e a acção insurreccional, para poderem alcançar os seus objectivos, teriam de apare­cer de surpresa”. E mais adiante “A CIS mantinha as suas reservas, teorizando as suas acções de massas” (2). Segundo a mesma obra, o delegado da CIS, Álvaro Gonçalves, em reunião com Mário Castelhano, secretá-rio-geral da CGT. ter-lhe-ia declarado que “a CIS nada tinha a ver com o movimento político (a sublevação dos oficiais) e entendia mesmo que os trabalhadores deviam ir sozinhos para o movi­mento, pois tinham força até para derrubar a ditadura” (3).

DOIS PROJECTOS

Assim se vê que, se o erro dos comunistas era sobresti­mar infantilmente as possibilidades do movimento operário naquele momento, o erro dos anarquistas era de outro género: esperavam arrastar os operários para a greve através da revolta da tropa e de umas sabotagens; queriam usar o movimento operário como força de apoio da burguesia oposi­cionista.

Não há pois nenhum fun­damento para as poses ultra-revolucionárias que adopta Emídio Santana. A corrente anarco-sindicalista funcio­nava já nessa altura como um apêndice social-democrata da burguesia liberal.

A diferença de atitudes entre comunistas e anar­quistas esta de resto bem expressa na revolta da Mari­nha Grande. “A maior in­fluência na Marinha Grande era bolchevista”, reconhe­ceu um ano mais tarde o insuspeito Castelhano na fortaleza de Angra (4). Por isso, na Marinha Grande foi aplicado o plano do assalto à GNR e da criação do soviete operário, novo órgão do poder. Era a ideia comunista da insurreição operária e da tomada do poder a contra­por-se à ideia anarquista de fazer pressão só por baixo e não pensar no poder.

PUTCHISMO

Mas se os comunistas pensavam na conquista do poder, ao contrário dos anarquistas, eles não deixa­ram por isso de manifestar uma enorme imaturidade e infantilismo, alheios ao marxismo-leninismo. Não viam com clareza as relações entre a vanguarda e a massa, a necessidade de uma intensa acumulação de for­ças para tornar possível a insurreição.

Bento Gonçalves resumiu bem no Tarrafal alguns dos traços típicos desse “esquerdismo” que dominava o Par­tido Comunista:

“A massa retardava em geral para a acção revolucio­nária. A sua vanguarda orga­nizada politicamente é que criava uma mentalidade para a barricada. Foi fácil cair neste círculo vicioso: se a massa retarda é impossível preparar a luta sobre a base duma acção de massas, mas precisamente porque a massa retarda é que é pre­ciso efectuar a acção a nos­sas expensas”. E ainda: “Havia um número apreciá­vel de camaradas do Partido que viviam alheios ao movi­mento sindical porque só lhes interessava mais directamente abordar as grandes questões’. Por exemplo: fazer um comicio-relâmpago e disparar uma pistola…” “Estes actos eram a expres­são da própria incompetên­cia de muitos membros do Partido para abordar as mas­sas no terreno da politização” (5).

Por causa deste ambiente, o Partido Comunista não foi capaz de levar a cabo um plano concertado de agita­ção, reuniões operárias, gre­ves e manifestações contra a lei de fascização dos sindica­tos. A CIS fez concessões à CGT. A táctica putchista dominou a táctica de massas — foi também Bento Gonçal­ves que o observou (6).

AQUISIÇÃO HISTÓRICA

O 18 de Janeiro foi domi­nado a meias pelo anarco-sindicalismo e pelo “esquerdismo” comunista. Significa isto que o seu balanço é totalmente negativo?

Aqueles que assim pen­sam perdem de vista o traço novo, original, que esse movimento inscreveu na luta de classes em Portugal — pela primeira e única vez até hoje. operários pegaram em armas por sua conta e colocaram-se como objec­tivo a instauração de um poder revolucionário diri­gido pela classe operária.

“O apelo dos operários de Petersburgo à insurreição, escreveu Lenine em 1905, não produziu efeito nem podia tê-lo tão cedo com eles desejavam. Será retomado mais uma vez ainda e as tentativas insurreccionais conduzirão talvez a novos insucessos. Mas o facto de a tarefa ter sido colocada pelos próprios operários tem uma importância colossal. O movimento operário, que tomou consciência do carácter premente e prático desta tarefa, que surgirá como iminente na próxima explosão popular, seja ela qual for, fez com isto uma aquisição que nada poderá roubar-lhe” (7).

Que a aquisição histórica do 18 de Janeiro oriente os nossos passos. Só trilhando esse caminho realizaremos um dia a tarefa esboçada há 48 anos na Marinha Grande.

NOTAS                                       

1) Entrevista de Emídio Santana ao Ponto de 14-1-82 e ao Portugal Hoje de 18-1-82.

2) “O 18 de Janeiro de 1934 e alguns antecedentes”, por Acácio Tomás de Aquino e outros, pp. 71-72.

3) p. 116.

4) id. p 119.

(5) Bento Gonçalves, ed. Opinião, pp. 137 e 144-145.

6) id. p. 138.

7) Lenine, Obras, tomo 8 , p. 151.

Bandeira Vermelha, 21 Janeiro 1982

 

 

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