Não fui eu que me evadi?

Francisco Martins Rodrigues

Lisboa, 14 Janeiro 1985

À Redacção de “O Jornal”

Exmo. Sr. Director

Com surpresa, tonei conhecimento pelo Jornal da semana passa­da de que não fui eu que me evadi do forte de Peniche em 3 de Ja­neiro de 1960 mas sim um indivíduo de nome Rolando Verdial. Se não me recordasse tão distintamente do que se passou nessa noite, esta insistente omissão do meu nome (porque não foi só O Jornal que o fez, mas também O Diário, o Avante, a televisão, etc.) ainda poderia acabar por me provocar uma crise de identidade. Mas, por enquanto, continuo firmemente convencido de que, de facto, fui um dos que desceram a muralha do forte de Peniche em 3 de Janeiro de 1960 por una corda feita com lençóis.

Aparentemente, o erro de Rogério Rodrigues ter-se-á devido a uma dedução precipitada de que o “traidor” referido pelo PCP como o 10° fugitivo seria Rolando Verdial, cuja passagem para o serviço da PIDE deu na época bastante que falar. Ora, Rolando Verdial não podia ter fugido de Peniche porque se encontrava na altura no forte de Caxias, donde veio a evadir-se em Dezembro de 1961. O “trai­dor” em questão era efectivamente eu.

E, já agora, acho útil explicar a história da minha “traição”, que, pelos vistos, traumatizou a tal ponto os dirigentes do PCP que ainda hoje os leva a suprimir cuidadosamente o meu nome de tudo o que respeita à vida do seu partido nos anos 50-60.

Após a fuga, retomei a acção na clandestinidade como funcionário do PCP. Em Março de 1961 fui cooptado como membro suplente do Comité Central e em 1962 passei a integrar, com Blanqui Teixeira e Alexandre Castanheira, o Comité Executivo do CC, órgão máximo de di­recção do partido no interior. No Verão de 1963 fui como delegado do Comité Executivo a uma reunião do CC no exterior. Nessa reunião, que teve lugar em Moscovo, critiquei o dr. Álvaro Cunhal pelo seu alinhamento incondicional com a União Soviética no diferendo sino-soviético e pela orientação ultra-moderada que imprimia à políti­ca do partido, nomeadamente quanto à guerra colonial e ao derrube da ditadura (um manifesto por mim redigido, em que se apelava à luta de massas pela derrota do governo na guerra, fora retirado da circulação por ordem de Cunhal).

É curioso referir que um dos pontos de mais acesa discórdia nes­ta reunião foi precisamente a minha opinião de que Rolando Verdial, que entretanto se pusera ao serviço da PIDE, devia ser executado, opinião que o dr. Á. Cunhal condenou veementemente como “terrorista”.

Devido à gravidade das minhas divergências, que me levaram a classificar o dr. Álvaro Cunhal como “oportunista”, fui enviado pelo CC do PCP em missão para Paris, sendo-me vedado o regresso à acti­vidade clandestina em Portugal, pois eu “poderia tentar dividir o partido”, segundo palavras do dr. Cunhal.

Chegado a Paris, abandonei o PCP e fundei, com João Pulido Va­lente, Rui d’Espiney e outros, o Comité Marxista-leninista Portu­guês e a Frente de Acção Popular (FAP), em princípios de 1964. Ao serviço destas organizações, regressei clandestinamente a Portugal em Abril de 1965, sendo preso pela P1DE em Janeiro de 1966. À data do 25 de Abril, encontrava-me de novo no forte de Peniche a cumprir uma pena de 19 anos de prisão.

Como se vê por estas notas, ó só por motivos de puro sectarismo e má consciência que os dirigentes do PCP tentam fazer-me desaparecer da fuga de Peniche e da história do PCP. O que é menos compreen­sível é que Rogério Rodrigues, tendo coligido um relato tão circuns­tanciado da fuga, inclusive com citações de documentos da época em que o meu nome era mencionado, não se tenha apercebido do erro.

A propósito, faço notar uma outra inexactidão: os três presos que não participaram na evasão foram António Borges Coelho, Humberto Lopes e um advogado de Lstarreja, cujo nome não me ocorre de mo­mento. Júlio Fogaça não estava preso na época e esteve mesmo na vi­la de Peniche no dia da fuga, orientando as equipas de apoio. Mais um pormenor que, obviamente, interessa ao PCP esquecer.

Para concluir: não acho que tenha feito uma grande proeza ao fugir de Peniche, nem falo nisto para pedir nenhuma medalha, mas, francamente, não vejo porque hei-de ser eu a pagar os complexos de renegação do comunismo que afligem o dr. Álvaro Cunhal.

Sem outro assunto, e agradecendo a publicação destas linhas, creia-me

Atenciosamente

(inédito)

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