Teoria e Prática

Francisco Martins Rodrigues

A atitude a tomar perante o Encontro Sindical de Classe promo­vido pelo PC(R) e perante a manifestação de 25 de Abril suscitou debate e algumas divergências nas nossas fileiras, inclusive na direcção. Diversos camaradas manifestaram-se contra a participarão nessas iniciativas. 0 seu argumento principal era de que, faltando-nos uma plataforma política e sindical clara, corríamos o risco de servir de força de apoio ao centrismo e ao revisionismo, nem obtermos qualquer proveito. Argumentou-se também que não teríamos espaço para nos demarcarmos, pois, se assumíssemos as nossas posições de princípio nessas acções, teríamos que enfrentar hostilidades, choques e uma reacção sectária dos trabalhadores enganados, acabando por ser marginalizados, devido à nossa pequenez.

É claro que há alguma verdade nestes argumentos. Mas eles refle­ctem, em minha opinião, sobretudo falta de vigilância contra o perigo de nos tornarmos uma seita se não nos apoiarmos no movimento real das massas, uma incompreensão de que a nossa actividade na etapa actual deveria ser só de propaganda, uma ideia de que a rup­tura de esquerda que fizemos significaria “nenhuma compromisso”.

Estas ideias são prejudiciais. A verdade que já está vista é que a nossa ausência do Encontro Sindical de Classe facilitou a direcção do PC(R) vitalizar-se (mesmo que só temporariamente), ca­pitalizando para si o descontentamento da ala esquerda do movimento sindical, com as suas palavras de ordem mais radicais do que as do PCP. Só a presença aí dos comunistas teria permitido pôr a nu a duplicidade e a parlapatice dos chefes centristas to PC(R).

Poderíamos perguntar-lhes por que só agora se resolveram a levar à prática aquilo que desde o 4º Congresso vínhamos reclamando porque deixaram cair sorrateiramente a sua palavra de ordem acerca do centro “O Trabalho”, como encaram a relação entre trabalho na CGTP e na UGT, e o que pensam da palavra de ordem da Greve Geral. Etc.

A nossa presença no Encontro Sindical ter-nos-ia permitido estar presentes nessa corrente que existe (embora alguns camaradas teimem em negá-lo) e lançar pontes para uma intervenção mais organizada no futuro.

Devemos estar atentos a esta questão do movimento de massas. A concentração de esforços no lançamento da revista e nos temas de estudo não deve servir para abrir campo a qualquer tendência de retirada do movimento de massas, ou de alheamento teoricista das questões concretas que preocupam a classe operária. Isso seria uma fonte de desvios e poderia tornar-se na fase actual um foco de oportunismo nas nossas fileiras. Há cinco meses, a nossa luta principal era para nos decidirmos a Lançar uma revista de crítica marxista como centro do nosso projecto. Havia incompreensões a esse respeito. Agora, quando essa tarefa esta em andamento temos que estar atentos ao perigo de nos desinteressarmos do movimento real.

O nosso campo de intervenção política e sindical é muito modesto nesta fase da nossa existência. Mas temos a obrigação de o ocupar, na medida das nossas forças. Só assim ligaremos a teoria à prática.

A direcção decidiu na última reunião convocar para 12 de Maio um encontro dos activistas-operários e sindicais, aberto a todos camaradas, para um debate sobre esta Frente de luta. Penso que se impõe nesse encontro uma autocrítica da direcção pela fraca convicção que pôs na presença no encontro Sindical de Classe.

(Texto publicado no Boletim Interno nº 2 da OCPO – Organização Comunista Política Operária, Abril de 1985, inédito)

 

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