Irão: a guerra que se prepara

Francisco Martins Rodrigues

A concordância da administração Bush em sentar-se à mesa das negocia­ções com delegações do Irão e da Síria para discutir a “estabilização” do Iraque foi apresentada por certa imprensa co­mo um sinal de apaziguamento na cha­mada “crise iraniana”. Multiplicam-se contudo sinais iniludíveis de que esta “concessão” se destinou apenas a cobrir a escalada em curso: depois da detenção pelo exército norte-americano de uma delegação iraniana em visita oficial ao Iraque, em Fevereiro, os EUA forçaram a aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU de novas sanções contra o Irão; concentram no Golfo uma enorme for­ça naval; na Austrália, o vice-presidente Dick Cheney repete que, quanto ao Irão, “o governo considera todas as opções”; a CIA prossegue com operações clan­destinas para desestabilizar o governo do Irão; e em fins de Março uma lancha de guerra inglesa entrou em águas terri­toriais iranianas, numa provocação que só não teve maiores consequências devi­do à hábil reacção de Teerão.

Não restam muitas dúvidas de que está em marcha uma escalada de provo­cações semelhante à que teve lugar quan­do do cerco ao regime de Saddam Hussein. Contando com a cooperação do governo inglês neste tipo de tarefas sujas, Washington pretende criar uma situação irreversível que culmine numa “provoca­ção intolerável” dos iranianos e acabe por justificar aos olhos da opinião públi­ca o desencadeamento de actos de guer­ra. Mesmo a inesperada “normalização” da crise com a Coreia do Norte pode fazer parte da concentração de forças em torno do Irão.

AVENTURA IMPOSSÍVEL?

Os EUA têm neste momento no Golfo dois porta-aviões (Dwight Eisen­hower e Nimitg) e três grupos navais de ataque. Um terceiro porta-aviões está a caminho. Não se trata só de intimida­ção. Segundo a BBC, o comando central dos EUA tem uma lista completa de al vos iranianos a atacar com mísseis: cen­trais nucleares, bases aéreas e da mari­nha, centros de mísseis, etc.

A hipótese de uma nova aventura militar, quando os Estados Unidos estão a braços com um cenário catastrófico no Iraque, parece de tal forma insensata que muitos se recusam a admiti-la como pos­sível. Mas isto é não ter em conta que, para o Pentágono, a fuga para a frente é um recurso para tentar evitar um desas­tre iminente.

Escolhido desde o 11 de Setembro como alvo principal da ofensiva no Mé­dio Oriente e incluído na lista do “Eixo do Mal”, o Irão tem vindo de então para cá a tornar-se um empecilho cada vez maior na “reconfiguração estratégica” planeada pela equipa de Bush. A utiliza­ção dos partidos xiitas como alicerce do governo colaboracionista no Iraque, o descalabro da ocupação daquele país e o estrondoso fracasso israelita no Líba­no só serviram para aumentar a influên­cia política do Irão na região. Não tendo conseguido até agora o derrubamento do seu regime por uma crise interna, só resta a Bush a via do ataque militar.

Para os estrategas do Pentágono, tu­do se resume pois a criar bons pretextos para o ataque. Ou pela histeria em torno da ameaça nuclear iraniana; ou devido a um ataque mortífero às forças dos EUA no Iraque, que permita acusar o Irão; ou pelo lançamento de um míssil sobre Israel e atribuído a Teerão — meios não faltam para que, em ambiente de crise nacional, o Congresso vote plenos po­deres a Bush para retaliar.

Naturalmente, uma invasão terrestre igual à do Iraque está por natureza ex­cluída. Bush-Cheney sabem-no e não tencionam meter-se noutro pântano. Mas há outra “solução” — uma onda de bombardeamentos aéreos, ditos “cirúr­gicos”, que ponham fora de acção os meios de retaliação do Irão. É essa que está a ser activamente preparada e de que dão conta os testemunhos que a seguir reproduzimos.    

Três testemunhos

LEONIDE IVACHOV

“Vamos provavelmente assistir à en­trada em acção da guerra informacional, com uma febre histérica anti-iraniana, “fugas” de notícias para os jornais, desinformação, etc. Como não é certo que o Congresso dos EUA autorize a guerra, poderá recorrer-se a uma provocação, como um ataque contra Israel ou contrai bases militares dos EUA. Se essa provo­cação tiver uma amplitude da ordem dos atentados do 11 Setembro de 2001, então o Congresso dirá decerto ‘sim’ ao presidente.”

MICHEL CHOSSUDOVSKY

“A decisão de atacar o Irão nada tem de surpreendente. Consta já desde 1995 dos planos de guerra do Centcom (Co­mando Central US). Actualmente, Wa­shington estuda o recurso a uma força militar esmagadora que atacaria em re­presália a uma alegada agressão ou deso­bediência do Irão a intimações da ONU.

O bombardeamento das instalações militares iranianas com armas conven­cionais desencadearia uma catástrofe do tipo da de Tchernobyl, com poeiras nu­cleares de grande envergadura. Se o Irão responder por meio de ataques contra instalações EUA, no Iraque ou nos paí­ses do Golfo, serão então utilizadas ar­mas nucleares tácticas ‘preventivas’ aníibunker. Israel, pela sua parte, está pronto. Os preparativos para um ataque aéreo de surpresa ao Irão começaram em 2004”. {Global Research, 21/2/07).

JOHN PILGER

“Os Estados Unidos estão a planear o que será um ataque catastrófico ao Irão sob a alegação de que este constitui uma ‘ameaça à paz’.

Contudo, no capítulo da “ameaça ira­niana”, a única prova sólida é a ameaça colocada pelos Estados Unidos. Uma formação naval norte-americana está a postos no Mediterrâneo oriental. Pela primeira vez desde os anos mais perigo­sos da Guerra Fria, a utilização do que então se chamava armas nucleares “limi­tadas” está a ser discutida abertamente em Washington. Seymour Hersh revelou no ano passado no New Yorker bom­bardeiros americanos “têm estado a voar em missões simuladas de lançamento de armas nucleares, desde o último Verão” e o bem informado Arab Times, do Kuw­ait, afirma que Bush atacará o Irão antes do final de Abril.

Em Novembro último, a maioria do eleitorado americano votou pelo Partido Democrata a fim de travar a guerra no Iraque. Tem havido insípidos discursos de “desaprovação”, mas é improvável que isso aconteça.

Pode isto estar realmente a acontecer outra vez, menos de quatro anos após a invasão do Iraque que deixou um saldo de 650.000 mortos? Escrevi pratica­mente este mesmo artigo no princípio de 2003; basta ler ‘Irão’ onde eu então mencionava o Iraque.

Na Grà-Bretanha, salvo algumas honrosas excepções, o Parlamento per­manece vergonhosamente silencioso. Jornalistas privilegiados, académicos e artistas, escritores e dramaturgos que por vezes falam acerca da “liberdade de ex­pressão” estão silenciosos. O que espe­ram? A declaração de um outro Reich de mil anos, ou uma nuvem em cogume­lo no Médio Oriente? Ou ambos?” □


Confirmação

Os principais jornais e noticiários televisivos dos EUA nem sequer noticiaram o testemunho recente do antigo conselheiro de segurança nacional Zbigniew Brzezinski quando declarou perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros do Senado que a administração Bush se está a dirigir para um confronto militar com o Irão e que, para o conseguir, poderá criar um “cenário plausível” para uma acção militar americana “defensiva”. Sugeriu, inclusive, que a Casa Branca era capaz de fabricar ou permitir um ataque terrorista dentro dos Estados Unidos para criar um pretexto de guerra contra o Irão.

Que estas declarações explosivas, proferidas por uma personalidade como Brzezinski, com ligações estreitas aos aparelhos militar e de infor­mações, tenham sido ignoradas pela grande imprensa e pelos noticiários televisivos da PBS e NBC, etc., só tem uma interpretação possível: os meios de comunicação institucionais preparam-se de novo, tal como na corrida para a invasão do Iraque, para servir de caixa de ressonância da propaganda da guerra e das mentiras da administração Bush.


Política Operária nº 109, Março-Abril 2007

 

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