Agir antes que seja tarde de mais!

Francisco Martins Rodrigues

Como não há-de estar em crise uma esquerda que continua a assistir de braços cruzados ao calvário do povo palestiniano, como se não lhe dissesse respeito?

Quando da guerra do Vietname ou da luta de liber­tação das antigas colónias portuguesas, embora vivês­semos sob a ditadura fascista, a esquerda conduziu uma luta corajosa em solidariedade com esses povos. Porque fica agora apática perante o espezinhamento de todo um povo? Não basta dizer que a intervenção se torna difícil devido à propaganda em torno do “terrorismo” dos palestinianos e à imagem de invencibilidade dos israelitas. Noutro tempo também os guerrilheiros eram chamados “terroristas” e os colonialistas pareciam in­vencíveis, e isso não impedia a intervenção.

A verdade é que, nesta época de contra-revolução global, a esquerda se deixa facilmente penetrar e para­lisar pelos argumentos da direita. Mas será assim tão difícil rebatê-los?

“Israel tem direito a defender-se” – Israel é o estado terrorista por excelência. O mais seguro aliado dos Estados Unidos, sustentado a milhares de milhões de dólares anualmente, massacra há meio século os palestinianos, pratica o assassinato dos opositores, gaba-se de torturar prisioneiros, tem como primeiro-ministro um criminoso de guerra… Entre outras proezas, deu assistência “técnica” a todos os ditadores fascistas da América Latina, ensinando-lhes como raptar, torturar e matar opositores. E é este regime que exige dos pales­tinianos “provas de que renunciam ao terrorismo”!

Fim à violência de ambos os lados” — Para além do cinismo de pôr os tanques, helicópteros e mís­seis dos ocupantes em paralelo com as armas rudimen­tares dos palestinianos, este argumento mete no mesmo saco agressores e agredidos. Sem querer saber o que originou o conflito, reclama-se que os combatentes de ambas as partes deponham as armas, como se fosse igual o direito à violência dos que são expulsos, amontoa­dos em acampamentos, batidos, humilhados e o dos que, em nome da “segurança’, praticam a invasão.

“Terrorismo dos palestinianos é inaceitável” – Isto equivale a dizer que o terrorismo militar e policial dos israelitas é admissível. Os atentados suicidas são o último recurso dos que se sentem esmagados e tentam assim despertar a opinião pública israelita e internacio­nal da indiferença com que assiste à sua tragédia. Os atentados só surgem quando um povo está submetido a um poder de tal forma superior que não lhe deixa outro meio de luta. Pregar moral aos que agonizam é tacanhez e hipocrisia.

“A ONU que mande uma força de interposição” – Foi um plano da ONU, em 1947, que deu a maior parte do território à minoria judaica. A ONU consentiu que Israel fizesse uma brutal limpeza étnica, expulsando pelo terror dois milhões de palestinianos da sua pátria. Os acordos de Oslo, promovidos pela ONU, conduziram os palestinianos a cedências a troco de promessas falsas. Querer que os palestinianos entre­guem de novo o seu destino nas mãos da ONU, contro­lada pelas grandes potências, é convidá-los à rendição.

“Judeus receiam um novo holocausto’’ – Há meio século que os sionistas exploram os horrores do Holocausto para acusar de anti-semitismo os que comba­tem a sua política. Apresentando-se sistematicamente como “vítimas”, justificam como um “direito de respos­ta” os actos diários de selvajaria fascista contra civis palestinianos. 0 holocausto, agora, são eles que o pra­ticam sobre outros.

“É utópico querer descolonizar a Palestina” – “Como se pode querer derrotar com pedras e atenta­dos suicidas um dos maiores poderes militares do mun­do, armado e financiado pelos EUA?” Também outrora muitos achavam inconcebível que a Argélia deixasse de ser francesa, ou que Angola deixasse de ser portugue­sa, ou que o apartheid caísse. Afinal, nesses como em tantos outros casos, a resistência popular aos colonialis­tas acabou por lhes tornar a ocupação insustentável, apesar da desproporção de forças.

“O povo judaico tem direito a voltar à sua terra” – Que povo é este, composto a partir de contin­gentes de migrantes transportados dos mais diversos cantos do mundo, falando línguas diferentes, vindos de culturas diferentes, e unidos apenas por uma religião? Se os judeus podem invocar o “direito ao regresso” por causa da nação judaica que existiu há 2000 anos então também os índios teriam direito a reclamar que os norte-americanos voltassem para a Europa e os mouros viriam governar Portugal… O “direito à terra prometida” foi uma impostura criada pelo imperialismo.

“Tanto valem uns como outros ” – “Tão detes­tável é o nacionalismo dos judeus como o dos árabes, tão fanáticos são uns como os outros”. E se ambos os campos se equiparam, podemos dispensar-nos de tomar posição… Esconde-se a causa da luta – o expansionismo dos centros imperialistas, dispostos a cilindrar todas as resistências, inclusive a das burguesias nacionais que recusem submeter-se incondicionalmente. Foi o caso do Iraque, do Irão, da Jugoslávia, do Afeganistão, é agora o da Palestina.

“Que sentido faz uma luta nacional na época da mundialização?” – Esta ideia, tida como muito avançada por certos sectores da esquerda, esquece que o internacionalismo não se pode construir sobre opressões nacionais. 0 povo palestiniano tem tanto direito como qualquer outro à descolonização da sua terra. Não pela expulsão dos judeus, cuja presença se tornou já hoje um facto irreversível, mas pela convivência de ambas as comunidades, como já acontecia antes de começar a colonização sionista em massa. Simplesmente, a convivência só será possí­vel quando for derrotado o Estado fascista sionista. Só a partir daí poderão dois Estados laicos e democráticos na Palestina, um judaico e um árabe, por fim a décadas de massacres e sofrimentos e abrir caminho, no futuro, a um único Estado palestiniano onde ambas as comunidades vivam em paz.

Entendamo-nos: não é por falta de clareza que as forças de esquerda no nosso país se mantêm na expectativa face à guerra criminosa contra o povo da Palestina. Pelo contrário. É por se aperceberem perfeitamente do que está em jogo que procuram furtar-se ao dever de solidariedade e à tarefa de consciencialização do povo. Receiam ser apontados como “radicais” e “apoiantes do terrorismo”. Receiam tornar-se alvo da campanha dos sionistas, que acusam como “anti-semitas” todos os que denunciam os seus crimes. Receiam envolver-se numa acção de resistência pro­longada que exige muito trabalho e não promete frutos eleitorais.

Mas não tenhamos dúvidas: omitir-se perante o dever internacionalista numa causa desta gravidade equivale a corromper- se irremediavelmente; é na prática agir como cúmplice do imperia­lismo numa agressão odiosa contra um pequeno povo.

Política Operária nº 84, Mar-Abr 2002

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