Democratismo moderado

 

Francisco Martins Rodrigues

Depois de muitos anos de inter­rupção, está a sair de novo regularmente este órgão do democratismo moderado, agora propriedade da Intervenção Democrática, a ala es­querda que restou do ex-MDP/CDE.

Motivo de interesse neste nú­mero, a enorme variedade de entre­vistas, com o senão de falarem de tudo e mais alguma coisa. Villaverde Cabral mistura algumas irreverên­cias bombásticas que lhe ficaram do Maio de 68 (“os partidos são bandos organizados com o objectivo de se apoderar dos recursos do Estado”, “este sistema político-partidário é um sistema em agonia”) com uma curteza de vistas nada avançada quando atribui o actual descalabro económico do país aos partidos, que “não estiveram à altura” de uma po­lítica desenvolvimentista; ou quando vê na entrada de imigrantes o fruto de uma atitude fidalga dos trabalha­dores portugueses, indisponíveis pa­ra trabalhos baixos, em vez de apon­tar o banditismo dos empresários ávidos por escravos; ou ainda quan­do acha muito bem que se mande gente para casa, para aumentar a produtividade; tem pelo menos a lucidez de constatar que “o PSD vai 38 fazer duas ou três privatizações e dar dois ou três apertos nas finanças, mas se o governo fosse do PS teria que fazer o mesmo”; da entrevista de Octávio Teixeira não há muito a dizer: torna-se chato à força de diplo­macia; Medeiros Ferreira não vacila na defesa da ordem (“a segurança faz parte da democracia”); Carlos Lo­pes, o intelectual cabo-verdiano que faz carreira na ONU, põe a CPLP pelas ruas da amargura (com razão). Há ainda Costa Leal, presidente do Mon­tepio Geral e mecenas da revista, a discorrer extensamente sobre a filo­sofia mutualista do seu banco (5º no ranking nacional), e até o xeique Mu­nir, da comunidade islâmica, a debi­tar abstrusas considerações religio­sas.

A revista reproduz também com destaque a mensagem de Saramago ao Fórum de Porto Alegre. O escritor associa, como é seu hábito, a rebus­cada elegância académica com algu­mas verdades contundentes: a impo­tência e a miséria dos partidos da “denominada esquerda” e dos sindi­catos, a democracia reduzida a ritos, os governos como comissários políti­cos do poder económico… Para equi­librar, fecha em tom mais consen­sual, pedindo um “debate mundial sobre as causas da decadência da de­mocracia”, reivindicação inócua mas que fica sempre bem nos fóruns.

Onde a nova Seara Nova falha por completo é quando tem que for­mular juízos sobre o caminho que se oferece à esquerda. Aí, vêm ao de cima as contradições em que se de­bate o pensamento da corrente polí­tica que a anima. Assim, o editorial considera “incompreensível” que, nas últimas eleições legislativas, os eleitores tenham preferido a direita quando “seria de esperar” que pena­lizassem a política neoliberal do PS optando por uma “política alterna­tiva de esquerda”. Está-se mesmo a ver, uma viragem à esquerda nas eleições de Março!

A mesma estreiteza num artigo de Canais Rocha, em que aliás se di­zem algumas verdades sobre a “cri­se” da Segurança Social. Salazar usou os dinheiros da Previdência para financiar os investimentos ca­pitalistas e as guerras coloniais, mas depois do 25 de Abril, a Segurança Social tem servido para tudo: reestruturar empresas, beneficiar joga­dores de futebol, clero, militares, fi­nanciar a criação de PPR que benefi­ciam quem mais rendimentos tem… Entre 1975 e 1995 os encargos estra­nhos ao sistema da Segurança Social mas que este teve que suportar elevam-se a mais de 6 mil milhões de contos e o Estado nem sequer paga juros sobre essa dívida. As seguradoras clamam que o sistema está à beira da falência por­que querem abocanhar uma parte pelo menos das centenas de milhões de contos que ele movimenta anual­mente. Mas depois de tudo isto, o autor debruça-se sobre as medidas de apoio aos idosos a promover pelo Estado e pelas autarquias e que da­rão o seu contributo “para ir cons­truindo a Democracia Social”.

As mesmas boas intenções alimentam o artigo de Blasco Hugo Fernandes, em que depois de desmistificar a pretensa aproximação da economia nacional ao nível comuni­tário, defende a necessidade de “substituir na construção europeia os critérios de rendibilidade financei­ra e capitalística por outros onde a satisfação das necessidades sociais tenha a primazia” e se pede a promo­ção de “um projecto de sociedade alternativo, baseado no aprofunda­mento e alargamento da democracia ao terreno económico, social e cultu­ral”. Entre “propostas” deste tipo e as rezas à Senhora de Fátima não vai grande distância…

Há ainda neste número colabo­rações de Ulpiano Nascimento sobre a crise argentina, de Corsino Tolentino, Eduardo Costa Dias e Alfredo Margarido sobre Senghor, e uma emotiva mas desinteressante home­nagem de Irene Dias Amado a Carlos Aboim Inglez, o dirigente do PCP recentemente falecido.

Política Operária, nº 85, Mai-Jun 2002

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