O “fenó­meno esquerdista”

Francisco Martins Rodrigues

Esquerdalhos, renegados e outros bandalhos. J. Varela Gomes. ed. do Autor, Lisboa, 2003.

Varela Gomes insurge-se contra a baixeza dos antigos “esquerdistas” que rapidamente se converteram à nova ordem e se puseram à procura de bons tachos. Se o seu opúsculo fosse só isto, seria divertido e instru­tivo (é conhecida a riqueza informa­tiva dos ficheiros de VG). O problema é que ele pretende transformar esta denúncia num “ensaio de interpre­tação e desmistificação do fenómeno esquerdista”, num “julgamento ético/político dos esquerdistas portu­gueses”, e neste verdadeiro ajuste de contas manifesta uma estreiteza de vistas nada marxista.

Com efeito, VG retoma a gasta tese soviética de que a onda “esquer­dista” dos anos 60-70 seria simples produto dos “excessos líricos e anar­quistas” da “revolução cultural” chi­nesa, a qual teria contagiado no Ocidente uns bandos de meninos da pequena burguesia, eivados de “ódio militante e virulento ao PCP e à União Soviética” e por isso acarinhados pe­la reacção, quando não manipula­dos pela CIA. Não lhe ocorreu procurar as raízes desse movimento na indignação e na revolta mais que justificadas de toda uma gera­ção quando, às lutas revolucionárias que alastravam numa escala nunca vista, no Vietname, em África, em Cuba e por toda a América Latina, a URSS respondia com ofertas de “coe­xistência pacífica” aos governantes dos EUA, e os PCs “ortodoxos” piscavam o olho à burguesia com a “passagem pacífica e parlamentar ao socialismo”. Sobre isto, o “julgamento ético/ político” de VG não diz uma palavra.

E, naturalmente, se se omite esta de­riva bem real para a direita, a reac­ção esquerdista surge como algo in­compreensível e intolerável.

Ora, esses esquerdistas portu­gueses, que VG insulta com suspeitas de envolvimento com a PIDE e o im­perialismo, foram presos às dezenas e condenados pelo fascismo; após o 25 de Abril despertaram a vigilância e o repúdio popular contra a reacção c a exploração; se muitas vezes entra­ram em conflito com o PCP foi por­que este se opunha às lutas não pro­gramadas, obcecado pelos “perigos do aventureirismo”; as suas atitudes “sectárias e divisionistas”, que tanto indignam VG, eram em muitos casos o reflexo do sectarismo cego dos mi­litantes do PCP contra eles; a acusa­ção de que teriam “inviabilizado to­dos os projectos de resistência ao avanço da contra-revolução” do PCP e do MFA torna-se caricata, tendo em conta a dimensão diminuta desses grupos esquerdistas; e também não faz muito sentido querer desclassificar a corrente esquerdista por ter tido muitos “trânsfugas” depois do 25 de Novembro, quando se sabe que o mesmo aconteceu e continua a acontecer ao PCP.

Não idealizamos o “esquerdismo”. Sabemos que a campanha “anti-revisionista” do PC da China continha, para além de muitas críti­cas marxistas acertadas, uma com­ponente burguesa nacionalista e que essa duplicidade se reflectiu pesada- mente na corrente internacional pró-chinesa. Foi isso que fez com que, no nosso país, uns tantos grupos “maoístas” (MRPP, PCP(m-l)-AOC, OCMLP) se tenham revelado em 74-75 como activos e conscientes inte­grantes da direita; foi isso que, mes­mo nos outros, deu origem a muitas flutuações e inconsequência. Mas isso não pode apagar o essencial do seu alinhamento: o “esquerdismo” (o autêntico, não o dos “maoístas” social-democratas) foi uma onda avançada como este país há muito não conhecia, a redescoberta exaltante do marxismo como uma imen­sa liberdade crítica, ao serviço dos despossuídos – aquilo que há muito estava morto nas fileiras do PCP.

Se VG queria entender o “fenó­meno esquerdista” deveria ter colo­cado a si próprio algumas perguntas: porque é que tantos trabalhadores, que admiravam o PC pela sua resis­tência ao fascismo, mesmo assim da­vam ouvidos às propostas dos “es­querdistas”, divididos em grupinhos sem qualquer prestígio? Como é que se tornou possível a influência de jo­vens agitadores de ocasião em comí­cios e plenários de empresa? Por que mistério as iniciativas vanguardistas se popularizavam rapidamente como rastilho? A greve dos CTT, a pri­meira, que o PCP tentou desmobilizar e os esquerdistas apoiaram, foi obra da reacção? Eram os “esquer­distas” que transviavam as massas ou eram eles próprios um produto do ascenso do movimento?

O raciocínio que anima a diatri­be de VG é, quanto a mim, o seguin­te: a “agitação frenética” e a “grande bagunça” dos esquerdistas causou a “desorientação e ineficiência” nas forças que dirigiam o processo revo­lucionário; os esquerdistas teriam sido culpados por incutir nas massas ambições imprudentes, afastando-as da via bem ordenada que para elas tinham traçado os seus “verdadeiros dirigentes” – o PCP e a ala esquerda do MFA. Mas isto é uma incompre­ensão total do que seja a revolução. O marxismo de VG filia-se na velha escola da “revolução” arregimenta­da, que nunca produziu até hoje revolução nenhuma.

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