Manifesto contra o tra­balho

Francisco Martins Rodrigues

Analisamos aqui uma das mais recentes produções teóricas do grupo Krisis, que edita na Alemanha uma revista sob a direcção de Robert Kurz, e que tem pu­blicado livros com impacto na esquerda europeia, como O colapso da moderniza­ção e o Livro negro do capi­talismo (não confundir com outra obra de igual título pu­blicada recentemente entre nós).

Com perto de vinte anos de existência, o grupo Krisis veio evoluindo do marxismo para uma espécie de anarco-situacionismo, o que mistura nas suas análises agudeza teórica, generalizações estimulantes mas também por vezes puro charlatanismo.

Ao apresentar na livraria Ler Devagar, em Lisboa, este Manifesto contra o trabalho, Norbert Trenkle, co-autor da obra, assinalou que a crise actual do capitalismo indica que este atingiu o seu limite histórico; na sequência da revolução microelectrónica, a produção de riqueza desliga-se cada vez mais da utilização da força de trabalho humana, pelo que a maioria da população mundial, tornada desnecessária à valorização do capital, é rejeitada como rebotalho excedentário. “A sociedade do traba­lho chega definitivamente ao fim” e os paliativos social-democratas de “programas de emprego” e de retorno ao Estado-providência tentam ressuscitar tempos idos que não voltarão mais. Entrámos no que o livro classifica como a crise final autodestrutiva do sistema, e tudo isto porque o capitalismo fez da actividade humana um princípio abstracto que domina as relações sociais e instituiu a transformação permanente da energia humana em dinheiro.

Até aqui, tudo bem. Mais problemáticos são os aprofundamentos da teoria marxista da alienação do trabalho em que os autores se lançam. Marx teria errado ao querer ver um sentido ascendente na sucessão dos vários modos de produção e ao atribuir um carácter progressista à explosão das forças produtivas promovida pelo capitalismo. “Trabalho e capital são as duas faces da mesma moeda”. Com a sua denúncia da exploração do trabalho pelo capital e não do próprio trabalho, a “esquerda política” uniu-se à direita na escravização da humanidade à civilização do trabalho. Quanto à classe operária, ela “nunca foi um antagonista em contradição com o capital”. E a consigna da Internacional contra os ricos ociosos “teve o seu eco macabro” na divisa nazi em Auschwitz “Arbeit macht frei”!

O Manifesto termina com o quadro aliciante de uma sociedade hu­mana universal, livre do sistema de produção de mercadorias, em que a massa dos bens serão realizados por autómatos e os seres humanos serão finalmente livres. Só que o visionarismo da Krisis naufraga perante a insondável interrogação do que será a passagem para esse futuro radioso. Não será pela luta de classes, assegura, porque esta “está no fim”. “As disputas entre capitalistas e proletários são internas ao campo do traba­lho”, e o que é preciso é uma “união contra o trabalho”. Questionado pela assistência, Trenkle defendeu que as vias de saída para a crise terão que ser encontradas “fora da política”, através de um “movimento social emancipatório” cujos contornos não se podem prever, até porque a agonia do capitalismo conduz à “autodestruição das massas”.

Pretendendo introduzir uma “renovação da crítica social radical”, o grupo Krisis testemunha, ao que me parece, o paroxismo da confusão nos sectores marginalizados das sociedades imperialistas. De qualquer modo, um texto de leitura muito estimulante.

Política Operária nº 90, Mai-Jun 2003

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