Democracia totalitária

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Democracia totalitária. Teoria e prática da empresa soberana, João Bernardo. Cortez Editora, São Paulo, 2004.

Partindo da tese de que o presente autoritarismo governamental só é possível porque se funda no autoritarismo empresarial, e que, portanto “a crítica da economia política, que Marx definiu como o objectivo do seu esforço teórico, deve hoje ser continuada através de uma crítica económica da política”, Bernardo convida-nos a acompanhar, desde as origens, a supremacia da empresa capitalista em toda a vida social. Partindo de Saint-Simon e do papel das grandes companhias mercantis no estabelecimento do colonialismo moderno, mostra como o “totalitarismo discricionário” que caracteriza o poder empresarial leva a oferta a comandar a procura, o que desmente o quadro de permanente reequilíbrio entre oferta e procura através do mercado (“as necessidades são produzidas ao mesmo tempo que os próprias bens destinados a satisfazê-las”); traça a passagem do taylorismo ao toyotismo como resultante da “dificuldade crescente dos chefes de empresa em manter o controle sobre uma mão-de-obra que já conhecia as máquinas e os ritmos de produção e que por isso se tornara capaz de ludibriar as normas impostas”; regista a inovação do dinheiro electrónico como um meio de tornar o endividamento progressivamente mais fácil, a ponto de o consumo assentar no crédito, reduzindo ainda mais a capacidade de resistência dos assalariados; e lembra, por último, que o exercício da soberania pelas empresas não se reduz à aplicação prática de técnicas de organização, mas inclui igualmente formas de repressão, legal ou extralegal, apoiando-se nos meios sofisticados de vigilância e controle proporcionados pela micro- electrónica.

Como é seu timbre, Bernardo é inimigo de toda a obscuridade “teórica”. As suas ideias centrais, demonstradas com uma massa enorme de exemplos, ressaltam com clareza meridiana. E conduzem a opções de fundo.

“Reduzir todas as desigualdades a problemas de injustiça, de raiz política, possíveis de resolver graças à obtenção de formas múltiplas de influência sobre as instituições capitalistas”, como faz a esquerda pós-moderna, “só pode conduzir à manutenção da estrutura básica do capitalismo”.

E ainda:

“Numa época em que uma parte muito considerável dos que se situam na esquerda acreditam que já não existem classes sociais e que a luta entre as classes não constitui o motor da história, o renovado exercício de soberania pelas empresas mostra que os gestores capitalistas se comportam conscientemente como uma classe social. Ao reduzirem a classe trabalhadora a uma entidade económica desprovida de consciência sociológica própria, os administradores e chefes de empresa estão precisamente a afirmar a sua supremacia. Os trabalhadores só serão capazes de se reconhecer a si mesmos como classe através de um novo e longo processo de luta contra o capitalismo”.

Política Operária nº 95, Maio-Junho 2004

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