Anti­fascismo intuitivo

Francisco Martins Rodrigues

Militante e dirigente do Partido Comunista ao longo de dezenas de anos, durante os quais conheceu as prisões da P1DE, a clandestini­dade e o exílio, Alexandre Castanheira dá testemunho da sua vida  neste livro (Outrar-se, ou a longa invenção de mim, Alexandre Castanhcira. Campo das Letras, Porto, 2003).

Surpreendentemente, porém, de todos esses anos de re­sistência antifascista, a sua memó­ria parece só ter guardado episó­dios pessoais, pequenas historietas, detalhes insignificantes. De político, este ex-dirigente comunista não tem praticamente nada a dizer; só o indispensável para sabermos que, apesar de se ter demitido, ainda an­tes do 25 de Abril, do CC e do qua­dro de funcionários, sempre foi fiel ao partido e nada teve a ver com pró-chineses ou pró-albaneses.

Como bem se percebe, Castanheira quis dar à sua autobiografia uma forma ligeira, longe do estilo compungido e lacrimoso que se tornou norma em certos livros de memórias promovidos pelo PCP. Ele é, além disso, muito mais um activista cultural, apaixonado pela poesia, pelo teatro c pelos clubes populares, do que um líder político. Mas o que se encontra aqui é uma tacanhez quase inacreditável num homem que tomou parte em opções de fundo, tanto na direcção do PCP como junto dos governan­tes do “bloco socialista” e dos principais partidos comunistas europeus durante a grande crise dos anos 60. É quase como se a vida lhe tivesse passado ao lado.

Esta aflitiva estreiteza de vistas, bem o sabemos, não é caso isolado. Faz parte da natureza do PCP. Úni­ca força organizada da resistência, o PCP atraiu às suas fileiras gera­ções de democratas, corajosos e abnegados, mas inteiramente alhei­os ao espírito revolucionário de classe. E uma vez aí dentro, devido à ausência de um núcleo comunista consistente, em vez de remodela­rem a sua consciência, imprimiram eles ao partido o seu próprio anti­fascismo intuitivo: a luta pela liber­dade, não segundo os interesses do proletariado (o que seria “sectá­rio”), mas “a bem de todos”, o que veio a resultar, para grande espanto de alguns, cm benefício da burgue­sia. O mais brilhante de entre essa plêiade de democratas pseudocomunistas desapareceu recentemen­te e chamava-se Álvaro Cunhal.

Política Operária nº 101, Set-Out 2005

 

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