Porque não votar no PCP ou no BE?

Francisco Martins Rodrigues

Escreve M. Faria que, na última eleição presidencial, a P.O. caiu num erro isolacionista e ultra-esquerdista ao não incendvar o voto em Jerónimo de Sousa ou em Louçã. “Estamos longe de um estádio insurreccional armado do proletariado”, argumenta, e portanto “a tarefa de conscien­cialização de massas exige que os levemos ao poder” [PCP e BE], visto que são efectivamente “candidatos da classe operária”, inimigos da grande burguesia e do imperialismo.

“Quem pode garantir que Jerónimo ou Louçã não pode­riam mudar algo de importante caso fossem eleitos?” “Teoricamente, é possível admitir que, se o PCP e o BE obtiverem um dia uma maioria de deputados no parlamen­to português, subam ao poder, nacionalizem a grande in­dústria, a banca e o grande comércio, abram campo à auto­gestão em empresas. O que serão as primeiras medidas da ditadura do proletariado.” Viveríamos então a passagem pacífica ao socialismo, apoiada em grandes acções de massas com “um ou outro acto violento aqui ou ali”.

Ainda segundo Faria, a P. O, ao não ver as coisas por este prisma, mostra “esperar que o PCP e o BE subam a árvore do parlamentarismo e do Estado democrático.burguês, a sacudam para que as maçãs caiam, de modo que a P. O. e o futuro ‘partido da classe operária’ lá em baixo, no chão, na rua, colham os frutos e façam a revolução”.

Vamos por partes (e aqui renuncio a comentar as referências de Faria ao otzovismo, aos mencheviques, ao leninismo, ao stalinismo, etc., que nos levariam muito longe). Votar em Jerónimo e Louçã para os elevar ao poder? Eles seriam os primeiros a rir desta hipótese. As suas candidaturas destinaram-se simplesmente a preservar o espaço eleitoral dos seus partidos, na esperança de se tornarem aliados im­prescindíveis de um futuro governo PS — e isto não tem nada a ver com a “consciencialização das massas”. Em Portugal não se vive infelizmente a efervescência social e política da América Latina, pelo que os exemplos de Chávez e Morales, invocados por Faria, são aqui descabidos. Precisamente o que mostram os exemplos da Venezuela, Bolívia, Equador, é o contrário do que supõe Faria: não foi por se ir votar neste ou naquele líder populista que se criou uma situação nova; foram os grandes movimentos populares que elevaram ao poder esses líderes, como forma imper­feita e transitória de afirmar a força das massas.

Jerónimo e Louçã são “candidatos da classe operária”? Porquê? Por terem forte votação dos sectores proletários e populares (sobretudo o primeiro)? Faria deveria saber que esse critério não é suficiente. Se uma parte do proletariado, à falta de melhor, vota nestes partidos em busca de protecção contra a ofensiva capitalista, isto não significa que os seus interesses sejam realmente defendidos por eles. Não temos dúvida de que o PCP e o BE se opõem à ofensiva neoliberal e às guerras imperialistas. Mas a pergunta é: essa oposição do PCP e BE à grande burguesia e ao imperialismo prepara e arma o proletariado para deixar de ser um apêndice da burguesia “democrática”, para reali­zar os seus interesses de classe? Ou procura mantê-lo nos limites da ordem actual? Acumula forças para a revolução ou acumula expectativas? Por aí veria Faria que Jerónimo e Louçã não são efectivamente “candidatos da classe ope­rária”.

As esperanças de Faria no que poderia fazer um imagi­nário governo PCP-BE nascem de uma ideia utópica — a da possibilidade de uma passagem pacífica ao socialismo — ideia aberrante, mais do que nunca, nos dias de hoje. Faria parece atribuir grande valor ao aproveitamento das “concessões, seduções e reentrâncias [sic] democráticas” da Europa capitalista (sem esquecer sequer os blogues e páginas da Internet). Mas só quem esteja anestesiado pela retórica dos informes do PCP ou pelas “modernas” elucu­brações do BE não vê a degradação das instituições demo­cráticas burguesas, a concentração inaudita do poder, a es­calada da propaganda e da vigilância policial, a recusa abso­luta, cega, brutal, das classes exploradoras em consentirem o fim do seu poder, recusa confirmada dezenas de vezes da forma mais sangrenta por esse mundo fora. Até nós, em Portugal, com a nossa tímida experiência do PREC, recebemos umas luzes elementares de como funciona a luta de classes em período de crise do poder. Se a passagem ao socialismo se conseguisse com “grandes acções de massas e um ou outro acto violento aqui ou ali”, não faltariam os triunfos do socialismo por esse mundo fora. A passagem ao socialismo exige uma sucessão de revoluções de propor­ções até hoje desconhecidas e é bom que nos vamos prepa­rando para isso. Opor a estes factos a hipótese teórica de Engels e continuar a falar em passagem pacífica ao socialis­mo mostra pouca lucidez.

Não, caro Faria, nós não estamos à espera de que outros “sacudam a árvore para nós apanharmos os frutos” nem somos adeptos do imobilismo, da mera propaganda da insurreição armada contra o poder capitalista. Isso é uma má caricatura da nossa posição. Nós participamos nas acções do dia-a-dia, pelos objectivos limitados actualmente possíveis, mas sempre com o alvo de construir a única força que realmente conta – a confiança dos trabalhadores nas suas próprias forças, a recusa deste modo de vida, a desconfiança perante as promessas paternalistas da esquerda do regime, a certeza de que ninguém lhes oferecerá o socia­lismo se não forem eles próprios a conquistá-lo. A nossa aposta é para mais resistência do proletariado, mais empe­nhamento na mobilização directa das massas, maior consci­ência da sua identidade antagónica à sociedade burguesa, mais rebeldia – tudo aquilo que falta nas candidaturas do PCP e do BE.

Política Operária nº 108, Jan-Fev 2007

 

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