Homenagem à Catalunha

Francisco Martins Rodrigues

 “Para quem acabava de che­gar de Inglaterra, o aspecto de Barcelona constituía algo de surpreendente e avassalador. Era a primeira vez que me encontrava numa cidade em que a classe trabalhadora estava no poder. Prati­camente todos os edifícios de ta­manho apreciável tinham sido tomados pelos trabalhadores e estavam envoltos em bandeiras vermelhas ou ostentavam a bandeira encarnada e negra dos anar­quistas; em todas as paredes se viam pintadas a foice e o martelo e as iniciais dos partidos revolu­cionários; quase todas as igrejas tinham sido esventradas e as suas imagens queimadas; ninguém dizia ‘senhor’, todos se tratavam por ‘camarada’ e por ‘tu’; a gorjeta fora proibida por lei.

Assim se inicia o relato clássi­co de Orwell re­editado em boa hora e que nos mergulha nos acontecimentos dramáticos da guerra civil de Es­panha (Homenagem à Catalunha, George Orwell, Antígona, Lis­boa, 2007). Pela sua capacidade para captar os grandes movimentos de massas, pela sua enorme força de verdade, Orwell traz à memória o relato épico de John Reed. Mas esta não é a reportagem de uma revolução em triunfo mas a de uma trágica agonia.

Quando regressa da frente, Orwell descobre que as esperan­ças revolucionárias dos primeiros meses se tinham esvaído e que Barcelona estava irreconhecível: “Primeiro, a população civil per­dera muito do seu interesse pela guerra; segundo, a divisão entre pobres e ricos, classes superiores e classes inferiores, voltava a im­por-se”. “Os restaurantes e hotéis elegantes estavam outra vez chei­os de gente rica que se atafulhava de refeições caras, enquanto a classe trabalhadora via os preços dos alimentos subirem assustado­ramente”.

A revolução morria, entre o assalto do campo fascista e a polí­tica antipopular do governo repu­blicano. Por fim, vêm os comba­tes de rua, a repressão implacável das forças que não se enquadra­vam na autoridade do governo, a “horrível atmosfera resultante do medo, da suspeita, do ódio, dos jornais censurados, das prisões a abarrotar, das enormes bichas para adquirir alimentos e das qua­drilhas de homens armados”.

Privados de direcção revolucionária, divididos entre a incoe­rência dos anarquistas, a escassa influência dos marxistas revolu­cionários e a traição do Partido Comunista, os pobres da cidade e do campo estão condenados à derrota. Em nome da eficácia na condução da guerra, a República burguesa abre as portas à vitória de Franco.

Este é sem dúvida um livro indispensável para entender a guerra civil de Espanha e sobre­tudo a decadência e decomposi­ção em que se afundou nas déca­das seguintes o movimento comunista do século XX.

Política Operária nº 110, Maio-Junho 2007

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