Como romper com a “apatia social”?

Francisco Martins Rodrigues

Carlos Santos analisa na Comuna, ór­gão da UDP, o “novo ciclo” político aberto pela série de eleições do ano pas­sado. “Perceber os contornos das novas situações criadas — escreve — é essencial para agir e encontrar as melhores formas de lutar pela transformação social”.

O que nos é dito sobre a “nova situa­ção” é todavia pouco: o PS, agora entrin­cheirado na maioria absoluta, apropriou-se do programa neoliberal e aplica-o sem complexos, o que deixa a direita sem programa; na Presidência da República está agora pela primeira vez um político de direita, gozando do apoio unânime da finança e dos grandes empresários; à esquerda, se o PCP ultrapassou a crise que o atormentava, continua sem espaço para se tornar uma força parceira de Só­crates. Só o BE trouxe inovação e “uma nova agenda política” (agenda bem magra, diga-se de passagem: o projecto de reforma fiscal, a lei da paridade, a liberdade de orientação sexual…).

E difícil tirar daqui grandes ideias quanto às “melhores formas de lutar pela transformação social”. A única coi­sa que Carlos Santos consegue adiantar é que a “esquerda precisa de ir além da resistência” porque a actual situação “tende a espalhar a apatia social, pontua­da por episódios de desespero”.

A “análise” de Carlos Santos acaba no ponto em que devia começar: porquê o ataque nunca visto lançado por este governo aos direitos dos trabalhadores “tende a espalhar a apatia social” e não a combatividade? Como se explica a “popularidade” que as sondagens conti­nuam a dar ao governo Sócrates?

Naturalmente, pode sempre dizer-se que Sócrates explora as vantagens de uma maioria absoluta, conseguida depois do clamoroso fiasco do trio Santana-Portas-Bagão. Ou que soube dramatizar com mestria a crise do défice, pondo todos em sentido. Ou que ele tem a habi­lidade de embrulhar o ataque aos traba­lhadores em medidas desburocratizadoras geralmente reconhecidas como necessárias…

Mas isto não vai ao cerne da questão. A verdade é que, ao lançar uma ofensiva resoluta para satisfazer velhas exigências do capital, o governo “socialista” esva­ziou a oposição à sua direita, ao mesmo tempo que paralisa a oposição à sua esquerda. De facto, se o PSD e o CDS não sabem como combater um governo que adopta as medidas que eles próprios desejariam ter tomado mas recearam to­mar, o PCP e BE, pela sua parte, atacam-no sem convicção porque querem tudo menos fazê-lo cair. O PS é o partido em que, apesar de tudo, assentam as suas esperanças de algum dia chegarem ao poder. O apoio tácito aos governos PS é um princípio imutável das suas carti­lhas. Tendo abandonado definitivamente qualquer perspectiva de “desordem social”, PCP e BE arrastam-se amarrados à sua própria lógica do “mal menor”. Só lhes resta encostarem-se às possíveis vozes de “esquerda” dentro do PS, assoprar as brasas da bruxuleante fogueira alegrista e irem protestando cordatamente enquanto esperam melhores dias.

De resto, esta espécie de consenso que se abre em torno dos socialistas quando se lançam na política de direita não é nova. Já se viu com os governos Mário Soares após o 25 de Novembro. A diferença é que nesse tempo ainda ha­via uma resistência popular com algum estofo, ao passo que, hoje, com a integração europeia adiantada, a nossa “esquerda real” está muito mais domesticada e o movimento proletário muito mais desorganizado. Hoje, tanto Louçã como Jerónimo, quando se chega ao ponto de apresentar medidas contra a cavalgada capitalista, evadem-se para fórmulas nebulosas que não levam a nada concreto. As suas complicadas explicações sobre a solução da crise económica chocam com um facto incontornável: para o relançamento desta economia há que dar aos patrões o que eles exigem, caso contrário, eles irão in­vestir noutro lado.

As contingências do processo polí­tico acabaram por fazer do PS o mais credível comissário dos negócios da bur­guesia (como já tinha acontecido aliás em 1975-80). Sócrates está a afirmar-se como um líder reconhecido da burguesia nacional, da estatura de Sá Carneiro ou do Cavaco Silva nos anos 80, e está a “modernizar” o seu partido como o grande partido da direita em Portu­gal. Mas isso não pode admitir o direc­tor da Comuna porque equivaleria a reco­nhecer que não há nenhuma esperança para o BE chegar algum dia aos “territó­rios do poder” com que sonha, a não ser que se disponha a dar mais provas de “maturidade política”, ou seja, dar mais uns passos à direita.

Política Operária nº105, Maio-Junho 2006

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